José Manuel Gonçalves: “Isto é uma marca, um galardão, que não pretendemos que seja só de Peso da Régua, queremos que seja do Douro”

Promovido pela Associação de Municípios Portugueses do Vinho (AMPV), desde 2009, este projeto tem como objetivo valorizar a riqueza, a diversidade e as características comuns dos territórios associados à cultura do vinho e de todas as suas influências na sociedade, na paisagem, na economia, na gastronomia e no património.

Pela primeira vez uma cidade duriense foi nomeada e Peso da Régua, que já tinha sido em 1987 Cidade Internacional da Vinha e do Vinho, foi agraciada com esta nova distinção que reforça a sua imagem como representante histórica da Região do Douro.

Numa entrevista exclusiva ao VivaDouro, José Manuel Gonçalves, autarca reguense, fala das razões que motivaram esta candidatura e dos objetivos traçados para este projeto tendo em vista o vinho, o concelho e a região.

Como é que surge esta candidatura da Régua a Cidade do Vinho?

Esta candidatura surge, desde logo, como um compromisso eleitoral. Na altura do meu discurso de tomada de posse surgiu a oportunidade de sermos Cidade Europeia do Vinho de 2018, avançamos nesse sentido mas infelizmente acabamos por ficar em segundo lugar, numa disputa que teve lugar em Bruxelas. Apesar disso mantivemos a nossa vontade em nos associarmos e promovermos cada vez mais este produto que é o vinho.

O nosso concelho passou os últimos doze anos centrado naquilo que era a criação de infraestruturas e na melhoria da qualidade de vida dos reguenses, tínhamos várias falhas ao nível do abastecimento de água e saneamento, equipamentos, requalificação urbana. Neste mandato, nesta transição acentuamos sempre que aquilo que pretendíamos, até numa vertente económica, era trazer estas mais valias porque agora sinto que estamos preparados para isso.

O vinho é de facto a essência que temos aqui. A paisagem, o património e o vinho é no fundo a base da nossa região e também local. Peso da Régua sempre foi, nesta dinâmica comercial do vinho, o epicentro da região, nomeadamente no que diz respeito aos serviços relacionados com o setor vitivinícola, portanto, faz sentido que nós possamos trazer esta marca para o Douro.

Isto é uma marca, um galardão, que não pretendemos que seja só de Peso da Régua, queremos que seja do Douro. É a primeira vez que o Douro tem esta distinção, portanto aquilo que pretendemos é que o Douro em si se promova, e que se valorize, com esta distinção. É esta a nossa motivação é que, agora que somos, que possamos abrir também a toda a região esta dinâmica de promovermos aquilo que é a nossa maior valia, o vinho.

Ao contrário do que acontece com muitos dos produtos transacionados diariamente, nós temos um produto que está em valorização permanente. Por um lado temos o Vinho do Porto que mantém uma dinâmica bastante forte em termos comerciais, por outro os vinhos DOC que têm ganho inúmeros prémios ao longo dos últimos anos. Portanto, em função desta dinâmica que nunca decresceu, faz sentido que nós aproveitemos o momento e cada vez mais façamos esta associação à região.

Nesse âmbito, que tipo de iniciativas estão a ser planeadas ou pensadas para a promoção da cidade e do território?

Nós começamos logo no dia 1 de janeiro com a colocação de uma série de cartazes promocionais.

Aquilo que se pretende é que o vinho tenha uma relação direta com a diversidade de eventos que o concelho realiza, bem como com aquelas que são as nossas mais valias, como a gastronomia e a cultura. O importante é criar essa lógica de que o vinho é a base da nossa região e que pode ser um fator promocional excelente.

Nós não vamos mudar muito daquilo que tem sido a nossa lógica de funcionamento e de dinâmica, ou da nossa estratégia, até porque já tínhamos o vinho presente em todo o tipo de eventos que promovemos. O que queremos agora é acentuar, cada vez mais, essa marca de Cidade do Vinho, de região do vinho, potenciando cada vez mais essa marca no nosso concelho e na região. Queremos ser Cidade do Vinho do Douro, e a CIM Douro, como parceira estratégica tem aqui um papel fundamental para sermos a Cidade do Vinho da região.

Um evento de grande dimensão que pretendemos organizar, é uma grande feira de vinhos do Douro que queremos que seja uma feira da região. Será um evento a iniciar este ano mas que pretendemos que se mantenha no futuro como referência de lançamento de vinhos, de provas, de concursos e de comercialização.

O papel principal será sempre o da autarquia, apesar disso, considera relevante a participação dos eventos organizados por privados nesta promoção?

Os privados, e já tive oportunidade de dizer isto diversas vezes, têm sempre o vinho como uma presença frequente. É evidente que eles estão entre os principais interessados, não só aqueles que organizam eventos, mas também aqueles que o produzem e comercializam, e esses também estão cada vez mais motivados.

Temos já agendadas, com os privados, um conjunto de reuniões preparatórias para afinarmos ainda mais a estratégia para que o produto seja cada vez mais valorizado.

Há também uma marca importante que queremos deixar com esta distinção de Cidade do Vinho que é capacitarmos o nosso concelho, as nossas populações, para esta questão do vinho. É importante que interiorizemos aquilo que é a história do vinho para que cada um de nós, no seu dia a dia, possa ser um verdadeiro embaixador para aqueles que nos visitam.

Temos que saber dizer porque é que o nosso vinho é diferente de todos os outros no Mundo, temos um vinho único que é o Vinho do Porto, que envelhece com a idade e que tem uma cultura por trás dele que é importante que possamos cada vez mais conhecimento a todos esses que nos visitam.

Óbvio que queremos também que os nossos produtores mostrem os nossos vinhos ao Mundo, e que abram novos mercados, dessa forma também estamos a valorizar o produto.

No final deste processo é isso que queremos, um produto mais promovido e mais valorizado para que comecemos a ter algo que neste momento não existe, que é que todo o vinho que seja vendido na região, o seja por um preço justo para todos. Um problema que temos é que o custo da produção muitas vezes não é absorvido pela comercialização e isso pode colocar em causa a sustentabilidade da região.

E esta marca “Cidade do Vinho”, pode ajudar nessa alavancagem económica do setor?

É isso que nós pretendemos, é que este selo seja mais um selo de qualidade e que nos ajude a valorizar cada vez mais o nosso produto.

Nós temos que ter a ambição de que os vinhos produzidos no Douro não podem ser vinhos baratos, temos custos de produção bastante elevados, temos uma especificidade muito própria e temos toda uma história por trás do vinho, portanto, tudo isto tem que ser vendido no mesmo pacote, no sentido em que o preço de venda consiga sustentar o custo de produção e dê sustentabilidade ao setor e a todos que a ele se dedicam.

Se continuarmos a desvalorizar o nosso produto a determinada altura não vamos ter forma de dar essa sustentabilidade à região. E isto é importante porque para além do produto em si, o vinho, temos todo o movimento turístico que circula em volta dele. Quem nos visita vem ver uma paisagem que é Património da Humanidade mas para que isso aconteça há aqui uma tarefa permanente de muita gente que trabalha a vinha e que mantém isto como um autêntico jardim. Portanto, se a região não tiver sustentabilidade as pessoas não ficam e a paisagem acaba por se perder. Esta tem que ser, cada vez mais, uma preocupação de toda a região.

Mencionou que esta não é uma marca apenas da cidade de Peso da Régua, é uma marca da região. Sente isto também por parte dos seus colegas autarcas?

Cada vez a CIM Douro trabalha como um todo, como uma região. Obviamente que não é fácil, de um momento para o outro, mudar de uma lógica municipal para uma intermunicipal, não se faz de um dia para o outro mas estamos a dar passos significativos nesse sentido e ano após ano verificamos que, cada vez mais, a CIM Douro pensa como um todo. E cada vez mais pensa que qualquer evento ou qualquer distinção que um concelho receba, ela tem reflexo para toda a região.

Num país como o que temos hoje em que sentimos que cada vez mais as coisas estão centralizadas nos grandes centros, temos a perceção que a única forma de combatermos isto é nós trabalharmos em rede e criarmos sinergias. E isso no âmbito da CIM Douro é um trabalho que tem sido feito.

Nós queremos que muitos dos eventos que são organizados na nossa região, mesmo fora do nosso concelho, usem esta marca, há essa ambição que todos participem.

O Porto, cidade, como é que se enquadra neste contexto?

Eu não diria que é apenas o Porto mas também Vila Nova de Gaia.

Acima de tudo temos de ver que as duas cidades estão umbilicalmente ligadas à região, se na história eles são os pontos de comercialização, é aqui que está a produção, por isso temos que olhar para o rio como um fator de ligação.

Pretendemos, e já fizemos algumas abordagens nesse sentido, que esta distinção de “Cidade do Vinho” possa permitir que hoje, aquela capacidade que o Porto tem em receber gente, também possa proporcionar a que muita dessa gente se desloque à origem e venha até aqui. Hoje já sentimos esse fenómeno, daí também estarmos tão empenhados na questão da ferrovia que numa lógica futura nos coloque a uma hora do Porto.

Hoje a ligação entre o rio e a ferrovia já é uma realidade. A maioria dos nossos turistas chega de barco e parte de comboio ou vice-versa, portanto esta interligação é cada vez mais uma realidade, aquilo que pretendemos é que se acentue ainda mais para podermos também usufruir cá daquilo que é o crescimento que o Porto regista.

E Porto e Gaia têm essa mesma visão? Olham para esta região, e para esta distinção com essa importância?

Eu isso não o posso afirmar peremptoriamente. Eu acho que a sensibilidade tem que ser a mesma porque este negócio do vinho também lhes interessa.

Todo o trabalho de capacitação e valorização do vinho que se possa aqui fazer terá os seus reflexos em todo o setor e nessa perspetiva, Porto e Gaia irão beneficiar com isso, desta forma é natural que os vejamos como parceiros.

Uma mensagem que pretende deixar em especial à população da Régua e a toda a população da CIM Douro.

A mensagem que eu deixo, a quem cá está, é que aproveitemos todas as oportunidades que vão surgir durante este ano, que aproveitemos as muitas ações de promoção e de formação sobre esta temática do vinho. Isso é cada vez mais importante para que sejamos todos nós embaixadores da região, e essa é uma responsabilidade individual. Assumindo esta responsabilidade individual estamos a contribuir para o conjunto e para aquilo que será o sucesso desta iniciativa, que se irá refletir na valorização do nosso produto.

Vamos aproveitar este ano não como algo que começa e acaba mas como uma oportunidade de iniciarmos este processo e que ele se prolongue no futuro. O grande desafio que esta região tem, e tem tido nos últimos 20 anos, é que durante muitos anos tivemos fechados na produção, deixando a comercialização para outros. Com o passar dos anos foram surgindo oportunidades que foram alterando este funcionamento e agora é preciso capacitar toda uma região para um conjunto de serviços mais aptos à nova realidade, ao turismo e isto é algo que demora o seu tempo.

Há novas gerações que estão a surgir e que já têm outra visão e isso é preciso que seja mais abrangente a toda a região, que as pessoas estejam mais capacitadas para o fenómeno do turismo, associando todas as nuances da região ao vinho.

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