António Magalhães: “A classificação enquanto Património Mundial foi o melhor que aconteceu ao Douro”

Quinta do Junco, Pinhão/ Foto: Salomé Ferreira

Tendo como cenário a Quinta do Junco, situada nos vinhedos históricos mais conhecidos do Vale do Pinhão, o VivaDouro esteve à conversa com António Magalhães, diretor de viticultura da Taylor’s. Com um percurso notável na área o Engenheiro Agrónomo falou-nos  acerca da evolução do território nos anos que se seguiram à classificação de Património Mundial pela UNESCO. Leia a entrevista e fique a conhecer a viticultura do Douro pelos olhos de António Magalhães. 

António Magalhães, diretor de viticultura da Taylor´s / Foto: Salomé Ferreira

Em 2001 o Alto Douro Vinhateiro (ADV) foi considerado como Património Mundial da Humanidade. Cerca de 15 anos depois desta inscrição qual é o retrato que faz da região neste momento?

Eu penso que a classificação do Douro enquanto Património Mundial pela UNESCO foi o melhor que aconteceu ao Douro. Tenho muita pena de os viticultores do Douro não estarem ainda à altura dessa classificação e tenho ainda mais pena da maior parte das instituições e de próprias associações de viticultores também não estarem à altura dessa inscrição.

O que é que falta para estarem à altura da inscrição?

Há um erro na classificação ou na maneira como o processo tem sido conduzido. Os viticultores têm sido mantidos à margem dessa classificação. Não há envolvimento dos viticultores da região. Na altura da classificação eu recebi uma boa notícia porque o Douro atravessava uma fase muito má na viticultura, sobretudo consequência de uma escola, que nós podemos chamar de escola do PEDRITM que cria um modelo de vinha absolutamente errado na década de 1980. Nessa década houve algumas vozes contra o modelo de vinha, mas o que é facto é que a região enveredou por esse modelo absolutamente errado. Errado porque por um lado, sendo a região do Douro uma região de viticultura de montanha, o foco do viticultor é proteger e conservar o solo da erosão pelas chuvas. No entanto o modelo, na arquitetura do terreno não cuidou esse aspeto, o que foi grave. Segundo aspeto, nas primeiras vinhas pós filoxera, fomentámos a densidade de plantação da vinha e aquele modelo acabou por baixar a densidade de plantação. Por último e gravíssimo, focou-se num número restrito de castas que, de uma maneira geral, é condenado hoje, mas pior que esse número restrito foi a sua colocação no terreno de forma administrativa. Em vez de se colocar as castas como um puzzle consoante a característica individual de cada uma, distribui-se as castas no terreno de uma forma administrativa, percentual, um erro grande. Eu vi com muito bons olhos a classificação do Douro património mundial e era uma maneira de travar essa escola do PEDRITM. Infelizmente passaram-se quinze anos e a escola está muito enraizada cá dentro porque os viticultores estão obsessivamente focados na mecanização da vinha. Eu tenho esperança é que, de facto, aos poucos nós consigamos reverter este caminho e, no final, quando virmos a história todos concordemos que valeu a pena a classificação do Douro Património Mundial.

Que mudanças podemos registar no panorama da viticultura nos últimos 15 anos, ou seja, desde o momento em que o Douro foi considerado Património Mundial?

Há uma condicionante que está a atrapalhar a classificação da UNESCO, enquanto não for resolvida pode ser uma luta em vão. Está a atrapalhar a afirmação de modelos de vinha corretos. No vinho do Porto existe uma classificação das vinhas e um sistema de benefício que permite fazer o rateio anual do benefício ao vinho do Porto, isto é, no fundo, todos os anos é fixado um objetivo de produção e é preciso ratear esse volume de vinho por todos os viticultores e a unidade de rateio do benefício foi, inicialmente, o milheiro (mil videiras). Quando a unidade de rateio é o milheiro, uma unidade de rateio muito inteligente em viticultura de montanha, está-se a dar uma instrução aos viticultores: plantem na unidade de superfície o maior número de videiras porque dessa maneira conquistam mais unidades de rateio. E assim vivemos durante décadas. Infelizmente, no fim do século XX, a unidade é transformada, passa por uma fase de hectare útil e, neste momento, o benefício é feito pela unidade de superfície, pelo hectare. Ao fazermos um rateio por hectare, pervertemos tudo. A instrução subjacente à unidade deixou de ser o número de videiras que eu planto, mas apenas a superfície que eu planto. Isto é, nós estamos a dizer aos viticultores: não se importem com o número de videiras que plantam, mas com a área que plantam. Isto está a levar a um descuido muito grande no número de videiras que se plantam. As densidades de plantação estão a baixar assustadoramente e não há forma de reverter a paisagem do Douro se a unidade de atribuição de benefício não for mudada. Enquanto não for mudada a CCDRN que é, no fundo, a zeladora do património terá uma luta em vão.

Falando agora de uma questão controversa, que tem marcado a agenda da região nos últimos anos, a Casa do Douro. Acha que esta instituição faz falta aos viticultores do Douro?

É absolutamente imprescindível uma associação de viticultores. A Casa do Douro foi uma ideia genial, mas só conseguiu triunfar no dia em que foi obrigatório a filiação dos viticultores. No início, quando a Casa do Douro foi concebida descuidou este pormenor e pensou de tal maneira que era importante que todos os viticultores seriam associados e houve um dia que descobriram que não, que afinal há uma incapacidade inata de associação dos viticultores do Douro. A única maneira da Casa do Douro triunfar foi tornar a associação obrigatória e aquilo que eu lamento na região é que há uma incapacidade grande dos viticultores se organizarem e falta, neste momento, refundar a Casa do Douro.

António Magalhães: “Não quero generalizar, mas a maioria das pessoas não reconhece a importância desta classificação pela UNESCO”

Considera que a inscrição na UNESCO deu consciência aos viticultores da importância deste território?

Não quero generalizar, mas a maioria das pessoas não reconhece a importância desta classificação pela UNESCO. Basta ver que todos os anos, em dezembro, se comemora o aniversário da classificação pela UNESCO e os viticultores não estão presentes, é uma festa política. Não há uma consciência, de facto, da importância. É como se recebêssemos um título e não passa disso.

A salvaguarda do Douro Vinhateiro e das suas características ímpares foi um dos grandes objetivos desta inscrição. Como é que se consegue aliar a inovação à tradição num território como este?

Em primeiro lugar há um erro crasso, há uma palavra que está a estragar o Douro: inovação. Inovar é a pior palavra que existe no Douro. O Douro não precisa de inovar, o Douro sempre soube resolver a sua viticultura. Se todos lêssemos e estudássemos o Douro vitícola do século XVIII e do século XIX íamos descobrir que não falta saber nada, só falta ser fiel a esses princípios. O grande problema, no fim do século XX, foi que se esqueceram desta leitura, quiseram inovar, reinventar o Douro e cometeram-se os tais erros crassos. Talvez falte no Douro, neste momento, uma nota de preocupação que eu tenho, o foco no vinho do Porto. Falta-nos estima pelo vinho do Porto porque aquilo que nos distingue no mundo da vinicultura é o vinho do Porto, não é um vinho de mesa.

Acredita que esta inscrição na UNESCO ajudou a projetar anda mais o vinho do Porto além-fronteiras?

Ajudou a projetar a região. Não tanto o vinho, mas a região. E o turismo, por arrasto, vai ser o que vai ajudar a projetar o vinho do Porto. Terá de haver um papel grande, para que os turistas percebam o que é o vinho do Porto. É preciso não dividi-los e focá-los num tal novo vinho. O vinho do Porto é aquilo que nos distingue.

António Magalhães: “É fora da região que nós vamos encontrar mais estima pelo vinho do Porto. Isto é um paradoxo”

O consumidor português já é mais apreciador de vinho do Porto ou as pessoas de fora continuam a dar mais valor?

Há um desconhecimento muito grande sobre o vinho do Porto. Aquilo que eu mais vejo é que esse desconhecimento, essa falta de estima, está dentro da própria região. É fora da região que nós vamos encontrar mais estima pelo vinho do Porto. Isto é um paradoxo. Devíamos ter a estima dentro da região. De facto vivemos de costas voltadas. Temos uma região classificada Património Mundial e uma outra cidade, também classificada Património Mundial, o Porto, e uma ligação através do caminho-de-ferro e através do rio. Inteligentemente, se nós dermos mais um passo e formos a Espanha, vamos finalizar a nossa viagem numa outra cidade Património da Humanidade, Salamanca. Este caminho Porto-Douro-Salamanca em termos de turismo é excecional.

Falando do Turismo, acha que esta foi a área que mais beneficiou com a inscrição na UNESCO?

Eu acho que quem beneficiou, imediatamente, foi o turismo. A longo prazo quem vai beneficiar vai ser a viticultura, a região vitícola. Mas isso vai depender da capacidade dos viticultores da região e das instituições porque nós temos de construir e preservar paisagens. Aquilo que levou à classificação foram vinhas admiráveis, vinhas que nós soubemos plantar e que temos de renovar mas são vinhas cuja arquitetura do terreno é muito cara porque se suportam na construção de muros. A construção de muros é muito cara e não há dinheiro da parte dos viticultores para fazer essa construção, através das ajudas, que neste momento, são claramente insuficientes porque nos programas VITIS – Medida de Apoio à Reestruturação e Reconversão da Vinha – não é dada a devida importância à reconstrução/construção de muros. Para mim, essencial, neste momento é que a CCDR-N, enquanto zeladora deste Património Mundial, a única a qual eu reconheço competência para zelar pelo Douro, pudesse ter voz ativa e fazer uma coisa muito simples: em todos os programas VITIS deveria ser ouvida e deveria classificar os projetos pela sua importância, pela sua contribuição para a conservação e melhoria da paisagem. Esse devia ser o primeiro critério seletivo dominante, e todos os projetos que fossem considerados importantes para a conservação e melhoria da paisagem deveriam ser especialmente ajudados. O que está a acontecer é um erro crasso, estão-se a aprovar projetos que em termos de arquitetura paisagística são absolutamente medíocres e para os quais se dá, para todos os projetos, o mesmo nível de ajuda. O subsídio deveria ser em função direta do investimento e isso levaria a que, no final, construíssemos melhores vinhas.

Quais são os principais desafios que se impõem? Daqui a quinze anos o que é que era desejável estar feito?

O Douro precisa urgentemente de rever o PIOT – Plano Intermunicipal de Ordenamento do Território. A última revisão foi mal sucedida no aspeto da viticultura. Tiveram mais peso as vozes medíocres do que as vozes de bom senso. O primeiro PIOT foi excecional, foi o PIOT onde eu me revi. Esta última revisão foi uma oportunidade perdida porque devia-se ter ido mais além.

Em género de balanço, foi ou não foi uma mais-valia para a viticultura esta inscrição na UNESCO?

Eu considero que sim. Foi o melhor que me pôde acontecer nos últimos anos porque eu vivia infeliz com aquilo que via à minha volta enquanto duriense. Via à minha volta uma destruição da região. Mas que fique um aviso, basta percorrer a estrada A24, entre Vila Real e Régua, que é sem sombra para dúvidas o troço da autoestrada mais bonito do mundo que eu conheço, e, infelizmente, nós estamos a ver essa destruição de vinhas, todos os anos. Oxalá que nós nunca deixemos mudar aquelas vinhas à volta da aldeia de Nogueira como estamos a deixar fazer à volta da aldeia de Vila Maior.

Que futuro espera para o Douro nos próximos anos?

O Douro tem séculos de existência e sempre viveu da chamada questão duriense. Sempre viveu infeliz, sempre achou que era mal pago, sempre achou que tudo de mal acontecia no Douro. Mas ele está de pé por causa do vinho do Porto. Aquilo que eu espero que venha a acontecer é podermos fazer um balanço seguro, daqui a uns anos, que a classificação da UNESCO tenha recuperado esta região e que o vinho do Porto seja o grande vinho do Douro, o grande vinho de Portugal.

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