Encerramento de colégio gera revolta na Régua

No concelho de Peso da Régua, uma das instituições de ensino com maior reconhecimento é o Colégio Salesianos de Poiares, situado na aldeia que lhe empresta o nome desde que foi criado, há 94 anos. Agora, um decreto governamental ditou o encerramento da instituição afetando alunos, professores, funcionários e a economia de uma zona do interior.

O dia 15 de junho foi o último dia de aulas e foi também o último dia de portas abertas para este colégio que funcionava no regime de contrato de associação com o Ministério da Educação. Com as alterações a esses contratos de associação, o colégio perdeu turmas e, devido às novas regras de domiciliação fiscal, os alunos de, por exemplo, Vila Real, já não podem ir para ali estudar.

Enquanto quase todas as aldeias do interior perdem serviços e população, para Poiares o percurso era inverso. Ali chegavam alunos, professores e funcionários da Régua, de Vila Real e de outros concelhos próximos.

A revolta pelo encerramento foi espelhada numa manifestação que juntou alunos, pais, professores, funcionários, autarcas e muita população. As lágrimas e os rostos fechados, os olhares tristes e os gritos de revolta foram muitos à porta de um colégio que, todos afirmam, ser uma instituição de referência no ensino da região.

Com 27 anos de serviço, Maria José Magalhães é a funcionária mais antiga do colégio, questionada pela nossa reportagem sobre o sentimento que tem ao ver este estabelecimento encerrar, Maria José ainda esboça uma tentativa de resposta mas as lágrimas logo lhe começam a escorrer pelo rosto e a voz perde-se com elas.

“É muito triste… É a gente sentir que no nosso dia-a-dia demos tudo, sentimos o agradecimento dos meninos que passaram por cá e que vamos encontrando na rua, e de repente parece que deixamos de ser úteis, cortaram-nos as pernas. Ficamos sem saber o que fazer da nossa vida”, diz, já recomposta.

Vitor Pinto, funcionário do colégio

Também Vitor Pinto, funcionário dos Salesianos de Poiares há seis anos se sente revoltado com esta decisão do Governo. “No fundo é um sentimento de revolta. Como escola fizemos um papel muito importante ao longo destes anos, servimos o Estado e agora esse mesmo Estado está a destruir o nosso projeto, sem qualquer objetivo, é simplesmente o destruir por destruir.

É uma camisola que custa tirar. Quando vim para cá gostei do projeto e abracei-o como um projeto de vida. Era isto que eu gostava que todas as escolas fossem e agora estão-nos a deixar na mão porque não nos deixam fazer o nosso trabalho. Simplesmente estão a dizer aos Salesianos que não nos querem cá”.

Carla Fernandes é professora em Poiares há 20 anos e também a docente nos fala da revolta que sente, “é um sentimento de devastação, angustia e tristeza. Se estivesse a sonhar acordaria sobressaltada. Infelizmente não é uma miragem, é uma realidade com a qual nos temos de deparar neste momento. Não há palavras para descrever o que se sente.

Agora é esperar e fazer o que fazem os senhores deputados, eles vivem de ajudas de custo, eu vou viver do subsídio de desemprego, pelo menos enquanto espero que abra um buraco numa escola onde possa entrar.”

Antigos e atuais alunos e pais não calam a indignação

“O meu pai é antigo aluno, eu sou antigo aluno, os meus irmãos também e a minha filha também já é antiga aluna e eu quero que o meu filho mais novo também estude aqui. Aquilo que pedimos é que se cumpra a Constituição e que nos dêem liberdade de escolher onde queremos que os nossos filhos estudem”, as palavras são de Jorge Teixeira, um dos pais que mais evidencia a sua revolta.

Jorge Teixeira, ex-aluno e pai

“Este colégio é um exemplo, um caso único do combate à desertificação e um caso único em termos de ensino porque consegue fazer com que os alunos queiram vir para cá estudar, consegue trazer gente para esta aldeia e não vêm por outra razão que não a qualidade de ensino que lhe reconhecemos. Se não reconhecesse essa qualidade, como antigo aluno, não colocaria aqui os meus filhos a estudar”, conclui Jorge Teixeira.

Num abraço de grupo, tentando minimizar o sofrimento, encontramos quatro alunos do colégio, Francisca Lopes e Lara Sanches de 10 anos e Mariana e Gonçalo com 11 anos. Enquanto nos aproximamos é difícil não perceber que enquanto se abraçam, os 4 alunos choram compulsivamente e a perspetiva de irem estudar para Vila Real e Régua só faz aumentar a sua tristeza.

Grupo de alunos do 5º e 6º anos

“Sentimo-nos mal, aqui temos mais segurança e conhecemos toda a gente, numa escola maior isso não acontece”, afirma um dos alunos à nossa reportagem, enquanto um outro afirma “aqui a relação com os professores é muito próxima, brincam connosco no recreio e se vêm alguém mais desanimado tentam logo animar”.

Desta escola destacam não só a proximidade com colegas e professores mas também a qualidade do ensino as instalações e o sentimento de segurança que dizem possuir.

Carolina Correia, ex-aluna

Foi tudo isso que fez com que Carolina Correia opta-se por estudar nesta escola a partir do seu sétimo ano. “Até ao sexto ano andei numa escola pública, só vim para aqui no sétimo ano e, na escola pública não se preocupam com os alunos como aqui. Fui vítima de bullying e a direção da escola não quis saber, mesmo depois de verem o relatório da psicóloga que apontava não só maus tratos psicológicos como mesmo físicos. Acabei por tomar a iniciativa de vir para aqui e aqui fui feliz, não tenho a mínima razão de queixa e, mesmo chegando aqui com todos os problemas que cheguei, todos me receberam da melhor forma, os professores estavam sempre preocupados comigo, senti-me em família”.

Atualmente a irmã de Carolina é aluna do colégio e a possibilidade da irmã ter que frequentar a escola onde foi vítima dos colegas preocupa-a. “É triste saber que esta escola vai fechar e ver a minha irmã, que aqui estuda, a ser obrigada a ir para uma escola onde eu sofri o que sofri, preocupa-me muito”.

Mudança de escola preocupa

Uma das maiores preocupações dos pais é mesmo a mudança de escola para um estabelecimento de ensino público onde a proximidade entre docentes e alunos não é a mesma, bem como os métodos de ensino.

“Tenho dois filhos e os dois estudam aqui. O mais velho anda no 9º ano e já ia sair daqui mas o mais novo está apenas no 5º ano e agora vai ter que ir para a Régua. É mais uma preocupação para mim, mais uma insegurança. Vai ter que se pôr a pé mais cedo e vai chegar mais tarde, uma situação que pode baixar o seu rendimento até porque vai chegar mais cansado a casa”, afirma Maria José Magalhães.

A também funcionária do colégio diz ainda que receia que esta mudança desmotive o filho para os estudos. “Também fico preocupada com o meu filho mais novo porque ele não quer mudar de escola e isso pode desmotivá-lo nos estudos. Aqui os miúdos conhecem-se todos, é como uma família, na Régua as coisas são diferentes e há outros problemas que me preocupam como a segurança dele”.

Para a professora Carla Fernandes, esta situação é preocupante porque os alunos estão habituados a um sistema que não irão encontrar na suas novas escolas.

Carla Fernandes, professora

“A grande diferença desta escola é que tudo é feito a pensar nos alunos, desde o horário até à forma coma as disciplinas são lecionadas. Os alunos aqui são responsabilizados pelos seus atos e, se, por exemplo, um aluno não quer fazer desporto, pode fazer teatro ou outra atividade qualquer, a certeza é que desde que aqui entram até que saem têm o dia todo ocupado e todos se conhecem, por isso, se um aluno meu falta eu ligo logo aos pais a saber o que se passa, isto se os pais não ligarem primeiro a informar como muitas vezes acontece.

Os trabalhos de casa também são feitos aqui e assim, quando saem, têm tempo para estar com a família, que também é muito importante para o seu desenvolvimento”.

No meio da tristeza, com os olhos lacrimejantes e a voz meia embargada, Vitor Pinto confessa-se também preocupado com os alunos que agora são forçados a deixar o estabelecimento de ensino mas espera que estes alunos consigam ser felizes. “Tenham força e sejam felizes. O nosso objetivo aqui era esse, fazê-los felizes, fazer deles homens e mulheres de valor e com valores. Tudo o que nós lhes ensinamos que seja bom para o futuro deles”.

Desemprego, uma porta que se abre

Para lá dos mais de 200 alunos afetados por este encerramento, o fecho de portas do colégio irá atirar para o desemprego quase 50 pessoas (25 funcionários e 21 docentes), afetando drasticamente a economia desta aldeia do Douro Vinhateiro.

“Vai ser uma grande perda para esta e as aldeias vizinhas. Isto toca praticamente todas as famílias porque há sempre alguém que tem um familiar que anda no colégio ou vai perder o emprego”, afirmou Paulo Primo, Presidente da União de Freguesias Poiares-Canelas.

Paulo Primo referiu ainda que a maioria dos funcionários é destas localidades e explicou que há também pequenos negócios, como a padaria, a garagem ou venda de produtos agrícolas, que prestavam serviços para a escola. Na região, não existem alternativas de emprego e, por isso, Paulo Primo está “muito preocupado” com as repercussões sociais.

Um desses exemplos é a professora Carla Fernandes que após 20 anos a trabalhar no colégio, com casa comprada nas proximidades, vê agora a saída da aldeia, não como uma forte possibilidade mas como uma certeza.

Quando vim para aqui pensei que seria para a vida porque encarei esta escola como uma escola pública com gestão privada, uma escola onde encontrei mais alunos carenciados do que a escola pública onde estava. Acabei por comprar casa aqui e fazer aqui a minha vida, agora é esperar e ver o que o futuro nos guarda. Ir embora não é uma hipótese, é uma certeza se quero trabalhar.

Também Maria José Magalhães, funcionária há 27 anos no colégio, se depara agora com o desemprego e todas as angustias que esta situação pode provocar.

“Preocupa-me o ficar sem emprego porque não sei que condições terei para sustentar os meus filhos, para por exemplo, os pôr a estudar na universidade. Esta área está cada vez mais despovoada e com o encerramento do colégio a situação pode piorar, até porque não há empregos para toda a gente e as pessoas podem ver-se forçadas a sair daqui”.

Autarca indignado com falta de respostas

Presente na manifestação que se realizou no último dia de aulas do colégio, estava o autarca reguense José Manuel Gonçalves que começou por afirmar que ainda acredita que “esta situação pode ser revertida, bastando para isso um decreto, tal como foi feito para o encerramento”.

Contudo, o autarca não deixou de criticar duramente os elementos do Governo pela falta de respostas e tempo para discutir este assunto.

“Aquilo que quero dizer aos nossos governantes, a partir do nosso concelho, é que, se esta decisão não for revertida, escusam de vir para aqui apregoar a coesão territorial. Isso é uma mentira. Se quiserem ter essas verdadeiras políticas de coesão tinham aqui um exemplo a dar”, continuou o autarca.

José Manuel Gonçalves afirmou mesmo que é uma falácia que se continue a falar de políticas para a coesão territorial quando depois se encerra e retira serviços essências das zonas mais desprotegidas.

“Continuamos, do ponto de vista teórico, a apregoar a coesão territorial e depois na prática temos exemplos como este colégio.

Este é um colégio de excelência com um projeto que é reconhecido na comunidade local mas também nos grandes centros urbanos da região como Régua e Vila Real, e quando temos muita gente de lá que gostaria de ter aqui os seus filhos a estudar devíamos olhar para esta instituição como um exemplo, um exemplo de excelência, do trabalho e das capacidades de quem aqui trabalha.

Não podemos ser cegos e acho que infelizmente estamos mais uma vez a ser cegos. Olhar para um colégio como este, um equipamento destes e o seu projeto educativo sem, de facto, lhe dar o devido valor, é ser cego.

Levar equipamentos e serviços dos meios rurais para as cidades é fácil mas aqui acontece o contrário, os alunos das cidades querem vir para aqui estudar porque reconhecem o valor desta escola.

Este é um dos exemplos que se deve apresentar quando se fala de desertificação do interior como um exemplo daquilo que se deve fazer para contrariar a tendência. Com este encerramento o que estamos a dizer é que esse trabalho, esse investimento não é necessário.

Não admito que alguém, sentado na sua secretária, faça despachos que levem a que isto aconteça. Como autarca não o posso admitir”.

Para lá do encerramento, a falta de disponibilidade é, para o autarca reguense, uma falta de respeito para com o Presidente da Câmara mas também com os seus munícipes.

“Desde já quero deixar o meu lamento porque até agora nenhum elemento do governo teve disponibilidade para receber um presidente de câmara. Já pedi à Sra. Secretária de Estado, ao Ministro e inclusivamente já interpelei o Primeiro-Ministro sem qualquer resposta até ao momento.

“Há uns meses recebi o Ministro da Educação na Régua e tive o cuidado de falar sobre este problema, ao que me respondeu que ia encaminhar este caso para a senhora secretária de estado para que ela me recebesse mas até agora não teve 5 minutos para essa reunião, considero inaceitável não receberem o Presidente da Câmara da Régua para discutir, olhos nos olhos este problema, fosse a que horas fosse, fosse dia ou noite, não pus entraves ao horário a que poderia acontecer”, afirmou o autarca, acabando mesmo por concluir que “quando tivermos cá gente do governo, eu não me vou disponibilizar para os receber porque, se não tiveram disponibilidade para me receber a mim daqui para a frente eu também não a terei”.

Uma das razões apontadas para o encerramento do colégio, englobado nos contratos de associação, é a despesa que o Estado tem que suportar para o seu funcionamento, contudo, segundo o autarca e outros presentes na manifestação essa é outra falácia que procura apenas alimentar a opinião pública justificando o injustificável.

“Quero ainda sublinhar uma outra coisa, uma daquelas mentiras que, contadas muitas vezes até parecem verdade, isto não é um colégio para ricos, este é um colégio da região com alunos de todos os estratos sociais. Quando verificamos que 50% destes alunos recebem apoio social verificamos que este não é um colégio para ricos.

Este colégio não fica mais caro ao Estado, ao contrário do que se diz. Quando fazemos contas devemos fazê-las de forma séria, este equipamento não recebe um cêntimo do Orçamento de Estado, tudo o que aqui está e que aqui é feito é suportado pela comunidade salesiana”, afirmou José Manuel Gonçalves.

Também Jorge Teixeira, um dos pais presentes no protesto, refere as questões económicas para contestar o encerramento. “É fácil pegar no dinheiro público e injetar nos bancos e pagar altas rendas à EDP, nós não queremos nada disso, queremos uma porta aberta num estabelecimento de ensino que fica muito barato ao Estado”.

José Manuel Gonçalves revelou ainda que já chamou os deputados da Assembleia da República, eleitos no círculo de Vila Real para que se juntem a ele nesta luta e que novas medidas de protesto serão discutidas pelo executivo camarário e pela Assembleia Municipal.

“Chamei os deputados do nosso distrito com assento na Assembleia da República e disse-lhes que está na altura de fazerem alguma coisa, de se juntarem a nós nesta luta desigual para que consigamos ser ouvidos.

Tentamos resolver isto de forma institucional, tentamos alertar quem de direito para o caso, agora é altura de discutirmos outros caminhos e isso será feito em reunião de câmara e na Assembleia Municipal”.

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