Brincar é palavra de ordem

Em funcionamento há um ano, a Casa do Brincar é um espaço dedicado às crianças onde a brincadeira é a sua única ocupação, dando asas à imaginação.

A ideia nasceu pelas mãos das amigas e educadoras de infância Joana Gomes e Ana Noga, às quais mais recentemente se juntou a psicomotricista, Flávia Pereira. “Tínhamos esta vontade de fazer algo mais pelo brincar livre, criar um espaço onde as crianças pudessem ir e brincar durante o tempo que lhe apetecesse, como lhes apetecesse, sem haver uma “formatização” do que fazem, libertar a imaginação e a criatividade”, afirma Joana à nossa reportagem.

A ideia é simples, um espaço onde as crianças são livres, não há regras pré estabelecidas nem limites à imaginação seja dentro da sala ou no jardim e o objetivo é claro: a felicidade da pequenada.

“Ao longo do dia temos momentos de alguma atividade orientada, contudo nunca naquele formato de “vá, vamos agora todos fazer isto…”, é mais “agora vamos fazer isto, alguém quer participar?”. A maior parte das vezes temos estas atividades previstas, contudo nem sempre as fazemos porque as crianças chegam e começam a brincar e acabamos por deixar passar esse momento para o dia seguinte. É muito esse o nosso princípio, eles vão para onde querem ir, se quiserem ir lá para fora montar tendas, é isso que vão fazer”.

Enquanto fazemos uma visita guiada pelo espaço, algo chama à nossa atenção, a ausência de luzes e sons vindos normalmente dos brinquedos infantis, a resposta é simples, aqui eles não existem.

“Uma outra coisa que nos diferencia é que nós não usamos brinquedos. Aqui os brinquedos são feitos pelas crianças usando diversos materiais, caixas, copos, etc. Temos objetos que eles usam nas brincadeiras, não há aqui brincadeiras prontas nem brinquedos aos quais basta puxar um fio ou carregar num botão para que funcionem. Gostamos que elas usem a imaginação, hoje em dia falta-lhes estimular um pouco este lado”, afirma Joana.

Depois de um período onde não tinham “casa” própria, a Casa do Brincar estabeleceu um protocolo com os Serviços de Ação Social da UTAD para a criação de um espaço físico, nas instalações do ex-CIFOP.

”Quando começamos não tínhamos um espaço permanente, este espaço existe há relativamente pouco tempo, começamos com os campos de férias nas férias escolares e com atividades aos sábados para as crianças e para as famílias, foi a forma de começarmos, apesar do nosso objetivo ser este, ter o nosso espaço. Foi uma forma que encontramos de nos darmos a conhecer”.

A funcionar em diversos horários, “as crianças podem vir uma hora, uma manhã, uma tarde ou o dia todo”, Joana diz que este projeto não é um substituto da escola mas um complemento, tentando colmatar as falhas do ensino regular.

“Vemo-nos como um complemento à escola mas também podemos ser uma alternativa. Infelizmente, mesmo inseridos num meio rural, nem todas as escolas daqui têm atividades ligadas ao contacto com a natureza, as escolas saem muto pouco do seu espaço. Quando a criança chega aqui os pais são logo avisados que vão sujos para casa, com terra e tinta. No início alguns pais estranhavam e torciam o nariz mas depois de verem a felicidade com que os seus filhos saiam daqui perceberam que até podia ser uma coisa boa.

Através do brincar as crianças aprendem tudo e mais alguma coisa, podemos passar qualquer ensinamento no meio de um jogo, de uma brincadeira.

Infelizmente até aos seis anos eles têm tudo muito programado, “vamos todos ouvir uma história, vamos todos fazer uma pintura…” e a criança, mesmo que naquele momento não tenha vontade tem que ir atrás do comboio. Isto não é errado mas tendo em conta que cada criança é um ser individual, nós aqui apresentamos um método alternativo.

Eu própria tenho os meus filhos na escola mas a verdade é que sinto que têm esta lacuna. O meu filho mais novo está na creche, passa a manhã na sala, depois almoça, dorme e eu vou buscá-lo, não brinca em liberdade, não vai para o espaço exterior. Apesar de terem um espaço ao ar-livre é raro ser usado pelas crianças, é raro vê-los a brincar com a terra ou a correr descalços, e eu sinto que isso lhes faz falta.

Não é que não acreditemos no método tradicional, é mais o complementar esse método tradicional com um espaço de maior liberdade”.

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