Há cada vez mais mulheres em cargos de liderança em Portugal

Conheça quatro testemunhos da região

Conheça quatro testemunhos da região

Quatro mulheres, quatro rostos e quatro percursos diferentes. Um objetivo em comum: a luta pelos seus sonhos e objetivos. No mês em que se assinala a comemoração do Dia Internacional da Mulher o Viva- Douro foi conhecer a história de quatro mulheres da região do Douro que se encontram na liderança em diferentes áreas.

O calendário marcava o dia 4 de julho de 1811 quando nasceu no Peso da Régua uma das mulheres mais marcantes do Douro, Antónia Ferreira, a emblemática Ferreirinha, como é habitualmente conhecida.
Dona Antónia marcou pelo facto de ser um exemplo de iniciativa e de empreendedorismo, acabando por ser uma das personalidades mais complexas do Portugal do Séc. XlX. Construiu uma das maiores fortunas da sua época e ficou conhecida pela sua bondade, por se dedicar ao cultivo do Vinho do Porto e pelas notáveis inovações que introduziu.

Do Douro para o mundo, Dona Antónia Ferreira ficou na história como uma das mulheres mais emblemáticas não só da região mas também de Portugal.

Mais de 200 anos separam a história de Dona Antónia das vivências das quatro entrevistadas que fomos conhecer. Mas não é só a data que é diferente, uma vez que também o panorama da liderança no feminino atualmente é bem distinto de há 200 anos.

Liderança nas empresas em Portugal

Liderança nas empresas em Portugal

De acordo com um estudo recente da Informa D&B há mais liderança no feminino a nível nacional, uma vez que no final do ano passado as mulheres lideravam 28,5% das empresas em Portugal.

Embora esteja ainda longe da percentagem de homens à frente das empresas, o estudo aponta para uma evolução positiva em todos os indicadores de emprego, gestão e liderança no feminino.

Neste momento as mulheres representam 42,2% da força de trabalho das empresas em Portugal e a sua presença tem sido reforçada nos cargos de liderança e gestão.

Por setores de atividade, a maior concentração de mulheres líderes de empresas está no setor dos serviços (36,5%), alojamento e restauração (32,5%) e retalho (32,4%).

No entanto, é na banca que as mulheres estão mais “equitativamente representadas na força de trabalho (48,2%), embora isso não se traduza nos lugares de topo, onde menos de um décimo das empresas é liderado pelo sexo feminino.

A presença feminina é mais expressiva nas sociedades anónimas, onde 21,4% se encontram nos órgãos da administração. Outra das conclusões é que existe uma “maior proporção” de mulheres no topo das empresas mais jovens, sendo que é nas startups, com menos de um ano de existência, que há maior predomínio de gestão e lideranças femininas.

O mesmo estudo concluiu ainda que as empresas lideradas por mulheres tendem a privilegiar a diversidade de género nas estruturas de gestão.

De acordo com um estudo do Peterson Institute For International Economics, junto de mais de 22 mil empresas de várias indústrias e setores, em 91 países, uma empresa com cerca de 30% de mulheres na liderança pode ajudar a aumentar até seis pontos percentuais os seus lucros, em relação a empresas lideradas por homens.

Um ambiente de trabalho mais inclusivo, respeito pela paternidade/maternidade e abertura para investimentos em novos mercados são algumas das razões apontadas.

O mesmo estudo constatou no entanto que em quase um terço das empresas analisadas não existem mulheres na administração ou em cargos de topo – 60% não têm mulheres na administração, 50% não as têm como executivas de topo e menos de 5% têm mulheres como CEO.

Os setores financeiros, da saúde e telecomunicações são os que têm mais mulheres executivas de topo. Em sentido inverso encontram-se os setores das matérias-primas,
tecnologia, energia e indústria.

Conheça quatro testemunhos de mulheres na liderança região:

Maria do Céu Quintas, presidente da Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta

Maria do Céu Quintas, presidente da Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta

Maria do Céu Quintas, presidente da Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta:

“Fazia parte dos meus objetivos de vida ser presidente de Câmara”, revelou ao VivaDouro Maria do Céu Quintas, a primeira mulher a presidir o Município de Freixo de Espada à Cinta.

Nas eleições autárquicas de 2013, altura em que foi eleita, apenas 23 mulheres ficaram como presidentes de Câmara a nível nacional. Sendo que Maria do Céu Quintas é a única
mulher entre os presidentes dos concelhos pertencentes à CIM Douro.

No entanto, a edil revela que nunca sentiu, “preconceito por ser mulher, bem pelo contrário, as pessoas aceitaram e acho que gostam que eu esteja aqui”, afirmou.

Antes de assumir o cargo de presidente, Maria do Céu Quintas, era subgerente da Caixa Geral de Depósitos, por essa razão revela que já estava “habituada ao trabalho”, explica a presidente. “Sempre dei muito aquela casa, se calhar sacrifiquei muito os filhos e o marido quando eram pequenos mas tudo se consegue, tenho o apoio deles se não tivesse seria um pouco mais difícil”, acrescentou.

Na opinião da presidente, a gestão entre a vida familiar e profissional neste momento é mais fácil, “uma vez que os filhos já estão crescidos não é muito difícil estar aqui”, revelou.

Entre as características que definem uma mulher na liderança, Maria do Céu Quintas, considera que “a mulher tem mais bom senso que o homem”.

“Os homens talvez agem muito por impulso, nós se calhar não, eu acho que temos um sexto sentido,há qualquer coisa de diferente nas mulheres”, declarou.

Maria do Céu Quintas faz um balanço positivo do mandato até ao momento, revelando que pretende voltar a candidatar-se nas próximas eleições autárquicas.

Isabel Roçadas, Proprietária da Clinica do Seixo, Vila Real

Isabel Roçadas, Proprietária da Clinica do Seixo, Vila Real

Isabel Roçadas, Proprietária da Clinica do Seixo, Vila Real

“As pessoas dizem que eu sou em exemplo, eu acho que sou uma lutadora”, afirmou Isabel Roçadas ao explicar o seu percurso profissional.

Sempre ligada à medicina dentária preventiva, Isabel Roçadas acabou por realizar mestrado em Saúde Oral Comunitária, na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto, local onde permanece enquanto docente.

Natural de Vila Real, a médica dentista voltou à cidade natal após ter concluído os estudos, local onde avançou em 2006 com a abertura da própria clinica, em conjunto com Clara Santana, Ginecologista. Sendo que para além da clinica do Seixo em Vila Real, Isabel Roçadas Pires tem também outra na cidade do Porto.

“Estou sempre entre Vila Real e o Porto, claro que em termos familiares é complicado mas tenho felizmente no casamento alguém que me acompanha, porque tem um trabalho que lhe permite”, explicou ao VivaDouro.

Isabel Roçadas tinha apenas 23 anos quando iniciou a carreira enquanto dentista. Tendo como exemplo Ofélia Ribeiro, doutora com quem trabalhou inicialmente, a dentista natural de Vila Real revela que nunca sentiu dificuldade por ser mulher e se encontrar desde cedo à frente de um negócio.

“Talvez porque tinha como exemplo a Dra. Ofélia Ribeiro, que era uma mulher muito proactiva, muito ativa. Eu tinha-a quase como um ídolo e acho que aprendi muito com ela e isso deu-me vontade de continuar”, afirmou.

Na opinião de Isabel Roçadas, o facto de ter iniciado a carreira jovem “foi mais complicado do que por ser mulher”.

Questionada acerca da representatividade das mulheres na medicina, Isabel Roçadas, realça o facto de na faculdade “a grande percentagem” de alunos ser no feminino.

No entanto, a dentista acredita que “depende muito da especialidade”, uma vez que “há especialidades em que nitidamente os homens têm prevalecido e noutras estão mais as mulheres, como é o caso da Ginecologia”, constatou.

Relação humana e sensibilidade são as duas características que Isabel Roçadas aponta como sendo intrinsecamente femininas no que diz respeito a liderança. “Penso que tomamos mais atenção aos pormenores, há mais sensibilidade, o saber lidar e os afetos”, afirmou.

Isabel Roçadas acredita que apesar de as estatísticas mostrarem que existem mais mulheres na liderança, “os grandes cargos ainda se mantém nos homens, a tradição ainda é o que era”, declarou, ao acrescentar que o que tem de mudar na sociedade para reverter esta situação são as “mentalidades, uma vez que competências todos têm, mulheres e homens”.

Marta Macedo, Responsável da Quinta do Filoco, Tabuaço

Marta Macedo, Responsável da Quinta do Filoco, Tabuaço

Marta Macedo, Responsável da Quinta do Filoco, Tabuaço

“O projeto da Quinta do Filoco nasceu com o meu avô que adquiriu uma grande área de vinha do Douro e construiu uma adega”, contou ao VivaDouro Marta Macedo, Enóloga e gestora da Quinta do Filoco, em Tabuaço. Depois de o negócio já ter passado de geração em geração, a empresária dedicou-se ao projeto em 2007, aproveitando a mais-valia da quinta já se encontrar plantada e a adega edificada e equipada.

A adaptação foi “um processo difícil, com muito para assimilar, aprender e ultrapassar”, revelou a enóloga, explicando que a aceitação ao início não foi fácil, “algumas pessoas viam-me simplesmente como uma mulher/miúda e não como empresária e enóloga”, contou ao VivaDouro.

“Algumas alturas eram uma luta constante, existindo dias com sentimento de solidão, de fraqueza e tristeza, mas outros cheios de alegria e orgulho por ver o projeto a crescer, as pessoas a darem aos poucos o benefício da dúvida”, afirmou Marta Macedo.

Na opinião da enóloga, ainda existe algum preconceito em ver uma mulher na liderança, “ainda não existe muita confiança na mulher atual para o desempenho de funções em cargos superiores. Também se verifica muito machismo apesar de em muitos casos estar disfarçado”, acrescentou.

No entanto, Marta Macedo acredita que a mulher “terá cada vez mais oportunidades de liderar em diferentes áreas”, revelou.

“A mulher tem a capacidade de abraçar vários projetos ao mesmo tempo e mesmo assim resistir. A mulher é mãe, mulher, dona de casa, empresária, amiga, só aí vemos as imensas vertentes que uma mulher lidera”, afirmou Marta Macedo.

Na opinião da dirigente da Quinta do Filoco, o maior desafio para uma mulher na liderança é a conciliação da vida pessoal e familiar com o trabalho. “Ser líder requer tempo, dedicação e muito trabalho, algo fica sempre para trás”.

Até ao momento, Marta Macedo considera a experiência de se encontrar na liderança da empresa, “bastante gratificante”.

“Tem sido um percurso de altos e baixos, muitos dos quais que parece que perdemos as forças, mas sempre com vontade de querer crescer mais e com o objetivo de ser mais e melhor em tudo o que é feito”, concluiu.

Marta Macedo deixa uma mensagem para as mulheres do Douro, “acreditem nas vossas capacidades. Não desistam, enfrentem, desafiem, superem e sejam vós próprias em tudo o que desejam e façam”.

Lurdes Carvalho, responsável da Associação de Agricultores do Douro

Lurdes Carvalho, responsável da Associação de Agricultores do Douro

Lurdes Carvalho, Responsável da Associação Agricultores do Douro

Licenciada em Engenharia Agrícola, Lurdes Carvalho teve um vasto percurso profissional. Começando a carreira enquanto professora de Física e Química durante sete anos, só mais tarde teve oportunidade de exercer na área que sempre aspirou, a agricultura.

“Sou filha de agricultores e ao longo da minha vida sempre estive ligada a esta área”, afirma Lurdes carvalho, ao explicar o que a motivou a abrir a Associação de Agricultores do Douro em São João da Pesqueira.

“Comecei a verificar que havia aqui uma necessidade, as pessoas recorriam a mim muitas vezes”, acrescentou.

Enquanto mulher à frente de uma associação, Lurdes Carvalho, revela que foi “muito bem aceite” pela população. “O facto de ser mulher não mudou nada, não quero de maneira nenhuma depreciar os homens mas nós mulheres temos mais sensibilidade e às vezes saímo-nos melhor”, afirmou.

“O essencial disto tudo é eu gostar daquilo que faço. Sou uma pessoa pragmática, muito ativa, traço objetivos na vida. Sempre disse que tinha de ser reconhecida de alguma maneira e tenho conseguido, com a minha forma de estar na vida”, declarou ao VivaDouro.

“Sou mãe e sou mulher, tenho uma vida familiar, os meus filhos sabem perfeitamente que os momentos que estou com eles é para estar com eles e sabem que a mãe tem uma vida profissional agitada e ativa para lhes poder proporcionar uma vida melhor”, explica Lurdes Carvalho, ao falar do equilíbrio entre os vários mundos de uma mulher.

“Tento estar sempre presente, foi por isso que também vim viver para São João da Pesqueira, para estar mais presente na vida deles”, revelou a engenheira agrícola natural de Vila Real.

Relativamente à representatividade das mulheres na agricultura, Lurdes Carvalho acredita que “as mulheres cada vez se interessam mais” por esta área. “Penso que a agricultura podia ser um lugar onde as mulheres se podiam evidenciar”, confessou.

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