José Eduardo Ferreira: “Ou acabamos com essa desigualdade agora ou pode ser tarde demais”

José Eduardo Ferreira, Presidente da Câmara Municipal de Moimenta da Beira, Foto: Direitos Reservados

José Eduardo Ferreira, Presidente da Câmara Municipal de Moimenta da Beira, Foto: Direitos Reservados

Presidente da Câmara Municipal de Moimenta da Beira desde 2013, José Eduardo Ferreira, abraçou desde essa altura o desafio de fazer do concelho um espaço territorial “mais capaz, mais competitivo, mais solidário e mais coeso”.

Porque é que se candidatou a presidente da Câmara Municipal de Moimenta da Beira?
Porque acho que nós somos os primeiros responsáveis pelas nossas vidas, a vida coletiva depende do que nós próprios fizermos. Não tenho disponibilidade para esperar que pessoas ou entidades façam o que nos compete fazer a nós, portanto, isso obriga-me a estar disponível e com vontade de dar um contributo para desenvolver a sociedade a que pertenço. Fazer deste espaço territorial um espaço mais capaz, mais competitivo, mais solidário e mais coeso. Essas são as grandes razões para eu ter pedido às pessoas que me deixassem exercer esta função durante algum tempo.

Até ao momento quais foram as principais dificuldades que encontrou no exercício do seu cargo?
As dificuldades são as normais de uma função exigente. Precisamos todos os dias de dar um conjunto de respostas para as quais não temos sempre os meios adequados. Mas ao mesmo tempo são desafios bons que nos obrigam a criar, às vezes até de forma engenhosa, condições para ultrapassarmos essas mesmas dificuldades. No entanto, as minhas dificuldades não são maiores do que as das pessoas lá fora, são até menores, portanto não tenho dificuldades de que me queixe.

Quanto ao seu futuro politico, está sobre a mesa a hipótese de se voltar a candidatar nas eleições autárquicas de 2017?
Isso é o menos importante. Na minha opinião, o que menos importa às pessoas que me elegeram é o meu futuro político e a mim próprio o que me importa é desempenhar bem esta função. O futuro não é muito importante nesse aspeto.

Mas considera que o que deseja cumprir até ao final do mandato é realizável nestes dois anos ou precisa de mais tempo para realizar o que prometeu?
Eu tenho a certeza que quando chegar ao fim deste mandato chegarei tranquilo, com a noção de ter feito o melhor que podia durante este período de tempo, portanto estarei tranquilo. Eu não comecei nada nem terminarei nada, nada começou comigo nem nada acabará comigo. O que não prescindo é de fazer todos os dias o melhor que posso, com a noção que depois de mim haverá muitas coisas para fazer e haverá muitas pessoas capazes de o fazerem.

Em relação ao município, quais são os principais problemas que Moimenta da Beira enfrenta neste momento?
As principais dificuldades têm a ver com a nossa situação de interioridade, com o envelhecimento da população, com o facto de a região ter dificuldade em manter as pessoas e em fazer crescer o número de habitantes que aqui vivem. As ações que desenvolvemos todos os dias, sem nenhuma exceção, têm como objetivo manter aqui as pessoas e reforçar as condições da nossa competitividade. Também depende da autarquia alertar o governo da República para a necessidade de deixar ficar na região uma parte dos proveitos que aqui são gerados. Não é justo que continuemos a canalizar todos, ou quase todos, os recursos que aqui são gerados para outros espaços territoriais, isso retira-nos competitividade, desfaz a coesão territorial e impede-nos de estarmos onde queremos estar, numa região mais próspera, mais desenvolvida e mais solidária.

Com a crise financeira que se viveu nos últimos anos as condições de vida da população têm-se agravado cada vez mais. Em termos de apoios sociais, como é que a Câmara ajuda os cidadãos mais necessitados?
Eu não tenho a noção que a Câmara seja responsável por tudo e tenha que fazer tudo, bem pelo contrário, acho que as nossas instituições têm vida própria, têm meios próprios e têm um desempenho que é notável. Julgo que é fruto desta conjugação de esforços que é possível durante estes últimos anos, que terão sido dos piores anos das últimas décadas, manter alguma coesão social e muita paz social. O futuro dirá que todos juntos conseguimos fazer destes anos difíceis, anos um pouco menos difíceis, conseguimos criar em conjunto uma almofada para os desprotegidos. Conseguimos olhar para o futuro com alguma esperança e isso é um trabalho notável das instituições, a Câmara é apenas um parceiro.

Quais as áreas de investimento que recomenda em Moimenta da Beira?
Nós temos um conjunto de empresas que trabalham muito bem e que fazem com que a economia de Moimenta da Beira cresça e se desenvolva. Estamos a falar de empresas na área das maçãs, dos granitos, do vinho, temos um conjunto de empresas que têm uma atividade notável. Algumas delas ao melhor nível do que se faz no país e estou convencido que essas empresas vão continuar a desempenhar bem o seu papel. Também nesta área compete ao município criar as condições e acompanhar as empresas. Estamos a fazer investimentos naquilo a que chamamos o reforço do tecido empresarial de Moimenta da Beira que pretende proporcionar condições para que as atividades empresariais se possam desenvolver ainda mais, mas há um futuro muito grande.

O que ainda falta fazer para dinamizar a economia do concelho? Quais são os setores em que a autarquia pretende apostar?
Na minha opinião nós temos que apostar mais naquilo em que somos mais competitivos. A agricultura constitui cada vez mais uma fileira onde os serviços e a indústria têm também um lugar muito importante. Eu acho que nos podemos desenvolver muito em volta das nossas principais atividades, isso significa apostar numa cultura de fileira, podermos fazer bem tudo o que diz respeito à cultura da maçã, aos granitos, aos vinhos e espumantes. É um conjunto de atividades em que por já sermos melhores, somos mais competitivos e somos capazes de chegar aos mercados com uma diferenciação que pode fazer com que a nossa região se desenvolva. Pelas características que temos dificilmente podemos competir em quantidades, o mundo com quem competimos tem, nalguns casos, melhores condições para oferecer mais quantidades do que nós, mas a nossa qualidade ninguém tem, portanto temos de apostar nisso.

O setor agrícola é um dos motores económicos do concelho e da região. Tem notado um maior investimento da parte dos jovens nesta área aqui no concelho? Moimenta da Beira tem sentido um rejuvenescimento dos agricultores?
Sim, nós temos uma idade média de trabalhadores e empresários cada vez mais baixa e isso é um sinal de grande esperança. Não tenho nenhuma dúvida em afirmar que os jovens estão cada vez mais dedicados, não apenas à agricultura mas a toda a fileira. Quando eu falo de agricultura posso falar de alta tecnologia, de comunicações, de informática, temos que ter uma perspetiva mais abrangente porque durante muito tempo associámos agricultura a andar com uma enxada na mão. No entanto, hoje a agricultura não é isso, atualmente temos técnicos altamente especializados. A nossa agricultura só tem condições de continuar a progredir se se especializar não apenas nos produtos mas também nas pessoas. Portanto, os jovens, nomeadamente os que detêm uma formação, são cada vez mais necessários e estão cada vez mais dedicados a estas atividades.

Considera que o novo Programa Comunitário Portugal 2020 pode ser um instrumento que pode contribuir para a redução dos desequilíbrios entre o interior e o litoral?
O novo ciclo de apoios comunitários tem que contribuir principalmente para isso, se não for capaz de contribuir, no fim deste período de aplicação dos fundos comunitários vai haver várias regiões no nosso país que vão ficar naquilo a que eu chamo de uma situação de não retorno. Eu não admito que isso aconteça e por isso estou muito esperançado em que o ciclo de aplicação de fundos sirva para a coesão territorial. Mais do que esperançado estou muito determinado a lutar por isso, espero que estejamos todos na região. Em todos os ciclos anteriores o país cresceu, crescemos todos mas tornámo-nos mais desiguais e há regiões do país que já não aguentam essa desigualdade, ou acabamos com essa desigualdade agora ou pode ser tarde demais.

Na sua visita ao município o Presidente da República defendeu que devia haver uma descentralização do país em matéria de educação. Qual é a sua perspetiva em relação a este assunto enquanto líder de uma autarquia?
Eu não sou um particular defensor da descentralização de competências na educação. No meu ponto de vista as competências não podem ser delegadas uma a uma, município a município. Isso não faz sentido absolutamente nenhum. Há áreas centrais em que os municípios e os cidadãos do país têm de ser todos iguais e a educação é uma delas. Eu tenho muito receio que a municipalização apressada da educação possa vir a fazer no ensino o que está feito noutras áreas de atividade, que é haver municípios de primeira e municípios de segunda, uns mais ricos e outros mais pobres. Os municípios mais ricos conseguirem criar mais condições de ensino e de aprendizagem para os seus alunos do que os municípios mais pobres e isso podia significar mais uma discriminação dos municípios mais pobres, ondes vivem munícipes mais carenciados.

No que diz respeito ao turismo, que medidas têm sido feitas para dinamizar esta atividade?
No turismo temos que olhar para a atividade do ponto de vista global e da região, não faz nenhum sentido cada um dos municípios achar que vai fazer turismo por si próprio, isso não existe, é uma ilusão. Ainda que cada município faça muito bem o que lhe compete fazer sozinho se não se conseguir agrupar nunca terá uma rede que o permita ter turistas. Precisamos de criar uma rede com os municípios vizinhos e até com os mais longínquos para criarmos atratividade e organizarmos uma oferta. Enquanto cada um olhar mais para o seu próprio território em vez de para a região teremos sempre muitas dificuldades.

É o presidente do concelho desde 2009, que balanço faz até agora destes anos de liderança?
O balanço tem que ser sempre feito pelos outros, nós não somos bons juízes em causa própria. Garanto-lhe apenas que todos os dias, sem nenhuma exceção, dou o meu melhor nesta função.

Neste momento encontra-se de consciência tranquila em relação aquilo que prometeu às pessoas e cumpriu até agora?
Julgo que não houve promessas especiais. Talvez a maior promessa tenha sido a de me empenhar de uma forma constante e determinada e isso seguramente cumpri. São muitas mais as coisas que fiz que não prometi do que aquelas que prometi e não fiz.

Quais são as principais prioridades a realizar até ao fim do mandato?
Reforçar a capacidade de desenvolvimento económico do concelho.

Para finalizar, quer deixar uma mensagem para a população?
Apenas que conto muito com todos para continuarmos a fazer o caminho que temos feito de desenvolvimento, de solidariedade e de tratar uns dos outros. A minha mensagem é que cada um trate o melhor possível daqueles que estiverem mais próximos e que precisarem.

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