“Houve unanimidade que o troço do Douro Vinhateiro seria o que mais requisitos teria para alcançar o sucesso da candidatura”

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Convidado por Miguel Cadilhe, foi Fernando Bianchi de Aguiar que liderou a equipa técnica responsável pela apresentação do dossier de candidatura à UNESCO que resultou na atribuição da classificação Património Mundial.

Recordando o processo de candidatura, como foi pensado e organizado todo esse trabalho?

O trabalho foi feito no quadro da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Foi um desafio pessoal, no entanto, como professor universitário remeti a colaboração para a minha universidade, que foi aceite com naturalidade.

O Doutor Miguel Cadilhe era o Presidente da Fundação Rei Dom Afonso Henriques, que foi a entidade de tomou a iniciativa de promover a candidatura.

Juntamente com os associados a Fundação fez um estudo prévio de toda a bacia do Douro para perceber que troço teria melhores condições para apresentar a candidatura à lista de Património Mundial. Houve unanimidade que o troço do Douro Vinhateiro seria o mais importante, e com mais requisitos para alcançar o sucesso da candidatura.

A universidade constituiu uma equipa, que eu coordenei e, para a qual convidei a professora Teresa Andresen, da universidade de Aveiro, e o professor Gaspar Martins Pereira, da universidade do Porto, conseguindo assim uma equipa pluridisciplinar que pudesse responder a todos os requisitos da candidatura que é um dossier bastante exigente.

Num ano conseguimos apresentar uma candidatura à Comissão Nacional da UNESCO, que entretanto apresentou-a à UNESCO propriamente dita.

Encontraram muitas dificuldades?

O mais importante foi termos uma solução financeira muito ágil. Como era uma iniciativa privada o orçamento não tinha aquelas restrições que a Administração Pública tem. Este foi o primeiro facto.

O segundo aspeto foi haver um núcleo muito importante de colaboração dentro da própria universidade, foi-me permitido criar uma equipa muito matricial para a qual fui buscar a cada departamento as pessoas que precisava.

Na altura não havia as facilidades de tecnologia que hoje existem, por isso foi também vantajoso a professora Teresa Andresen viver no Porto, o que permitia termos várias reuniões presenciais.

Outro aspeto, muito importante, foi a mobilização de todas as autarquias e ter a certeza que a candidatura era entendida localmente. Isso deu algum trabalho mas conseguimos mobilizar, em vários momentos, toda a gente.

O primeiro contacto com os  autarcas foi no Palácio de Mateus, foi a oportunidade da Fundação me apresentar como coordenador da candidatura. Houve logo uma grande aceitação da equipa que estava constituída, e uma interação muito grande entre nós e o poder autárquico. O mesmo entendimento repetiu-se com diversas entidades mais ligadas ao setor dos vinhos como a associação dos exportadores, a Casa do Douro, ou a ADVID, por exemplo.

A função que me foi atribuída exigia uma interação grande com o território, o que foi feito com trabalho. Não houve grandes obstáculos porque, repito, tínhamos os meios financeiros para o fazer.

Passados estes 20 anos do Alto Douro Vinhateiro – Património Mundial, que contributo teve esta distinção para a região?

Posso distinguir, com um carácter mais ou menos tangível, dois reflexos.

Há um, que é indiscutível, e que era um dos objetivos da candidatura, colocar a região do Douro no mapa, como hoje se diz. No fundo era dar a conhecer a Região Demarcada do Douro (RDD) como região de produção de Vinho do Porto. A internacionalização do vinho estava garantida e é sobejamente conhecida, no entanto a região nem sempre era divulgada como a região de criação deste produto, muita gente achava que era produzido na própria cidade do Porto.

Este foi um aspeto importante e que acaba também por ser um tributo às pessoas do Douro, que tinham construído essa paisagem fantástica, com uma viticultura com pelo menos 2000 anos.

Outro aspeto que também queríamos atingir era a criação de melhores condições de vida para as populações locais. É evidente que aí há o primeiro factual, que é uma desilusão para nós, que foi a perda continuada de população da RDD. Os números são impressionantes, na primeira década perdeu-se cerca de 6% da população, e na segunda à volta de 10%, embora se reduzirmos o saldo natural, sendo uma região envelhecida, de facto há mesmo assim uma migração de pelo menos 5% da população, que é de facto um indicador que diz que a qualidade de vida da região e as oportunidades profissionais não cresceram muito.

Há ainda outros aspetos tangíveis como o grande investimento que houve no Douro, e uma melhoria clara das preocupações com a viticultura, que são aspetos que considero muito positivos. Houve também um grande crescimento turístico na região mas não podemos comparar com o que seria caso não tivesse havido a candidatura. O desenvolvimento é uma realidade exponencial mas não é percebida por toda a gente sob, o ponto de vista dos benefícios económicos, em especial por aqueles que não foram tocados diretamente, o que impede uma mobilização total da população em torno da candidatura.

Quais são os grandes desafios que enfrenta hoje a Região Demarcada do Douro?

Há dois grandes desafios. Um deles é reforçar a atividade económica, que é o setor vitivinícola, definitivamente. O maior contributo para a salvaguarda é uma atividade económica saudável.

Não podemos esquecer que nos últimos 20 anos houve uma redução da comercialização de Vinho do Porto na casa dos 24%, que é uma coisa muito acentuada, embora em valor a quebra não ter sido tão grande. Seja como for isso foi negativo porque criou um excedente de mosto no Douro, não obstante o vinho DOC Douro quase que triplicou em volume, houve uma compensação mas, como se sabe, os mostos destinados a Vinho do Porto são muito mais bem pagos do que aquele utilizado para os vinhos tranquilos. Houve uma redução da riqueza que fica na região.

Há um esforço importante para estabilizar a produção e criar um mecanismo de repartição da riqueza que permita uma justiça maior, ficando o viticultor com mais dinheiro no bolso. Este é o primeiro desafio. Se isto for conseguido, conseguiremos contribuir para uma estabilização da população na região.

O segundo aspeto tem a ver com a necessidade do próprio desenvolvimento turístico poder dar um contributo económico à região, de uma forma mais generalizada.

Temos discutido por estes dias muito do que é o passado e do que será o futuro da região, e um dos aspetos que tem sido consensual é que é necessário repensar a forma de gestão, não obstante o papel que a CCDR-N tem desempenhado. Isto podia ser feito criando um orçamento próprio, canalizando fundos europeus para esse plano de gestão.

Pessoalmente, sou da opinião que se devia criar uma taxa turística que alimentasse esse orçamento. Essa seria a contribuição de todos os visitantes, quer no seu alojamento, quer no trânsito fluvial que é considerado, pela maior parte dos durienses, uma atividade excessivamente extrativa, usando uma linguagem mineira. Ou seja, é um tipo de atividade que deixa pouco na região, por isso considero legítimo solicitar aos operadores turísticos fluviais que contribuam para esse orçamento com uma taxa em função do número de passageiros que transportam.

A construção da barragem Foz-Tua, por exemplo, entre outras obras, trouxe à ribalta a discussão sobre a possibilidade da UNESCO retirar a classificação ao Alto Douro. Essa possibilidade é algo que deve estar sempre presente no desenvolvimento de grandes projetos?

Sem dúvida. A inscrição na lista de Património Mundial foi conseguida ao demonstrar o carácter de excelência e universal da paisagem do Douro. Isso foi possível por um conjunto de atributos que foram reconhecidos assim, e temos que o preservar.

Um deles, que é indiscutível, é impedir que haja intrusões na paisagem como era Foz-Tua. Devemos ter isso muito presente mas a monotorização que é feita pela CCDR-N tranquiliza, conheço bem os meios que hoje a unidade de missão tem para fazer a monotorização das intervenções no Douro. O que faltou nesse caso foi uma comunicação regular com o ICOMOS e o Comité do Património Mundial, que hoje está normalizada.

Qualquer candidatura deve ser reavaliada, ou pelo menos o bem em si deve ser reapreciado com uma cadência, salvo erro, de 5 em 5 anos, e nós falhamos claramente a primeira avaliação. Hoje as relações com a UNESCO estão normalizadas e qualquer intervenção deve ter em consideração o valor universal da paisagem, impedindo construções que sejam intrusões na paisagem, como ainda recentemente a construção de um grande hotel muito próximo do plano de água.

O valor económico do produto turístico que é a Região Demarcada do Douro, perder-se-ia se danificássemos a paisagem.

Para finalizar solicitamos uma mensagem que queira deixar à região e aos durienses.

Há uma coisa que considero muito importante, que, de facto, os durienses tenham muito orgulho na paisagem que os seus antepassados construíram, e que a mantêm na atividade vitícola. É uma atividade dura, pouca gente sabe o esforço físico que exige pelas condições climáticas e do terreno, mas devem ter orgulho na paisagem que contribuem para manter.

Legitimamente, esperam que haja uma maior retribuição desse seu trabalho e a repartição desse benefício por todos os durienses.

Terminaria com um apelo um pouco mais vasto, o Vinho do Porto sempre foi um vinho festivo e que perdeu totalmente o espaço para outras bebidas. O apelo é que esse hábito se recupere, temos vinhos datados e que podem ser usados para festejar várias datas festivas. Agora com o Natal e o Ano Novo à porta deixo o pedido para que bebam o Vinho do Porto como a bebida festiva da celebração.