Robótica Social em desenvolvimento na UTAD

Na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), investigadores têm trabalhado no desenvolvimento de robôs com capacidade de interação social, ajudando em especial a população mais idosa em tarefas diárias como a toma de medicação.

As previsões indicam que, em 2050, metade da população em Portugal terá mais de 65 anos. A quantidade de cuidadores existentes não será suficiente para prestar os serviços necessários a todos os idosos. E é aí que entram os robôs, como nos diz Vítor Filipe, investigador na UTAD.

“Há estudos que indicam que em 2050, cerca de 50% da população portuguesa terá mais de 65 anos, com uma esperança média de vida ainda maior. Vai ser impossível para o estado, e para toda a rede de apoios que existe, ter cuidadores em número suficiente para dar assistência toda a população. Aqui a tecnologia pode ter um papel fundamental, mas sempre como um complemento. A robótica deve estar ao serviço da população humana, o robô pode ocupar os momentos de solidão da pessoa.

O próprio robô pode, dar estímulos à pessoa para que esta interaja, pode conter informação, como por exemplo, a data dos aniversários de familiares e no dia de aniversário do neto, avisar e sugerir uma videochamada. Entramos numa dimensão não só de serviços, mas também uma dimensão social, a chamada robótica social. Este tipo de tecnologia pode ser fundamental para esta população.

Esta região tem uma população bastante envelhecida e isolada, pessoas a quem muitas vezes falta a comunicação. Não pretendemos substituir o contacto humano pelo robô, até porque esse contacto é fundamental, contudo, há uma espaço para a robótica, auxiliando a pessoa em algumas tarefas do seu dia a dia como tomar a medicação, lembrar a pessoa de comer e de se manter hidratada, conseguir reconhecer algum comportamento estranho, por exemplo a pessoa não se levantar à hora que normalmente o faz, tudo isto são pequenas tarefas onde a robótica pode ajudar depois a equipa de cuidadores, fornecendo uma vasta quantidade de informação sobre a pessoa”.

O investigador tem, contudo, a noção que há ainda alguma resistência nesta interação por receio de ver os robôs substituírem o Homem.

“Há um certo receio da sociedade de que a máquina venha ocupar o espaço social, a relação entre humanos. Temos que pensar muito bem como é que estas tecnologias vão ser introduzidas para não isolar completamente as pessoas do contacto humano, a dignidade humana tem que ser tida em consideração. Um serviço destes não pode ser “vendido” como uma substituição. Isto é um dilema que a tecnologia também enfrenta e até por isso defendo que tem de existir regulamentação neste setor”.

É a pensar nesta simbiose Homem-máquina, que a UTAD tem vindo a desenvolver alguns protótipos que tem neste momento em testes, um robô que ajuda à toma da medicação e outro pensado para uma interação entre o idoso institucionalizado e os seus familiares e amigos.

Vítor Filipe – Professor e investigador da UTAD

O robô que ajuda na toma de medicação ainda foi apenas testado em ambiente de laboratório e é um projeto que integra investigadores da Escola superior de saúde da UTAD e do polo INESC-TEC, também da UTAD, financiado pela FCT com a designação Interfaces Naturais com Idosos.

“Em termos genéricos o que se pretende é estudar de que forma a robótica pode ajudar as pessoas idosas nas suas tarefas do dia a dia, ou seja, procurar novas formas de interação entre o humano e o robô. Neste projeto nós queremos estudar estas formas de interação entre o robô e o idoso, e ainda perceber como é que esta tecnologia é aceite, quer pelos idosos, quer mesmo pelos seus familiares. Desta forma podemos começar a adaptar estes interfaces às necessidades efetivas desta população”.

A tarefa deste robô será, na hora do idoso tomar determinado medicamento, identificar o medicamento, pegar nele e dirigir-se ao idoso para que o tome.

“O que nós pretendemos deste robô é que venha a conseguir identificar o idoso a partir da análise de imagens faciais, reconhecer as embalagens de medicamentos que a pessoa toma e, à hora devida, procurar o medicamento, recolhê-lo e dirigir-se ao idoso para o entregar”, explica Vítor Filipe.

O investigador conta-nos ainda que, depois de diversas notícias terem saído na comunicação social sobre este robô, recebeu o contacto de um empresário interessado no trabalho que estava a ser ali desenvolvido.

“Um empresário que tem uma rede de farmácias que fornece alguns lares, ao ter conhecimento do projeto interessou-se por ele. Já fizemos uma primeira reunião onde nos apresentou algumas sugestões de alterações que considera importantes para tornar este equipamento comercialmente interessante.

Uma dessas coisas que nos explicou é que o funcionamento como está pensado, no lar, acaba por ter pouco interesse. Ou seja, num lar temos 50 idosos, todos eles tomam medicação diferente, todos os dias de manhã tem que estar uma pessoa a separar toda esta medicação, um processo cansativo e passível de falhas. A sugestão do empresário é que o robô tenha dentro de si a medicação de cada idoso e, há hora programada, se dirija a este para que a tome. Já existe um equipamento estático que faz esta distribuição, aqui a vantagem seria a mobilidade do robô para ir ter com a pessoa.

Este input para nós é importantíssimo, ainda por cima vindo de um empresário ligado ao setor. Nós na academia temos as ideias mas acabamos por viver fechados no nosso meio. Muitas vezes, quando vamos para o terreno testar algum dos nossos protótipos, realmente não se ajusta à realidade para que foi pensado”.

Outro robô integrante neste projeto está colocado no Lar de Santo António, em Vila Real, é um bobô de telepresença que é usado como um elemento facilitador da comunicação dos familiares e amigos com o idoso.

“O conceito é simples, os familiares e amigos instalam uma aplicação no seu telemóvel e, quando pretendem comunicar com o idoso, fazem a ligação para o robô que está equipado com câmaras para que possa, ele próprio, conduzir o bobô pelo lar até encontrar o familiar com quem quer falar. A possibilidade do robô se dirigir à pessoa por controlo remoto, chegando ao pé dele com a imagem do familiar, é facilitadora de uma relação muito mais saudável.

Há um conjunto de famílias que aceitou integrar o estudo e agora vamos aplicar um questionário que nos ajude a perceber que dificuldades é que sentiram, em que é que os ajudou, etc. Desta forma percebemos se está bem adaptado às necessidades de todos e que aspetos podemos melhorar. Surpreendentemente os idosos têm mostrado bastante curiosidade e vontade em utilizar este equipamento e muitos deles falam mesmo de outro tipo de serviços que aquela máquina poderia ter associados.

Estas pessoas não são nativas digitais, muitas delas nunca chegaram sequer a ter um telemóvel, por isso este tipo de soluções são facilitadoras de uma comunicação mais eficaz. O que se pretende não é desincentivar a visita pessoal do familiar ao lar, pretende-se mesmo criar mais uma forma das pessoas estarem ligadas entre si”.

Para o investigador, este é o futuro da relação entre Homens e máquinas, que as segundas sirvam para melhorar a qualidade de vida das primeiras.

“Depositam-se grandes esperanças na robótica para desempenhar esse tipo de tarefas no futuro. Dentro do conceito de Ambient Assisted Living já existe um conjunto de ferramentas muito diversificadas como as pulseiras que fazem monotorização dos sinais vitais, sensores que podem ser instalados para detetar quedas, etc. Tudo isto está um pouco disperso, no futuro, muitas delas podem ser integradas num só robô que desempenhe este papel, bastará que esteja equipado com um conjunto de sensores e câmaras de diversos tipos.

Claro que ainda estamos distantes deste tipo de soluções, tudo isto já existe em projetos piloto e alguns em trajetos comerciais mas há sempre a questão do custo. Como ainda não estão massificados o custo ainda é bastante elevado. E depois era preciso fazer com que todos os elementos comunicassem entre si”.

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