Douro vive verão com pouca gente

Por estes dias as ruas e ruelas das aldeias, vilas e cidades do Douro estariam a fervilhar de gente. Entre os emigrantes que regressavam para visitar a sua terra natal e os curiosos turistas que nos visitam todos os anos, o Douro seria ponto de encontro para muitos, contudo, devido à pandemia tudo parece diferente e a tranquilidade reina por toda a região.

Todos os anos, a chegada do verão, em especial do mês de agosto, é sinónimo de milhares de pessoas por todo o território, aldeias que durante o ano vivem a um rit­mo compassado estariam cheias de filhos da terra que aproveitam o calor para reen­contrar família e amigos após um ano de ausência a trabalhar no país que escolhe­ram para procurar uma vida melhor.

Devido à pandemia Covid-19 este ano o ce­nário é diferente, os cafés não se enchem, as festas não se realizam, nas ruas não há centenas de carros com matriculas estran­geiras a denunciar a chega dos emigrantes.

Emigrantes chegam em pouco número…

Num café, ao lado da Câmara Municipal de Foz Côa, interrompemos uma conversa entre o seu proprietário e um cliente. Fer­nando Godinho é emigrante em Bordéus, França, não vinha à sua terra natal há dois anos mas, apesar da visita sente que algo está em falta.

Fer­nando Godinho

“O que custa mais, em especial para nós emigrantes, é chegar aqui, ver os amigos e familiares que não vemos há algum tempo e não os podermos abraçar, agora temos que falar com os cotovelos. Eu não vinha cá há dois anos e é muito complicado, este 2020 é um ano para esquecer, completamente”.

Fernando fez a ligação entre Bordéus e Foz Côa de carro, notou menos trânsito em di­reção a Portugal.

“Devido à Covid-19 houve muita gente que optou por não vir este ano, por medo de sermos contagiados. Em França, por exem­plo, não existe a questão de sermos obri­gados a uma quarentena no regresso mas penso que esse receio do contágio teve peso na decisão de muita gente, mesmo tendo a noção que em França a situação foi bem pior do que cá”, afirma, ficando ainda com um semblante mais carregado quando nos conta que o seu “pai vive em Lisboa mas não o vou visitar porque tenho medo de ser contagiado lá”.

Recordando os dias mais difíceis da pan­demia, Fernando lembra os dias difíceis de isolamento em que mesmo para ir ao su­permercado precisava estar acompanhado de uma autorização.

“Lá em França estive dois meses e meio fechado em casa sem poder trabalhar, eu trabalho na construção civil e ser obrigado a ficar em casa durante tanto tempo tor­na-se complicado. Podíamos sair para ir às compras, por exemplo, mas tínhamos que ter sempre connosco um papel onde era in­dicado o motivo da saída e o tempo que es­távamos autorizados a circular na rua, senão pagávamos uma multa… muito complicado”.

Agora, pelas ruas onde passou os primeiros anos da sua vida espera descansar e fazer uma “vida normal”. “Enquanto estou cá ten­to fazer uma vida dentro do normal, vou até à piscina ou venho aqui ao café. Obviamente que sempre com todos os cuidados como o uso da máscara ou a desinfeção das mãos”.

Enquanto decorre a nossa conversa com Fer­nando, José Constâncio, o dono do café, vai-nos observando e acenando positivamente com a cabeça, como sinal de estar familiari­zado com o que este emigrante nos conta, tantas vezes tem ouvido as mesmas coisas.

“Por esta altura deveria ter o café cheio de gente entre locais, emigrantes e turistas”, la­menta assim que o questionamos como tem vivido estes dias de uma nova realidade.

José Constâncio

“O turismo, que é uma referência na nossa região e em especial aqui em Foz Côa por causa das gravuras, do museu e dos vinhe­dos, está praticamente parado. Normal­mente aqui é uma enchente de gente, tan­to portugueses como estrangeiros mas este ano nota-se uma quebra muito grande”.

Apesar de estes dias não correrem bem para o negócio, José também confessa que a chegada de emigrantes e turistas traz al­gumas preocupações.

“Nós, que residimos aqui também temos algum receio dos emigrantes que chegam até porque sabemos que os países de onde vêm, França, Suíça e Bélgica, por exem­plo, foram países muito massacrados pela doença, estamos sempre com um pé atrás e com todos os cuidados de higiene a que a situação obriga”.

Os tempos são difíceis e, para quem gere um negócio, o cenário parece ainda pior.

“Na minha atividade estou convencido que se isto continua assim nunca mais volta a ser o que era e, para além disso, fica a ideia que isto são negócios a abater.

O negócio vive tempos de agonia, quem tiver que pagar rendas e salários a funcio­nários terá uma de duas soluções, ou fecha ou entra em insolvência, não há qualquer perspetiva até porque não há população local que justifique o negócio, há uma enorme carência de massa humana, não só porque isto é uma cidade do interior sem vislumbre de emprego o que obriga as pes­soas a saírem para o litoral ou mesmo para o estrangeiro”.

… e alguns não vêm mesmo

Alguns desses, dos que emigraram em bus­ca de uma nova vida, não regressam este ano às suas terras, como é o caso de Pedro Teixeira. Natural da freguesia de Canelas, Peso da Régua, Pedro emigrou em 2008 para Bruxelas.

“Foi precisamente em julho de 2008, que ainda adolescente e cheio de sonhos, abra­cei a minha primeira aventura de emigran­te. Foi claramente, um ato pensado, refle­tido, apoiado mas acima de tudo um ato corajoso e apaixonado, pelo qual ainda hoje recordo sem qualquer arrependimento. Foi nesse dia de verão que atravessei tantos quilómetros e pude finalmente reencontrar a pessoa que ainda hoje è a mulher da mi­nha vida. E assim começou a minha aventu­ra em Bruxelas”.

Pedro Teixeira

Quanto partiu, conta-nos, prometeu uma coisa a si mesmo, “por maiores que fossem os obstáculos teria sempre de ser mais for­te. E não permitisse que aquela saudade que me acompanhou desde o primeiro dia, acabasse por me abalar e fragilizar. Então decidi que regressaria pelo menos uma ou duas vezes, ate ao colo dos meus. Ate ás mi­nhas raízes”.

Pedro confessa mesmo que as visitas a Por­tugal, à sua terra e aos seus “sempre foram um ‘recarregar de baterias’ para mais uns meses de novas lutas e aventuras”.

Este ano as coisas são diferentes, a pande­mia que abalou o mundo e uma nova opor­tunidade obrigaram-no a mudar os planos e ficar por Bruxelas sem a habitual vinda a Portugal.

“O mundo vive momentos de mudança, momentos difíceis e inéditos. Para mim, também este ano, foi de mudança. Infeliz­mente e pela primeira vez, o meu agosto, aquele que è o meu tão sempre desejado mês, desta vez e por diversas razões será vivido aqui pela Bélgica. O país que ainda hoje me acolhe. Sem dúvida alguma que uma das razões, é este tão “estranho” Co­vid-19. Não a principal.

O ano de 2020 será sempre recordado por todos, como o ano da crise sanitária mun­dial. Ano difícil, para todos. Mas também acontecem coisas boas, como me aconte­ceu a nível profissional durante esta pande­mia. O futuro anuncia tempos difíceis por isso não podia deixar escapar a oportuni­dade de uma vida que me surgiu. Foi nes­te espírito que decidi abraçar este novo e ambicioso projeto para o meu futuro e da minha família”.

Apesar de Pedro se manter por Bruxelas, a sua mulher e o seu filho vieram até Portu­gal, confessa que não foi uma decisão fácil mas que foi consciente, encarando-a como uma pequena vitória contra o vírus.

“Depois de tomada a minha decisão em não entrar no avião que me traria de volta até a minha terra, tudo fiz para que, mesmo consciente das condições atuais de proteção contra a pandemia, no mínimo a minha fa­mília pudesse abraçar o meu filho e a minha mulher. Sei da importância que isso tem para nós. Uma família tao unida. Onde o afeto e o carinho sempre reinaram. Foi logo o fator que pesou na balança das decisões.

Não poderia permitir que ate isso o vírus nos retirasse. Já retirou tanta coisa, que pelo menos aqui ele não irá vencer.

Não foi fácil, a decisão de ficar sozinho, longe da minha maior relíquia, meu filho, assim como foi difícil os deixar viajar nes­tas condições, onde claramente estariam todos eles tao expostos á contaminação do Covid19.

Foi uma decisão bem refletida, por todas as partes . Acima de tudo foi uma decisão do coração, uma decisão humana. Uma deci­são que de intensidade bem inferior, mas que conseguiu também ela ser como “ o re­carregar das baterias” para mais uns meses de novas lutas… lutas que sem dúvida serão para vencer.

Hoje posso afirmar, que foi a escolha certa”.

Turistas também estão em falta

Apesar da maior procura que o interior de Portugal regista, a mesma não é ainda sufi­ciente para que o Douro atinja o número de turista que vinha registando nos últimos anos.

Numa viagem pela região rapidamente nos apercebemos de restaurantes a meio gás, quintas sem as habituais enchentes de curiosos ávidos em experimentar os néctares da região ou estradas sem os já habituais curiosos que vão parando aqui e ali para registarem a sua viagem com mais uma fotografia.

Alexandre Costa

é guia turístico numa das muitas embarcações que habitualmente cruzam o rio trazendo milhares de turistas ao Douro. À nossa reportagem confessa que este regresso se tem feito de forma lenta e regista também a mudança do per­fil do cliente que este ano é dominado pelo turista nacional.

“O regresso está a ser lento, temos que re­duzir a lotação a dois terços portanto temos muito menos clientes do que aqueles que tínhamos no ano passado, por exemplo.

Apesar disso está a ser um bom regresso, cada vez vão aparecendo mais pessoas e nota-se muito um crescimento do número de turistas portugueses”.

Apesar de até agora não terem registado nenhuma situação de incumprimento, Ale­xandre conta que antes do início de cada viagem são relembradas todas as medidas de segurança.

“As pessoas têm todos os cuidados e nós também lhes falamos de todas as medi­das de higiene e segurança antes de iniciar a viagem. Até agora não tivemos nenhum problema, se as pessoas não colaborarem as coisas ficam mais difíceis mas, como dis­se, até agora toda a gente tem colaborado”.

Cátia Morais e Duarte Pina são um casal da zona do Porto, em passeio pelo Douro a sessão fotográfica que vão fazendo no cais de embarque da Régua é interrompida pela nossa reportagem.

O casal começa por nos contar que inicial­mente o Douro não seria o seu destino de férias, contudo, devido à pandemia foram obrigados a alterar os planos.

Cátia Morais e Duarte Pina

“As férias já estavam marcadas desde o ano anterior ainda sem qualquer contexto de pandemia, estávamos a pensar viajar para Itália e com isto tivemos que alterar os nossos planos até porque Itália foi um dos países mais afetados pela Covid-19. Ten­do em conta isto passamos a ter em conta outros fatores em especial em termos de alojamento, procuramos um turismo rural de forma a evitar contactos para podermos passar umas férias tranquilas”.

Na escolha do Douro pesou o facto de ser uma região mais tranquila, com paisagens deslumbrantes e um perfil de alojamento que lhes permite viver estes dias com sen­timento de segurança, destacando ainda o calor que os recebe.

“O Douro surge nas nossas opções por ser um dos Patrimónios da Humanidade que temos em Portugal. Temos também ideia de ser uma zona mais tranquila em termos de turismo com a possibilidade de encon­trarmos um turismo rural onde consegui­mos ter menos contacto com outras pes­soas nesta fase que estamos a atravessar.

A viagem tem correspondido perfeitamen­te, mesmo em termos de clima com este calor mais duro do interior, nada que não se resolva com uma piscina ou uma visita a uma praia fluvial”.

Ricardo Afonso e Andreia Pereira são outro casal que se passeia pelas margens do Dou­ro. A viver em Guimarães Ricardo é natural de Bragança, onde ainda residem os pais, cidade onde terminará a viagem que estão a fazer.

“Está a ser uma visita fantástica. Passamos aqui pelo Douro em viagem para Bragança, aproveitamos o bom tempo para fazer este desvio. É uma zona muito bonita, já tínha­mos passado por aqui em outras ocasiões mas desta vez decidimos fazer uma para­gem e explorar um pouco”.

Ricardo Afonso e Andreia Pereira

O casal confessa-se um pouco surpreendi­do pela pouca quantidade de gente que vão vendo.

“Apesar da época do ano é uma zona onde não temos encontrado muita gente, senti­mo-nos perfeitamente seguros mesmo tendo uma criança como é o nosso caso, e nota-se que as pessoas têm cuidado, vê-se muita gen­te a usar máscara o que é sempre positivo”.

Desta curta visita fica uma certeza, o regres­so será em breve mas, desta vez, com mais tempo para poderem apreciar outras bele­zas da região.

“Sem dúvida que é uma viagem que re­comendamos, principalmente se tiverem oportunidade de a fazerem de barco. Desta vez não temos oportunidade mas estáva­mos a falar que temos de programar regres­sar aqui e fazer essa viagem”.

Enoturismo regista grande quebra

É já no concelho de Sabrosa que entramos na Quinta do Beijo, propriedade da família Monteiro que há três anos decidiu apostar no enoturismo.

Depois de registar um total de mais de 10 mil visitas em 2019, este ano seria não só de consolidação, mas de crescimento con­tudo, devido à pandemia, os planos foram alterados e a comparação já é feita com os primeiros meses de abertura do espaço aos turistas.

“O ano começou como para toda a gente, daquelas pessoas que eu já falei, começou muito bem. Estávamos a ter uma perspeti­va de crescimento em relação ao ano pas­sado. O ano passado, só para ter uma ideia, tivemos um crescimento exponencial foram cerca de 10 mil e quinhentas visitas. Este ano, desde janeiro até ao confinamento em março, ou seja, um trimestre, estávamos já a alcançar os números do primeiro semes­tre de 2019. A perspetiva era ótima, seriam entre 15 e 20 mil visitantes, o que para uma pequena empresa é ótimo.

Depois veio o confinamento, três meses em que o dinheiro saía para a agricultura e ou­tras despesas sem haver receitas, mesmo a venda de vinho parou. Passamos as passas do Algarve, como se costuma dizer.

João Monteiro

Agora com o desconfinamento, no mês de junho já tivemos algumas visitas, pouco, cerca de 10. No mês de julho já tivemos mais ou menos 50, o que já nos dá alguma perspetiva de crescimento para os próxi­mos meses. Agora aquilo que eu espero deste ano foi aquilo que eu esperei no meu meio ano de início de atividade, ou seja, tive quinhentas visitas num ano. É essa a minha perspetiva para este ano, porque nós temos de ter os pés assentes no chão, e olhando à realidade atual já é um bom número”, con­ta-nos João Monteiro.

O responsável da quinta conta-nos que, na sua maioria, os turistas que recebe são es­trangeiros, essencialmente americanos e nórdicos.

“No meu primeiro ano ativo inteiro tive muitos americanos, cerca de 70% de ame­ricanos, no meu segundo ano tive muitos americanos mas também canadianos e sul americanos. O ano passado tive muitos asiáticos e no final do ano já estava a come­çar a ter muitos finlandeses e dinamarque­ses. Este ano voltou a acontecer a mesma coisa, ou seja, Finlândia, Dinamarca, Alema­nha, Reino Unido, mas poucos americanos. Basicamente os americanos gostam mais do período de verão com a vindima e zero canadianos. Este mês de julho já só tive bel­gas e alemães. Tive só um casal espanhol”.