João Nicolau de Almeida: “Comparo muito a música ao vinho e o Douro é um piano que tem as teclas todas”

Foto: Tiago Nogueira

O VivaDouro esteve à conversa com João Nicolau de Almeida, filho de Fernando Nicolau de Almeida, o criador do Barca Velha, e antigo administrador da Ramos Pinto, que nos falou acerca da evolução do território nos anos que se seguiram à classificação do Douro enquanto Património Mundial. Leia a entrevista e conheça o retrato da região feito pelos olhos do enólogo.

Em 2001 o Alto Douro Vinhateiro (ADV) foi considerado como Património Mundial da Humanidade. Cerca de 15 anos depois desta classificação qual é o retrato que faz da região neste momento?

Eu acho que o facto de a região ter sido considerada património mundial trouxe uma vantagem muito grande na defesa do património próprio porque era muito difícil ouvir falar em várias tentativas dos municípios se porem todos de acordo para salvaguardar o património.

Que mudanças podemos registar no panorama da viticultura nos últimos 15 anos, ou seja, desde o momento que o Douro foi considerado Património Mundial da UNESCO?

A primeira foi não estragar mais porque o modo de estragar estava exponencial, ainda para mais agora com a entrada do turismo então seria um desastre. O que se nota é que há regras, não é só ser património mundial, tem regras que são obrigatórias dentro da região e isso veio fazer com que se recupera-se ou substituísse as vinhas antigas, fez com que se tivesse mais cuidado com as estradas, não se deixaram construir de qualquer maneira e, enfim, mesmo o modo de tratamento das vinhas e de formação das vinhas é mais controlado, enfim, acho que houve muita vantagem.

Considera, claramente, que isto foi uma vantagem para a região.

Sem dúvida. Foi uma vantagem muito grande, se isto não tivesse existido estou convencido que o Douro, hoje, estava ao “deus dará”.

Que vantagens teve esta inscrição para os empresários da região? Foi vantajosa para eles?

A primeira vantagem foi conseguir parar o desmantelamento daquela beleza toda do Douro e isso, para as empresas, trouxe um património muito grande porque quando vêm cá os nossos clientes, temos clientes de todo o mundo, uma coisa é apresentar uma região degradada e outra coisa é apresentar uma região cuidada, bonita e equilibrada, a natureza com as próprias vinhas e com as próprias adegas e isso tudo. Portanto, empresarialmente foi uma vantagem muito grande, nesse aspeto. Outro aspeto é também o de dar a conhecer ao mundo uma região onde se faz o vinho do Porto e, hoje em dia, o do Douro que é uma região que não faz só vinho, mas também é património mundial, quer dizer que também tem um património natural muito grande e sobretudo um património humano fora do vulgar, todos aqueles terraços, todas aquelas vinhas.

A plantação de vinho no Douro ainda continua a ser uma tarefa complicada?

Eu acho uma coisa louca, que só o espírito português faz isso porque as pessoas perguntam todas, “mas porque é que vocês não vão para um sítio mais fácil e mais conveniente?”.

Chegou a colocar essa questão a si mesmo, enquanto empresário?

É evidente.

E qual é a resposta a essa questão?

A questão demorou muito tempo a perceber, mas, entretanto, sei que fiquei amarrado. Desde que fui para lá fiquei preso àquilo. Agora, porque é que eu fiquei preso, isso é que demorei um certo tempo a perceber. E, a minha explicação, é que uma pessoa entrando ali é como quem entra numa mina de diamantes, que vai batendo com a picareta, vai batendo, vai batendo que aparece um diamantezinho e vai andando, vai andando, a certa altura está tão metido lá dentro que nunca mais de lá sai. E, outra coisa, é que para um enólogo, eu toquei muito tempo num conjunto, por isso comparo muito a música ao vinho e o Douro é um piano que tem as teclas todas. Ou seja, onde o senhor está, tem ali as teclas todas para tocar a sua música, ou seja, tem a altitude, o norte, o sul, o clima, a sub-região, tudo. Está lá tudo. E isso, para um enólogo é uma riqueza muito grande, porque tem ali uma possibilidade de criar a sua sinfonia, a sua música.

Podemos dizer que não há mais nenhuma zona do país que reúna estas qualidades todas juntas, podemos chamar-lhe assim? O próprio Alentejo que se faz bom vinho, não tem estas características, não é?

Faz bons vinhos, mas obviamente que são diferentes. No Alentejo é mais homogéneo, mais plano, portanto, não tem esta diversidade ecológica, o ecossistema que aqui está sempre a mudar. Aquilo é para a vida. Como na música e como na pintura, que na tela tem as cores todas.

Ou seja, é uma paixão para a vida.

É porque há sempre mais.

E esta chancela da UNESCO ajudou também, a nível internacional, a projetar o Douro em termos de património.

Claro. É evidente quando nós dizemos que o vinho do Porto é património mundial dá uma mais-valia e, mesmo as pessoas, os estrangeiros, os turistas que não estão muito virados para o vinho ouvem falar “património mundial”, vão ver o património mundial e ao mesmo tempo descobrem o património e o vinho também. Veja-se hoje em dia, estão cada vez mais a chegar turistas ao Douro e ficam, eu costumo dizer que normalmente os estrangeiros, outras empresas, multinacionais, muitas vezes jornalistas vêm todos de nariz aproado e dobram perante a dimensão e todo o espaço de trabalho humano que está ali, isso é impressionante. Se a gente começar a pensar bem o que é que está ali veria que são as nossas pirâmides, quer dizer, ali está concentrada muita dedicação, muita fome, muita riqueza, muita alegria, muita tristeza, aquilo é uma coisa fantástica.

Só quem passa por ela, não é?

Sim.

A forma como se consome o vinho do Porto é igual hoje, do que há 15 anos atrás? Qual a principal diferença em termos de consumo do vinho do Porto propriamente dita?

O vinho do Porto, como sabe, é um vinho de vários séculos e é um vinho que já tem uma tradição e um peso muito grande. Mas esse peso pode ter um lado positivo e um lado negativo porque nós temos de tornar o vinho do Porto numa bebida mais apelativa para os jovens.

E é fácil fazer esse apelo?

Eu acho que não é fácil e a razão principal é porque, digamos, as leis que foram extraordinárias, como sabe, o vinho do Porto é regido por muitas leis e muito papel, que foi muito útil quando se fez, só que não evoluiu. Um jovem que chegue ao Douro e queira fazer vinho do Porto dá trabalho, tem de ter um capital de investimento.

É fácil com 25 anos nós termos consciência que estamos a provar vinho do Porto com qualidade? Ou não é fácil essa distinção?

A primeira coisa é que hajam jovens a fazer vinho do Porto, isso é fundamental porque os jovens dinamizam. Veja o vinho de mesa, quem é que começou? Foi com os jovens. Eu também era um jovem na altura e comecei com um vinho de mesa em 90 e hoje em dia há muitos jovens lá a fazê-lo. Para fazer vinho do Porto têm que ter um stock de 150 mil litros. E qual é o jovem que pode ter? Ou herdou uma quinta ou não pode. O vinho do Porto tem uma concertação cada vez maior, há fundamentalmente cinco casas que representam 80% do vinho do porto.

É mais rentável o vinho de mesa que o vinho do Porto? Em termos de rentabilidade é mais fácil para um empresário investir num vinho de mesa do que num vinho do Porto?

É muito mais fácil. Para já, não precisa de ter stock, os tais 150 mil litros, e, depois, vende ao segundo ano.

Quem é o principal cliente do vinho do Porto? É o português, propriamente dito, ou é o estrangeiro?

É o estrangeiro. O estrangeiro francês anda à volta dos 32% do vinho do Porto.

Ou seja, quem está neste ramo tem que, claramente, exportar. O mercado interno não chega.

Não, não chega. Mais uma razão, mais caro ainda fica. E depois, chega lá fora e vai ter que batalhar. Particularmente um jovem faz mil garrafas e vai batalhar com um que faz 10 mil. Não tem espaço de competição.

No vinho de mesa é exatamente igual?

Não, o vinho de mesa é diferente porque no vinho de mesa, para já, há uma abertura maior no leque de compradores e bebe-se mais e é mais fácil explicar e é mais fácil vender e entender. É um mercado diferente. Não quer dizer que não seja difícil hoje em dia, mas em relação ao vinho do Porto é muito mais fácil.

Este acréscimo no turismo nestes últimos anos é importante para a parte empresarial? Vivem muito disto? Isto tem peso na vossa quota de mercado?

Começa a ter.

Residual ou significativo já?

Começa a ser significativo, sobretudo em Gaia e agora está a subir para o Douro. Já está na Régua, já está no Pinhão, está a chegar ao Pocinho e isso, para os produtores locais, é bom porque depois também podem comprar à porta e é uma mais-valia.

Se lhe pedir para me identificar qual a região do Douro onde se produz o melhor vinho do Porto é fácil?

Não, é muito difícil.

Cada uma delas terá características diferentes, não é? Mas o melhor é uma utopia? Não se consegue chegar lá?

Com muita conversa. Como lhe disse todas as regiões têm o seu piano a forma como se toca o piano, digamos, um têm um Yamaha o outro o Yamaha 2 e o Yamaha 3.

Qual é a sua opinião quanto a essa questão?

Eu acho que há vinhos fantásticos nas três sub-regiões, agora, também há vinhos maus nas três sub-regiões. A tal diversidade em cada sub-região pode-se sempre compor. O nível de categoria pode ser o mesmo. E posso chegar a um sítio mais maduro onde se diz que fazem os vintages e tal, isso depende mais do ano. O ano é fundamental e depois a altura em que se faz a colheita. A minha geração foi a primeira que trouxe a ciência, a enologia para o Douro, agora, é engraçado que estou a aprender de novo a vir para trás com os meus filhos, que é outra geração, que também estudaram em Bordéus e, com a ciência, trazer a tecnologia para a tradição, quer dizer, repor o que estava, mas com a ajuda da ciência. Isso, para mim, na minha reforma, foi uma injeção de adrenalina e aí vou eu outra vez porque estando em contacto com a natureza percebe-se muito mais o vinho e a vinha, desta forma é uma aproximação maior da terra, é outro mundo que descobri com os meus filhos. Ao princípio houve uma certa fricção e eu é que sabia, mas afinal isto é muito mais interessante.

Hoje aprende com eles?

Aprendo, também dou as minhas dicas, mas a estratégia básica é deles. Agora estamos a fazer tudo como os antigos faziam, só que de outra forma. Acho isso interessantíssimo. E, depois, fazer um vinho que nunca levou um herbicida ou qualquer “icida” dá-me um gozo tremendo porque só se faz ali, não há interferência desses elementos sintéticos e isso dá-me bastante gozo. Entra-se muito mais no mundo da natureza, compreende-se muito melhor, prova-se melhor as uvas.

Qual o balanço que faz destes 15 anos do ADV enquanto Património Mundial?

O balanço é bastante positivo, permitiu-nos continuar com uma região de uma beleza única, conseguimos continuar a plantar lá e conseguiu-se controlar toda a faixa costeira, das margens do rio Douro, não fazendo asneiras e estragar aquilo. Acho altamente positivo, embora tenha um “se” que para mim são as barragens.

O que espera desta região para os próximos anos?

Eu espero que se continue a proteger, atenção, proteger mas com bom senso. Não é um decreto feito de qualquer maneira e interpretado por um escritório qualquer e tem que ser assim. O bom senso não se decreta, como é óbvio. Tem que se fazer jus à natureza. O que é preciso é usar o que está estipulado e usar o bom senso. Com o bom senso não se estragam as coisas. É preciso adaptar porque muitas vezes as pessoas que estão no terreno sabem muito mais do que o escritório de advogados que está por trás e legisla uma qualquer lei. Agora, o Douro está a ser descoberto mundialmente e lembro-me de ir aos estados Unidos vender o Vinho Ramos Pinto, o Douro que é o Douro, conheciam era o vinho do Porto, hoje em dia já se conhece o Douro.

O Douro tem um peso hoje que não tinha, claramente, há quinze anos atrás?

Sem dúvida. Tem um peso muito grande em várias vertentes. E depois ajuda a potenciar a economia local. E, sobretudo, também ajuda a fixar os jovens, isso é muito importante.

Há alguma coisa que queira acrescentar?

Bom senso. Para que os jovens possam entrar em força.