Alunos dos 11º e 12º anos de regresso à escola

Em alguns setores a vida começa, lentamente, a regressar ao normal. É o caso do ensino que regressou às aulas presenciais para o 11º e 12º anos. A nossa reportagem foi conhecer a nova realidade para as escolas numa visita à Escola Secundária Dr. João de Araújo Correia, em Peso da Régua.

Salvador Ferreira é o diretor do Agrupamento Escolar, para o professor o regresso à escola esta a ser “fantástico” e, no primeiro dia de cada turma, houve “o cuidado de passar em todas as salas, falando com todos os alunos para lhes lembrar as regras, apelando também à sua paciência e serenidade porque este tempo requer isso mesmo”.

Na preparação deste momento foram seguidas “regras muito cuidadosas em termos de segurança e higiene, foi um trabalho que durou uma semana mas a escola tem excelentes condições físicas e isso também ajuda.

Temos 3 pavilhões de aulas, de 2 andares, em cada um ficaram duas turmas, uma em cima outra em baixo com entradas diferenciadas, de forma a evitar o contacto com as portas estas foram mandadas retirar. Na sala a distância entre alunos é cerca de 1,70 metros, para isso usamos alguns laboratórios como sala de aula, retirando todo o equipamento lá existente porque são espaços maiores e mesmo a turma maior que temos, com 24 alunos, cabe perfeitamente na sala que lhe está destinada. Conseguimos concentrar as aulas todas no período da manhã, reduzindo as cargas horárias. O 11º ano tem aulas à 2ª, 4ª e 6ª, ficando o 12º com as terças e quintas.

Salvador Ferreira – Diretor do agrupamento escolar

No fundo a preocupação foi preparar as salas e depois a forma de chegar até cada uma delas, o que ficou facilitado porque temos a sorte de ter diversos portões que dão acesso aos diferentes pavilhões, por isso, para cada um existe uma entrada diferenciada onde a Câmara Municipal colocou uma tenda de higienização, com uns círculos pintados no chão para indicar as distâncias enquanto os alunos aguardam a sua vez de entrar. Ao entrar na tenda há uma funcionaria que tem desinfetante para as mãos e ainda um tabuleiro colocado no chão, com uma alcatifa embebida em solução higienizante para que as solas dos sapatos sejam desinfetadas. Será ainda entregue aos alunos uma máscara, de uso obrigatório, caso não tragam a sua própria. Depois deste processo, cada aluno dirige-se à sua sala por um circuito já definido para a sua turma, que vai ocupar sempre o mesmo espaço, não sendo este usado por mais ninguém. As aulas são de 100 minutos, no intervalo os alunos permanecem na sala para evitar ajuntamentos no exterior, durante esse período uma funcionária limpa o espaço do professor, que é o único que muda de disciplina para disciplina. Aqui na escola temos ainda um aluno surdo que tem um professor e um intérprete de língua gestual dedicados.

Na sexta feira que antecedeu o regresso à escola tivemos o cuidado de ter aqui todos os funcionários para testar e ensaiar tudo isto. Tive ainda o cuidado de pedir aos diretores de turma dos alunos que iam voltar às aulas presenciais para os reunir numa videochamada na qual também participei a dar a conhecer todas estas alterações e dando uma palavra de tranquilidade.

Juntamente com a autarquia preparamos também o transporte dos alunos,  até porque não temos apenas alunos do nosso concelho mas também de Santa Marta de Penaguião que não tem ensino secundário. Este trabalho em conjunto é muito importante para o bom funcionamento das escola.

No agrupamento temos quatro escolas de grandes dimensões com um total de cerca de 2 mil alunos, mais de 200 professores e muitos funcionários. A minha preocupação neste momento foi ter o máximo de funcionários aqui para conseguir uma segurança absoluta”.

Salvador Ferreira destaca ainda o papel dos alunos que adjetiva como “exemplar”.

“Os alunos surpreenderam-me, nota-se que perceberam que este é um momento único, em que estamos envolvidos numa guerra com um inimigo invisível e sabem que quanto mais cuidado tiverem melhor. Têm estado a agir com muito cuidado e com muita maturidade, o que de alguma forma me surpreendeu porque são jovens e por natureza são irreverentes mas, neste momento, têm tido um comportamento de jovens adultos.

Os pais são aqui também um elemento importante e nós fomo-nos apercebendo que também eles tinham alguns receios, por isso levei a cabo uma reunião com a associação de pais, fazendo uma visita a toda a escola para explicar a estratégia que estávamos a preparar o que ajudou a que ficassem mais confiantes no regresso dos seus filhos à escola”.

Satisfeito também como a forma como este recomeço se tem desenrolado está o autarca reguense, José Manuel Gonçalves, que, à nossa reportagem, destaca o trabalho conjunto entre a autarquia e o agrupamento escolar, bem como o serviço de transporte dos alunos para as aulas.

José Manuel Gonçalves – autarca reguense

“A autarquia, neste processo como em outros semelhantes, trabalha em conjunto com as instituições que estão diretamente relacionadas com a área em si, neste caso com o agrupamento de escolas, numa relação de proximidade.

O balanço nesta fase inicial é muito satisfatório, estamos a assumir a globalidade dos transportes dos alunos das freguesias rurais para as aulas, com as devidas precauções, em totais condições de segurança, segundo as normas da DGS, bem como na própria escola em si para que todos se sintam em segurança”.

João Fernandes é aluno do 12º ano, no final de mais uma manhã de aulas faz um balanço positivo deste regresso. Para este estudante, apesar de todos os condicionalismos, voltar a estar com os colegas é algo que o satisfaz.

“O regresso está a ser bom, diferente mas bom. Já sentia falta de estar com os meus colegas, apesar de não podermos tocar em ninguém ou ter as brincadeiras normais.

É uma situação que se torna um pouco cansativa, estamos muito tempo dentro da sala, com a máscara que faz muito calor.

É sempre bom ter as aulas presenciais até porque estou no 12º ano e vou ter exames mas em casa também se consegue estudar bem”.

Margarida Montes também é aluna do 12º ano, fala-nos da dificuldade de usar máscara todo o tempo, contudo considera importante estar de volta à sala e à relação presencial com colegas e professores.

“Está a ser um pouco complicado com todas as regras que temos de cumprir mas está a ser positivo. A máscara é um pouco incomodativa mas tem que ser, temos que usar.

Margarida Montes – aluna

Eu sou uma pessoa dada ao contacto mas nesta fase temos que ter mais cuidado, não só aqui na escola mas também na nossa vida diária.

Sinto que as aulas presenciais são necessárias até porque havia ainda alguma matéria para ser dada. As aulas à distância tornam-se um pouco difíceis porque podem  haver problemas com a ligação de internet e porque por vezes é mais difícil ao professor captar a atenção de todos os alunos”.

Nuno Montes é pai de Margarida, para este encarregado de educação o regresso também é positivo e destaca a forma como a escola tem garantido todas as condições de segurança e higiene.

“Acho que a escola, em conjunto com o município, está a organizar o regresso à escola de uma forma que os alunos e familiares se podem sentir seguros. Foram tomadas uma série de medidas que permitem o distanciamento social dos alunos, através da colocação de turmas em pavilhões e dias separados.

Nuno Montes – pai

Como pai sinto-me perfeitamente à vontade para deixar a minha filha vir para o que falta deste ano escolar.

Da experiência que tenho tido com a minha filha nas aulas à distância, estava a correr bastante bem, contudo sabemos que uma aula presencial nunca é igual, estando frente a frente o envolvimento é outro, a possibilidade de aparecerem duvidas e que estas sejam esclarecidas é maior.

Nota-se que eles estavam com muita vontade de regressar, a taxa de assiduidade está a ser muito elevada, pelo que sei nos primeiros dois dias apenas houve uma falta de uma aluna que não veio às aulas, um sina muito positivo e demonstrativo da vontade deles”.

Este regresso tem ainda sido aproveitado para preparar já o próximo ano letivo, como nos conta o diretor Salvador Ferreira.

“Como também temos que preparar os funcionários já para o próximo ano letivo, para este novo modo de viver a escola, trouxemos para aqui os funcionários da EB 2/3, agregando-os todos em dois grupos distintos, ficando um a trabalhar na primeira quinzena e o outro em quarentena a aguardar a sua entrada ao serviço. Desta forma evitamos que, caso haja algum problema, fiquemos com os funcionários todos parados. Se não abrirmos os centros escolares a ideia é trazer também os funcionários desses espaços para ensaiarem aqui todas estas mudanças que implementamos.

O que queremos é que nesta fase tudo corra bem mas que em setembro estejamos preparados para uma nova fase isto porque sabemos que vamos ter que viver com esta pandemia durante algum tempo. Isto é uma situação nova para todos para a qual ninguém estava preparado, por mais filmes que tenhamos visto mas eu não me canso de elogiar o comportamento excecional dos alunos, e dos professores, que tem facilitado em muito o nosso trabalho”.

Já para o autarca, o regresso Às aulas em setembro pode trazer outros problemas devido ao elevado número de alunos que frequentam os estabelecimentos de ensino. José Manuel Gonçalves desta especialmente o questão dos transportes que numa época “normal” são sempre usados por muitos estudantes, uma situação que pode dificultar a gestão das distâncias de segurança que devem ser cumpridas.

“Não me parece que haja, em alguma autarquia, capacidade para implementar aquilo que são as regras que são impostas pela DGS na abertura total dos estabelecimentos de ensino. Nos transportes, por exemplo, com poucos alunos é possível assegurar as distâncias recomendadas, com muitos alunos isso já não acontece. Em setembro teremos que ter metodologias e regras para podermos funcionar porque penso que será essa a determinação”.

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