Armando Mateus: “De ano para ano há cada vez um maior envolvimento das pessoas”

Sernancelhe organiza este ano a 26ª edição da Festa da Castanha, um evento que atrai cerca de 20 mil pessoas e que este ano terá o seu espaço aumentado com vista à comodidade de todos os participantes.

Em que consiste a Festa da Castanha?

Este evento é exclusivamente dedicado à castanha, é a rainha desta festa. Mas não falamos de uma castanha qualquer, falamos da qualidade martaínha e isto é importante porque, ao nível da quantidade produzida Sernancelhe não é o maior produtor, contudo, juntamente com os restantes municípios que representam a região DOP dos Soutos da Lapa, somos o maior produtor desta qualidade. Esta é uma qualidade que, pelas suas características, tem um valor superior às demais variedades, daí a importância que tem para nós e daí dedicarmos-lhe todo este evento.

E quais são essas características que a tornam tão especial?

A martaínha é uma castanha que se distingue pelo calibre, pelo lustre, pelo paladar, pela simetria do fruto e pela sua consistência. Estas características tornam-na a preferida para a indústria alimentar, de transformação e para exportação pela maior durabilidade que apresenta.

Ou seja, a castanha hoje é muito mais que apenas o fruto em si?

A castanha faz parte da nossa gastronomia e está presente nas nossas tradições e costumes. Ao longo de muitos anos foi perdendo importância na alimentação, em especial nesta região, sendo substituída pela batata, passando a castanha a ser mais usada na alimentação dos animais.

Depois foi feito um grande trabalho de valorização da castanha, em especial ligada a algumas tradições como os magustos, a matança do porco, à caça, etc. Aí o objetivo foi conseguido, por isso foi dado um outro passo, a valorização da castanha para além do fruto em si que se comia assado ou cozido, por exemplo, e foram surgindo outras formas de a consumir como doçaria, licores e muitos outros produtos. Daí que, de há quatro anos para cá, criamos no espaço do evento uma tenda gastronómica onde os restaurantes participantes são obrigado a produzir algo com este fruto, seja um prato doce ou salgado.

Voltando à Festa da Castanha, o que terá de especial esta edição?

Esta é já a 26ª edição desta festa e, quem nos procura, já sabe que para ter passaporte para participar neste evento tem que a sua presença estar relacionada com a castanha, seja como produtor, como vendedor do fruto em si ou deste já transformado. Daí que nós, de entre todos os expositores demos mais importância aos produtores e nesta edição vamos dar um destaque maior ao trabalho que temos feito conjuntamente entre a UTAD e os produtores desta região para vários campos de ensaio e vários estudos. Esta ligação será evidenciada logo na abertura do evento com o lançamento do livro Sernancelhe, o Castanheiro e a Castanha, que é uma obra que compila os resultados deste trabalho.

Outros elementos importantes aqui são as Juntas de Freguesia porque são um canal direto de contacto com as suas populações e com aqueles que estão emigrados ou que se mudaram para os grandes centros nacionais. Portanto, é uma festa que traz milhares de pessoas. É claro que algumas freguesias estão mais ligadas à castanha do que outras que se dedicam mais à produção de uva, maçã e azeite e esta festa abriu uma porta para que se possam também comercializar estes produtos.

As nossas cooperativas e as empresas da indústria agro-alimentar têm também uma importância grande neste evento, seja através do fruto em si, seja de produtos que derivam da sua transformação.

Depois temos a vertente mais ligada ao artesanato e aos produtos locais que assumem aqui também um importante papel ao mostrar as nossas tradições.

No exterior do exposalão teremos ainda o espaço expo máquinas, isto porque as máquinas fazem também parte deste negócio, quer na apanha e cultivo do produto, quer na sua transformação.

Por último temos a parte da animação, sendo uma festa a animação não podia faltar, seja através dos grupos de concertinas que contratamos e outros que aparecem por sua iniciativa, seja através do fado à desgarrada, também muito típico nesta região. Depois temos alguns grupos de música tradicional portuguesa que contratamos e que dão ainda mais cor e alegria a esta festa.

Entrada no evento é gratuita.

A entrada no evento é gratuita, cada participante pode comprar uma caneca, pelo preço simbólico de 1 euro que lhe permite beber vinho e jeropiga nos diferentes pipos que temos espalhados pelo certame, para acompanhar a castanha assada que temos para oferecer a toda a gente.

Podemos então assumir que quem visita este certame terá uma experiência única?

Aquilo que notamos é que de ano para ano há cada vez um maior envolvimento das pessoas com este evento, dando-lhe um ambiente ainda mais festivo. As pessoas vêm para provar a castanha e os nossos produtos mas acabam por se envolver em todo o ambiente festivo que aqui existe, juntando-se aos cantadores de fado à desgarrada ou aos tocadores de concertina.

Quanto aos expositores, notam que há uma procura superior ao espaço que existe de oferta?

A procura é sem dúvida muito superior à capacidade de espaço que temos, o que nos obriga a fazer alguma triagem. Temos espaço para 100 expositores mais a tenda gastronómica, daí a prioridade ser dada a todos aqueles que trabalham com o fruto e todos os seus derivados.

Uma festa que envolve tanta gente, entre expositores e visitantes, obriga a uma gestão mais cuidada, quais são os principais desafios que encontram?

Ao longo dos três dias do evento passam por aqui cerca de 20 mil pessoas e isso sem dúvida que nos obriga a uma organização que tem de ser muito bem pensada.

O maior desafio que aqui temos é a resposta ao nível da restauração e da hotelaria. Sabemos que não é apenas em Sernancelhe que a hotelaria esgota, o mesmo acontece nos concelhos vizinhos e já vemos pessoas a fazerem reservas de um ano para o outro e já há vários meses que não há quartos disponíveis.

Grande parte dos visitantes que recebemos são do norte de Portugal mas notamos cada vez mais gente a vir de mais longe, isto porque fazemos uma promoção do evento muito forte junto dos promotores turísticos que depois organizam várias excursões para nos visitarem. Este modo de funcionamento cria-nos outro problema que é o estacionamento, por isso temos espaços criados especificamente para esse efeito, temos mesmo um espaço destinado apenas para os autocarros.

Esta festa, até pelo que nos diz, continua a crescer ano após ano. Qual é o limite?

Não sei qual será esse limite. Já temos a tenda gastronómica que, pela sua dimensão aumentou também a capacidade de resposta dos restaurantes que ali estão presentes. Também criamos uma tenda com cerca de 1000 metros quadrados só para as refeições dos participantes dos eventos desportivos ligados a este evento. Mas a novidade deste ano, ao nível de espaço é uma tenda de recetividade, um espaço de 500 m2 onde estarão presentes os parceiros mais diretos do evento e que serve para dar as boas vindas aos nossos visitantes.

Para nós a importância deste evento deve-se sobretudo à importância da promoção da Terra da Castanha, que é uma designação com mais força do que o próprio nome do concelho. É uma marca que cresceu imenso e que é muito importante.

Há também alguns eventos desportivos associados a esta festa, quais são eles?

A Festa da Castanha, desde 2002 associou à sua organização uma série de eventos desportivos: o passeio de BTT, que é conhecido como o mais louco de Portugal, pela sua animação e pelos momentos lúdicos que proporciona. Uma prova que é limitada a 1000 participantes para que todos possam ter a melhor experiência, é uma prova que esgota as inscrições bastante cedo.

Depois temos ainda o trail e a caminhada da Rota da Castanha e do Castanheiro, tudo eventos onde não existe classificação, apenas o convívio entre os participantes que é o mais importante. Por fim o passeio equestre que se organizou pela primeira vez no ano passado e que este ano repetimos pelo sucesso que foi.

,