Gilberto Igrejas: “Percebo muito bem as dificuldades de quem todos os dias tem que ir para a vinha, seja debaixo de chuva, neve ou sol”

Natural de Vila Real, foi na cidade transmontana que fez todo o seu percurso académico até terminar a licenciatura em Biologia e Geologia via ensino. Depois de uma curta passagem por Lisboa regressou a Vila Real onde fez um mestrado na área da genética, indo depois para Fran­ça onde fez o doutoramento. Fez uma pós-graduação em Medicina Legal e viajou até ao ou­tro lado do mundo para participar num projeto de investigação na Austrália. Em 2005, já de regresso à UTAD fundou um grupo de investigação, centrado na biotecnologia alimentar. Na universidade transmontana foi ainda coordenador do curso de Enologia da UTAD, sendo res­ponsável pela remodelação do mesmo.

À frente do IVDP há dois anos, Gilberto Igrejas falou com o VivaDouro onde fez um balanço do trabalho desenvolvido até agora e do futuro para o IVDP e da Região Demarcada do Douro (RDD).

Passam dois anos desde que assumiu a presidência do IVDP, que balanço faz des­te tempo?

Eu julgo que o balanço que se pode fazer é positivo. Tivemos 2 anos muito diferentes. Um em franco crescimento, em quantida­de, valor e preço unitário, que foi 2019, e depois 2020 que foi totalmente diferente.

Apesar de serem 2 anos muito diferen­tes em termos de mercado e perspetivas de venda podemos dizer que o balanço é positivo. Aumentamos, de forma signifi­cativa, a parte da promoção, da proteção das marcas coletivas do Douro e Porto que, passando um pouco despercebida, é muito importante continuar este me­canismo de proteção, e fizemos algo que considero muito importante, mantivemos e aumentamos tudo que tem que ver com ações de promoção e formação, mesmo dentro do território, aproximando o ins­tituto dos cidadãos. Há uma ação que eu considero da maior importância, a “Taste in Douro”, foi crucial para aproximar aquilo que é a arte de bem servir aos vinhos do Douro e Porto, isto também nos permitiu aproximar dos concelhos, mostrar a nossa disponibilidade, como instituto público, de cooperar com os concelhos e os autarcas que estão ávidos de se embrenharem na procura de melhores soluções e permitiu ainda aos agentes económicos do territó­rio (hotéis, restaurantes, etc.) saber como servir os seus vinhos.

À margem disso fizemos algo que pode ter passado despercebido a alguns, o lan­çamento da “Hackathon Douro e Porto, “que permitiu lançar 10 desafios societais para a sociedade da RDD e tentar arranjar 10 soluções tecnológicas, altamente van­guardistas, para resolver os mesmos. Isto permitiu também fazer outra coisa, ir bus­car investigadores que estão capacitados e diariamente a trabalhar nestas matérias, preconizando soluções para estes proble­mas que existem na RDD. Isto é uma ação que queremos continuar nos próximos anos, com estes investigadores e com ou­tros que vamos chamar, e que permitiu de alguma maneira fazer essa aproximação.

O congresso que tínhamos previsto não foi possível de realizar, iremos realizar em julho de 2021 se a atual situação assim nos permitir, esperamos que sim.

À margem disto aumentamos significati­vamente aquilo que foram as nossas parti­cipações e as nossas formações que é evi­dente que se torna quase um ex-libris para o IVDP. Há quem diga que as formações são poucas e nós temos a noção que po­demos fazer sempre mais e melhor, con­tudo, é importante também estar atento à comunicação social estrangeira onde muitas vezes somos dados como exemplo do fazer bem nesta área, isto porque consi­deram que estamos a profissionalizar o se­tor, ficando assim com os melhores canais a vender os melhores produtos da região que são os nossos vinhos.

Falando ainda de balanços, qual é o ba­lanço que faz da última vindima?

O balanço da última vindima, como é pú­blico, registou uma quebra de cerca de 26%. Acabou por não ter tido um efeito prejudicial maior pelo facto de termos mais dificuldades em escoar a vindima an­terior. Acabou por permitir que os agricul­tores pudessem ter negociado melhores preços o que para o tecido social é bom. Os agricultores que cá vivem todos os dias precisam de vender as uvas a um preço justo porque é dessa verba que vivem. Nessa vertente foi positivo.

Do ponto de vista da diminuição da quan­tidade de uvas vendidas, é um aspeto mais negativo.

As medidas de apoio à Covid-19 apresen­tadas antes mesmo da vindima vieram ajudar a colmatar estas quebras que fala?

Foram cruciais. Foram articuladas estuda­das desde o início. Falamos de 5 milhões de euros para a Reserva Qualitativa do Vinho do Porto, tivemos as medidas de destilação de crise que, pela primeira, vez diferenciaram a viticultura de montanha, como é a nossa, que tiveram um acrésci­mo de preço, e tivemos ainda as medidas de armazenamento de crise. Tudo somado dá uma ajuda para a RDD de cerca de 9 Mi­lhões de euros.

Isto permitiu amenizar aquilo que foram as quebras ao nível das vendas por parte dos agricultores.

Foi o possível ou considera que se podia ter ido um pouco mais longe?

Eu penso que em face daquilo que eram as perspetivas de crise e de retoma ao longo do ano, julgo que foi o possível.

Nós podemos sempre exigir mais, ter sem­pre mais vontade, faz parte até porque quem não ambiciona não alcança. Con­tudo eu penso que é também importante nós termos a noção de que o país vive uma situação difícil e nós estamos inseridos numa sociedade onde devemos ser uma parte e não o todo, sendo solidários com os que nos rodeiam.

Se o setor dos vinhos, e particularmente a RDD, conseguiu este apoio de 9 milhões e se ajudou a mitigar as perdas essencial­mente daquilo que seria prejudicial que era manter a estrutura social e fundiária a continuar a preservar este território, isso foi benéfico.

Se tivesse tido o dobro seria melhor? Se­guramente e isso ninguém o pode negar, agora, num ano de crise para o país, ter­mos conseguido 9 milhões penso que foi uma ajuda muito generosa por parte do Governo e do Ministério da Agricultura no sentido de incrementar algumas das me­didas que estavam pendentes e que eram importantes para a região.

Para o pequeno viticultor, que é a grande parte da região, como é que ele viu a par­te dele desses 9 milhões?

Aqui a questão trata sempre de uma dua­lidade que tem que ver com a ajuda ser dada ao agricultor diretamente ou ao co­merciante.

O quadro normativo europeu não permi­tia a ajuda direta ao agricultor, ponto final. Nesta altura, estamos a falar em meados de abril, maio, a ajuda direta não era pos­sível, a única via que tínhamos e que podia ser equacionada era a alternativa através do armazenamento.

Facilitando o armazenamento estávamos a facilitar que de alguma maneira o agricul­tor tinha facilidade em escoar as suas uvas a melhores preços. Na altura até se conse­guiu algum consenso no setor, não só na RDD mas a nível nacional. Posto isto temos estas três medidas em articulação para a RDD, a Reserva Qualitativa, a Destilação de Crise e o Armazenamento de Crise. É esta conjuntura que nos possibilita chegar a uma vindima que não é abundante e que o agricultor possa discutir melhor os seus preços.

Se me pergunta se é possível ajudar dire­tamente? No cenário que tínhamos em 2020 não, vamos ver se o futuro possibilita que as ajudas possam via a ser efetuadas de outra maneira.

Vínhamos de um 2019 com números em crescendo. A pandemia veio afetar este crescimento?

Sim, veio afetar, isso é inegável. Tínhamos previsões de crescimento de 2,5 ao ano, daqui a quatro anos teríamos um cresci­mento sustentado a 10%.

É precisamente nos 10% que estamos atualmente, mas de quebras, será este o valor neste momento, apesar de ainda nos faltarem fechar os números do mercado nacional.

Se for este o valor, significa que nós tive­mos, em valor, menos 57 milhões para a região. Nós tínhamos tido em 2019 cerca de 571 milhões de euros em termos de vo­lume de negócios. Claro que estas quebras são em termos globais, há pessoas que po­dem afirmar que têm quebras maiores e sou sensível a isso. Sei que as quebras não são iguais para todos, que há pessoas com muito mais dificuldades que estes 10%. Sei que há pessoas que não conseguiram vender muitas garrafas que tinham expec­tativa de vender, sei perfeitamente, mas não falo individualmente, nem em relação aqueles que não venderam como aos que venderam mais, falo em termos de dados estatístico.

Eu espero que haja essa sensibilidade de perceber que as minhas palavras não vi­sam atentar ninguém, longe de mim, não faz parte do meu DNA. Percebo bem as di­ficuldades de quem trabalha a terra, esse é o ponto número um. Percebo muito bem as dificuldades de quem todos os dias tem que ir para a vinha, seja debaixo de chuva, neve ou sol, percebo-as como ninguém porque eu nasci numa aldeia e sei perfei­tamente o que custa trabalhar na agricul­tura. Nessa parte ninguém me dá lições. Sou sensível porque sei o que custa, eu tra­balhei muito tempo em férias a ajudar os meus avós e sei o que é o trabalho da agri­cultura, não é um trabalho de cardápio.

Como sou sensível eu espero que as pes­soas entendam que quando falo de nú­meros falo de uma forma geral. Em 2020 perdemos, claro que perdemos. Desde logo perdemos no mercado nacional, que vinha a crescer, com o fecho do turismo os vinhos do Porto quebraram cerca de 40%, os vinhos do Douro quebraram cerca de 15%, foram compensados por onde? Pe­las exportações, os vinhos do Douro pra­ticamente em termos de valor devemos estar aproximadamente igual, no caso dos Vinhos do Porto devemos ter quebrado cerca de 3%. Tudo isto somado dá uma quebra global de cerca de 10%.

Isto foi conseguido através de um artefac­to, não sejamos inocentes nesta matéria, começamos a vender as garrafas mais ba­ratas do que em 2019. Qual é o dado positivo que há a reter aqui? É que as gamas especiais aumentaram tam­bém este ano, ou seja, em 2020 nós vende­mos a maior percentagem de sempre das gamas especiais, o que mostra que há um trajeto que podemos fazer no futuro, apos­tar ainda mais nestas gamas especiais, valo­rizando ainda mais este produto, trazendo assim mais valor para a região.

Esses números refletem que um público mais conhecedor do produto torna-se um público mais exigente na qualidade?

Claro que sim, e neste binómio funciona mui­to bem a formação. O facto de nós termos as portas abertas (tínhamos antes da pande­mia), todos os dias 10 de cada mês, tínhamos as ações do “Saber servir, vender melhor”, o “Master of Port”, as ações do CPE…

Todos estes exemplos mostram como nós vamos cativando novos públicos-alvo e va­mos fazendo outra coisa muito importante para os nossos vinhos, que é o rejuvenes­cimento daqueles que apreciam o vinho, e isto vai ser cíclico e vai ser capital.

Nós conseguimos de alguma maneira passar esta mensagem da descontração no consumo regrado dos vinhos do Douro e Porto, e particularmente no Porto que é tão aclamado internacionalmente mas que o público mais jovem não o vê dessa maneira. Se nós conseguirmos aproximar o consumidor mais jovem e este consu­mo regrado e moderado, vai ser ele pró­prio o embaixador até para ações futuras. Nós tivemos esse exemplo este ano em que não era possível deslocar as equipas do IVDP aos países onde queríamos fazer a promoção e, aqueles que tinham sido ou os CPE’s (Certified Port Educator), ou aqueles que foram Master of Port, foram os próprios a dinamizar essas ações nos seus países. Isto mostra bem do encanto que essas pessoas têm pelos vinhos da nossa região.

Todas estas mudanças são muito basea­das numa comunicação que mudou bas­tante desde que chegou ao IVDP. Quais foram os objetivos desta mudança?

Nós tínhamos o objetivo de abrir as por­tas do IVDP para que as pessoas o conhe­cessem melhor, para isso as redes sociais eram um veículo privilegiado.

Nós sabemos que hoje o digital é importan­tíssimo, tivemos este ano que passou que evidenciou bem a importância desses canais.

Hoje os jovens comunicam sobretudo por estas vias e se queremos aproximar os nossos vinhos desse públi­co temos também que estar presentes aí. Este é apenas um dos exemplos.

O facto de nós termos desenvolvido e ter­mos sido parceiros num festival de música que decorreu nesta região, o Wine & Mu­sic Valley, mostra bem que a apetência do público jovem para o consumo dos vinhos Douro e Porto existe. Tivemos nesta região 17500 pessoas em 2019, num festival em que a única bebida consumida foram os vi­nhos Douro e Porto, isto era impensável há uma década atrás. Para mim foi um exem­plo da mudança de paradigma.

Envolvemo-nos em outra ação que tem o mesmo objetivo e que chega a mais de 100 milhões de telespectadores, através de uma série que já está no ar que é o Wine Show. Em Portugal a sede do progra­ma é na RDD, o que mostra bem a impor­tância que é dada à nossa região. Vai ser uma divulgação internacional enorme.

Lançámos a campanha nacional “Dar uma Nova Linguagem ao Vinho do Porto” ao longo do mês de dezembro. Divulgámos a campanha “Onde Levas o Teu Porto” em diversos meios (TV, imprensa, internet, canais digitais e exterior). Nos canais digi­tais (Facebook, Instagram e YouTube) as imagens desenvolvidas e os 4 vídeos (um de 30” e três de 10”) impactaram positi­vamente Portugal e são um sucesso. A 15 de Dezembro já tinham atingido mais de meio milhão de pessoas no Facebook e Instagram e acima de 600 mil no YouTube. Foram, igualmente, geradas dezenas de milhares de reações e centenas de comen­tários nas publicações e partilhas.

Decorreram, ainda, diversas ações com in­fluencers digitais, no Facebook e Instagram, que procuram incentivar o consumo mode­rado de Vinho do Porto, criar associações positivas e bons momentos com Vinho do Porto, captando um público jovem e, ao mesmo tempo, contrariando a ideia de uma bebida só para ocasiões especiais. Podemos ver todos estes posts e stories acompa­nhando a hashtag da campanha #OndeLe­vasoTeuPorto. Em TV, a avaliação, até 15 de dezembro, é igualmente positiva, estando, nessa altura, a campanha a apresentar uma boa performance. Com a exibição de 45 spots, foram atingidos cerca de 12.000.000 contactos nos targets selecionados.

O que falta para que numa saída à noite (quando tal voltar a ser permitido), ver­mos mais jovens a consumir vinhos desta região em vez de uma qualquer bebida branca?

Temos que começar a valorizar o que é nosso e não haja dúvidas que os vinhos do Douro e Porto são produtos genuinamen­te portugueses.

Quando vamos almoçar ou jantar, quando recebemos convivas em nossa casa nós devemos ter os vinhos da nossa região para os servir, ligando-os sempre a uma história.

Pratica isso em sua casa?

Sim, sempre praticamos. Eu sempre que visitava um amigo, mesmo no estrangeiro, fazia questão de levar sempre um vinho da região, assim como se algum me viesse visitar também trazia sempre uma garrafa.

As pessoas podem esquecer muitas coi­sas mas não vão esquecer nunca a marca, nem a região.

Olhando agora mais para o futuro. Em breve iremos começar a usar a designa­ção “Vinhas Velhas”, é um passo impor­tante para a região?

Era um passo necessário. Considero que poderíamos ter ido um pouco mais longe mas para primeiro passo, já foi importan­te. Isto não impede que a região, no futuro, não possa fazer modificações mas neste momento era importante dar este passo.

Nós estamos a falar de uma região que tem mais de 100 castas, um património genético único. Se nós não o valorizarmos dificilmente alguém o fará. Uma forma de valorizarmos os viticultores que preservam este património é valorizá-lo.

Fazendo um paralelismo, tem que ser vis­ta, esta designação, como a designação “Vintage”, por exemplo?

Aquilo que estamos a fazer é sobretudo a valorização do agricultor, enquanto no ou­tro caso valorizamos o produto. Contudo, podemos dizer que é semelhante.

Já defendeu também alterações à “Lei do Terço”…

Não foi em mudanças à “Lei do Terço” que eu falei. A leitura desta lei direcionou-se num tempo e numa circunstância, aquilo que eu me refiro, nesta altura, é que uma forma de nós aumentarmos também a en­trada de público mais jovem seria permitir a entrada de jovens enólogos para serem agentes económicos no Porto, eliminando a capacidade das existências mínimas dos 75 mil litros.

Isso é a base da “Lei do Terço”.

Não é. Há formas de o fazer. O que eu pre­conizava com esta alteração é não obrigar à existência dos 75 mil litros a quem qui­sesse instalar-se na região para comerciali­zar os Vinhos do Porto.

Esta podia ser uma boa medida para ter­mos bons enólogos, que têm provas dadas ao nível da produção de vinho do Douro, também no negócio do Porto, aproveitan­do também a capacidade que eles têm de comunicar para um público muito mais jovem.

É espantoso quando vemos nas nossas Master Classes internacionais as segundas e terceiras gerações de algumas das casas mais emblemáticas da região, a comunicar e a forma como os mais jovens têm uma capacidade totalmente diferente dos mais seniores, digamos assim.

Antes de terminar gostaríamos que nos dissesse qual o ponto de situação da Casa do Douro.

Esse ponto de situação é público. Neste momento decorre a solução para a Di­reção Geral do Tesouro e Finanças, o Dr. Agostinho Santa tem estado a trabalhar e aquilo que a Ministra da Agricultura afirmou é que tão depressa quanto essa situação esteja resolvida, tão depressa se marcariam as eleições para a Casa do Douro.

Vê nos candidatos que se apresentaram até agora o futuro daquela instituição?

Por agora não existem candidatos, temos candidatos a candidatos, até a Comissão Eleitoral estar novamente constituída e avaliar as listas não há candidatos.

Agora, quanto mais pessoas estiverem en­volvidas na solução melhor. De facto a re­gião merece algum dinamismo e um olhar diferente daquilo que têm sido os últimos anos.

Sabendo do seu interesse pela política, está nos seus planos, daqui a cinco anos, ser candidato à Câmara Municipal de Vila Real?

Sabe que eu nestas coisas tenho como princípio viver o dia. Neste momento estou com um mandato de presidente do IVDP que tem a duração de cinco anos e a minha cabeça está focadíssima para o trabalho diá­rio, assertivo e sério que aqui desenvolve­mos, e falo no plural porque eu sou apenas o rosto, são mais de 100 pessoas que aqui estão envolvidas diariamente.