Jorge Dias: “O grande desafio para a região é encontrar o equilíbrio que possa garantir a sustentabilidade”

Jorge Dias, Administrador da Gran Cruz/ Foto: Pedro Ferreira

O VivaDouro esteve à conversa com Jorge Dias, Administrador da Gran Cruz, que nos falou acerca da evolução do território nos anos que se seguiram à classificação do Douro enquanto Património Mundial. Leia a entrevista.

Em 2001 o Alto Douro Vinhateiro (ADV) foi considerado como Património Mundial da Humanidade. Cerca de 15 anos depois desta classificação qual é o retrato que faz da região neste momento?

Penso que o balanço é positivo. Podia ser mais positivo, mas de qualquer forma vejo como positivo, sobretudo pela consciencialização que trouxe aos agentes económicos, às populações e aos agentes políticos da necessidade da salvaguarda do bem. Se estamos a salvaguardar um bem, estamos a contribuir para a sua sustentabilidade no futuro, portanto, estamos a assegurar o seu futuro. E, colateralmente, naturalmente, também trouxe alguma visibilidade que foi sobretudo aproveitada em termos do turismo no Douro.

Jorge Dias, Administrador da Gran Cruz/ Foto: Pedro Ferreira

Que mudanças podemos registar nos últimos 15 anos, ou seja, desde o momento que o Douro foi considerado Património Mundial da UNESCO?

De facto, a consciencialização das pessoas, das próprias populações, dos autarcas e da generalidade dos agentes políticos na preservação do território. Cometem-se hoje, claramente, menos erros do que os que se cometeram no passado e essa, para mim, é uma das grandes mais-valias. As pessoas passaram a ter orgulho na paisagem, no seu património e passou-se a dar importância à educação, às ações para as escolas e, portanto, as gerações mais novas têm já outra preparação para encararem a preservação do património. De uma maneira geral estamos melhor do que estávamos na altura.

Podemos concluir que em 2001, pelo que está a dizer, não havia a consciência das instituições, das empresas e até das próprias associações para a própria importância deste estatuto. Isso foi amadurecendo com o tempo?

Sem dúvida que não havia. Eu lembro-me das lixeiras que havia ao ar livre, nas linhas de água, junto ao rio, bastava passar no rio para se verem estas lixeiras, as escombreiras de obras públicas inclusivamente. Eram as próprias autoridades públicas que não tinham, muitas vezes, essa consciência da necessidade de preservar o bem, de mitigar intrusões visuais que havia na paisagem. Seguramente que o estatuto de classificação e o orgulho que as pessoas sentiram nessa classificação, e todas as ações quer da equipa do património mundial, quer depois das sucessivas instituições e associações que se seguiram e que têm por missão alertar a sociedade ou zelar pelo cumprimento da regulamentação, naturalmente, contribuíram para a consciencialização coletiva da necessidade de preservar e salvaguardar.

Jorge Dias, Administrador da Gran Cruz/ Foto: Pedro Ferreira

Quais é que são os “segredos” que estão na base do sucesso do cultivo do vinho no Douro, um dos lugares mais caros do mundo na produção de uvas?

É um dos sítios mais caros, já era e continua a ser. Eu diria que, talvez, no setor vitivinícola tenha sido onde este estatuto menos se repercutiu, pelo menos de uma forma direta. Se bem que na altura da candidatura nós disséssemos que a garrafa de vinho era uma coisa que qualquer visitante pudesse levar, que era um bocadinho do resultado desta paisagem cultural, mas não vemos, eu pelo menos não conheço, nenhuma casa, nenhum produtor que utilize esse estatuto nos seus vinhos. Que contribuiu para a sustentabilidade produtiva, contribuiu porque estamos a fazer hoje melhores vinhas, vinhas mais sustentáveis do que se faziam na época. Por causa do estatuto, mas também por causa de uma série de outras politicas que, entretanto, foram sendo desenvolvidas. Estamos a tratar melhor da drenagem das parcelas de vinho, não estamos a destruir linhas de água e, portanto, desse ponto de vista estamos a garantir melhor sustentabilidade para o setor vitivinícola. Agora, persistem imensos problemas porque de facto, o Douro, fruto das circunstâncias orográficas, é das regiões mais caras para produzir o vinho e se, por um lado, o vinho do Porto consegue remunerar em patamares aceitáveis esse esforço de produzir as uvas, infelizmente, nos vinhos do Douro mesmo que nos últimos anos tenhamos assistido a um aumento significativo das vendas do vinho do Douro, contudo, esse aumento ainda não se refletiu nos preços que é possível pagar à produção, fruto dos excedentes que temos de produção desse mesmo vinho, na região. Quando não temos uma adequação de oferta em relação à procura, quando temos um excesso de oferta dos vinhos do Douro, é evidente que para a generalidade dessas massas vínicas acabam por, infelizmente, se nivelar pelo preço mundial do vinho granel, que é, de modo algum, compensador para os produtores na medida em que está muito abaixo dos custos de produção. Há aqui um balanço muito difícil de se compreender, da conta de exploração em que a margem do vinho do Porto liberta aos viticultores acaba por ser, toda ela, absorvida pelas menos valias, pela margem negativa, pela perda que têm na venda de uvas para vinho do Douro.

Esse poderá ser um desafio para o futuro, no sentido de equilibrar a balança?

Esse é o primeiro desafio para a sustentabilidade da região. É muito difícil manter-se uma região que tem um produto que está, relativamente, equilibrado, que liberta alguma margem para os produtores, mas depois temos metade da produção que dá prejuízo, objetivamente. Esse é, para mim, o grande desafio para a região, encontrar aqui o equilíbrio que possa garantir a sustentabilidade, a longo prazo, da produção vitivinícola no Douro e que me parece que, nessa medida, não estará 100% assegurada. Estamos a falar aqui num problema de desequilíbrio entre a oferta e a procura e, portanto, aqui temos duas atitudes, ou nada fazer e esperar que o mercado resolva e que este crescimento da venda do vinho do Douro compense e suplante as perdas que temos assistido nas vendas do vinho do Porto, mesmo que ligeiras, e que este balanço seja positivo, contudo, esperarmos que o mercado resolva isto, temo que possa ser tarde demais e que, pelo caminho, fiquem bons vinicultores e maus vinicultores, independentemente de serem pequenos, médios ou grandes e, portanto, penso que teria de haver uma consciencialização clara da generalidade dos agentes económicos que temos de reduzir a área apta, na região, para a produção de vinhos do Porto.

Jorge Dias, Administrador da Gran Cruz/ Foto: Pedro Ferreira

Acredita que os produtores têm já esta consciencialização ou a maior parte deles ainda não quer encarar o problema?

Sentem o problema, seguramente, não sei se têm a plena consciencialização… Nem há nenhuma terapia milagrosa para resolver este problema. É preciso de facto, uma reflexão coletiva e encontrar, não uma solução, mas pequenas soluções que, adicionadas, contribuam para uma solução mais acelerada do problema.

Relativamente à evolução do padrão dos consumidores nestes últimos anos, considera que os portugueses são os mais consumidores do vinho do Douro?

Dos vinhos do Douro são de facto a maior fatia e diga-se, em bom da verdade, que os vinhos do Douro têm ganhado notoriedade fruto, sobretudo, de um punhado de marcas e de produtores que têm feito um trabalho notável para construir essa notoriedade. Mas é evidente que persistem problemas e quando nós encontramos vinhos do Douro numa prateleira de supermercado a 1,99€ ou 2,49€, isso não é sustentável, ou seja, estes vinhos só podem estar com este preço no mercado porque estão a beneficiar da mais-valia que os seus produtores fazem no vinho do Porto. Esse é um problema, também, insidioso dos vinhos do Douro. Temo que, hoje, esses vinhos do Douro que se vendem por 1,99€, 2,49€, que se de repente tivessem que subir 0,50€ ou 1€, rapidamente também perderiam os clientes que o consomem.

E no que diz respeito ao Vinho do Porto? Considera que o seu consumo tem aumentado entre os portugueses nos últimos anos?

Relativamente ao vinho do Porto, houve de facto uma evolução enorme nos últimos anos no mercado nacional, em que há 15 ou 20 anos era o 5º mercado de vendas do vinho do Porto, hoje já é o 2º e estou convicto, infelizmente, não porque os portugueses estejam a beber mais vinho do Porto, mas eu acho que é influenciado, sobretudo, pelo aumento brutal da procura turística do nosso país e que tem provocado este consumo.

Relativamente a desafios, já apontou o desajuste do vinho do Porto para os vinhos do Douro, a oferta e a procura, encontra aqui novos desafios que se vão colocar rapidamente?

Há muitos outros que são em continuidade, como é o caso da preservação e salvaguarda do bem. É um trabalho que não se pode baixar a guarda e que se tem de estar proactivamente a atuar. Sobretudo se houver mais pressão, se as pessoas começaram a ganhar mais dinheiro com o vinho e com o turismo haverá novos agentes que vão chegar e tentar entrar. Se aumentar a procura também é preciso estar-se muito mais atento na preservação e salvaguarda do bem. Na exploração do território, do ponto de vista turístico, ainda penso que temos passos importantes a dar, sobretudo no que respeita ao turismo fluvial, reiterando que não tenho números que possam sustentar as minhas reflexões, mas parece-me pouco avisado, este recente aumento anunciado para o dobro da capacidade de trânsito turístico fluvial no Douro porque é sabido o desgaste que o trânsito fluvial provoca nas margens, que é um ecossistema que é delicado e que é relativamente frágil. Apesar de o turismo fluvial contribuir bastante para a visibilidade do destino é importante que não “matemos a galinha dos ovos de ouro”. Parece-me que, mais do que duplicar a capacidade de transitabilidade, deveria ser sim, regulamentada e de alguma forma que pudesse contribuir também para o desenvolvimento de outras atividades mais sustentáveis. As pessoas que chegam a Lisboa pagam uma taxa, já se fala nisso para o Porto. E porque não para o Douro? Sobretudo onde temos uma atividade que é, acho eu, unanimemente considerada fortemente extrativa, que é o turismo fluvial e depois outras atividades muito mais amarradas ao terreno com uma escala muito mais reduzida e com problemas de afirmação. Acho que poderia haver espaço, quanto mais não seja para debate de saber como é que poderíamos encontrar aqui uma equação que permitisse encontrar mecanismos de apoio a pequenas iniciativas nas aldeias que permitissem qualificar os povoados, os pequenos negócios de aldeia e outras atividades que, no fundo, permitissem prolongar a estadia das pessoas na região que, em última análise, é o que se pretende na estruturação do projeto turístico da região.

 

 

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