Oferta de alojamento cresceu em ano de pandemia

Ao longo do período pandémico, o setor do turismo foi dos mais afetados. Confinamentos, proibição de circulação entre concelhos e o receio das pessoas foram razões para um largo número de cancelamentos de reservas.

Contudo, de acordo com diversos especialistas, o setor do turismo pode também ser dos mais rápidos a recuperar.

Em regiões como o Douro existe ainda espaço para o crescimento da oferta e em Santa Marta de Penaguião este período tem registado esse aumento, tendo o concelho neste momento uma capacidade de 170 dormidas, na sua maioria em pequenas unidade de alojamento local e turismo rural.

Numa viagem pelo concelho o VivaDouro foi conhecer dois exemplos de quintas que iniciaram recentemente a sua atividade, o Casal dos Capelinhos e a Casa do Salgueiral.

Pedro Pinto é o responsável pela quinta Casal dos Capelinhos. A propriedade está na família há vários anos apenas dedicada ao negócio de vinho, com uma produção a rondar o milhão e meio de litros de vinho, que vende a granel.

Com o passar dos anos a visão foi mudando e Pedro decidiu apostar num projeto de enoturismo, criando uma marca própria de vinhos e uma unidade de alojamento com sete quartos.

“Na casa dos caseiros não havia ninguém há 12 anos, nas adegas não se fazia vinho há 20 anos…

Tudo isto a degradar-se debaixo dos nossos olhos metia-nos confusão. Como gostamos de receber pessoas decidimos abraçar este projeto na área do turismo, que vai muito para lá do simples alojamento.

Decidimos criar um projeto de enoturismo onde tudo estivesse interligado. Criamos a nossa marca de vinho, apesar de sermos produtores de grandes quantidades de vinho, sempre o fizemos para venda a granel, por exemplo. É um projeto envolvente, em que as pessoas ficam a conhecer quem somos, a nossa história, o que é o Douro”.

Pedro conta-nos ainda que após a decisão tomada houve ainda um longo caminho a percorrer entre licenciamentos e obras, tempos que prefere deixar no passado com algum humor.

“Depois foi todo um longo caminho de papeis de um lado para o outro, obras e empreiteiros… tema que me recuso falar para não entrar no vernáculo (risos).

O projeto do Casal dos Capelinhos, “é um projeto relativamente pequeno, são apenas sete quartos, o que lhe confere alguma exclusividade”, pensado para “responder a uma lacuna que havia no mercado, neste concelho, que foi identificada durante o período de estudo, um espaço de enoturismo com alojamento incluído, algo diferenciado”.

“Fomos trabalhando as coisas com calma, marcamos presença em diferentes plataformas de reservas de alojamento e as coisas estavam a acontecer no seu tempo até que levamos aquele “soco no estômago” em março, com o Covid, que nos obriga a fechar as portas.

O primeiro impacto é negativo, o investimento é grande, há fundos envolvidos no projeto, portanto surge sempre aquela velha questão, e agora? Tínhamos a parte da viticultura, que essa não parou, era onde íamos mantendo a nossa atenção, sempre a tentar perceber o que poderíamos fazer.

No final de maio chegou o desconfinamento e, se o Covid foi um “soco no estômago”, esta nova fase deu-nos uma oportunidade brutal, especialmente com o mercado nacional. Os portugueses começaram a olhar para o Douro, e aí estava, o Casal dos Capelinhos no Douro.

No ano passado, em agosto, conseguimos uma taxa de ocupação de 94.8%, eu considero isto como muito positivo, nem nos meus melhores sonhos pensei conseguir uma taxa destas tão cedo”.

Para Pedro Pinto, a pandemia pode também ser um período “de oportunidades”. “As alterações que a pandemia provocou permitiram-nos também afinar alguns procedimentos e formas de trabalhar. Por exemplo, não estava no plano inicial servir refeições mas foi uma alteração que a certa altura fez sentido. As pessoas vinham mas não queriam sair para ir a um restaurante, estamos a falar de maio, junho, de 2020, ainda havia muito receio e as pessoas evitavam as idas a certos locais”.

“A partir de outubro de 2020 a afluência voltou a cair, pela lógica do turismo mas também muito pelas restrições que existiam na altura, como a situação de não se poder passar entre concelhos.

A nossa propriedade fica exatamente na fronteira entre os concelhos de Peso da Régua e Santa Marta de Penaguião, era frequente termos a presença das autoridades à nossa porta e por essa razão tínhamos também o cuidado de avisar que poderiam ser incomodados ao chegar ao seu destino…”

Do jornalismo ao turismo

Mais próximo do coração da vila de Santa Marta de Penaguião, uma outra unidade abriu portas recentemente, a Casa do Salgueiral.

Com capacidade para albergar 18 pessoas, esta unidade tem três quartos e quatro apartamentos, dois T0 e dois T2. Nos quatro apartamentos, os hóspedes gozam de total independência, podendo confecionar as suas refeições, uma vez que as cozinhas estão equipadas.

Na propriedade existe também uma capela dedicada a Nossa Senhora da Piedade, junta da qual o cliente pode disfrutar de um pequeno jardim e da piscina, que foi construída num socalco de vinha, com um amplo horizonte sobre Santa Marta de Penaguião e os vinhedos em redor. Os antigos lagares deram lugar a uma sala de convívio, com jogos e televisão.

“Temos uma ligação com a casa que se estende por muitas gerações, em miúdo nas férias escolares vinha sempre para aqui. Mais tarde acabei por herdá-la e nessa altura tínhamos duas opções, ou a recuperávamos ou nos desfazíamos dela, o que seria um corte muito grande.

Ficando com a casa, e como hoje ter apenas as vinhas não é rentável, tínhamos que fazer algo.

Este era também um sonho com alguns anos, termos este espaço para podermos viver mas também receber pessoas. No fundo o percurso de muitas destas quintas”, conta-nos José Leite Pereira, o proprietário.

Homem ligado à comunicação, foi, entre outros, diretor do Jornal de Notícias durante duas décadas, José Leite Pereira, abraça agora este projeto com a mulher, Helena Mendonça, também uma mulher da comunicação com décadas de experiência profissional no jornalismo e no ensino.

“Com a reforma a vida profissional muda e esta é uma ocupação que surge um pouco nesse sentido, se tivéssemos 30 anos era uma decisão mais difícil. Não viemos para aqui apenas para descansar porque ainda estamos ativos, isso é algo que esta atividade nos permite”.

Os primeiros tempos têm sido conturbados, confessa o casal que foi surpreendido a meio das obras de recuperação da casa com a pandemia.

Os prazos acabaram por ser todos alterados e a abertura aconteceu só este ano.

“Quando começamos o projeto não havia pandemia, ela surgiu a meio das obras e logo aí levamos o primeiro choque que foi parar tudo e diversos atrasos por falta de material. Hoje em dia quem tem um negócio vive uma vida em sobressalto, nunca sabe o dia de amanhã, nunca sabemos o que vai acontecer e para o turismo isso é muito mau.

Felizmente estruturamos este projeto de forma a podermos estar algum tempo sem receber ninguém. Apesar de tudo, também vemos que a pandemia acabou por ser favorável a este tipo de turismo, em que as pessoas estão mais isoladas e se sentem mais seguras”.

A perspetiva de José e Helena é positiva, as mudanças provocadas pela pandemia podem trazer um novo tipo de cliente que se enquadra no seu projeto.

“Há cada vez mais nómadas digitais, pessoas que gostam de ficar num espaço tranquilo durante um período de um mês ou mais, trabalhando no desenvolvimento de projetos e estudos, é um mercado muito interessante, em crescimento, e que se enquadra no nosso conceito.

Para nós este primeiro ano é para adquirir experiência, por um lado é bom para nós que as coisas avancem com alguma calma para depois nos prepararmos para a avalanche que esperamos.

Até agora os primeiros dias têm corrido muito bem, as pessoas têm elogiado muito quer o espaço, quer o serviço. Depois também estamos muito próximos de tudo, tranquilamente a partir daqui qualquer pessoa vai dar um passei fantástico”.

Privado e público no desenvolvimento

O crescimento da oferta em alojamento no concelho de Santa Marta de Penaguião é visto, pelo seu autarca, Luís Machado, com satisfação.

“Desde que tomamos posse pela primeira vez que sempre defendemos que era necessário promover turisticamente o nosso território, desde logo porque temos uma excelente localização, próximo de Vila Real, Régua e das principais vias de acesso da região, é muito fácil chegar a Santa Marta de Penaguião.

Registamos com satisfação que em Santa Marta de Penaguião há uma concertação de esforços para que este projeto tão abrangente seja um sucesso, tornando-se sustentável não só para quem cá investe mas também para quem vive cá”.

O autarca afirma que a aposta numa oferta diferenciada, suportada em pequenos projetos de alojamento local, produtos únicos e a N2, “tornou o concelho atrativo”.

“Notamos claramente o aumento do número de quintas com alojamento e num patamar de excelência já bastante elevado. Temos também o hotel que faz um equilíbrio entre a oferta e a procura, permitindo dar resposta a outro tipo de turismo, mais de grupos.

A N2 tem também um impacto muito forte, no ano passado ultrapassamos os 75 mil visitantes na estrada e este ano o movimento é constante.

Hoje a marca Santa Marta de Penaguião é conhecida em todo o mundo.

Temos também a felicidade de os particulares confiarem em nós para investirem aqui, até porque acreditam que seremos cada vez mais atrativos”.

Luís Machado não esquece ainda os projetos que estão neste momento em desenvolvimento e que irão aumentar a oferta turística do concelho, “o miradouro Douro Vivo, o espaço Origem Douro e o Ligação de História”.

De acordo com o autarca, o futuro passa agora pela serra do Marão, “a responsável pela existência do Douro, e que ainda não está explorada, quer a nível de agricultura, quer a nível de atração turística”.

,