Menos quantidade mas qualidade superior na colheita deste ano no Douro

Menos quantidade mas qualidade superior na colheita deste ano no Douro / Foto: Direitos Reservados

Menos quantidade mas qualidade superior na colheita deste ano no Douro / Foto: Direitos Reservados

O tempo é de vindimas no Douro. Queimam-se os últimos cartuchos e apanham-se as uvas que restam da colheita que ficou marcada por uma quebra de cerca de 30% na produção devido ao míldio e ao granizo. Mas menos quantidade não é sinónimo de menos qualidade, uma vez que os produtores acreditam que a qualidade do vinho é superior este ano.

Mais um dia de vindimas na Quinta do Cadão em São João da Pesqueira. A colheita está praticamente a terminar. Depois dos dias de calor tórrido veio agora a chuva refrescar o trabalho de quem anda na vindimas mas também “estragar as uvas que ainda estão nas videiras”, explica o encarregado da equipa.

Já com grande parte das vindimas feita, os trabalhadores encontravam-se na Quinta do Vilarinho, uma das propriedades da empresa, que se distingue pela harmonia entre a vinha e o olival.

Manuel Mateus e Cláudia Mateus, proprietários da empresa / Foto: Salomé Ferreira

Manuel Mateus e Cláudia Mateus, proprietários da empresa / Foto: Salomé Ferreira

A empresa Mateus e Sequeira possui 400 hectares de vinha, toda ela com benefício e com as castas mais típicas do Douro plantadas. Essa é, de resto, uma das filosofias da empresa, “manter as características de um vinho tradicional duriense”, explica António Bastos, enólogo responsável na empresa.

“Partimos apenas das castas típicas, não utilizamos nada que não seja tradicional do Douro, temos apenas as castas mais nobres”, afirmou o enólogo enquanto acompanhava a vindima.

A boa disposição reina nas vindimas da Quinta do Cadão / Foto: Salomé Ferreira

A boa disposição reina nas vindimas da Quinta do Cadão / Foto: Salomé Ferreira

Mas nem a chuva para as vindimas e a boa disposição entre os trabalhadores. Marisa Pereira, jovem de 25 anos, levanta-se todos os dias às quatro da manhã para fazer a viagem de Baião até São João da Pesqueira e pegar ao trabalho às sete horas da manhã.

“É um trabalho duro e pesado mas gosto muito do trabalho que faço. A parte difícil das vindimas são as viagens, o transporte, e principalmente quando está mau tempo, mas com boa disposição tudo se consegue”, explica a empreiteira agrícola que traz com ela uma equipa também de Baião.

António Bastos, enólogo da Quinta do Cadão / Foto: Salomé Ferreira

António Bastos, enólogo da Quinta do Cadão / Foto: Salomé Ferreira

Em época de vindimas, a empresa contrata cerca de 100 pessoas para integrar a equipa. “Não é fácil arranjar pessoas para trabalhar, até porque o Douro é uma zona de trabalho humano, não é possível vindimar com máquinas”, revela António Bastos.

Apesar da dificuldade em arranjar mão-de-obra, o enólogo refere a vantagem que a empresa tem ao “ajudar a criar postos de trabalho na região”.

Para Fernanda Ferreira, 46 anos, estas andanças já não são novidade, “há 20 anos que faço vindimas”, explica a trabalhadora.

As vindimas são uma época de festa no Douro / Foto: Salomé Ferreira

As vindimas são uma época de festa no Douro / Foto: Salomé Ferreira

“Há melhores condições de trabalho atualmente”, afirma Fernanda Ferreira enquanto apanha os cachos da videira. Um atrás do outro vão enchendo o balde que será carregado posteriormente para o camião que transporta as uvas até à Adega, onde são encaminhadas para a Cuba de fermentação e daí trabalhadas para dar origem ao vinho.

“Conforme a chegada da uva encaminhamo-las para um determinado produto, este ano é atípico, muito quente, com baixa produção, e nós tivemos que pensar muitas vezes o que estávamos a fazer, não podíamos canalizar todas as uvas para fazer vinhos de determinadas características quando o ano pela falta de quantidade não nos ia permitir fazer a panóplia toda que temos de realizar e aí temos de equacionar”, explica António Bastos.

O enólogo aponta para uma quebra de 40% na produção na região do Douro, “este ano há menor quantidade, há um decréscimo bastante significativo em quantidade”, referiu.

“Nas nossas vinhas, devido à excelente equipa de viticultura conseguimos manter a quantidade, até aumentamos um bocadinho, mantendo a qualidade”, acrescentou.

Apesar da quebra na produção, “qualitativamente 2016 vai ser um ano de excelente qualidade. A quantidade diminuiu e a videira consegue ceder às uvas mais recursos”, conta António Bastos.

Empresa pretende continuar a apostar na proximidade com o viticultor

“Esta é uma empresa que desde o início apostou na proximidade com o viticultor”, explica António Bastos, ao afirmar a intenção de continuar com esta filosofia.

A empresa Mateus e Sequeira caracteriza-se como “jovem e empreendedora”, com um passado de trabalho ligado à tradição vitivinícola e à investigação na região do Douro Vinhateiro, tem ainda nos planos futuros a constituição de novos centros de vinificação.

“Estamos a perspetivar o nascimento de Adegas novas e a aumentar ainda mais a produção e queremos estar cada vez mais próximos das várias sub-regiões”, afirmou o enólogo.

Sendo que a “grande aposta” da empresa “foi sempre fazer vinhos de qualidade e conseguir fazer produtos com um preço bastante competitivo”, a internacionalização continua a ser a estratégia, “apesar do mercado nacional neste último ano ter sido também uma prioridade”. Neste momento a Mateus e Sequeira exporta cerca de 60% da produção.

A empresa vinícola produz desde Vinhos de Mesa (Branco, Tinto, Rosé), até ao famoso vinho do Porto, passando ainda pelo Moscatel. Segundo António Bastos, neste momento, a empresa “talvez seja um caso raro na região no que diz respeito aos brancos, uma vez que conseguimos produzir 1/3 de vinho branco em relação ao tinto, o que é uma raridade”.

No futuro, a estratégia passa também por criar novas marcas, “não só pelo  mercado nacional, que está a solicitar, mas também porque no mercado externo há novos nichos de mercado”, concluiu o enólogo.

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