Há um Douro que não para com a pandemia

Desde o início do Estado de Emergência decretado pelo Presidente da República muitas empresas cessaram atividade temporariamente e outras estão a funcionar em regime de teletrabalho. Contudo, alguns negócios, por serem fundamentais, estão de portas abertas com as devidas medidas de proteção, o VivaDouro foi conhecer alguns desses.

Quando as primeiras notícias sobre a declaração do Estado de Emergência nacional começaram a surgir, muitos foram aqueles que acorreram em massa aos supermercados para se abastecerem se géneros alimentícios, produtos de higiene pessoal, entre tantas outras coisas.

Apesar disso, os supermercados fazem parte do grupo de negócios considerados essenciais mantendo por isso as portas abertas, fazendo uso de algumas medidas para garantir que todos podem fazer as suas compras em segurança e cumprindo as indicações da DGS como o distanciamento social, higiene das mãos, etc.

Miguel Dias é proprietário de um desses supermercados, o empresário foi mesmo um dos primeiros a acionar medidas de contenção, ainda não havia sequer registo de qualquer infetado na região. Para este homem de negócios, as medidas implementadas e apontadas por muitos como exageradas naquela fase, revelaram-se eficazes, não só para a saúde dos seus clientes como também dos funcionários que assim conseguem garantir a permanência daquele espaço de portas abertas.

“Ainda não havia sequer um único caso no distrito e o Intermarché adotou de imediato medidas muito severas, se é que lhes posso chamar assim, para o bem estar não só dos clientes mas, acima de tudo, dos nossos colaboradores, são eles que estão ali, que têm um contacto direto com todas as pessoas que aqui entram.

Colocamos desinfetante para todos os clientes à entrada da loja, separadores em acrílico nas caixas, porque é onde existe um contacto mais direto – nas secções há sempre o balcão que por si já garante uma distância de segurança -, marcações no chão para orientar as pessoas quanto à distância de segurança, dividimos o staff em duas equipas que nunca se cruzam cá dentro, nem estão ao mesmo tempo na loja nem partilham os mesmos espaços, o que me permite que, caso haja algum problema numa equipa, possa abrir portas da mesma forma com os elementos da outra, fazemos uma limpeza desinfetante com a ajuda de uma empresa certificada a todos os nossos espaços, desde as prateleiras à bomba de gasolina, semanalmente.

Acreditamos todos, e eu em particular, que estas medidas que adotamos farão a diferença na propagação, ou não propagação, do vírus aqui dentro. Sendo nós um serviço prioritário não pode ser de outra maneira, se a juntar a tudo ainda tivéssemos que fechar os supermercados, seria muito complicado, muito mesmo”.

Uma das funcionárias de Miguel Dias é Daniela Pimenta, a operadora de caixa assume que inicialmente houve algum desconforto nos clientes mas que, com o passar do tempo e o agravar da situação essas reticências foram desaparecendo “Inicialmente foi um pouco complicado porque os clientes nem sempre aceitaram bem as regras impostas pelo nosso patrão. A partir do momento em que se começou a ouvir falar da Covid-19 nós tomamos logo uma série de medidas como as marcações de distância no chão, os acrílicos, etc. Somos dos que temos melhores medidas, que temos mais atenção, por exemplo, a cada 30 minutos cada um de nós limpa a sua caixa com desinfetante.

Daniela Pimenta

Podem ser medidas que inicialmente custam mas com o avançar do tempo tornam-se um hábito e isso será melhor para todos, seja com o aspeto de lavarmos mais vezes as mãos, evitar estar sempre a passar as mãos na cara, etc. No futuro, se acontecer uma situação semelhante já estaremos mais e melhor preparados para reagir”.

Apesar de haver já uma maior aceitação das medidas impostas, Daniela confessa que algumas pessoas ainda não as interiorizaram, em especial entre a população mais idosa.

“Na minha opinião eu acho que as pessoas têm um pouco de receio, contudo ainda não estão completamente alerta para aquilo que está a acontecer. Nós na caixa, por exemplo, e mesmo com os colegas que circulam pela loja sentimos que as pessoas ainda se aproximam demasiado de nós quando precisam de alguma ajuda e têm alguma tendência a tocar-nos quando falam connosco, são hábitos que as pessoas ainda têm e que são difíceis de mudar.

Os mais velhos são aqueles a quem é mais difícil fazer entender o que se está a passar, se não nos aproximamos começam logo a questionar se temos medo que nos peguem alguma coisa. Não é isso, nós não nos aproximamos nem permitimos tanta aproximação como antes por segurança, tanto nossa como dos nossos clientes. As pessoas podem estar infetadas sem sequer o perceberem, por isso todos os cuidados que possamos ter são poucos.

Há também alguns clientes que reclamam que estamos a trabalhar mais lentamente porque não entendem as regras que agora temos, nós só chamamos o cliente seguinte para a caixa quando o que estamos a atender está despachado, temos que evitar que haja contacto entre os clientes. Há uma coisa que reparamos é que as pessoas, ao entrar, limpam as mãos com o desinfetante que temos disponível, o que já é um bom princípio”.

Apesar de todas as contingências e de algumas desconfianças ainda existentes Daniela Pimenta afirma que se sente confortada pelo papel que desempenha, fazendo parte de uma equipa que garante que as pessoas têm acesso aos bens essenciais.

“A mim conforta-me saber que estamos aqui para garantir que não falta nada às pessoas. Contudo devo confessar que às vezes ainda custa ouvir as pessoas dizer que estamos a exagerar, não estamos, existe uma pandemia e nós temos de ter cuidado. Em especial no nosso caso, se nós faltamos não há mais ninguém e o nosso papel é também garantir que isso não acontece”.

Não tendo propriamente as portas abertas ao público, as oficinas automóveis são outro dos setores considerados essenciais ao, agora normal, funcionamento da sociedade.

Mário Lino é proprietário de uma dessas oficinas onde a principal diferença é que agora os clientes só chegam com hora marcada e antes do serviço começar o carro passa por uma espécie de quarentena de 24 horas.

“Neste momento temos o cuidado de só receber os carros aqui com uma marcação feita previamente e, assim que ele chega aqui, desinfetamos e só passadas 24 horas é que começamos a trabalhar nele. Não sabemos onde é que as pessoas estiveram por isso esta é uma medida que é uma salvaguarda para nós”.

Mário Lino

Apesar do negócio continuar em funcionamento e de reconhecer a sua importância, Mário Lino confessa que a quebra no volume é grande, por essa razão uma parte da equipa foi colocada de férias.

“O volume de trabalho é consideravelmente menos, estamos a fazer cerca de um terço do serviço que fazíamos antes. Acabamos por ter sempre muito trabalho aqui porque três dos nossos funcionários estão de férias e acabamos por não despachar tanto trabalho.

Esta é uma área essencial para o nosso dia a dia por isso entendemos que tenhamos que nos manter a trabalhar, garantindo todas as medidas possíveis de segurança. Como exemplo, neste momento temos aqui em reparação uma carrinha da Casa do Povo de Godim que faz falta que esteja a trabalhar para que possam prestar apoio às pessoas. O carro é um bem que as pessoas usam diariamente, nós temos clientes que são enfermeiros ou médicos por exemplo, e se um carro deles avaria? Temos que estar aqui para garantir que é reparado”.

Na mesma linha do que já Daniela tinha afirmado à nossa reportagem, também na oficina de Mário há clientes que não vêm as medidas de contenção com bons olhos.

“Há clientes que entendem as medidas que tomamos mas há outros que não são tão compreensivos e não entendem porque é que só após 24 horas do carro estar nas nossas instalações é que começamos a trabalhar nele. Isto acontece sobretudo com as pessoas de mais idade, os mais jovens acabam por estar mais alerta para este problema o que ajuda a que percebam melhor as medidas que são tomadas.

Acho que o problema é que este vírus é um inimigo invisível, se as pessoas o vissem e sentissem talvez estariam mais alerta, assim é algo que não conseguem ter a perceção”.

Um dos setores onde a atividade não para é a agricultura, aqui as leis da natureza são mais fortes que o vírus, apesar disso há empresas a passar por diversos problemas e trabalhos que vão ficando por fazer numa região onde este setor é fulcral, em especial no que à viticultura diz respeito.

Rodrigo Gusmão é um alentejano radicado no Douro há alguns anos e é aqui que tem a sua empresa de prestação de serviços agrícolas.

Em declarações à nossa reportagem este empresário assume que os tempos que agora se vivem são complicados.

“No Douro temos dois tipos de agricultores, aquele que vive da venda do vinho em si e o pequeno agricultor, que é a grande maioria da região, que produz a uva e vende para as adegas, por exemplo.

Rodrigo Gusmão

Na empresa a esmagadora maioria dos clientes que tenho são produtores de vinho e estes estão com graves problemas porque, com restaurantes e garrafeiras fechadas, e as exportações praticamente paradas o seu negócio está também ele a viver tempos difíceis a nível financeiro.

A consequência disto é que empresas como a minha estão a perder trabalho porque no terreno se está a fazer o mínimo dos mínimos e, regra geral, como são quintas grandes, têm alguns trabalhadores fixos que respondem a essas necessidades.

Atualmente eu tenho 18 funcionários a trabalhar para mim e a verdade é que começo a não ter trabalho para eles, temos ainda uma quinta que já nos avisou que em breve irá terminar o serviço o que me deixa antever que dentro de pouco tempo não terei trabalho para os meus funcionários”.

Rodrigo Gusmão acredita que esta situação trará graves problemas ao setor, tanto agora como no futuro. Atualmente pelo trabalho que não se realiza deixando muitos empresários na incerteza, no futuro porque numa região tão dependente do negócio do vinho o horizonte não parece trazer melhorias evidentes, podendo a solução passar por uma adaptação dos meios humanos e matérias a outras áreas .

“Na minha perspetiva haverá trabalhos que irão deixar de ser feitos. Por exemplo, o trabalho de espampa poderá ser feito apenas naquelas vinhas que têm uma maior necessidade, ficando as restantes sem este trabalho o que poderá trazer um custo adicional mais à frente quando chegar a época da poda, após a vindima.

Neste momento vivemos num clima de incerteza, não sabemos como será o futuro. No ano passado no Douro a campanha foi boa e as adegas estão cheias de vinho o que pode ser mau porque, sem vendas, quando chegarmos à época de vindima não haverá onde armazenar vinho, nem sabemos a que preço irão ser pagas as uvas ao produtor.

Ainda recentemente estive a falar com um colega que está a ponderar deixar de fazer seja o que for na vinha, se a situação se mantiver por mais um mês. Os custos que vai ter a tratar, a vindimar e tudo o resto, se ele parar já com tudo assume o prejuízo, que acaba por ser um custo menor do que continuar a fazer todos os trabalhos necessários e depois vender a uva a um preço que não paga sequer a vindima. Para quem vive disto, da agricultura, esta situação irá provocar problemas graves.

A solução pode ser adaptarmos o nosso trabalho e fazer outras coisas que não sejam propriamente ligadas à agricultura mas que de alguma forma são trabalhos que podemos desenvolver”.

No terreno, e neste caso podemos dizer que o termo é literal, também muita coisa mudou. Com uma equipa composta na sua totalidade por trabalhadores estrangeiros, é o empresário que lhes garante estadia, alimentação e transporte..

Por essa razão viu-se forçado a implementar medidas apertadas para o dia a dia dos seus funcionários, o problema, assume, é mesmo não haver capacidade financeira para outras que gostaria de aplicar.

“Assim que se começou a falar da Covid-19, e como os meus funcionários sendo estrangeiros vivem em duas casas, aconselhei-os a irem apenas duas pessoas ao supermercado de duas em duas semanas. Entreguei-lhes máscaras, luvas e álcool gel e expliquei-lhes as melhores práticas no uso destes equipamentos.

Ainda pensei ter uma terceira habitação para colocar em isolamento algum dos meus funcionários

que ficasse infetado mas devido à falta de clientes tive que reformular os meus planos, até porque, se for obrigado a despedi-los há uma coisa que não posso deixar de fazer que é garantir-lhes uma casa com condições e alimentação.

Não posso ter pessoas que me ajudam a viver na minha empresa e chegar a uma altura como esta e simplesmente deixá-los ao abandono.

O maior problema que temos nesta altura é o transporte dos funcionários que normalmente se faz em carrinhas de 7, 8 ou 9 lugares, algo que neste momento é desaconselhado, contudo, com as medidas que temos e vivendo os trabalhadores todos juntos é um risco reduzido. Não nos é possível ter uma carrinha para cada dois ou três funcionários”.

Na situação atual, quando pensamos em saúde é habitual que a primeira ideia que nos vem à cabeça é a pandemia Covid-19, contudo, também neste setor há mais vida para lá da pandemia e, as Unidades de Cuidados na Comunidade (UCC) são umas das mais ativas no terreno.

Clara Leite e Mónia Ribeiro são dois dos três rostos da UCC de Santa Marta de Penaguião. Têm à sua responsabilidade um território vasto ao qual se somam por estes dias mais três freguesias do concelho vizinho de Peso da Régua, trabalho extra que surge devido à ativação de diferentes planos de contingência nos serviços de saúde e que obrigaram a que estes se reorganizassem de forma a dar uma resposta eficaz a todos aqueles que precisam.

“Temos tido muito trabalho mas com todos em consonância tem sido possível fazê-lo da melhor forma.

Temos uma área geográfica muito grande e com a população muito dispersa, nesta altura acabamos também por prestar apoio aos colegas da Régua, da UCC Douro, que têm também eles uma área muito grande e com muitos pacientes, foi um pedido de colaboração ao qual não conseguimos dizer que não, por isso estamos a dar apoio em três freguesias: Loureiro, Moura Morta e Vinhós, que são as que fazem fronteira aqui com o concelho de Santa Marta. A questão mais complicada com este acrescento de trabalho não é aquilo que é necessário fazer em si mas as distâncias que temos de percorrer e a falta de conhecimento dos locais onde estão as pessoas o que muitas vez faz com que andemos para a frente e para trás em vez de fazermos um percurso em continuo.

Mónia Ribeiro e Clara Leite

É um trabalho pesado porque temos uma equipa pequena, de três elemento, mas que neste momento só estamos duas ao serviço porque a nossa colega está de baixa.

Cada unidade funcional do sistema tem as suas funções bem definidas, o que acontece é que, com a aplicação do Plano de Contingência acaba por haver uma reorganização de alguns serviços.

No nosso caso, para além das funções que já nos pertencem ficamos também com o trabalho das nossas colegas dos Cuidados Continuados, isto para permitir que as nossas colegas estejam o máximo de tempo possível nos Centros de Saúde para atenderem tanto os doentes agudos como os que apresentem sintomas respiratórios, acabando por fazer a triagem para as Áreas Dedicadas Covid (ADC).

No fundo acabamos por ficar com os domicílios que pertenciam às nossas colegas da Unidade de Saúde Familiar, ou seja, tudo o que é tratamentos curativos é a nossa equipa que agora está a assegurar”, conta-nos Clara Leite, que é, simultaneamente, coordenadora desta UCC.

Para Clara Leite uma das preocupações atuais é o risco deste trabalho, as visitas domiciliárias são a base deste serviço e, às duas enfermeiras, resta-lhes confiar na honestidade dos pacientes e dos seus cuidadores para que tudo corra da melhor forma.

“Nota-se que as pessoas nos recebem bem mas obviamente temos sempre alguns receios até porque nós entramos nas casas das pessoas e temos sempre que contar com a honestidade delas quanto a quem entra e sai de cada habitação, isso é o mais difícil.

Temos um caso, por exemplo, de um senhor que alterna de residência mensalmente, um mês em casa de um filho, no mês seguinte em casa do outro, esta situação acaba por nos deixar um pouco mais apreensivas, tendo em conta o atual cenário, porque nunca sabemos ao certo quem entra e sai em cada uma das casas”.

A reduzida existência de material de proteção individual é outra das preocupações, a coordenadora assume que nem sempre a gestão dos EPI’s disponíveis é a mais fácil mas até ao momento tem sido possível assegurar que todos realizam o seu trabalho em segurança.

“Nós temos EPI’s para cada elemento, cada uma de nós tem o seu kit, contudo temos que fazer uma gestão desse material, que usamos diariamente, muito cuidada. A falta de material é geral, não acontece apenas nos hospitais, estamos todos em contenção. Se pedimos 100 batas já sabemos à partida que vamos receber 50 ou 25 e a partir daí temos que fazer a melhor gestão possível. Não é fácil mas com um esforço extra vamos conseguindo responder a todos os desafios”.

Estando em contacto direto e permanente com a população, em especial com muitas pessoas pertencentes aos grupos de risco, estas equipas funcionam também como educadoras e explicadoras

da situação atual.

“Nós atendemos uma faixa etária muito idosa e temos, inclusivamente, idosos a tomar conta de idosos, é uma realidade com a qual nos deparamos diariamente. São pessoas também que têm hábitos muito enraizados, ainda um destes dias uma senhora idosa nos perguntava se podia ir ao cemitério, são rotinas que as pessoas têm e que são difíceis de mudar de um momento para o outro.

Esse é também o nosso papel, explicar e alertar, não apenas quando nos solicitam, mas sempre que estamos em contacto com eles. Há muitas pessoas que estão isoladas e muitas vezes nós somos o único contacto que têm.

Aquilo que se sente é que as pessoas já vão interiorizando as indicações apesar de ainda vermos alguns idosos a circular, até porque muita desta gente trabalha no campo, na vinha, e aí sentem-se mais em segurança até porque estão ao ar livre, o que acabamos por aconselhar é que façam esses trabalhos sozinho e quando terminem que vão diretos para casa”.

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