José Magalhães: “Sempre estive muito ligado ao associativismo”

Natural do Porto, José Magalhães tem raízes no Douro, mais propriamente na Régua de onde o seu pai é natural. No seu percurso são várias as ligações à região, tanto a nível pessoal como profissional. José Magalhães assume agora a direção da NERVIR, cargo que havia ocupado entre 2001 e 2004.

Como é que surge a sua ligação ao movimento associativo?

Desde sempre estive muito ligado ao associativismo e acredito que é fundamental o trabalho das associações regionais no apoio às empresas em especial na definição de estratégias para o futuro das regiões, apesar de não ser essa a visão dos diferentes governos que temos tido.

Eu acho que as associações regionais, juntamente com a colaboração das locais, têm que ser ouvidas e têm que transmitir aquilo que é fundamental acontecer nas regiões. Lisboa está muito longe, Lisboa não ouve normalmente e quando ouve, ouve muitas vozes e não tem que ouvir muitas vozes, tem que ouvir uma voz que seja resultante da conversa, do diálogo, do entendimento local das diversas entidades e diversas organizações que há. Aliás, sobre isso existe um trabalho da SIPE, que foi feito no ano passado a nível regional, que propõe exatamente um caminho para a reorganização do movimento associativo regional, que é fundamental. Existem demasiadas associações por este país fora. A nossa região nem está muito mal nesse aspeto, mas existem muitas a nível nacional e depois cada um fala para o seu lado e como sabemos, o poder aproveita isso, “divide para reinar”.

Quais são as linhas orientadoras que definiu?

Vamos começar pela questão do associativismo. Nós consideramos que é preciso agregar, cada um com a sua independência, mas agregar, participar e comunicarmos o que é que nós queremos, o que é que esta região quer daqui por cinco ou dez anos. Se o país não souber é um problema, mas pelo menos a região deve saber o que é que quer fazer. Queremos ser bons, queremos ser importantes, em quê? No turismo, nos vinhos, na indústria, na agricultura. Temos que saber.

Tradicionalmente as pessoas veem o seu sindicato, a sua associação, o seu grémio como selo e sem partilhar. Nós achamos que temos que partilhar para ganharmos reforços. Nós vemos que esta região tem sido abandonada, digamos assim, mesmo as perspetivas que temos para o 20-30 são muito limitadas, o Plano de Investimento Nacional, quase não considera esta região como estratégica. Temos que inverter isso rapidamente, temos que nos fazer ouvir para inverter o que está planeado.

Para conseguir ainda mudar o documento. 

Exato, fazer com que o 20-30 seja algo que traga coisas positivas para a região. Não adianta politicamente dizer que estão muito preocupados, que o Interior é um objetivo e na prática não haver decisões políticas que levem a que isso aconteça, senão vamos ter mais dez ou vinte anos sem que nada aconteça, mais do mesmo. Isso só se consegue com força e para termos força, temos que falar todos a mesma voz. Isso é um dos objetivos fundamentais, é agregar. E quando digo agregar, não digo só as associações. Nós temos que jogar nisto com as autarquias e as CIM’s na nossa área de ação.

Como é que se agregam tantas vontades tao diferentes?

Nesta região há um vasto conjunto de atividades importantes desde o setor primário à industria. A NERVIR tem trabalhado, historicamente, com os setores mais relacionados com a exportação, nomeadamente nos vinhos. Temos um trabalho que eu considero muito bem feito. O azeite também começa a vir atrás, até porque muitos dos produtores de vinho, também produzem azeite. Exploram a vertente da exportação através dos vinhos. Levam os vinhos e podem levar também os azeites.

E já está ali o canal construído…

Já está construído, tem os contactos, evoluindo por aí. Nós temos feito aí um trabalho muito importante e conhecemos o setor. A NERVIR conhece perfeitamente o setor dos vinhos, nomeadamente, para exportação.

Aqui há dias no Regia Douro Park, no TGV, eu pude constatar que haviam grandes dificuldades, por exemplo, na questão das carnes. Comercializar as carnes e exportar as carnes. Notou-se exatamente uma falta de organização. Exportar carne não é tão fácil como exportar outros produtos. Havia uma dificuldade que desde logo se notava que era de associação, eu não vejo nenhum problema porque é que um produtor de carne bovina não pode associar-se a um de carne caprina ou de carne suína. Mas pronto, isso é um problema que é preciso resolver e estamos aqui para ajudar nisso, não queremos organizar nós uma associação, queremos é que se organizem, contribuindo com a nossa experiência para que se organizem, para que depois possam participar nas nossas reuniões, nas nossas ações, em conjunto sermos uma força só.

Por isso é que é preciso enquadrar esses produtores, tanto da carne como de outros setores em associações, para que ganhem força e capacidade, quer técnica, quer comercial, porque um só produtor não consegue comercializar com qualidade, não consegue fazer estudos de mercado, mas vários já conseguem. É fundamental e é urgente que o façam, como se sentiu no TGV.

Falta essa proatividade na região de uma forma geral?

Claro, mas é também verdade, e temos de o admitir, que nós não temos tendência associativa. Os portugueses no geral, o interior ainda mais, eu na minha atividade comercial sinto isso, não há associativismo, não se juntam as pessoas para discutir os assuntos.

Não somos pro-associativo, ao contrário dos espanhóis, por exemplo, onde a comunidade é muito mais pro-associativa. Nesta região, e importa-nos ver nesta região, nós para sobreviver, temos que o fazer.

Olhando agora mais para dentro, mais para a NERVIR em si, para estes quatro anos, quais são os objetivos como presidente?

Os objetivos mais próximos da NERVIR, vão ser objetivamente contribuir para uma melhoria das condições aos sócios, ou seja, nós temos uma série de benefícios que, hoje em dia, os sócios da NERVIR têm, desde logo, desconto significativo nos projetos que aqui façam, um desconto de 30% é significativo. Em muitas ações que façamos têm sempre desconto, cursos de formação, por exemplo, também têm desconto. Ainda há pouco tempo fizemos um curso de gestão de AL, que é uma coisa que nesta região começa a ser importante, os sócios tinham 20% de desconto, tudo isso é importante, mas nós queremos alargar. Alargar, nomeadamente, com serviços, com seguros de grupo, descontos nos combustíveis, etc. Coisas mais palpáveis no dia a dia.

Depois temos como objetivo também alargar o número de sócios. A NERVIR tem bastantes sócios, mas se olharmos à dimensão da região são ainda poucos, temos que estar muito mais presentes e as pessoas têm que sentir que as podemos apoiar.

Na vertente escola, que é componente da NERVIR, não podemos desassociar a escola da NERVIR, aumentar também o número de alunos e o número de cursos. A questão do número de curos e o tipo dos cursos depende não só da nossa vontade mas de uma aprovação superior, de uma aprovação do governo e nem sempre estamos de acordo, normalmente não estamos de acordo. Ainda este ano foi nos recusado fazer um curso de turismo. O Douro está a disparar para o Turismo, as necessidades vão sendo muitas de formação na área do Turismo. Mais específica temos a escola de Lamego, mais vocacionada para as artes fundamentais da restauração, hotelaria, etc. Mas depois é preciso muito mais, é preciso animadores turísticos, é preciso guias, um sem número de pessoas, que tem que falar línguas, não pode ser só uma pessoa que saiba umas coisas e tal. Estamos a tentar agora ver se nos autorizam meia turma pelo menos.

Esperamos que no próximo quadro haja uma alteração a isto que está a acontecer ou ainda antes do próximo quadro possa haver alguma abertura para a formação feita por formadores da região, por as associações da região que estão no terreno, até mesmo para contribuir também para o emprego. Posso dizer que, nos alunos que não seguiram para a Universidade, a empregabilidade é de 85%. Ou seja, nós formamos pessoas para trabalhar, para irem para as empresas e ter emprego, trabalhar, o que é importante.

É uma forma de aumentar a empregabilidade na região, não é?

Claro, a própria NERVIR já teve três ou quatro vezes mais funcionários do que os que tem hoje. Porque tinha formadores, tinha pessoas ligadas à formação. Claro que muitas delas às vezes eram contratadas como professores locais, mas tínhamos uma estrutura de suporte, uma estrutura de direção dos projetos que tivemos que reduzir.

Neste momento quantos alunos é que tem a escola?

Tem cinco turmas em funcionamento, já teve quinze.

Isto é também um reflexo da desertificação que cada vez mais se vive aqui? Ou é só o desinteresse por parte dos alunos?

Não, são vários causas. Por um lado, o ensino profissional começou a ser feito também nas escolas tradicionais, pelo ministério da Educação. Mas nós não temos tido assim tanta dificuldade em ter alunos e acreditamos que se nos deixarem fazer alguns cursos que pretendemos continuamos a ter alunos. Era mais fácil há uns anos atrás? Era, mas esse não é o problema. Se eu estou a dizer que não foram autorizados cursos é porque nós queríamos ter cursos e teríamos alunos para eles. É difícil, dá muito mais trabalho hoje em dia. O diretor da escola tem muito mais trabalho na angariação de alunos hoje do que tinha há cinco anos.

Nós, por exemplo, temos um curso de administrativo um de secretariado e um de sistemas informáticos. É muito fácil arranjar alunos para esses cursos, de facto. Vamos arrancar, no ano letivo 2019/20, com um curso de contabilidade que é um curso com muita empregabilidade. Continua a haver falta pessoas com formação contabilística. É total a empregabilidade, eles saem do curso e têm emprego ou às vezes até querem levá-los antes. O turismo é indiscutível. Podíamos era abrir, se calhar, duas turmas, não era uma. Agora estamos a tentar que nos deixem pelo menos abrir meia, mas a meia turma também é muito penalizante para nós porque não rentabiliza a estrutura.

No meu anterior mandato tentamos fazer cursos de climatização, técnicos de climatização, para os quais inclusivamente arranjávamos todo o equipamento gratuito, mas acabamos por nem sequer apresentar candidatura porque nos disseram que não seria aprovada. Dos 20 alunos de uma turma que fizéssemos todos teriam emprego no dia seguinte, ainda hoje, isso já foi há 15 anos, não é? Mas ainda hoje teriam.

Falta mais autonomia às escolas para fazer essa gestão?

Sim, falta muito mais autonomia, o próprio Estado tem que ouvir as associações empresariais que estejam organizadas e que estejam capacitadas para isso.

No seu discurso de tomada de pose, falou também que tinha como objetivo atrair empresas com maior índole tecnológica.

Exato, isso faz parte do projeto de Vila Real, do Regia Douro Park, da própria Câmara, da UTAD. Nós queremos ser um parceiro aí e colaborar dentro das nossas possibilidades. Se nós todos tivermos a trabalhar nesse sentido. Se eu for trabalhar para o Brasil e não me lembrar de nada, não me lembrar que sou presidente da NERVIR, se calhar não contacto com ninguém, nem proponho nada. Mas se tirar isso da cabeça e os meus colegas da direção também, então conseguiremos com certeza trazer essa massa critica das empresas novas. Não quer dizer isto que vamos conseguir, mas temos é de ter na cabeça isso como objetivo e contribuir de todas as formas para que isso aconteça. Acho que é fundamental todos nós colaboramos nesse objetivo.

O trazer empresas desta índole mais tecnológica pode ser uma mais valia na atração e fixação de pessoas vindas de fora da região?

Claro. Aliás penso que está a acontecer já isso com as empresas ligadas à informática. Aproveitam alguns da região, nomeadamente da UTAD, mas quando recrutam já têm que ir buscar fora e passamos a ter outro tipo de habitantes e depois é, de facto, uma bola de neve, uns puxam outros, e criam-se novas empresas.

Para isso é importante fazer um trabalho próximo da universidade, das autarquias e das CIM’s?

O nosso desejo é trabalhar em conjunto. Há pouco disse uma coisa, que não expliquei, que é “como estar presente?”. Nós podemos organizar, haja vontade da parte de alguns municípios, não precisamos de estar em todos, mas haja vontade dos municípios nomeadamente dos mais distantes. Sei lá, se pensarmos em Penedono, Sernancelhe, por exemplo, para um associado desses concelhos pode ser difícil vir aqui até à nossa sede em Vila Real mas podemos ter um ponto, uma antena, na Câmara Municipal, por exemplo. O que é uma antena? É no fundo um canal aberto com a NERVIR. É termos alguém que encaminhe o associado, ou mesmo um empresário que não seja associado. Podemos dar muitas informações a gente que não é sócia, nós apoiamos toda a gente, não apoiamos só os sócios, pretendemos que se façam sócios claro, até porque tem outras vantagens como disse há pouco, mas apoiamos toda a gente. Qualquer dúvida com que venham cá, sobre projetos, saber se podem fazer um projeto, se não podem, sei lá, todo o tipo de informação, nós cedemos. Por isso, a nossa ideia depois de agosto, é marcar reuniões com todos os presidentes de Câmara, até para os conhecer e eles me conhecerem a mim. Falamos um pouquinho sobre esta ideias e nalguns casos, naqueles que assim entenderem, nós estamos preparados para plantar antenas que sirvam de acompanhamento, de apoio, aos empresários que estão mais distantes na nossa sede. Isso é uma ideia que eu penso que é relativamente fácil, haja vontade também das autarquias. Da nossa parte nós temos os técnicos. É preciso deslocarmo-nos lá? Ok, nós vamos, sem marcação sem nada. Isso é a forma de nós podermos ajudar todo o tecido empresarial da região, seja ele qual for.

A câmara nestas regiões é fundamental, é o edifício onde se vai normalmente, e por outro lado a Câmara não tem que ter pessoal só afeto para isso. Cada uma tem que ter um técnico ou dois técnicos para apoiar. Quando vamos para autarquias maiores já acontece isso. Muitas vezes as Câmaras pretendem substituir-se às associações. Isso é um caminho que eu considero errado. As câmaras deviam-se concentrar no que é a política, ação social etc, nessas coisas todas e deixar o apoio empresarial às associações. Não tem sentido criar gabinetes de apoio ao empresário numa câmara, quando existe uma associação, por exemplo, como a NERVIR ou outra. Quanto muito criam ali um gabinete dentro no edifício da autarquia para a NERVIR ter lá alguém, digo eu.

Quando for lá alguém com uma dúvida está lá aquela pessoa para prestar apoio?

Está lá, passa o assunto aqui para os nossos técnicos. Isso é uma ideia que nós temos, haja vontade às câmaras para trabalhar. Também tencionamos trabalhar com as câmaras, propor-lhes formação profissional, mesmo para os seus próprios funcionários.

Por exemplo, nós agora temos um curso que nos propuseram, de Francês técnico, que não foi uma câmara, foi um empresário, e que estamos a tentar organizar, vamos ver se é possível, a que custos fica, porque não é comparticipado.

Faz muito sentido.

Faz muito sentido para a realidade atual. Para uma série de construtores, gente dos alumínios, uma série de atividades que estão no estrangeiro a trabalhar. Têm muito trabalho em França e não sabem falar francês.

Como eu digo esse, podemos fazer “n” de cursos de acordo com as necessidades locais das Câmaras, das pessoas, dos empresários, podemos fazer isso, temos capacidade para o fazer. Pronto, é o que eu digo, temos trabalho para fazer, nós queremos é trabalhar e participar e, lá está, tornar cada vez mais isto importante e estarmos presentes em todo lado. As pessoas que nos usem, nós queremos que as pessoas que nos usem no bom sentido, que nos utilizem para prestarmos serviço. Isso é que é fundamental.

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