João Porfírio: “Estar no interior faz-nos pensar em detalhes e pormenores que, estando no litoral, não pensamos

Homem do norte, nascido em Vila Nova de Gaia, João Porfírio é formado em matemática. Depois de entrar no setor da saúde para desempenhar funções no Hospital de São João, no Porto, foi convidado em 2016 para Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD), cargo que desempenha com gosto e com a convicção que pode marcar a diferença na saúde do interior.

Foi anunciado um investimento de 16 M€ para o CHTMAD, um investimento desta dimensão é o necessário ou fica ainda aquém do que seria preciso?

Bem, os 16 M€ já são um investimento bastante ambicioso. Se seria necessário mais? Claro que sim, o CHTMAD, pela dimensão e antiguidade que tem nos seus edifícios principais (excluindo obviamente Lamego que é recente e como eu costumo dizer, a jóia da coroa em termos de instalações), os outros hospitais, nomeadamente Vila Real e Chaves, são hospitais com mais de 30 anos.

Assim sendo já se começa a sentir alguma degradação que tende a piorar de ano para ano, portanto, era necessário começarmos a reabilitar progressivamente, até porque não é possível encerrar um hospital para obras de melhoramento e assim também se pode diluir todo o investimento necessário ao longo de algum tempo.

Repito que, se me pergunta se era necessário mais a resposta terá que ser sim, contudo este é um investimento de sobremaneira já ambicioso, sendo que alguns investimentos que estão previstos neste pacote de melhoramentos não vão ser possível realizar todos em 2018.

De qualquer maneira é um investimento feito sobretudo em equipamento. Tendo em conta o que lhe dizia há pouco, o investimento para melhoramento de instalações é ainda pouco, por exemplo, o edifício onde nos encontramos tem mais de 30 anos, assim como os pavilhões existentes aqui em Vila Real onde funciona, por exemplo, o serviço de psiquiatria, é uma das nossas prioridades.

Fizemos a identificação do que seria necessário e falamos de um investimento de 30 M€, sabemos que isso não é exequível por diferentes razões, desde logo pela própria questão financeira mas também por questões processuais e de autorizações mas também por questões físicas, não podemos fechar o hospital para obras para depois o reabrir renovado.

Mas a recuperação desses pavilhões está prevista neste 16 M€?

Sim está.

Este investimento é calculado para que período?

O Plano de Investimentos é feito a três anos, como a própria tutela exige e os investimentos são pensados e periodizados, obviamente que por um ou outro fator essa prioridade pode mudar.

Fatores externos?

Sim, mas também internos. Por exemplo, se um equipamento avariar, então a urgência na aquisição de um novo pode alterar essas prioridades. Portanto, são algumas nuances que têm que ser avaliadas com o tempo.

Segmentando alguns dos investimentos que serão feitos, alguns deles considerados essenciais, comecemos por falar do TAC recentemente inaugurado em Lamego, era um dos considerados essenciais?

Sim, era. E aqui gostava de começar a falar primeiro dos utentes. Anualmente nós transportávamos cerca de 4500, 5000 utentes do Hospital de Lamego para Vila Real, simplesmente para fazer TAC. Portanto, estes exames pedidos muitas vezes em ambiente de urgência, obrigavam sempre a que o doente fosse transportado até aqui, regressava a Lamego e, em alguns casos ainda tinha de fazer uma nova viagem até aqui, se por exemplo o diagnóstico obrigasse ao internamento, por exemplo cirúrgico. Só isto, este transporte, significava um gasto de 50 mil euros anuais.

Portanto, para além do desconforto do utente, da demora no diagnóstico, e do risco inerente a essa demora, naturalmente que o primeiro fator é maior comodidade para o doente, um serviço de doente mais eficaz e rápido.

Depois há a questão económica. Este investimento foi dos primeiros com que concordamos porque ele se paga em pouco tempo. Estamos a falar, grosso modo, de um investimento de 200 mil euros, se só o custo do transporte era de 50 mil euros, então o investimento está pago ao fim de 3, 4 anos.

É também nessa linha que surge o investimento na ressonância magnética (RM) em Vila Real?

O investimento na RM é um investimento que já vem de alguns anos. O concurso inicial data de 2012, 2013. Na altura houve uma avaliação económico-financeira positiva para a que esse exame passasse a ser feito internamente, porque está subcontratado a um grupo privado.

Portanto, esse estudo económico foi feito e o investimento aprovado, em 2015 houve um aumento de capital, em 2016 foi adjudicado e contratado o trabalho com a obtenção do visto do Tribunal de Contas e em 2018 irá felizmente começar a trabalhar.

Qual é o prazo para o indicado para que comece então a funcionar?

De acordo com o que está planeado deverá estar a funcionar no final de agosto.

Estamos a falar de um longo período para este investimento, cerca de 6 anos. Não é um tempo demasiado longo?

É sempre demasiado. Como já disse na nossa conversa, este tipo de investimentos demoram sempre algum tempo. Houve sem duvida aqui um fator, entre a abertura do concurso e a adjudicação do trabalho que demorou cerca de 4 anos, que é externo, a crise pela qual o país passou e a dificuldade que, nessa altura, todos os hospitais sentiram em investir.

Continuando a falar de equipamentos. Outro dos investimentos será feito no novo Acelerador Linear para reforçar a unidade de Radioterapia. Esse investimento está previsto já para 2019, correto?

Sim. O investimento já foi pedido em 2017 e teve o parecer favorável das diferentes entidades envolvidas, o próprio ministro já o assumiu como importante e a ARS Norte classifica-o como muito importante para a região, e neste momento apenas falta a autorização final da tutela.

É um investimento avultado, falamos de cerca de 5,5 Milhões de euros, portanto terá também que haver um aumento de capital para que ele seja feito.

Tudo isto demora o seu tempo, estou confiante que não tanto como a RM mas é tão necessário que para nós é mesmo a primeira prioridade.

Este investimento para além do novo equipamento inclui ainda uma renovação tecnológica do equipamento já existente e que tem 10 anos. Portanto, para que ele consiga trabalhar mais alguns anos é necessária esta atualização, o que faz sentido em equipamentos destes.

Mesmo que seja autorizado ainda em maio deste ano, mesmo havendo um aumento de capital, é muito difícil que ainda este ano fique adjudicado. Um investimento desta dimensão demora, no mínimo 6 meses, portanto, só até ao final deste ano estamos a tratar das questões legais, tudo leva o seu tempo. Depois há a questão de um equipamento destes não estar construído e pronto para entrega.

Que mais-valias pode trazer este Acelerador Linear?

Este equipamento que queremos adquirir vai permitir fazer técnicas que neste momento não somos capazes, portanto é um equipamento de última geração utilizado nas principais unidades oncológicas do país.

Não queremos aqui substituir-nos ao IPO Porto mas tendo em conta o conhecimento técnico dos recursos humanos que dispomos, queremos prestar este serviço aos nossos utentes.

O objetivo é que este equipamento nos permita, por exemplo, realizar radiocirurgia, uma técnica avançada que se faz essencialmente no Porto, em Coimbra e em Lisboa, podendo assi tratar a grande maioria dos casos que temos na nossa região. Obviamente que haverão sempre alguns casos que aqui não conseguiremos dar resposta mas aí certamente que também faremos o melhor encaminhamento.

 

Esta é a nossa grande aposta e este acelerador esgotará a sua capacidade num curto prazo de tempo, basta pensar que o existente neste momento está a trabalhar a cerca do dobro da sua capacidade normal e a aquisição de um outro não significa obrigatoriamente a duplicação da resposta, até porque as novas técnicas levam a tratamentos mais cuidados e morosos.

Olhando para as obras que estão previstas, aqui em Vila Real está previsto o melhoramento da unidade de Psiquiatria e ainda o bloco de partos. Estas intervenções têm também em vista uma maior eficiência energética. Qual a urgência destas obras?

O bloco de partos tem uma nuance importante, nós somos o único bloco de partos na região, temos um em Bragança e outro em Viseu, por isso esta intervenção é necessária até porque queremos que as nossas parturiantes tenham os seus filhos aqui para que possam logo começar a ser seguidos pelo nosso serviço de pediatria.

Para isso é preciso ter instalações atrativas até para a qualidade do próprio parto. Este bloco de partos não é renovado há mais de 30 anos e isso é demasiado até porque, as condições exigidas há 30 anos são bastante diferentes das condições exigidas hoje. Portanto, além da psiquiatria esta é uma das nossas prioridades.

Por outro lado, o POSEUR o programa que nos permite este investimento e que não é a fundo perdido, terá de ser pago pelo Centro Hospitalar nos próximos trinta anos, e será feito precisamente com a poupança energética prevista. Ou seja, reduzindo os custos com eletricidade, gás, etc e ficando com verba para pagar esse investimento. Isto também nos permitirá ter um hospital com um ambiente mais agradável, mais cómodo para os utentes e depois há a questão ambiental que é também muito importante.

A nossa fatura energética é ainda muito alta, e isso é um peso grande nas nossas contas que pretendemos alterar, daí a importância de o tornar mais eficiente.

Visando mais diretamente o paciente, este investimento engloba também uma unidade de ambulatório, esta forma de estar próximo do doente é um caminho acertado?

Esta unidade médica de ambulatório, pretende dar resposta à muita procura que existe no nosso serviço de urgência, em especial por aqueles que denominamos de doentes frequentes, são aqueles doentes que vêm à urgência 6, 7, 8 vezes por ano, ou até mais.

São doentes que não têm uma retaguarda suficiente para se manterem acompanhados. Por exemplo, um doente diabético que nos aparece na urgência numa situação bastante debilitada, se tivesse uma consulta aberta onde pudesse dirigir-se, em vez de estar à espera de uma consulta durante 3 ou 4 meses que infelizmente é o processo normal, para que a sua medicação fosse ajustada ao seu caso, poderia evitar-se a ida à urgência. É este o sentido da unidade médica de ambulatório que pretendemos arrancar.

É isto que já acontece, por exemplo, com a unidade de insuficiência cardíaca e que atende os doentes que estão sinalizados e que ali se deslocam quando se sentem mais debilitados, permitindo ajustar a sua medicação e regressar ao seu domicílio sem ser necessário qualquer internamento que pode durar vários dias.

Quando refere as urgências frequentes não são as chamadas falsas urgências?

Não. Quando olhamos para os números fazemos uma análise meramente matemática mas depois é preciso perceber esses números. Aqui nós temos doentes que vêm à urgência 7, 8 vezes por ano.

Grande parte dos casos são doentes que destabilizaram na sua doença crónica e recorrem à urgência já descompensados. Pode ser uma doença como diabetes ou uma insuficiência cardíaca, não falamos de falsas urgências, quando chegam cá estão mesmo mal. A nossa intenção é atuar na prevenção para que não se chegue a esse extremo.

As falsas urgências têm que ser tratadas de outra forma, apostando nos cuidados primários.

Mas esse é um problema em Vila Real?

É um problema nos três hospitais do Centro Hospitalar (Vila Real, Lamego e Chaves).

Estando nós no interior e havendo aqui uma maior proximidade entre médico e doente, não seria de esperar que este não fosse um problema tão sentido?

Aqui dabetemo-nos com outras questões, de falta de condições económico-financeiras e alguma iliteracia ou ainda uma questão de proximidade. O acesso à saúde é diferente para quem vive nos grandes centros urbanos em comparação com o interior.

Temos tido reuniões quase mensais com cada um dos ACES e esta é uma das questões mais faladas. Temos trabalhado para mudar isto mais é difícil mudar mentalidades, as pessoas ainda pensam muito que, estando doentes devem ir à urgência, quando deveriam ir ao Centro de Saúde que seria o local mais indicado, onde seriam atendidas com maior rapidez.

Nas nossas urgências, a maioria das queixas que temos é de doentes com pulseira verde ou azul porque passam demasiado tempo à espera, podemos estar a falar de 2, 3 ou mais horas até serem atendidos e isso resulta em inúmeras queixas feitas contra o serviço.

As pessoas devem olhar para a urgência hospitalar como um serviço ao qual devem recorrer em situações graves, as restantes devem ir ao Centro de Saúde ou, por exemplo, ligar para a linha Saúde 24 que é uma excelente solução. O doente que chega aqui vindo do Centro de Saúde ou depois de ligar para a Saúde 24, já vem triado, já vem com um diagnóstico já feito, chega ao hospital e já tem um tratamento diferenciado.

Olhando à sugestão de contactar a Saúde 24, e olhando à região onde estamos inseridos, acha que a sua pouca utilização é refletida por alguma desconfiança pelo facto do atendimento ser feito à distância, por telefone?

Sim, é verdade mas, é também verdade que os níveis de satisfação de quem é atendido por este serviço são bastante elevados.

Quem está do outro lado do telefone são profissionais com as mesmas competências daqueles que estão no hospital, portanto, são profissionais altamente qualificados para fazer o primeiro encaminhamento, não é propriamente necessário de estar a olhar para o doente, daí também todas as questões que são colocadas.

Infelizmente sou obrigado a concordar que se as pessoas não utilizam mais é porque efetivamente desconfiam.

Englobado ainda no investimento de 16 M€ irá ser criado um Balcão Único. De que se trata?

Muitas vezes os diretores hospitalares são acusados, pelas associações de utentes, de fazer investimentos sem olhar para o doente, sem ver o que ele quer e, normalmente muitas das sugestões que nos dão são precisamente de ouvir mais o doente.

Efetivamente quando nos colocamos nesse papel e pensamos que, como doente o médico nos dá um papel para marcar outro exame necessário, isto é colocar o paciente a desempenhar um papel meramente administrativo e isto é um dos motivos que nos leva a pensar como podemos alterar isto.

Este projeto do balcão único é utilizar a tecnologia que está disponível em qualquer local ao serviço dos nossos profissionais para, por exemplo, fazer uma marcação de um exame de forma imediata, sem obrigar à deslocação do doente.

 

Hoje em dia utilizamos apps para tudo, seja como mapa ou para as coisas mais básicas como pedir comida, no entanto às vezes parece que a tecnologia ainda não chegou aos hospitais. Ou melhor, há muita tecnologia num hospital mas em termos administrativos existe ainda uma grande lacuna.

No CHTMAD ainda não se tinha apostado em tecnologia amiga do paciente, só a título de exemplo, nós hoje ainda não enviamos uma simples sms ao doente no dia da sua consulta como forma de lembrete. Ainda hoje de manhã, ao ouvir na rádio uma reportagem sobre a greve dos médicos uma senhora dizia que ainda ontem tinha recebido uma sms a confirmar a consulta, e está na altura de nós aqui também avançarmos.

É importante para coisas tão simples como servir quase de lembrete para o pacie

 

nte de que tem uma consulta, naquele dia àquelas horas. A taxa de ausência a consultas por esquecimento é elevada e isso representa um grande prejuízo, desde logo porque aquela pessoa poderia ter sido substituída por outro paciente que entretanto ainda está em casa à espera da sua vaga.

Este esquecimento também acontece no bloco operatório e aqui os prejuízos são ainda maiores porque há toda uma equipa que fica parada, pelo menos durante uma hora e meia, sem ter nada para fazer porque um paciente se esqueceu, esta é uma situação que tem que mudar.

Outra questão que valida a importância deste Balcão Único é a forma como o paciente contacta o hospital. Neste momento só o pode fazer de duas formas, ou por telefone ou pessoalmente. Pessoalmente já se sabe que é mau mas por telefone não é melhor, mesmo depois de implementarmos um serviço de atendimento automático que distribui as chamadas pelos diferentes serviços, continuamos aqui a ter taxas de espera bastante alargadas, o que leva a alguma insatisfação a quem está do outro lado.

 

Portanto, se hoje temos outras ferramentas ao nosso dispor temos que as utilizar em nosso proveito, melhorando o nosso serviço e em especial o atendimento que prestamos aos nossos utentes.

Resumindo o Balcão Único é isto, é investir em tecnologia, em criar processos mais fluidos de marcações, permitir que o utente esteja mais próximo do hospital e até sugerir alterações ou evitar que o paciente venha diversas vezes ao hospital para situações que poderiam ser resolvidas numa só vez. Se formos mais eficientes, seremos mais eficientes para os nossos pacientes.

Estamos agora a arrancar o projeto e esperamos que esteja a funcionar em pleno durante o próximo ano.

Olhando agora para este investimento como um todo, ganha maior relevância numa altura em que está para breve a abertura de duas unidades hospitalares privadas em Vila Real?

Quando fazemos planos de investimento não pensamos na abertura de hospitais privados. Efetivamente não é porque os hospitais privados vão abrir em breve que estamos a fazer estes investimentos.

Isto são investimentos que demoram o seu tempo, estamos a postar naquilo que a população necessita e essa é a nossa função, dar resposta às necessidades da população.

Podemos então, resumidamente, dizer que este é o investimento necessário nesta altura?

Sim, contudo o investimento não se esgota nestes pontos que falamos, há uma série de outros equipamentos, mais pequenos mas de uso diário em ambiente hospitalar que é necessário adquirir ou renovar, desde um monitor de sinais vitais até ventiladores, duas torres de laparoscopia, etc, num total de 1,5 milhões de euros só para este ano.

Este investimento é também importante para atrair novos profissionais de saúde?

Sim, sem dúvida. Esses médicos novos que estão a chegar são já formados em tecnologias de ponta, em cirurgia minimamente invasiva. Muitos deles, num hospital central, do litoral, nunca fizeram uma cirurgia de barriga aberta e isto está a verificar-se cada vez com maior frequência.

Estes médicos, quando chegam a um hospital do interior (sem qualquer desprimor para a região), sentem que estão a dar um passo atrás na carreira e é isso que também devemos combater.

Esta mudança começa a notar-se, no ano passado abrimos 29 vagas, apenas 10 foram preenchidas e no final apenas 2 médicos assinaram contrato, os restantes desistiram entretanto. Este ano abrimos 26 vagas, foram ocupadas 12 e os 12 vão assinar contrato.

Mas há um aumento no número de médicos efetivo no CHTMAD?

Já aumentamos 50 médicos em dois anos, o que é bastante positivo mas, mesmo contra a vontade da tutela, precisamos de mais.

Hoje já temos as escalas de urgência equilibradas, há um ano atrás ainda tinha dores de cabeça porque não sabia se daqui a dois dias ia conseguir ter, por exemplo, urgência cirúrgica em Chaves ou medicina em Lamego, ainda vivíamos essas situações.

O quadro de pessoal médico não era suficiente para dar resposta às escalas de urgência, hoje isso já não acontece, já conseguimos planear com um mês de antecedência, com todas as vantagens que isso pode trazer, quer para os profissionais, quer para os pacientes, quer mesmo para o próprio hospital.

Temos ainda algumas dificuldades sérias como vascular, urulogia, oftalmologia e mais recentemente uma especialidade que se tornou crítica, a nefrologia que, pela saída de profissionais para os quais é difícil arranjar substitutos porque também são poucos os que saem das universidades com esta especialidade, é uma área onde se verifica uma carência de recursos humanos.

Olhando para notícias recentes, falamos das especialidades com maiores tempos de espera.

Sim, efetivamente. Em urulogia temos cerca de 4 mil doentes em lista de espera durante cerca de 4 anos, é inaceitável, sem dúvida que é. Vascular, quando a Dra. Joana saiu em 2016, desde essa altura que não temos cirurgião vascular o que nos deixa sem resposta para os pacientes e muitos deles não querem sair do Centro Hospitalar. Há sempre a possibilidade do vale cirúrgico ou de irem a outro hospital mas grande parte dos doentes recusa ir a outros hospitais.

Mas de que hospitais falamos em alternativa?

Falamos de hospitais do litoral, daí a reticência de algumas pessoas, a distância nestes casos é um fator com peso.

Em 2017 quando contactamos os pacientes de urologia, três em cada quatro doentes recusaram a ida a outros hospitais.

Estamos a falar de uma população envelhecida para quem ir para o Porto ainda é uma dor de cabeça, em que se sente desconfortável porque não tem lá ninguém perto, porque não sabe se terá de ficar internado, etc. Temos de perceber que é uma população diferente.

Uma pessoa que vá de Paredes ao Porto é fácil receber a visita de um familiar, uma pessoa que vá de Moimenta da Beira ou de Montalegre já não é a mesma coisa, sente-se longe. Temos de criar condições para que todas essas pessoas sejam atendidas cá.

Disse que em dois anos entraram já 50 médicos mas que seriam necessários mais, quantos?

Não consigo precisar isso, não é uma contabilidade que fazemos porque isto tem muita a ver com a disponibilidade existente.

Por exemplo, em ginecologia e pediatria, até ao final de 2017 tínhamos um quadro de pessoal perfeitamente adequado, com a reforma de uma médica ginecologista em Lamego passamos a ter um problema porque era uma médica que atendia muita gente e fazia muitas ecografias, a verdade é que tivemos de colocar lá duas médicas para dar essa resposta, o que destabilizou a equipa em Vila Real e agora precisamos contratar médicos para este hospital. É uma situação que tem de ser vista serviço a serviço.

Hoje a medicina interna ainda precisa de alguns quadros, essencialmente para estabilizar a situação das urgências e porque temos um quadro já bastante envelhecido, que já não fazem urgências, que tem de começar a ser renovado.

Urolugia é o serviço onde precisamos de mais profissionais, atualmente temos quatro mas precisaríamos, no mínimo, de dez. Para breve está a contratação de um cirurgião vascular mas um serviço não se faz com um médico, por isso rapidamente vai haver a necessidade de contratar mais, até porque é complicado um médico apenas assegurar um serviço até porque a partilha de ideias sobre os casos é sempre importante.

O serviço de oftalmologia também vive uma situação complicada, no ano passado, conseguimos fazer muito trabalho extra com vista à diminuição da lista de espera mas a verdade é que a procura também aumentou, ou seja, no final o resultado foi pouco visível, se bem que se não fosse esse esforço extra a situação atual seria bem pior. A própria população envelhecida aumenta a pressão sobre este serviço.

Temos visto na saúde várias greves dos profissionais, técnicos, enfermeiros, médicos, etc. Considera que estas greves geram na população alguma desconfiança perante o Sistema Nacional de Saúde?

Eu não vejo como desconfiança, na perspetiva do Presidente do Conselho de Administração as greves são sempre negativas porque são dias de muito baixa produção e bastam-nos 2 ou 3 dias em comparação com o ano anterior para que os indicadores de eficiência sejam imediatamente alterados.

No fundo estas classes estão a lutar pelos seus direitos e a greve é um direito irrevogável, contudo, tem impactos negativos.

Correndo o risco de ser polémico, a verdade é que o direito à greve, quando impacta com a vida das pessoas é sempre prejudicial. No caso de um doente que vem a uma consulta e só no dia, estando presente, é que sabe que não vai ter a sua consulta, já estamos a influenciar negativamente o seu dia, e isso é negativo para as pessoas.

O direito à greve é incontestável, irrevogável e incontornável, sem qualquer dúvida, mas custa-me a aceitar (pondo-me no papel do doente), que no dia anterior não possa ser avisado que no dia seguinte não vou ter consulta porque o médico está doente.

Penso que as coisas nas nossas mentalidades deviam mudar, o impacto de uma greve pode ser medido de diversas maneiras e se, no dia anterior a um dia de greve há muitas consultas canceladas para esse dia, então é sinal que a greve tem impacto, é preciso pensar no impacto que isto tem na vida das pessoas.

A lei é lei e os profissionais não têm que anunciar previamente a sua adesão à greve ou não mas acho que alguma coisa deveria mudar para que os utentes não fossem tão prejudicados, estamos a falar de doentes, não estamos a falar de outra coisa.

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