João Rebelo: Daqui a quinze anos “vai ser um Douro diferente mas que vai manter as suas características de um bem único”

Especial Douro Património Mundial / Foto: Salomé Ferreira

Nesta edição o VivaDouro continua uma série de entrevistas com várias personalidades acerca da evolução do território nos anos que se seguiram à classificação de Património Mundial pela UNESCO. Leia a entrevista a João Rebelo, professor e investigador na área da economia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e fique a conhecer o douro pelos olhos do docente ao longo destes quinze anos. 

João Rebelo, professor e investigador da área da Economia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) / Foto: Salomé Ferreira

Em 2001 o Alto Douro Vinhateiro (ADV) foi considerado como Património Mundial da Humanidade. Cerca de 15 anos depois desta classificação qual é o retrato que faz da região neste momento?

A região está muito melhor que estava, de facto, há quinze anos. A classificação teve algum impacto, mas toda uma mudança da envolvente que não resulta só e apenas da classificação. O Douro é diferente, está para melhor mas há ainda muito a fazer. É este o retrato e, portanto, analisar o impacto isoladamente da classificação não é uma tarefa fácil, nem os efeitos são isolados, terão de ser sempre contextualizados.

Esta certificação foi ou não uma mais-valia para a região? 

Sim, foi uma mais-valia para a região por várias razões. Primeiro, porque criou um conceito de marca o que é muito importante para quem está no exterior, uma marca universalmente aceite. O segundo componente obrigou a preservar e a manter as características de uma paisagem que é evolutiva e viva, criou uma consciência social para a manutenção dessa paisagem e há, de facto, impactos económicos ainda não sentidos nem absorvidos por toda a população. Daí que nem sempre seja unanimemente aceite ou considerados os impactos positivos sobre a população, nomeadamente, a população residente. Há que ter em atenção que, de facto, a classificação gera impactos positivos, fortemente positivos, sobre algumas atividades económicas.

Qual foi o setor económico que mais beneficiou com esta certificação?

 O turismo, claramente. É uma marca com um bem que é o património, que hoje é um ativo muito importante. Mas os próprios efeitos do turismo só recentemente é que se sentiram. Mas também há custos e são muito sentidos pela população local porque ao ser classificada quer a área, propriamente dita, o Alto Douro vinhateiro, quer a chamada zona tampão, que é o restante dos 250 mil hectares, foram-lhe impostas restrições à construção, ao edificado. E essas restrições são sentidas pela população de forma negativa.

O setor vitícola é o motor económico e social da região. Como é que classifica a evolução deste setor nos últimos 15 anos?

Primeiro, a evolução foi positiva. Quer se queira, quer não, foi positiva. Primeiro, uma reconversão acentuada das vinhas, no sentido de reduzir custos de produção e aumentar a qualidade da vinha. Essa reconversão já vinha da década de 80 do século anterior. Foi aqui um processo continuado de reconversão. Deve ser hoje, das regiões do mundo que maior reconversão teve em tão curto prazo de tempo. Cerca de 50% da vinha do Douro está reconvertida. Não só apenas na zona classificada, mas também no resto. Aí há uma melhoria acentuada da qualidade dos vinhos, hoje temos um elevado padrão de qualidade. Obviamente que a classificação pode ter algum impacto mas foi todo um ambiente concorrencial que originou que os vinhos fossem de melhor qualidade para terem aceitação no mercado, integração nos mercados internacionais e ligando muito o vinho ao território.

O setor vitivinícola desenvolveu-se de forma homogénea nos últimos anos?

 Não, nem nesta região, nem em qualquer região. Em qualquer parte do mundo o desenvolvimento é heterogéneo, de facto, apareceram os deserdados, os chamados deserdados da globalização. Têm tido dificuldades em acompanhar o ciclo económico e há outros que beneficiaram disso e que são hoje empresas de pequena dimensão, denominadas por microempresas mas com vitalidade em mercados internacionais e bem posicionadas. Nem todos os benefícios foram sentidos de forma homogénea. Eu não direi e não é correto dizer que foi a classificação que originou diferenciação nos rendimentos. A classificação foi um meio que alguns aproveitaram melhor que outros e que as próprias dinâmicas económicas e sociais conduziram a resultados diferentes. Mas de facto, hoje o setor vitícola e vinícola do Douro não tem nada a ver com o setor que era há trinta anos ou o que era mesmo há vinte anos. Apareceram um conjunto de produtores de pequena e média dimensão, altamente eficientes, muito capazes de atuar junto dos mercados e que hoje são exemplos e referências a nível não só nacional como mundial. Também há que ter em atenção que, de facto, a população envelheceu tal como em todo o resto do país mas, simultaneamente, está mais qualificada. Portanto, o grau médio de qualificação aumentou bastante e isto torna o setor mais competitivo e um setor mais inovador.

As novas gerações, agora mais qualificadas, pegaram nas quintas e nos negócios que já eram de família. Considera que este fator também contribuiu para o desenvolvimento do setor?

Sim, isso foi um novo conceito. As novas gerações são gente qualificada, gente aberta ao mundo, capazes de encarar a adversidade de forma muito positiva e de competir em mercados internacionais. São eles os motores destas mudanças que estão a ocorrer. Também as próprias empresas que antes estavam apenas no vinho do Porto se vieram introduzir no mercado dos Doc Douro, aproveitando o know-how que já tinham da comercialização do vinho do porto.

Ao longo destes 15 anos também as quintas, que estavam quase exclusivamente focadas na produção de vinho, estão neste momento a reestruturar a sua visão e a mudar de paradigma, procurando novas formas de afirmação comercial, nomeadamente através do enoturismo…

Sim, o enoturismo é uma das possibilidades. É um fator muito recente, como qualquer atividade tem algumas dificuldades, teve algum período de maturação e aprendizagem da atividade. E que, só agora está a sentir os efeitos, tudo em pequenas escalas, em escala muito pequena, ainda que haja casos de sucesso.

João Rebelo, professor e investigador da área da Economia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) / Foto: Salomé Ferreira

Mas considera que é uma área que tem potencial de crescimento?

Tem potencial de crescimento e penso que vai crescer. Nunca se pode caminhar para um turismo de massas, é o que erro que a região não pode cometer. Terá de ser um turismo qualificado, um turismo de valor acrescentado. As próprias quintas e unidades de enoturismo têm de procurar segmentos de mercado de maior rendimento que lhes permita, por exemplo, estadias mais longas e beneficiarem deste novo conceito. E quando se fala em quinta, nunca se pode olhar apenas isoladamente à quinta, tem também a ver todo o impacto que possa ter nas atividades que estejam próximas ou relacionadas com essa quinta.

A candidatura a Património Mundial tinha como um dos objetivos o reconhecimento internacional do Douro enquanto destino turístico. Considera que esse objetivo foi cumprido? A Chancela Unesco é um “ativo poderoso” na promoção do destino Douro? 

Sim, isso é evidente. O turismo que teve maior taxa de crescimento foi o fluvial. Estamos a falar, não dos cruzeiros no dia-a-dia, mas nos barcos hotel.

E acha que esse tipo de turismo tem impacto em todo o território?

Quando se analisa a oferta desse turismo, ou seja, os packages que são oferecidos, de facto a referência ao património é permanente. Está lá concentrada. A classificação como património cultural, não apenas o Douro mas também o Porto, Espanha – Salamanca, é um fator que está incorporado ali. Isso sim. Até aí o elemento patrimonial tem crescido, deve continuar a crescer. Cresceu mais que o outro turismo e também não pode cair no turismo de massas. Impactos sobre a região, não temos números concretos. Uma coisa é certa, os operadores começam a ficar sensibilizados para que esse turismo tenha algum impacto na economia do território. E daí que surjam algumas visitas e quintas. Há hoje muitos concelhos em que as entidades culturais estão muito dependentes dos turistas.

No entanto, o Douro continua ainda a ser um território afetado pela sazonalidade. Na sua opinião, o que falta fazer para atrair turistas ao Douro durante todo o ano?

Pois, a sazonalidade é um problema complicado. No turismo fluvial ela tem vindo a diminuir, tanto quanto me apercebo os barcos já vão de março a dezembro. Ao nível das unidades de turismo uma das soluções pode passar por fazer ofertas diferenciadas, preços diferenciados. Um turismo que eventualmente deveria gerar lucro é o turismo de casamentos, em algumas quintas. Dificilmente se consegue eliminar a sazonalidade porque não se elimina a questão do tempo, do dia, o dia é muito curto em longos períodos e, portanto, não há em termos psicológicos uma vontade do passeio até porque não é muito agradável, é essa a restrição; assumindo essa restrição, há que procurar diversificar e oferecer produtos diferentes, tendo em atenção as estações do ano noutros continentes e noutros países que não a Europa.

O comércio local beneficiou com esta Chancela?

De acordo com o trabalho que nós fizemos quando ouvimos os residentes as pessoas dizem que não tem grande impacto. E possivelmente não tem. Mas também, digamos que aqui há nichos de mercado. Hoje há algum pequeno comércio que vive, quer queiramos quer não, com o turista. Há algum turista que já compra e compra muito com base nos hotéis, mas eu ainda não tenho informação suficiente. Há hoje aqui um conjunto de produtos que são vendidos no hotel. Mas o comércio em geral digamos que não sentiu grande diferença. Mais uma vez aqui sentirá muito mais, nomeadamente, a restauração se a permanência for longa ou for maior.

Qual o balanço que faz destes 15 anos do ADV enquanto Património Mundial?

Claramente positivo. Primeiro, permitiu ancorar uma dinâmica económica própria, com um reflexo, essencialmente, positivo no setor vitivinícola e no turismo. O comércio menos. Um outro aspeto fortemente positivo, criou uma consciência social, isto é um aspeto que não é quantificável, mas que é muito importante. Já estamos aqui a criar consciências sociais para a preservação e salvaguarda, ou seja, para considerar o território na sua génese com um ativo muito importante cuja consciência socia conduz à sua preservação. A consciência social de que é um bem a preservar. Os próprios viticultores, ninguém falava há 20 anos em preservação de paisagem. Hoje a grande maioria dos agricultores e os viticultores estão sensíveis à preservação e salvaguarda das características sem descurar a necessidade de organização e de aumento da sua competitividade. Como é evidente em qualquer classificação, o impacto que não é negativo, mas as restrições que impõe, tem a ver com a necessidade de seguir linhas restritas de preservação e salvaguarda e de limitar a liberdade individual, quando se chega à fase de realização de investimento. E atenção que essa limitação não pode ser apenas aplicada aos residentes e ao pequeno investimento, tem que ser aplicados a todos sem reservas, sem exceção. Sejam eles unidades hoteleiras, sejam aquilo que for. Utilizar argumentos como criação de emprego, enorme impacto económico para destruir o bem, ou seja, para colocar em causa a salvaguarda são argumentos que não podem ser utilizados. No dia em que se começar a utilizar esses argumentos do económico para manter a salvaguarda, estamos a colocar em causa o futuro do bem e isso jamais pode ser feito. A alternativa para esses grandes investimentos é dar condições para que eles se desloquem da zona classificada. Nós estamos perante um bem coletivo, um bem universal, é mundial, é do mundo não é nosso, mas simultaneamente detido por privados. Há aqui que conciliar estes dois interesses do público e do privado no sentido da salvaguarda. A esse privado também não podem pôr restrições demasiado fortes, tem que haver aqui um equilíbrio e hoje, há medidas de política económica que permitem fazer este equilíbrio, seja via subsídio, sejam outras medidas de apoio que lhes permita valorizar esse bem público e as externalidades positivas que gera e, portanto, as medidas de apoio que salvaguardam e suportam essa propriedade.

 O que é que espera para o Douro, nos próximos anos?

Vai continuar a evoluir positivamente. Daqui a quinze anos será um Douro mais competitivo, um Douro que se vai manter salvaguardado. Diferente, mas salvaguardado. Não tenho grandes dúvidas acerca disso. Mais competitivo. Vão aparecer mais agentes económicos, ou seja, a malha económica vai-se densificar e isso é positivo. Vai continuar a perder população, isso não há muito a fazer. A competitividade vai aumentar, vão aparecer novas tecnologias, a agricultura inteligente vai aparecer e, portanto, vai ser um Douro diferente mas que vai manter as suas características de um bem único. As suas características vão se manter, com alguma evolução. Esperemos que se mantenha, no essencial, as características. Se assim for, não é mau. Mas vai ser um Douro muito mais competitivo, o turismo vai ter de crescer…

Vai continuar a ser a área com maior crescimento? Aliado à viticultura…

Aliado à vitivinicultura, aliado à indústria do vinho, vai ser a área que vai crescer mas que não vai ser um turismo de massas. Daí que seja fundamental que para este turismo crescer, que são os privados a preservar, seja acompanhado por alguns apoios, por algum enquadramento, mas que esses investimentos tenham muito a ver com a preservação de património edificado. Evita-se ao máximo novas construções, nomeadamente de grandes volumes. Permita-se é a partir do existente, modernizar, expandir e inovar. No fundo, serem inteligentes no aproveitamento dos recursos endógenos.

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