Francisco José Viegas: “Há vinte, trinta anos, eu e um grupo de loucos a que ninguém ligava muito, dizia que o Douro – sobretudo o Alto Douro e o Douro Superior – tinha potencialidades únicas em Portugal

Texto: André Rubim Rangel

Comecemos pelas suas raízes em V. N. de Foz Côa. Já não vivendo há muito na sua terra natal, do que sente mais falta nela? Como vai apagando essa saudade?

Vou sempre que posso, sempre que encontro uma oportunidade ou um pretexto. Nunca me senti senão “uma pessoa do Douro”. O Douro é a minha origem e, digamos, o meu “lugar mítico”, ao qual pertenço sem ter de explicar porquê. Sou uma espécie de nacionalista do Douro Superior… Do vinho do Douro, do rio (que é outra das referências míticas do meu dia-a-dia), do património, das pessoas, da minha memória. Digamos que de Barca d’Alva à Afurada tudo me pertence… [risos]

Apesar da região do Douro se ter modernizado e apresentar agora acessos melhorados, o seu grande problema continua a ser o despovoamento. No seu entender, o que terá de ser feito para combatê-lo?

Chamar pessoas de fora. É fundamental. Pessoas que possam ter compreendido o espírito do lugar e que possam contribuir para pôr fim a essa espécie de deserto que avança por toda a região.

E de que forma(s) concreta(s)?

Há políticas fiscais, mas têm de ser mais profundas e mais agressivas. Mais sérias. Mas tem de haver outros apelos à fixação dos naturais e dos que querem vir para o Douro. E não só no turismo, que é uma espécie de realidade flutuante… Agora estamos com um bom afluxo do turistas, mas ninguém sabe o que acontece daqui a dez anos. Há vinte, trinta anos, eu e um grupo de loucos a que ninguém ligava muito, dizia que o Douro – sobretudo o Alto Douro e o Douro Superior – tinha potencialidades únicas em Portugal. Foram os turistas que mudaram a realidade, bem como o vinho e a paisagem. É inacreditável como a paisagem do Douro, vista de cima, continua a degradar-se: durante anos tornou-se uma espécie de território desbravado por auto-estradas e cercado de vinhas. Mais nada. Hoje, sabemos que é preciso proteger a paisagem, encontrar formas de evitar que a paisagem das vilas se degrade, que tenhamos orgulho naquela paisagem, que é uma herança notável do século XIX, e que não pode ser entregue à descaracterização.

Quais foram as suas principais preocupações e ações que desenvolveu e/ou tentou implementar no Douro, enquanto foi Secretário de Estado da Cultura?

Havia muitas coisas a fazer por todo o país, mas no Douro insisti na recuperação do património, na proteção da paisagem, num certo equilíbrio entre as chamadas necessidades da economia e a necessidade de proteger a paisagem, o património e o acesso à cultura.

Entrando no seu espectro profissional, o que o apaixona mais: o jornalismo ou a literatura? Porquê?

Fui jornalista durante muito tempo. Hoje sou sobretudo editor [dirige a Quetzal Editores, do grupo Porto Editora]. E escritor. A literatura é um animal vivo e fugidio que me acompanha há anos e décadas, não se explica essa ligação. Escrever é uma necessidade, um trabalho e um hábito.

Desinteressou-se pelo jornalismo – pelo menos no modo mais ativo e mediático como o exercia regularmente na TV, Imprensa e Rádio –, ou não têm surgido convites/projetos relevantes como sua nova aposta?

A idade conta. Acho que fiz coisas inovadoras na televisão e na imprensa. Na televisão, durante duas décadas, tive programas de livros que hoje são impossíveis num ambiente de guerra de audiências. Compreendo, mas discordo das explicações. Os espaços de livros na televisão são uma espécie de “cultura do papá”, sem entusiasmo ou sentido do risco, e até sem memória. Levar autores à televisão é uma coisa que se devia continuar a fazer, e que se evita, porque os que mandam acham que a audiência se conquista a fazer melhor o que os outros fazem pior. Mas não me desinteressei pelo jornalismo, nem pensar. Quem é jornalista uma vez, nunca mais deixará de o ser…

A nível da escrita, que mantém e entre os géneros já percorridos (poesia, romance, ficção, conto, teatro e guias/relatos de viagens), onde se revê no seu melhor “eu interior”, na sua verdadeira identidade?

Poesia, sim — porque é um género sem explicação. E prosa, de ficção. Romance. E romance policial, com a minha série Jaime Ramos, o inspector da PJ do Porto, de que acaba de sair um novo livro, “A Luz de Pequim”, o nono livro com o mesmo personagem, e sempre com a cidade do Porto como cenário principal.

E que análise prática faz de ambas as áreas no presente? Numa altura em que celebramos 50 anos da internet, talvez um dos principais ‘inimigos’ de ambas…

Não gosto de fazer apreciações de conjunto da poesia portuguesa, ou da ficção portuguesa. Sou parte interessada. Mas acho que a internet é, sim, hoje, adversária da leitura – pelo menos da leitura que durante séculos fez com que o nosso mundo tivesse cultura, memória e sensibilidade. E bibliotecas. E coisas em comum. Provavelmente, estamos a entrar num novo tempo, e é preciso compreender as novas necessidades e desejos das pessoas comuns. O desejo e a necessidade de ficção passou dos livros para as séries de televisão, para o contacto direto e sem filtro das chamadas “redes sociais”…  Antigamente, sabíamos onde estavam os maluquinhos… Hoje, estão em todo o lado graças à internet. Acho que estamos numa fase de mudança, de evolução muito rápida, ainda não sabemos onde isto vai parar… O problema é que a internet não forneceu apenas mais uma plataforma de leitura: fez nascer novas formas de leitura, mais rápidas, menos sérias, mais incultas, mais superficiais, mais disponíveis para o mal e para o ressentimento. Estamos a aprender a lidar com isso, e a começar a perceber que nem tudo é bom nas mudanças…

Ainda voltando à beleza e riqueza do Douro, já pensou escrever uma obra só dedicada ao mesmo? Ou considera que não faz sentido?

Bom, mas eu escrevi “Regresso por um Rio”, que é um romance sobre o Douro [originalmente de 1987, saiu um nova edição na Porto Editora em 2018]. Os romances “Um Céu Demasiado Azul”, “O Mar em Casablanca” e “A Luz de Pequim” passam-se no Douro principalmente. O Douro nunca esteve afastado dos meus livros. Nem por um instante.

Além dos seus livros, é também cronista e comentador televisivo. Nos fóruns nacional e internacional, que temas fraturantes – e cujas debilidades humanas mais se têm feito sentir – lhe chocam principalmente observar, pensar e reagir?

A censura, o desejo de proibição, o policiamento da linguagem, assustam-me particularmente. Preocupa-me o facto de os populismos de esquerda e de direita avançarem cada vez mais graças à falta de resposta dos sectores mais moderados (conservadores, liberais, sociais-democratas). Fico espantado pela forma como hoje ignoramos que a Europa já não é o centro do mundo, e que o chamado Oriente (a China, a Ásia-Pacífico, por exemplo) é hoje um território em franca alteração e com grandes inovações. Somos uma espécie de racistas contra o Oriente. Tememos a China mas limitamo-nos a gritar e a escandalizar-nos. Parece que não queremos compreender, procurar explicações, negociar, estabelecer compromissos… E fico triste ao ver como uma democracia exemplar, como era a dos EUA, se transformou numa palhaçada. E como a Europa se torna cada vez mais irrelevante em termos estratégicos…

Sendo que é um homem religioso, entre o catolicismo e o judaísmo, e iniciando nós anualmente este mês com duas memórias significativas – a vida dos santos e a morte dos entes queridos –, o que lhe sugerem estas vivências com a sobreposição do «Halloween», uma “nova” tradição para nós sem ser da nossa cultura?

Nada. Não me sugerem nada. O Halloween, como o Pai Natal, ou o Thanksgiving, são o resultado de novas tradições que vão sendo assimiladas pelas culturas do mundo todo. Pode-se proibir o Halloween? Não. Limito-me a encolher os ombros. Nós, na Europa, e em Portugal também, perdemos parte das nossas culturas tradicionais, é natural que as novas gerações adoptem outras que as tornem mais próximas das culturas mais dominantes. É isso que acontece com o Halloween, ou com o carnaval brasileiro em pleno inverno português. Protestamos muito contra o Halloween, mas não nos damos conta de que já adoptámos o hábito absurdo de ver meninas a sambar, seminuas, com o granizo de Fevereiro… Não. Nada me espanta nem escandaliza. O Natal, por exemplo, perdeu o seu significado religioso e é hoje uma festa mais ou menos global, um jantar de família, uma reunião de amigos, uma celebração pagã. Acontece que nós pensamos que trinta, quarenta anos, é muito tempo. Não é. É quase nada. Daqui a quinhentos anos, se calhar, celebraremos outra vez o Natal de antigamente, a Páscoa de há dois mil anos. Nisso, a cultura chinesa explica melhor como se deve observar o mundo: com a noção de que mil anos é um ciclo de tempo razoável… Nós queremos tudo demasiado depressa.

Para terminar, se tivesse de definir o melhor e o pior da nossa sociedade contemporânea, que dois livros seus – entre os seus mais de 30 – escolheria e atribui-los-ia como apresentação adequada?

Acho que “Longe de Manaus”, “O Colecionador de Erva” e “A Luz de Pequim”, especialmente estes três, são o meu retrato do país. Um país entregue às suas elites pouco razoáveis, endogâmicas, provincianas no pior sentido. Talvez “A Luz de Pequim”, que é um livro que começa com o cadáver de um traficante pendurado na Ponte de D. Luís, no Porto, e que fala da cidade do Porto, do Douro no Porto, da memória da cidade, seja um retrato mais atual. Mas na literatura não há atualidade. É por isso que Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis sejam ainda hoje grandes retratos do Porto, por exemplo. Mas vou tentando.

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