12 respostas sobre a pandemia do século

Vivemos uma situação sem precedentes com a declara­ção de pandemia pela Orga­nização Mundial de Saúde e o VivaDouro foi à procura de respostas sobre o Co­vid-19 para lhe esclarecer as dúvidas. Falamos ainda com quatro empresários ligados ao se­tor do turismo, um dos mais afetados pela atual crise.

O que é o novo coronavírus (Covid-19)?

Cientificamente chamado de 2019-nCoV, também conhecido como coronavírus de Wuhan, ou mais recentemente Covid-19, trata-se de um vírus de pneumonia que foi detetado pela primeira vez no final do ano passado em Wuhan, na província chi­nesa de Hubei, que tem mais habitantes do que Portugal inteiro. Não há, ainda, tratamento específico para o vírus, que já fez mais de 4.500 mortos.

Pertence à família “coronavírus”, que en­globa todos os vírus que estão na origem de várias doenças de cariz respiratório, que vão desde a gripe até à Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) — que, em 2002, fez cerca de 800 mortes, mas foi rapidamente controlada —, ou à Síndro­me Respiratória do Médio Oriente (MERS) — que também fez cerca de 800 vítimas mortais, mas da qual ainda hoje se con­tinuam a registar casos. O novo corona­vírus é uma nova estirpe que, até agora, não tinha sido detetada em humanos. Os coronavírus são vírus transmissíveis en­tre animais e humanos: o SARS, também com epicentro na China, era transmitido de gatos selvagens para humanos, e o MERS de camelos dromedários. Há ainda outras estirpes de coronavírus que são conhecidas por circularem entre animais, mas nunca chegaram aos seres humanos.

O paciente-zero, Zeng, de 61 anos, foi a primeira vítima mortal desta nova estirpe de coronavírus, que até aqui só tinha sido identificada em animais: nunca tinha sido detetada em humanos.

De onde veio o vírus?

Não se sabe. Os primeiros casos de infe­ções surgiram num grupo de 41 pesso­as que tinham visitado um mercado de marisco e animais selvagens em Wuhan, daí que se tenha começado a olhar para o mercado de Wuhan como o epicentro do surto, embora haja outras teorias que duvidam de que tenha sido apenas esse o início da propagação do vírus para hu­manos.

Foi, contudo, a partir desses 41 pacientes iniciais que a comunidade científica co­meçou a sequenciar o material genético do vírus. A informação permitiu descobrir duas coisas: a primeira, que o vírus era muito semelhante ao SARS; a segunda, que era geneticamente parecido a um ví­rus que existe numa espécie de cobras da China, as Twain, que são muito veneno­sas, mas com as quais os chineses fazem espetadas. Essas cobras estavam à venda no mercado onde o surto parece ter co­meçado, daí que a comunidade científica tenha começado por fazer essa ligação.

Contudo, o aspeto físico do vírus revelou-se depois semelhante a um agente infe­cioso que já tinha sido detetado em mor­cegos. Segundo a Universidade da China, isso podia indiciar que os morcegos infe­taram as cobras e que as cobras, através das fezes, transmitiram o vírus aos huma­nos pelo ar que circulava no mercado e que os doentes respiraram. A verdade é que havia muitos morcegos e cobras no mercado em questão.

A hipótese da cobra, contudo, começou a perder força, mas a do morcego não. O morcego é o que a maioria dos especia­listas aponta como fonte primária, já que os genomas do novo coronavírus são 96% iguais aos que circulam no organismo dos morcegos. Não é a primeira vez que estes mamíferos são apontados como “reserva­tórios naturais” das últimas grandes epi­demias. Acredita-se que tanto o Ébola, a epidemia que matou, entre 2013 e 2016, mais de 11 mil pessoas na África Ociden­tal, como o vírus da Síndrome Respirató­ria Aguda Grave (SARS-CoV) tenham tido também origem nos morcegos.

Como é que o novo coronavírus infeta os humanos?

O COVID-19 tem uma proteína que, quan­do se aproxima de uma célula humana, une-se a outra chamada ACE2. Quando isso acontece, o vírus introduz o seu ma­terial genético (o ARN) na célula humana, que, confundindo-o com o próprio mate­rial genético, começa a produzir proteínas virais por engano.

Uma vez dentro da célula, o material ge­nético do vírus começa a replicar-se e os novos exemplares ficam encapsulados por uma espécie de “bolsa” proteica — algo que acontece com muita facilidade porque o vírus toma como refém o siste­ma metabólico da célula para que traba­lhe apenas a seu favor. Depois, os novos coronavírus furam a membrana celular e escapam para infetar novas células.

A proteína ACE2 existe nos pulmões, rins, coração e intestinos. É a mesma à qual o vírus do SARS se ligava para contaminar os humanos. Mas há uma diferença: o COVID-19 consegue fazer isso com ain­da mais eficiência do que o coronavírus de 2003, porque há uma maior com­patibilidade entre os aminoácidos que compõem estas proteínas, o que pode justificar a facilidade com que o novo co­ronavírus se espalha.

Que sintomas são mesmo relevantes?

Os sintomas mais comuns do Covid-19 são febre, cansaço e tosse seca, de acor­do com a Organização Mundial de Saú­de (OMS), a que a DGS acrescenta ainda a dificuldade respiratória (falta de ar). Muito poucas pessoas espirram ou têm congestão nasal, mas alguns doentes podem ter dores musculares. Apesar disso, a DGS destaca congestão nasal, dores de garganta e diarreia como pos­síveis sintomas, lembrando ainda que há pessoas que podem estar infetadas e não desenvolver qualquer sintoma. Os sintomas costumam surgir de forma leve e gradual.

Nos casos mais graves, refere a DGS, a doença pode levar a “pneumonia com insuficiência respiratória aguda, falên­cia renal e de outros órgãos, e eventual morte”.

As pessoas que cheguem de algum dos locais referidos como focos de contágio, mas que estejam assintomáticas, devem estar, ainda assim, atentas aos 14 dias seguintes, uma vez que podem desenvol­ver sintomas. Isto porque se estima que o período de incubação — isto é, o tem­po entre contrair o vírus e começarem a surgir sintomas — seja de um a 14 dias. No entanto, na maioria dos pacientes, os sintomas aparecem ao fim de cinco dias. A DGS recomenda que a temperatura corporal seja medida duas vezes por dia e que os valores sejam registados.

Como devo proteger-me?

São várias as recomendações da Orga­nização Mundial de Saúde para agir de forma preventiva face à possibilidade de infeção:

  • Se visitar mercados de animais, evitar contacto direto com eles e superfícies em contacto com animais;
  • Evitar consumo de carne crua ou mal passada;
  • Lavar regularmente as mãos com água e sabão ou produtos à base de álcool;
  • Manter distância (pelo menos um metro) de pessoas que estejam com sintomas visí­veis, como tosse, espirros ou febre;
  • Usar máscara respiratória para evitar a propagação de qualquer doença respira­tória. O uso isolado da máscara, contudo, não garante nada, uma vez que o vírus também se transmite através do contac­to com superfícies infetadas. O conselho é usar máscara por precaução apenas se tiver sintomas de doença respiratória (tosse ou espirros).
  • Mas também há regras para usar a más­cara devidamente: lavar as mãos antes de colocar a máscara, evitar tocar na másca­ra enquanto a usa, e, quando a tirar do rosto, deve ter atenção para não tocar na parte da frente.

Uma das dúvidas mais frequentes é se é seguro receber uma encomenda vinda da China, mas a Organização Mundial de Saúde tranquiliza neste ponto: “É seguro. As pessoas que recebam encomendas da China não correm risco de ser infetadas pelo novo vírus, uma vez que, a avaliar pela experiência com outras estirpes de coronavírus, o vírus não permanece mui­to tempo neste tipo de objetos, como pa­cotes ou cartas”, lê-se no site da Organiza­ção Mundial de Saúde.

esmagadora maioria dos infetados recu­pera do vírus sem precisar de um tratamen­to específico. Uma em cada seis pessoas fica gravemente doente e tem dificuldades respiratórias, sendo que os idosos e as pes­soas que já tenham problemas de saúde como hipertensão, problemas cardíacos ou diabetes são os que têm uma maior proba­bilidade de ficarem gravemente doentes. Apenas uma pequena percentagem de do­entes morre devido ao Covid-19.

Quem não esteja ou não tenha viajado para uma zona com casos confirmados, ou não tenha tido um contacto próximo com alguém que tenha estado num des­ses países e não se esteja a sentir bem, tem uma probabilidade baixa de contrair este vírus, refere ainda a OMS.

Há algum tratamento ou vacina para o Covid-19?

Não. Tanto a DGS como a OMS referem o mesmo: atualmente não existe uma vaci­na, embora estejam a decorrer várias in­vestigações para a desenvolver. Também não há nenhum tratamento específico para o novo coronavírus, havendo apenas tratamento para os sintomas que o doen­te possa apresentar (tosse, febre, entre outros).

A OMS reforça ainda que os antibióticos não servem para tratar vírus, uma vez que só têm efeito em infeções bacteria­nas. Para a OMS, apenas um fármaco pa­rece ter eficácia real. Depois de ter sido usado, com sucesso, no primeiro doente nos EUA, o Remdesivir vai ser usado nos doentes italianos.

Em caso de uma suspeita de infeção, qual é o processo?

Em primeiro lugar, é preciso que um caso seja validado como suspeito. Para isso, de acordo com a mais recente orientação da Direção-Geral de Saúde (DGS), a pessoa tem de ter uma infeção respiratória (febre ou tosse ou dificuldade respiratória), que pode levar ou não à hospitalização, e tem de ter estado em “áreas com transmissão comunitária ativa” — isto é, China, Coreia do Sul, Japão, Singa­pura, Irão e Itália — nos últimos 14 dias antes de começar a ter sintomas.

Doentes que apresentem os critérios clíni­cos acima mencionados e tenham estado em contacto ou com um doente infetado ou com um caso suspeito duas semanas antes de aparecerem os sintomas ou en­tão com um profissional de saúde que tenha estado a tratar pacientes com Co­vid-19 também são considerados casos suspeitos.

Se tiverem alguns dos sintomas associa­dos à infeção, as pessoas devem — e an­tes de irem a qualquer unidade de saúde — ligar para o SNS24 e é através deste nú­mero que irão receber as devidas orien­tações. Cabe à DGS, juntamente com um médico de um dos três hospitais de refe­rência, validar o caso como suspeito, ten­do por base o relato do paciente.

Se for considerado suspeito, é acionado o INEM para fazer o transporte do doente.

Quais são os hospitais que já estão preparados para receber doentes?

Há três hospitais que estão “permanente­mente preparados” para receber doentes com coronavírus ou casos suspeitos de in­feção, segundo a diretora-geral da Saúde, Graças Freitas: o Hospital de São João, no Porto — que admite tanto adultos como crianças —, o Hospital Curry Cabral e o Hospital Dona Estefânia, ambos em Lisboa. O primeiro recebe apenas adultos enquan­to que o último só pode internar crianças.

Entretanto, com o avançar do crescimen­to da epidemia, foram entretanto ativa­dos alguns hospitais de segunda linha, que estão agora preparados para rece­ber doentes infetados com Covid-19. São eles:

  • Hospital de Braga
  • Hospital de Santo António (Porto)
  • Hospital Pedro Hispano (Matosinhos)
  • Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (incluindo o hospital pediátrico)
  • Hospital da Guarda
  • Hospital de Santa Maria (Lisboa)
  • Hospital de Faro
  • Hospital Dr. Nélio Mendonça (Madeira)
  • Hospital Santo Espírito (Açores)

“Em última análise, se houver uma escala e se evoluirmos para epidemia no nosso país, no futuro todos [os hospitais] estarão prepa­rados para receber doentes“, afirmou Graça Freitas, Diretora Geral de Saúde.

Devo evitar hospitais e outras áreas públicas?

Sim. A recomendação da DGS é a de ligar para a linha Saúde 24, antes de qualquer outra coisa, no caso de ter os sintomas já descritos, de tiver viajado para algum país onde haja foco de infeções ou se tiver tido contacto com alguém infetado.

Quanto a outras áreas públicas, o Gover­no já anunciou o encerramento de espa­ços como escolas, discotecas e bares. Os centros comerciais passarão a ter um nú­mero limite de pessoas que podem entrar. Quanto aos restaurantes, terão de limitar a sua capacidade a 1/3 do habitual.

A que outros objetos devo estar atento?

China e Coreia do Sul têm estado a desin­fetar notas bancárias, por receio de que o vírus possa sobreviver na superfície, en­quanto a Organização Mundial de Saúde aconselha uso de tecnologia contactless nos pagamentos. Mas há mais objetos do nosso dia a dia que contribuem em larga medida para a propagação do vírus, depois deste alerta dirigido ao uso do di­nheiro:

  • Comandos de televisão ou ar condicio­nado;
  • Puxadores de portas;
  • Copas do escritório;
  • Máquinas Multibanco e bilheteiras au­tomáticas;
  • Corrimãos;
  • Superfícies de casas de banho públicas;
  • Apertos de mãos em hospitais;
  • Telefones;
  • Lugares de avião;

O isolamento, é obrigatório?

Não é obrigatório. Contudo, tendo em con­ta o evoluir da situação, o Governo decre­tou estado de alerta, o que significa que os contactos sociais serão mais reduzidos e que os ajuntamentos devem ser evitados.

Várias empresas começaram já a adotar planos de contingência para que alguns funcionários trabalhem a partir de casa. O mesmo está a ser aplicado na função pú­blica. Múltiplas autarquias decidiram en­cerrar espaços como piscinas municipais, salas de espetáculos e museus. Vários ins­tituições de ensino superior fecharam tam­bém portas.

Rui Paula – Restaurante DOC

É um problema muito grande, os gru­pos foram todos desmarcados, pelo menos até julho. Não temos gente a comer e portanto é uma catástrofe. Estamos a cumprir com todas as nos­sas obrigações até ao final do mês e depois temos de ver como vai ser, or­ganizar o negócio.

A quebra é de 90%, não só no DOC mas em todos. Um negócio des­tes para ser sustentável tem que ter clientes, não havendo clientes não há muito a fazer. Poderá haver medidas que ajudem durante um mês ou dois mas depois disso, não havendo clien­tes não há nada que se possa fazer, vai tudo por água abaixo.

As medidas mais imediatas seriam, por exemplo, que os senhorios não cobrem renda durante este período, que não se pague água e luz, ou pelo menos não a totalidade, o mesmo com os impostos, que haja uma linha de ajuda, que o layoff seja simplifica­do… um conjunto de situações para as quais devemos estar todos no mesmo barco, todos a ajudar.

Isto é transversal a toda a gente, não só na restauração mas também na hotelaria, os hotéis também estão a sofrer como nós.

Esta situação pode ter implicações sociais porque só eu tenho à minha responsabilidade mais de 90 postos de trabalho, é muita gente. Mesmo a nível de fornecedores, isto é como um baralho de cartas, quando cai a primeira carta o castelo desmorona-se. Não há hipótese, isto é uma cala­midade.

Ninguém estava preparado para isto até porque nem os nossos pais ou avós passaram por algo semelhante. Ninguém tem culpa disto, só nos resta tentar minimizar os estragos.

Neste momento ainda estamos aber­tos até que tenhamos as nossas obri­gações cumpridas, depois vamos fe­char até porque temos autorização para atender um terço da capacida­de do restaurante mas já nem esses clientes temos.

Manuel Osório – Restaurante Castas e Pratos

Encaramos esta situação com muita preocupação. No início, como quase toda a gente, olhamos para isto com alguma leviandade mas agora com muita preocupação. Desde logo por uma questão de saúde pública, por isso também já fechamos o restaurante. É a primeira vez que fechamos em 12 anos, era a única coisa que se impunha.

Havia uma preocupação com os nosso colaboradores, clientes e fornecedo­res, por isso tomamos esta decisão, que foi muito difícil.

No futuro acho que vamos ultrapassar isto mas vejo aqui uma questão econó­mica muito grave. No nosso caso es­tamos a falar de 20 colaboradores, 20 famílias que dependem de nós.

Depois de janeiro e fevereiro, que são meses que sabemos que são fracos e que usamos para outras situações como formações, férias, etc, os próxi­mos meses seriam de recuperação até pelo período de Páscoa que se avizinha mas, com tudo isto, não sei como será o futuro. É uma situação muito grave que ainda não sabemos como vamos com­bater.

O cancelamento de reservas foi expo­nencial, fomos deixando de receber reservas para começar a receber can­celamentos e, o que me preocupa é que já foram canceladas reservas para abril e maio. Isto perspetiva um futuro muito complicado para o turismo, mais especificamente para o Douro.

Carlos Monteiro – CM Tours

Estamos a encarar esta situação como uma situação dramática visto que 99% do nosso core business são os passeios turísticos e de há uma semana para cá as nossas reservas desapareceram.

Já paramos de laborar até porque para nós é mais importante olhar para os nossos funcionários, para os nossos clientes e, sobretudo, para a popula­ção em geral.

Na noite em que Donald Trump anun­ciou o fecho do espaço aéreo tivemos cerca de 150 cancelamentos. Nós trabalhamos muito o mercado norte americano e partir desse momento foi uma limpeza geral a nível de reservas.

As nossas preocupações agora são inúmeras, desde logo a partir do mo­mento em que paramos deixamos de ter fonte de receitas, temos 20 famílias para alimentar, não sabemos quando é que isto vai voltar a uma normalidade. Do meu ponto de vista o ano de 2020, em termos turísticos está perdido até porque, no final disto as pessoas vão ter que ganhar novamente confiança para poder viajar.

Estou bastante preocupado deste hoje até à incógnita até porque temos bas­tantes responsabilidades e muitas fa­mílias a depender de nós.

Alice Carneiro – Original Douro Hotel

Inicialmente temos que perceber quan­to tempo isto se vai prolongar, é tudo muito imprevisível e não sabemos os reais efeitos que vai ter. Os cancelamen­tos não param de chegar, são diários… Entretanto temos já os funcionários em casa sem uma resposta para lhes dar para que eles se sintam seguros por exemplo ao nível de salários. Principal­mente esta questão gera uma enorme preocupação.

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