João Pedro Pires: “É uma cooperativa que respira saúde”

João Pedro Pires, presidente da Adega Cooperativa de Mesão Frio/ Foto: Salomé Ferreira

João Pedro Pires, presidente da Adega Cooperativa de Mesão Frio/ Foto: Salomé Ferreira

O VivaDouro esteve à conversa com João Pedro Pires, presidente da Adega Cooperativa de Mesão Frio. Dirigente da cooperativa desde 2004, João Pedro Pires pretende voltar a candidatar-se nas eleições que se irão realizar este ano.

Em que contexto é que surgiu a Adega Cooperativa de Mesão Frio?

A cooperativa de Mesão Frio é a mais antiga do Douro. Foi fundada em 1950 e baseou-se no modelo de um grupo de pessoas que sentiram na época as dificuldades dos agricultores em comercializar os vinhos. Em 1950 começaram com cerca de 13 sócios, hoje a cooperativa tem perto de 500 sócios. Isto é fundamental porque nós estamos numa região de minifúndio em que os lavradores não tinham autonomia para comercializar os vinhos portanto hoje a cooperativa trata da comercialização desses pequenos e médios viticultores, cerca de 60% estão na cooperativa.

Quais sãos os principais objetivos da Cooperativa?

O objetivo é vender melhor possível o vinho, para pagar o melhor possível aos agricultores, esse é o nosso grande objetivo.

Quais são as principais vantagens que os produtores encontram ao trabalharem com as cooperativas?

Entregam aqui a sua produção que de outra maneira seria difícil escoar e nós tratamos de comercializar o vinho e depois pagamos-lhes, dependendo dos resultados de cada ano. Esta cooperativa tem tudo pago aos associados, tem tudo pago aos fornecedores e é uma cooperativa que respira saúde.

Pode então garantir que a cooperativa está com uma boa saúde financeira?

Sim, está. Vai trabalhando, mas apostamos seriamente na qualidade dos produtos essencialmente, ajudamos os agricultores também a produzirem o melhor possível porque nós não conseguimos fazer bons vinhos se não tivermos boa matéria-prima. Vamos incentivando as pessoas e acho que tem havido uma boa correspondência da parte dos viticultores a colocarem nas vinhas novas castas. Temos notado essa melhoria ao longo dos tempos.

Adega Cooperativa de Mesão Frio/ Foto: Salomé Ferreira

Adega Cooperativa de Mesão Frio/ Foto: Salomé Ferreira

Como é que foi a produção nos últimos três anos?

O ano de 2014 foi bastante mau, mas o ano passado foi excelente, tanto em quantidade como em qualidade.

A vossa grande aposta é o vinho do Porto?

É sensivelmente metade do que produzimos anualmente, dentro do vinho do Porto só vendemos uma pequena parta às firmas, o resto comercializamos em garrafa, e isso poucas Adegas fazem.

Sentiram os efeitos da crise nos últimos anos?

A crise está em tudo, de maneira que no setor dos vinhos notou-se, mas nós tentamos inovar, apostar seriamente na qualidade e procurando novos mercados conseguimos passar. Mas a crise também ainda não acabou.

Como é que tem sido a evolução do número de sócios ao longo dos anos?

Tem-se mantido, há pequenos agricultores que deixaram de cultivar as suas parcelas. Saem alguns sócios por ano, saem meia dúzia mas entra uma dúzia, está mais ou menos equilibrado. Estamos também cada vez mais a ter sócios de outros concelhos.

Em que medida é que a Cooperativa tem apostado na exportação?

Cerca de 25% do que produzimos destina-se à exportação. Exportamos para o Canadá, para o Luxemburgo, para a Bélgica, Holanda.

Qual é a principal dificuldade sentida pela cooperativa neste momento?

A dificuldade é a valorização do vinho em si. Era importante que os associados recebessem mais do que estão a receber neste momento, apesar de sermos das Adegas que melhor valoriza as uvas dos agricultores, em que melhor se paga. Nós temos quase religiosamente o dia certo para pagar, isso é importante porque eles já estão à espera desse dinheiro. Como cooperativista e representante desta gente penso que era importante que eles recebessem mais dinheiro, porque todos nós sabemos quanto custa trabalhar o Douro, sabendo que hoje 40% das vinhas ainda estão em sistema tradicional, não estão mecanizadas.

Considera que Portugal se consegue distinguir de outros países da Europa neste setor?

Nós temos uma potencialidade muito grande, temos excelentes vinhos, agora falta qualquer coisa para dizer às pessoas do mundo que nós temos dos melhores vinhos do mundo. Falta uma divulgação feita asserio, as entidades competentes tinham que apostar numa promoção dos vinhos portugueses.

Na sua opinião qual é o principal entrave ao desenvolvimento das cooperativas em Portugal?

As cooperativas vão ter sempre o seu lugar, não podem substituir as empresas nem as empresas podem substituir as cooperativas. Cada uma tem o seu papel. Agora temos que cada vez mais estar todos em conjunto para ir para a frente, estar em consonância, porque o grande problema de tudo isto é que muitas vezes andamos de costas viradas uns para os outros. Há pouca abertura quer das direções das cooperativas, quer das entidades oficiais para promoverem ou fazerem essa junção. Fala-se em união de cooperativas mas não se faz, não há incentivos a isso. Era importante cada vez mais lutar com os mesmos objetivos.

O que é que esperam para o futuro da cooperativa?

Queremos continuar o trabalho que estamos a fazer, a pagar às pessoas, a dar nome à terra, que é importante também. Hoje Mesão Frio é muito conhecido pelo vinho. Queremos modernizar a nível de vinificação e equipamento a cooperativa, estamos a investir nisso.

Na presidência desde 2004, vai voltar a concorrer novamente nas eleições deste ano?

Sim vou, é um projeto muito simples, acho que as pessoas não estão descontentes com o meu trabalho, também não vislumbro que apareça mais alguém para concorrer.

Qual é o balanço que faz até agora do tempo em que se encontra à frente da direção?

Acho que foi bom, tivemos altos e baixos, muito trabalho no início. Mas acho que entrámos em velocidade cruzeiro e as coisas vão andando por elas. Temos tentado fazer o melhor possível.

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