Fernando Seara: “Gostava que esta fosse uma região mais equilibrada e que o Museu tivesse aí um forte contributo”

O Museu do Douro celebrou este ano o seu 20º aniversário da publicação da lei que criou a unidade museológica e o Viva Douro foi falar com o Arquiteto Fernando Seara, presidente da instituição.

Balanço dos 20 anos do Museu do Douro, como surge, quais os primeiros passos como chegamos onde estamos agora?

Nos últimos 20 anos há uma evolução, e uma evolução é sempre uma coisa positiva até aos dias de hoje. Mas acho que devemos dividir isto em duas etapas, uma antes do museu ter uma estrutura física e uma depois do museu ter essa estrutura. De qualquer maneira há a publicação há 20 anos em Diário da Republica, com a aprovação de uma lei no Parlamento por unanimidade. A partir daí, durante muitos anos, foi a tentativa de afirmação e a conquista do que é hoje o Museu do Douro. Há muita gente envolvida desde o primeiro dia até hoje, houve a necessidade de conquistar este direito, o direito de ter um espaço próprio, de ter um próprio museu e de se construir a fundação.

Essa é talvez a historia que eu conheça melhor, a historia de um museu de território que se afirma pela sede, mas também pela rede de parceiros de outros museus, e que neste momento já passa os 40 espaços museológicos na região.

A função deste museu é da identidade das pessoas que habitam esta região, de salvaguarda, catalogação e inventariação dos arquivos, há uma data de funções que estão inerentes à criação deste museu que serão as mais importantes. Isto tem a ver com a região, região enquanto produtora de vinho, Região Demarcada do Douro e depois, mais tarde, região Património da Humanidade que, sendo uma área mais pequena, também interessa que as pessoas criem identidade, criem uma afinidade com as instituições que aqui estão instaladas e que contribuem para a salvaguarda de uma zona que temos de preservar, que temos de manter embora seja evolutiva, cada vez mais com condições para que as pessoas vivam bem.

No fundo todo este equipamento, todos estes esforços, todas estas pessoas que estão envolvidas no museu tem uma função, para além das que já disse, que é a de que cada um de nós possa viver um pouco melhor no sítio onde está. Penso que isto tem sido o trabalho de gente com muito valor e que demorou muitos anos afirmar-se.

Quais foram os principais desafios que foram sendo colocados e superados ao longo destes 20 anos?

O maior desafio passa logo por quem manda, quem decidiu que a região precisava de um espaço deste género. Depois a própria ideia e conceção de um museu território que é o primeiro no país. Temos ainda a conquista desses apoios para a sua concretização quer em termos teóricos, quer em termos práticos.

Hoje se falarmos das coleções, do espólio, das atividades que o museu faz, tudo isso foi um processo evolutivo e vive como uma paisagem. Demorou algum tempo e teve as suas lutas, as suas contrariedades mas também os seus tempos de festa como o que vivemos neste dia 2 de dezembro. É um museu que tem como fundadores as autarquias da Região Demarcada do Douro e quase todas as empresas que comercializam o vinho com alguma dimensão é uma gestão sempre com os atores principais da região e do território.

É importante tê-los sempre aqui presentes?

É importante termos todos os que temos e mais alguns que que irão entrar. Nos últimos anos entraram alguns fundadores, curiosamente alguns que não estão ligados ao vinho, mas ligados a outras empresas com afirmação no território como é o caso do turismo que abre novas oportunidades. Se há 20 anos o turismo era um fenómeno que quase não se falava no Douro, a maioria das pessoas nem conhecia o Douro. Hoje a região é conhecida por todo o país e internacionalmente também. Isto é o trabalho de muita gente, é um trabalho conjunto de divulgação do que nós temos de melhor.

O Museu do Douro será o pilar onde todas as vontades existentes na região se concentram?

O Museu do Douro é e sempre foi, e vai continuar a ser, uma entidade agregadora onde toda gente tem um fim comum, que são as pessoas que vivem no Douro e que têm que sentir que o museu é delas. O museu tem que contribuir para que elas possam, de alguma forma, sentir-se melhor no sitio onde vivem. É evidente que nós vendemos melhor aquilo com que nos identificamos e aquilo que gostamos, portanto se nós gostarmos do nosso museu vamos transmitir uma imagem positiva, mais apaixonada.

O turismo é um fenómeno que tem crescido, no Porto e em Lisboa, é evidente que quando se fala no interior as lutas são diferentes do litoral, porque somos de alguma forma sempre mais esquecidos, ou as coisas demoram mais tempo a chegar. Eu acho que na Região Demarcada do Douro, uma das coisas que me orgulha é que se sente que hoje há um determinado tipo de regras, de princípios que nós próprios, que vivemos e habitamos aqui, sentimos que não devem ser feitas agressões, quer na paisagem, no património construído, ou na natureza. De alguma forma isso está já disseminado por uma cultura da região e das pessoas que cá vivem. Isso é bom, é sinal de que vai crescer mas vai crescer de uma forma equilibrada e sustentável. Não se vão ver projetos que choquem e que não se integrem na região falo das quintas, das aldeias e das pessoas que vivem e trabalham nas quintas, que vivem nas aldeias, isso é um fator fantástico da região e que se mantém. É o que faz com que o turismo daqui seja ligeiramente diferente, uma diferenciação pela positiva.

Quem vem visitar o douro vem também conhecer esta forma de vida que aqui acontece, é também essa mensagem que o Museu transmite?

Sim, todo esse património material e imaterial é importante para nós. É importante preservar esse património, não só para quem nos visita mas para nós próprios também.

Depois temos aquilo que é típico do português, o saber receber bem, quem nos visita não o faz apenas por um sentimento de segurança ou pelo sol, fazem-no porque sabem que somos um povo que respeita quem cá vem, com todas as suas diferenças e isso acontece desde a aldeia mais isolada do Douro ao Algarve, faz parte de nós enquanto país ser assim.

Em que ponto estamos ao nível de visitantes?

Temos estado sempre a crescer numa média de 30% ao ano. Este ano podemos não chegar a esse valor de crescimento mas já ultrapassamos o número de visitantes relativamente ao ano passado onde tivemos 43 mil pessoas a passar pela bilheteira mas isto falamos apenas da sede e quando falamos deste museu não podemos apenas falar na sede. Temos uma série de exposições que acontecem fora daqui, no ano passado, por exemplo, tivemos 20 exposições itinerantes, exposições essas que são baseadas numa pesquisa muito grande e que envolvem muita gente.

E a perspetiva para o próximo ano?

A nossa perspetiva para o próximo ano é que consigamos chegar aos 50 mil visitantes na bilheteira o que significaria um envolvimento de cerca de 175 mil pessoas em toda a região. Temos uma série de projetos que queremos implementar, não só exclusivos do museu mas também com outras instituições como por exemplo a UTAD.

Daqui a 20 anos, se voltássemos a ter esta conversa, o que gostaria que se dissesse sobre o Museu do Douro?

Sobre o Museu do Douro é difícil, penso mais a nível de região. Gostava que daqui a 20 anos quem vive nesta região não vivesse numa das regiões mais pobres do país como agora acontece. Gostava que fosse uma região mais equilibrada e que o Museu tivesse aí um forte contributo, tornando a vida das pessoas melhor na região.

Neste momento no museu trabalham cerca de 30 pessoas e na sua maioria são técnicos e quadros superiores, e esta é uma das contribuições que podemos dar à região e seria bom que outras fizessem o mesmo, assim o futuro estaria assegurado.