Editorial – maio 2022

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Caros leitores,

Ser ou não ser, eis a questão. Portugal quer ser ou não quer ser um dos países mais avançados do mundo, capaz de criar, produzir e promover a utilização de produtos inovadores como no passado já ocorreu com o MultiBanco, a Via Verde ou com a criação de medicamentos?

Os países que mais investem em inovação, como a Finlândia ou a Suécia e que, curiosamente, mas não surpreendentemente, querem passar de não alinhados para membros da NATO, dedicam quatro a cinco por cento do seu PIB a investimentos em Investigação & Desenvolvimento Tecnológico (IDT).

E Portugal? Parece que, desde os anos 80, em que se desenvolveu, praticamente do zero, todo o sistema de investigação e de inovação e que o nosso tecido empresarial conseguiu utilizar nos anos 90, pouco ou nada de visível se tem feito, pelo menos não desenvolvemos nada que se pareça com produtos desenvolvidos nos anos 80 e 90.

Se em termos de despesa e investimento no IDT as estatísticas indicam claramente um aumento significativo, sendo que em 2020 o valor de IDT  corresponde a 1,6% do PIB; e que o número de pessoas a trabalhar em investigação tem também aumentado significativamente, a questão é que este aumento (mesmo assim com Portugal muita abaixo da Finlândia ou da Suécia) não é visível na criação de produtos ou serviços que incorporem a investigação e que sejam promovidos pelas empresas portuguesas.

Aliás uma parte muito significativa do IDT produzido em Portugal é depois aproveitado por empresas internacionais que não deixam cá os seus impostos; ou seja, estamos a alimentar o rendimento de outros estados; isto porque Portugal é incapaz de apoiar devidamente a implementação do IDT que aqui construímos.

E que adianta termos desenvolvido produtos e serviços avançados se depois não somos capazes de os aplicar devidamente, como se vê pelos atrasos enormes na introdução em Portugal da rede 5G; que hoje está já disponível por essa Europa toda e em todo o lado. Exceto em Portugal.

Porque em Portugal dependemos das pessoas que governam. A capacidade das empresas de lançar IDT de facto está completamente tolhida pela necessidade absoluta, se quiserem financiamento, de o fazer com as Universidades. E depende. Se os governantes fazem bem o concurso ou não. Se colocam lá clausulas penais ou não. Se os lançam de modo competitivo ou não. Se as Universidades querem participar ou não. E a verdade é que cada vez mais temos pessoas que nos governam que não sabem o que é a vida para lá dos gabinetes de Lisboa e que decidem com base na interpretação dos seus assessores do Google e das conversas de café com os colegas. Assessores e colegas que conhecem bem Lisboa, mas que nada sabem do país real. Mas que decidem.

O desafio para haver IDT em Portugal é fácil de ganhar, basta saírem dos gabinetes e virem conversar com as empresas. Mas escutar, não seja só falar ou só ouvir.  E procurar ajustar o trabalho profundo de IDT que temos para fazer com a exequibilidade dos resultados e com a sua utilidade. Porque fazer IDT apenas para dizer que temos milhares de pessoas e 1,6 % do PIB como se isto, só por si, fosse muito bom, não é suficiente.