Incêndios: área ardida é a maior dos últimos 10 anos

Nos quatro distritos abrangidos pela CIM Douro (Bragança, Vila Real, Viseu e Guarda), já arderam, até 31 de Julho deste ano, 33.968 hectares de terreno, num total de 2.305 ocorrências, segundo o relatório do ICNF. Estes números não contemplam os fogos mais recentes, em especial os ocorridos em Sabrosa, Vila Real e Freixo de Espada à Cinta.

Apesar de uma certa habituação que vamos criando ao ver, ano após ano, os incêndios dominarem a nossa agenda informativa, 2017 tem sido um ano que certamente terá um destaque especial, não só pelo elevado número de mortes causados pelas chamas, mas também pela área ardida, que ultrapassa em 485% a média anual da última década.

4.420 Hectares ardidos em Alijó representam maior área afetada da CIM Douro

O incêndio ocorrido na freguesia de Vila Chã, Alijó, foi o maior registado nos concelhos da CIM Douro no primeiro semestre do ano, com 4.420 hectares de área ardida, sendo que 2.518 hectares são considerados área de povoamento.

José Paredes, vereador municipal responsável pelo pelouro da Proteção Civil Municipal esteve no teatro de operações “desde o alarme inicial até ao rescaldo do fogo”. Para o autarca esta é uma “tragédia de grandes dimensões”, não só pela área ardida mas porque muita dessa área eram terrenos agrícolas que representavam o “sustendo de muitas famílias” e estão agora reduzidos a cinzas.

No decorrer do incêndio o município ativou o Plano de Emergência Municipal, que para José Paredes foi fundamental no combate às chamas pois “permitiu aos responsáveis locais assumirem o comando das operações. Tendo em conta que são quem melhor conhece a orografia do terreno é possível uma colocação mais eficaz dos meios e um consequente ataque mais eficaz”.

Carlos Varela, empresário do concelho confessa-se “revoltado” com o sucedido, “se a função dos bombeiros é proteger pessoas e bens então falharam, deixaram arder um armazém onde guardo muito material por incúria”.

Falhas no SIRESP gera descoordenação e dificulta o combate às chamas

“Houve muita falta de coordenação, como é possível terem deixado o fogo atravessar o IC5?” As críticas de Carlos Varela ao combate às chamas têm sido recorrentes nos incêndios deste ano e o fogo em Alijó não foi exceção.

“Era angustiante ver o posto do comando a querer contactar com os comandantes espalhados pelo terreno sem o conseguir. As expressões que eu ouvia do comandante eram: ‘SIRESP em modo segurança, SIRESP em modo segurança, SIRESP em modo segurança, ou seja, não se conseguia contactar com os homens no terreno e portanto, não era possível fazer um combate eficiente. O mesmo aconteceu com a GNR, que esteve sempre presente, mas o comandante não conseguia comunicar com os seus homens.”

O relato é de José Paredes, o autarca alijoense que afirma ainda que “muitas das comunicações tinham de ser feitas via telemóvel mas mesmo essas eram dificultadas pela orografia do terreno e consequente falha de cobertura de sinal e certas áreas por onde as chamas iam lavrando”.

Em Alijó, tal como noutros incêndios este ano, as falhas no SIRESP são apontadas como causa primária para a propagação do fogo nesses momentos, chegando a atingir proporções difíceis de controlar.

Admitindo que a própria orografia do terreno e os ventos fortes tiveram um papel importante na dimensão do incêndio, José Paredes não hesita em relacionar “diretamente” as falhas no sistema de comunicações “com os momentos mais difíceis deste fogo”.

Vila Real, Sabrosa e Freixo de Espada à Cinta afetados em Agosto

Agosto foi também um mês com várias ocorrências, algumas de grandes dimensões com avultados prejuízos na economia local e momentos de pânico vividos pelas populações.

Logo no início do mês, um forte incêndio deflagrou na Serra do Alvão, Vila Real, e rapidamente começou a ameaçar aldeias que viveram momentos de pânico, em especial com as constantes mudanças de direção do vento que gerou muita imprevisibilidade.

No entanto, um dos concelhos que tem sido mais afetado é o de Sabrosa. Depois de um grande incêndio assolar a zona de Parada do Pinhão, também as áreas de Vilela e Provezende foram fortemente afetadas.

Em Parada do Pinhão os momentos vividos foram difíceis quando o fogo cercou a aldeia acabando por destruir três casas, no entanto, o Presidente da Câmara de Sabrosa, Domingos Carvas, afirmou que a situação era muito preocupante: “ardeu uma vasta área de pinhal, que, tal como a vinha, é uma fonte de sustento para muitas famílias”.

O mesmo aconteceu em Vilela, as chamas destruíram uma vasta área de pinhal e diversos terrenos agrícolas. Para Luís Botelho, taxista e proprietário de um café na zona, viveram-se “verdadeiros momentos de aflição, as chamas chegaram aqui muito rápido e com muita força”.

Depois de, em Junho se viverem momentos difíceis no concelho vizinho de Torre de Moncorvo, em Agosto, Freixo de Espada à Cinta tem sofrido com várias ignições com algumas a tingir dimensões consideráveis, em especial neste final do mês.

No concelho bragantino têm sido as explorações agrícolas as mais afetadas, segundo Alfredo Pinho, agricultor, “têm-se perdido muitos terrenos, em especial amendoal, vinha e olival”. Segundo fonte da proteção civil os prejuízos ainda não estão contabilizados mas serão “elevados”.

As causas, as dificuldades e a prevenção

As horas de início das ignições, os locais onde acontecem e a rapidez com que se propagam acabam por levantar diversas questões quanto à origem de muitos destes fogos.

No decorrer das operações de combate ao fogo em Vila Real, o autarca Rui Santos mostrava-se surpreso com um segundo fogo que tinha início no distrito, “por volta das 19:00, ocorreu um novo incêndio na Pena, do lado oposto ao sítio onde deflagrou este, o que nos deixa obviamente perplexos”.

Já Domingos Carvas, presidente da Câmara Municipal de Sabrosa foi mais contundente nas críticas. “Não há duvida nenhuma que essa treta: ‘Eh pa, foi um vidro, uma garrafa’, não foi nada, foi um isqueiro e uma mão assassina que faz este tipo de habilidades (…). É uma vergonha e continuamos a assistir impávidos e serenos”.

Para José Paredes, autarca de Alijó, a intencionalidade está na origem de muitas situações, no entanto, o desmazelo e a negligência na limpeza de terrenos estão também entre as causas principais na deflagração dos incêndios.

“O envelhecimento da nossa população, o abandono das terras e as dificuldades financeiras levam muito a abandonar as suas terras e mesmo com fiscalização é difícil fazer cumprir a lei obrigando as pessoas a limpar os seus terrenos”, conclui o autarca.

Para Maria do Céu Quintas, Presidente do município de Freixo de Espada à Cinta, o problema está na prevenção e em políticas que devem ser repensadas. Segundo a autarca, um conjunto de medidas restritivas praticadas pelo ICNF que “não autoriza o rompimento de caminhos e outras ligações para servirem as propriedades agrícolas e funcionarem como corta-fogos”, é uma causa das dimensões que os fogos atingem.

Vila Real e Viseu com maior número de incendiários detidos

Dos 100 incendiários detidos, até ao momento, em Portugal, a sua maioria encontra-se no norte e centro do país, com Vila Real (18 detidos) e Viseu (13 detidos) a garantirem os primeiros lugares deste ranking.

Para o major Ricardo Alves, do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR, este facto é explicados pelos crimes praticados por dolo: “São distritos com uma ligação à agropastorícia muito grande, com uma exploração a nível económico da floresta, onde as detenções por dolo eventual são mais frequentes”.

Para muitos devia ser aqui o início da prevenção com castigos mais pesados e multas mais elevadas a serem aplicadas aos criminosos. Desta forma seria mais provável dissuadir uma nova ação, e ainda servir como exemplo para outros potenciais prevaricadores.

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