António Fontainhas Fernandes: “Eu diria que a UTAD faz parte do meu ADN”

António Fontainhas Fernandes, reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD)/ Foto: Salomé Ferreira

António Fontainhas Fernandes, reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD)/ Foto: Salomé Ferreira

António Fontainhas Fernandes assumiu em 2013 o cargo de reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. O VivaDouro esteve à conversa com o reitor, onde falou acerca destes dois anos de mandato, revelando ter o “sentimento de dever cumprido”.

Começou o seu percurso na UTAD enquanto aluno de engenharia zootécnica em 1985, depois disso já desempenhou vários cargos dentro da universidade. Porque é que optou por ficar pela UTAD? De que forma é que a instituição o conquistou até chegar ao cargo de reitor?

Eu vim estudar para Vila Real devido a um erro de colocação. Na altura a inscrição no ensino superior não era tão clara e vim parar a Vila Real. A única coisa que devo dizer é que a instituição, devido à proximidade aluno- professor, cria laços afetivos muito grandes e o aluno aqui cria um sentimento muito forte. Eu diria que a UTAD faz parte do meu ADN.

Dois anos depois de assumir funções de reitor, quais são as principais mudanças que aponta na UTAD neste período de tempo?

Neste momento aponto mudanças estruturais, há uma concentração de toda a área de ensino e investigação no campus, estava dispersa e neste momento está concentrada e há um plano de ordenamento físico, isto seria a primeira grande mudança. A segunda grande mudança, de uma enorme transparência, quer interna, quer externa, tem como resultado uma credibilidade que é reconhecida. Em primeiro lugar fiz o equilíbrio das contas, era o primeiro grande objetivo e que sempre mantivemos todos os anos. Em segundo lugar, arrumar a casa, já o fizemos do ponto de vista físico e vamos fazer do ponto de vista funcional. O terceiro grande objetivo é lançar novos projetos ao abrigo do quadro comunitário, para sermos sustentáveis e competitivos e isto não são palavras vãs, são três momentos: equilíbrio das contas, arrumar a casa física e funcionalmente, lançar novos projetos com a região e as outras universidades.

A UTAD foi a primeira instituição de ensino superior a ser formada no interior norte. Quais são os maiores desafios em ser reitor de uma universidade do interior do país?

O maior desafio é mostrar perante o exterior que as instituições têm de ter um projeto de afirmação claro e que devem justificar a sua existência e não propriamente uma questão de mais um serviço que o interior deve ter. Nós temos que ter um projeto para o território, ou seja, a missão das universidades centra-se no ensino, na investigação, na transferência de conhecimento, só que as universidades que estão situadas em zonas deprimidas como é o caso de Trás-os-Montes e o Douro, têm que ter uma quarta dimensão, que é o território. Portanto nós temos que ter projetos de desenvolvimento e que não seja apenas agrário.

A confiança para um reitor de uma universidade como esta é um ponto primordial?

Todas as relações na universidade têm de ser de confiança, seja entre os departamentos e o reitor, os centros de investigação e o reitor, os estudantes e o reitor, tem que existir entre todos, tem que se criar condições de confiança e de estabilidade, isto é fundamental.

Com os cortes orçamentais as universidades têm cada vez mais de procurar formas de financiamento próprias. Qual é o risco disso?

Enquanto reitor percebi que como universitários não podemos ser uma ilha, ou seja, quando o país teve que fazer um enorme esforço coletivo face a uma situação de grande complexidade interna e externa, do ponto de vista financeiro, temos que dar o exemplo e contribuir para esse esforço e foi o que fizemos. A única questão que aqui se coloca é que devíamos ser nós a apresentar as soluções para essa diminuição. Não costumo reivindicar mais fundos para as universidades com mais debilidade, o que eu acho é que devia ter existido um incentivo para aquelas que fizeram uma correção de trajetória como é o caso da UTAD. Esta fez uma nova trajetória, corrigiu assimetrias fortes que existiam do ponto de vista de debilidades estruturais, mas não tivemos qualquer incentivo. Na minha opinião quando se faz uma reforma do Estado e das instituições deve existir um incentivo, porque nós agora precisamos de investir, ou seja, para lançarmos novos projetos no Quadro Comunitários necessitamos de cofinanciamento e era importante que as Universidades que têm um modelo de gestão diferenciado tivessem sido incentivadas.

Que impacto é que as restrições orçamentais estão a ter na área da investigação?

Respondeu à questão que eu coloquei. Porque mais do que os cortes que alguns chamam cegos, a mim não me preocuparam os cortes, preocupou-me a falta de visão estratégica do ponto de vista da investigação, porque quando assumi a liderança da UTAD estava em curso uma reforma das unidades de investigação. Mas essa estratégia não coincidiu nem foi articulada com a estratégia de especialização inteligente. Portugal estava a definir um novo Quadro Comunitário em que as regiões têm que ser forçosamente especializadas e inteligentes, bem como as instituições lá localizadas. Isso não foi feito. Nós focalizamos em determinadas áreas, portanto nesses setores teríamos que ser observados de uma perspetiva diferente. Por isso é que apresentámos como contraproposta uma solução e o Governo acolheu a proposta da Plataforma de Inovação da Vinha e do Vinho. Isto é um exemplo de como a UTAD se pode diferenciar de todas a nível nacional e ter uma bandeira a nível internacional. Portanto isto não foi um projeto reivindicativo, foi para mostrar que estas instituições podem ter projetos diferenciados relativamente às outras instituições, existe aqui uma estratégia clara.

Pegando ainda na questão Plataforma de Inovação da Vinha e do Vinho, em que medida é que esta plataforma vai contribuir para o desenvolvimento da UTAD e da região?

O grande objetivo da Plataforma é obter um conjunto de recursos financeiros para contratar recursos humanos. Nós queremos focar aqui recursos humanos, vindos do exterior, para desenvolver a investigação de acordo com os interesses das empresas, não só do Douro mas também do Dão, dos vinhos verdes, da Bairrada, ou de qualquer região vitícola do mundo. Portanto quando se fala na vinha e no vinho estamos a falar no território e o território é cultura, é economia. Os projetos dos centros e da própria fundação deviam ser articulados com a região.

É abusivo afirmar que a UTAD é o principal motor do distrito de Vila Real?

Eu acho que neste momento todas as regiões que se queiram desenvolver e aumentar a coesão com a União Europeia têm de apostar no conhecimento. Não há outra alternativa a não ser a aposta no conhecimento e neste caso tem de ser um conhecimento diferenciado, portanto a UTAD não tem que ser apenas da cidade de Vila Real mas de todo o interior Norte. Outro dos objetivos era a criação de uma universidade em rede com as outras universidades públicas do Norte.

Como é que classifica a relação da UTAD com as restantes universidades?

Neste momento esse é um dos pontos do programa que está concluído. Assim, grande parte das candidaturas aos fundos comunitários são candidaturas integradas das três Universidades (Porto, Minho e UTAD). Por exemplo, há um projeto de desmaterialização da UTAD, de acabar com a circulação de papel, esse projeto de modernização administrativa é integrado com as outras duas universidades. Julgo que em dois anos se conseguiu fazer algo que era impensável quando assumi a responsabilidade de reitor. Nessa altura era impensável criar a Universidade do Norte e neste momento não está mais avançada porque não há legislação de enquadramento, a lei dos consórcios não existe e portanto as três instituições estão a apresentar candidaturas conjuntas. Neste momento há um problema de legislação, por outro lado, estamos mais preocupados em desenvolver trabalho do que o comunicar, preferimos comunicar resultados e não projetos.

O que é que distingue a UTAD das outras universidades?

A UTAD é uma Universidade de pequena dimensão, situada numa zona deprimida, com fortes ameaças e toda uma envolvente externa muito complicada, no entanto podemos ser competitivos e sustentáveis em determinadas áreas diferenciadas. Como servem de exemplo a Enologia, a Medicina Veterinária, o Desporto e as áreas do Turismo e da Gastronomia.

Quando chegou a reitor da UTAD sentiu que era uma universidade politizada ou nem por isso?

Eu não me preocupei com o passado. Na campanha eleitoral disse que não tinha retrovisores mas tinha óculos para ver ao perto e ao longe, mas principalmente ao longe. Portanto a minha preocupação não era culpabilizar o passado porque eram outros tempos, eram outras políticas nacionais e interessava sim como preparar a universidade para o futuro. Nunca me viram criticar nada do passado, não é a minha preocupação. Os problemas são para ser resolvidos e quem gere tem que apresentar soluções e não desculpas.

Realizou-se recentemente em Coimbra um debate acerca do Ensino Superior Pós-Bolonha. Qual é a sua opinião relativamente a este tema? O processo de Bolonha foi mesmo uma janela de oportunidades para a Europa?

Eu julgo que Bolonha numa primeira fase passou apenas por um novo formato aos cursos, tentar diminuí-los de cinco para três anos, foi integrado para permitir a mobilidade interna e externa. Mas entretanto o sistema privilegiou os mestrados integrados, ou seja, introduziu um novo facto mas com o mesmo tamanho de cinco anos portanto isto complicou o sistema. Se nós quisermos aumentar mesmo a mobilidade e se quisermos ter novos formatos tem que surgir uma nova dimensão para Bolonha.

No que diz respeito ao abandono escolar, a UTAD lançou recentemente um projeto para travar este problema. Há neste momento muitos alunos a desistir da universidade devido a questões económicas?

Foi publicado recentemente em Diário da República um louvor ao docente da UTAD que acompanha esse estudo. Aqui está um exemplo que a UTAD pode ser uma universidade piloto em matérias de eficiência pedagógica, nomeadamente no sucesso académico. Nós fizemos um observatório, fizemos uma análise, inquirimos os alunos que abandonaram o sistema e percebemos que 80% dos alunos que abandonam a universidade fazem-no no primeiro ano. Isso significa que é no primeiro ano que nos temos que concentrar, agora quais as causas? Económicas? Também. Outro tipo de causas são a integração no sistema, o estudante não vem preparado do secundário, o curso não corresponde às expetativas, portanto há um conjunto de fatores em que tem que ser feita intervenção logo no primeiro ano. Neste campo lançámos este ano um programa de orientação tutorial, à escala piloto, em que um conjunto de docentes se disponibilizou para apoiar estudantes que têm de ser sinalizados. A ação social lançou um fundo de apoio aos estudantes com problemas económicos, um género de um pequeno emprego, um pequeno part-time, portanto em vez de um sistema assistencialista apostámos num sistema mais proactivo e tentar evitar o afastamento dos estudantes por razões económicas ou por problemas de integração.

Fala-se das praxes como um método de integração. Vê esta atividade com bons olhos? Esta prática é bem-vinda aqui na UTAD?

Não há nenhum reitor que aprecie as praxes, porque somos de um outro tempo, mas também temos que perceber que vivemos noutros tempos e que não é pela repressão e pela imposição que vou resolver o problema.

Quais são os principais desafios que se impõem ao crescimento da UTAD?

A UTAD não tem como objetivo o crescimento, tem como objetivo consolidar a instituição e torná-la num projeto credível e sustentável. O objetivo passa também por captar alunos a nível internacional, para não haver só mercado à escala regional. Por outro lado também não podemos esquecer a ligação com o território, temos que ser um motor de projetos atrativos de novas empresas para podermos ter mais população e coesão.

A internacionalização também é uma prioridade para a universidade?

A internacionalização é transversal a todas as áreas, seja no ensino, na investigação, na transferência de conhecimento. Também nos preocupamos na internacionalização. Mas também há outros quadros que achamos prioritários. Como serve de exemplo a área desportiva, a UTAD tem que ter como bandeira a prática desportiva num quadro de internacionalização. Portanto este quadro de referência em determinadas áreas desportivas é um novo quadro de internacionalização, não podemos pensar só nos convencionais.

Qual é balanço que faz até agora do seu mandato enquanto reitor?

A resposta é muito simples: é o sentimento do dever cumprido.

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