Festas e romarias estão de regresso este verão

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Dois anos após a paragem provocada pela pandemia Covid-19, as festas e romarias estão de volta às aldeias, vila e cidades de todo o país, e o Douro não é exceção. Artistas e comissões de festas têm as agendas cheias para os próximos meses.

Se há festividades que são características da cultura popular são as festas e romarias. Durante dois anos a pandemia impediu a realização destes eventos, uma situação que levou a vários problemas no setor do espetáculo.

Santanita, um nome bem conhecido na região duriense, é agente de espetáculos, ramo a que está ligado há várias décadas, recorda dois anos difíceis que levaram muitos profissionais do ramo a optarem mesmo pela emigração.

“Estes dois anos viveram-se com alguma dificuldade na área do espetáculo pelo facto de não podermos trabalhar. Estivemos todos parados.

No meu caso tenho outras áreas de negócio que fui gerindo mas, quem vive só do mundo do espetáculo teve dificuldades para aguentar. Muitos dos músicos e artistas que temos tiveram mesmo que emigrar à procura de sustento para si e para as suas famílias.

O nosso mundo artístico sentiu muitas dificuldades, apesar dos muitos apoios do Estado que existiram”.

De acordo com o agente, o mundo do espetáculo nacional não tem dimensão para a quantidade de artistas que existem, provocando assim uma dispersão de trabalhos o que, consequentemente, fez com que após dois anos de pandemia, muitos artistas vivessem com dificuldades.

“Esta é uma atividade como outra qualquer, quando não temos dinheiro de lado ou se temos mas só tiramos de lá, ele acaba. Há artistas que têm mais possibilidades que outros é certo mas este é um país pequeno para a quantidade de artistas que temos e isso faz com que a grande parte não consiga colocar de parte assim tanto dinheiro.

Comecei no mundo do espetáculo em 1987, já trabalhei praticamente com todos os artistas do panorama nacional e sei que todos têm graves dificuldades para dar sustentabilidade à sua equipa. O artista pode ser apenas um mas tem uma grande equipa por trás, que é necessária, e na qual também temos que pensar”.

Com a emigração de muitos artistas e técnicos do setor, Santinata diz que o paradigma do negócio mudou, com menos gente há também menos bandas disponíveis para a procura existente, o que obriga a mudanças, quer nos valores quer na forma como estes são negociados.

“Eu tinha duas bandas que neste momento estão paradas por falta de músicos, emigraram. Em Vila Real havia seis bandas, neste momento só existem duas. Neste momento há dificuldades em contratar bandas para fazer as festas do mês de agosto, há muitas datas para as quais não há bandas.

Para nós acaba por ser, de alguma forma positivo, porque, se antes era o cliente que fazia o preço, porque havia excesso de oferta no mercado, agora somos nós que temos o poder negocial. A situação inverteu-se.

Há muitas bandas que aumentaram, e bem, o cachet, mas há também aquelas que optam por fazer mais espetáculos, a preços mais baixos. Não há uma tabela definida”.

Outra solução apresentada pelo agente de espetáculos é a alteração das datas das festividades, situação que pode gerar alguma polémica mas que garante, “pode ser essencial para assegurar todas as vertentes dos eventos”.

“Pode haver festas que tenham que alterar o seu programa para ajustar de acordo com a disponibilidade das bandas para a parte da animação, sabemos que não é a solução que mais agrada às pessoas mas é a única que existe neste momento.

Já há festas que têm sido obrigadas a alterar as datas porque faltam técnicos de montagem, ainda há poucos dias rejeitei três propostas de autarquias porque não tenho gente para montar o material que temos. Falta gente neste meio”.

A certeza de que as pessoas estavam ansiosas por regressar a estes eventos vem de Calçarão, nome pelo qual se apresenta à nossa reportagem o responsável da Comissão de festas da aldeia de Espinho, no concelho de São João da Pesqueira.

“As pessoas estavam ansiosas por regressar aos bailes, sempre que se cruzavam connosco perguntavam se iria haver festa este ano”.

Calçarão explica ainda que estas funções dão muito trabalho mas a vontade do grupo que se juntou na Comissão de Festas era muita e “em vez dos habituais dois dias de festa este ano acabaram por ser quatro dias, cheios de animação. As pessoas estavam com muita vontade e nós muito motivados”.

Alegria no regresso ao palco

Lucy Teixeira é uma das artistas mais requisitadas atualmente. Natural de Santa Marta de Penaguião, a artista apresenta-se como carismática, envergonhada e sorridente.

Em conversa com a nossa reportagem Lucy Teixeira recorda, com alguma apreensão, os dois anos de paragem obrigatória, provocada pela pandemia.

“Toda esta situação pandémica prejudicou imenso a nível de atuações, continuei a ter programas de televisão, entrevistas de rádio, etc, mas faltava o que mais me traz felicidade que é estar em contacto com as pessoas, senti las a vibrar comigo, sentir que estão felizes. Acho que essas foram as maiores dificuldades, não ter atuações, não puder interagir com o meu público. Foi muito complicado.

Toda está situação pandémica prejudicou, principalmente a área musical, muitos de nós ficamos parados sem a concretização de atuações, que nos fez muita falta. Agora que regressei voltei mais forte que nunca, e voltar a sentir toda a energia e adrenalina do público enche-me o coração de alegria”.

Com a agenda já bastante preenchida para os meses que se avizinham, Lucy Teixeira fala da alegria de estar de regressar aos palcos, próximo do seu público.

“Neste momento já tenho muitas datas agendadas, o mês de agosto vai ser de muito trabalho e tenho quase todos os dias preenchidos. É tão bom, após uma pandemia, ter uma agenda tão completa. Sinto me muito realizada e devo tudo isso às pessoas que tornam o meu sonho uma realidade.

Tenho expectativas altas uma vez que já realizei bastantes shows, acredito que os próximos serão ainda melhores e as pessoas vão aproveitar e viver a música e as romarias de uma maneira única e diferente.

 Já tenho sentido o contacto com o público e estou muito feliz por toda a onda de amor e carinho que me transmitem. O regresso aos palcos após dois anos de pandemia, foi muito especial e estou mais forte que nunca para encher o coração de todo o meu público, que me apoia incondicionalmente.

Apesar de toda a alegria que tem encontrado nos espetáculos que já realizou, a artista penaguiense nota ainda alguma apreensão do público na hora de grandes ajuntamentos.

“Sinto que as pessoas tinham muitas saudades das festas mas, ao mesmo tempo, têm medo de estar em contacto próximo. Aos poucos as pessoas vão ficando mais destemidas, e aproveitam cada minuto, e vivem e sentem a música ao máximo!

De uma certa forma é compreensível o medo que as pessoas possam sentir, mas as saudades acabam sempre por sentir ainda mais, sobretudo quando se fala em música popular portuguesa que são as nossas raízes”.

Bandas regressam com falta de músicos

Não há romaria nem festa sem os tradicionais desfiles das bandas filarmónicas pelas ruas da localidade em questão.

José Adelino é Presidente da Direção da Banda de Música de Sabrosa, que conta já com 160 anos de atividade, efeméride que não foi celebrada como desejado.

“Em 2021 festejamos os nossos 160 anos, infelizmente não fizemos o que queríamos mas aquilo que nos foi possível fazer, apenas um concerto simples mas que se mostrou fundamental para nos juntarmos novamente.

Depois de algumas tentativas que falharam decidimos que só voltaríamos quanto a situação estivesse melhor, como acontece agora”.

Para o responsável pela banda, a pandemia trouxe problemas maiores que a própria paragem da atividade em si, entre elas o abandono de alguns elementos, por diversas razões, e a dificuldade em recrutar novos músicos para esse lugar, situação que a banda foi sempre garantindo com os elementos da escola de música que também esteve parada.

“Não está a ser um regresso fácil, e isto é transversal a todas as bandas de cariz voluntário na região. Tínhamos a particularidade de termos muita atividade, por ano tínhamos uma média de 35 a 40 aparições públicas, fora ensaios e outros momentos, era um ritmo ao que estávamos habituados.

A pandemia foi muito complicado porque nos obrigou a parar de forma repentina, tal como a escola de música que é uma parte essencial do nosso dia a dia. Numa banda tão heterogénea como a nossa, o ensino da música tem um papel importante porque é uma forma de captarmos novos elementos, que vão ocupar os lugares vagos por aqueles que saem de Sabrosa por motivos profissionais, por exemplo, ou mesmo por questões de idade. Sempre tivemos muita dificuldade em manter o mesmo grupo por muitos anos, daí a importância da renovação.

De um grupo de cerca de 65 pessoas neste momento apenas dois terços do grupo se mantém ativo, o que nos traz alguns problemas visto que as romarias estão de regresso às ruas das aldeias, vilas e cidades do nosso país e nós estamos com a agenda completamente preenchida para este verão.

Infelizmente a mobilização não se consegue fazer como antes da pandemia, falo da nossa realidade mas também de outras da nossa região com quem vamos mantendo contacto.

Estamos a fazer uma gestão com pinças porque não queremos assumir nenhum compromisso que depois não possamos cumprir.

Assumimos até agora todos os compromissos assumidos antes da pandemia, novos contratos, temos que estudar bem para não falarmos mais tarde, esperando que, em setembro, com o início das atividades letivas este problema também fique mais suavizado.

O pior vai ser este verão, pior pela dificuldade em termos todos elementos quantos necessários, até porque temos uma qualidade que queremos manter e tudo isso é uma gestão complicada.

Entre artistas, músicos e organizadores, a expectativa é grande para o verão que se avizinha mas as preocupações também são algumas neste regresso que fica marcado pela falta de pessoal.

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