Miguel Cadilhe: “Devagar se vai ao longe tem de ser um dos lemas do Douro”

Miguel Cadilhe, antigo ministro das Finanças/ Foto: Direitos Reservados

Mentor da candidatura do Douro a Património Mundial, Miguel Cadilhe faz um balanço positivo destes 15 anos da região enquanto Património da UNESCO. De acordo com o antigo ministro das Finanças, “os ativos são bastante superiores aos passivos”, havendo assim “uma situação líquida claramente positiva” na evolução do Douro desde 2001. Leia a entrevista a Miguel Cadilhe, a primeira de uma série de conversas com várias personalidades acerca do Douro Património Mundial e a sua evolução ao longo dos últimos anos.

Natural de Barcelos e antigo estudante no Porto, como é que surge a relação de Miguel Cadilhe com o Alto Douro Vinhateiro (ADV)?
Não sei bem, talvez sejam umas boas reminiscências dos tempos do serviço militar, nos inícios dos anos setenta, quando estive como alferes no conselho administrativo do CIOE, em Lamego. Fiz então as minhas descobertas, à margem da vida militar. Revelaram-se-me as gentes e as terras do vale do Douro, os socalcos vinhateiros, as densidades e diversidades históricas da região, os ancestrais conventos, igrejas, castelos, pontes. Algumas destas construções estavam em ruínas, o que me causava uma forma estranha de nostalgia, era este o sentimento, era o passado aparentemente esquecido ou menosprezado que me provocava um misto de admiração e inquietação, de ansiedade perante o que estava por fazer, que não sabia nem sei explicar… Ficava impressionado, e estas impressões não se diluíram com o decurso do tempo. Hoje, enfim, admito que tenha retido aquelas fortes impressões dos meus 26 e 27 anos, que as tenha guardado numa espécie de subconsciência que emergiu em alguns momentos de certas funções institucionais que exerci.


Em 2001 o Alto Douro Vinhateiro (ADV) foi considerado Património Mundial da Humanidade. Cerca de 15 anos depois desta classificação qual é o retrato que faz da região neste momento?
Um retrato muito positivo, do género: valeu bem a pena! E vai continuar a valer a pena…

Esta certificação foi ou não uma mais-valia para a região?
Isso parece evidente para todos, os de dentro e os de fora.

Que novas oportunidades se criaram com esta Chancela nas várias áreas?
As novas oportunidades decorrem da visibilidade social, cultural, empresarial e política que a região conquistou. Esta visibilidade é um ativo intangível de enorme valor. A chancela da Unesco trouxe muito maior e melhor notoriedade da região em Portugal e no mundo. Trouxe também mais responsabilidade, que é a outra face da moeda, e ainda bem. Estes “trazeres” induziram e induzem novos comportamentos dos residentes e dos autarcas, dos empresários, dos investidores, dos produtores e consumidores de bens, como o vinho, ou de serviços, como o turismo, a cultura, o ensino, a saúde, os transportes, etc. Quer do lado da oferta, quer do lado da procura, tanto em volume como em composição. É um processo multifacetado, em curso, que por muito tempo vai estar em progresso, não vislumbro riscos endógenos de retrocesso.

O setor vitícola é o motor económico e social da região. Como é que classifica a evolução deste setor nos últimos 15 anos?
Uma evolução verdadeiramente exemplar. A diferença entre o “antes” e o “depois” dos vinhos do Douro é, digamos, e para usar uma expressão popular que vem mesmo a calhar, como “a diferença entre a água e o vinho”, sem com isto desconsiderar todo o passado e toda a notável experiência do sector do vinho fino que naturalmente contagiou o sector dos vinhos de mesa.

A Chancela da UNESCO contribuiu para alavancar mais este setor?
Sim, a classificação da Unesco contribuiu, tal como contribuíram alguns outros valiosos fatores. Por exemplo, a própria história da região demarcada, o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, a UTAD, etc. Parece que houve a feliz concomitância e confluência de uns poucos mas bons fatores em prol dos vinhos do Douro…

Ao longo destes 15 anos também as quintas, que estavam quase exclusivamente focadas na produção de vinho, estão neste momento a reestruturar a sua visão e a procurar novas formas de afirmação comercial, nomeadamente através do enoturismo…
Tenho observado, à distância e de bom grado, esse caminho que se caracteriza pela complementaridade produtiva. Tem racionalidade, claro que tem, é estratégico, claro que é, parece promissor, claro que parece. Mas não me canso de recomendar um requisito fundamental: a qualidade. Ela, a qualidade, está na base de tudo, ela é, ao mesmo tempo, a melhor alavanca do Douro, a melhor âncora e a melhor defesa, porém também pode ser a pior vulnerabilidade.

Miguel Cadilhe, impulsionador da candidatura do Douro a Património Mundial/ Foto: Direitos Reservados

Em termos de investigação na área da vinha e do vinho, considera que houve desenvolvimentos notáveis no Douro nestes últimos 15 anos? As instituições de ensino superior desempenharam um papel importante nesse sentido?
Julgo não haver dúvidas quanto a isso. E só temos de o procurar valorizar sempre e cada vez mais. É um dos alicerces do tal requisito “qualidade”. O ensino superior desempenha aqui um papel insubstituível, que tem vindo a dar os seus frutos, como se vê. Saúdo o centro de excelência da vinha e do vinho da UTAD, bem como o entrosamento da universidade com as empresas da região.
 A candidatura a Património Mundial tinha como um dos objetivos o reconhecimento internacional do Douro enquanto destino turístico. Considera que esse objetivo foi cumprido? A Chancela Unesco é um “ativo poderoso” na promoção do destino Douro?
Sim, a chancela é poderosa e o objetivo do turismo está a ser construído, ano após ano, com investimentos privados e públicos. “Devagar se vai ao longe”, tem de ser um dos lemas do Douro. O “depressa e bem” é uma tentação que pode descair em temeridades e em estragos, tem riscos que não se coadunam com o Douro nem com os pergaminhos do Património Mundial.

O Turismo Fluvial tem também sofrido uma variação positiva ao longo dos anos, ainda assim, muitos autarcas “queixam-se” que os turistas não sobem a alguns dos territórios, não dinamizando assim a economia local destas populações. Quais são os principais motivos que aponta para esta realidade? O que fazer para solucionar este problema?
O turismo fluvial atrai bons fluxos da procura do Douro e isso é um facto da maior relevância, por todas as razões, e também porque é potenciador de outros fluxos por terra. Por exemplo, os programas de promoção direta do rio, com toda a publicidade que custa muito dinheiro às empresas fluviais, acaba por servir indiretamente a promoção do turismo de terra. É um ensejo para lembrar e evidenciar, em outra escala bastante acima do que suponho se tem feito, que por terra há outras coisas a ver e sentir  – a História e os monumentos, os museus, a gastronomia, as quintas e os vinhedos, os comboios, etc, e claro as gentes do Douro. Admito que uma opção associativa, empresarial e intermunicipal, ou regional, de apostar muito mais nas alternativas por terra, tudo muito bem estruturado, possa dar lugar a um programa plurianual de uma outra dimensão, que ainda não se viu. Como digo, é uma outra escala, capaz de propiciar outras alianças promocionais, bem concebidas e articuladas, junto de agências, aeroportos, etc, e lateralmente, legitimamente, usufruindo do gasto promocional do turismo do rio.

Pode-se dizer que ainda há uma grande diferença entre os vários territórios que compõem a área inscrita enquanto Património Mundial?
Sim, há e haverá desigualdades. A desigualdade faz parte dos processos de crescimento e desenvolvimento. A política económica e social deve visar a atenuação das desigualdades, mas não pode eliminá-las. A coesão do território é um desígnio de primeira linha, mas há aqui o que os economistas chamam “tradeoff”, se puxarmos mais para uma banda poderemos estragar a outra banda e por aí estragar o todo, ou prejudicar o ritmo do crescimento. Os equilíbrios não são fáceis.

O ADV é uma paisagem cultural evolutiva viva, sendo uma obra combinada do Homem e da natureza ao longo dos anos. Esta herança foi passando de geração em geração e hoje em dia muitas das quintas e alojamentos rurais estão sob a gerência de “novas gerações”. Está assim aberto um novo capítulo para o ADV? Qual tem sido o contributo destas novas gerações no desenvolvimento da região?
Esse é um dos outros fatores ou circunstâncias que integram um conjunto de felizes confluências, como lhe falava há pouco. É um dos fatores que mais aprecio e em que mais votos deposito com vista ao futuro e ao tal requisito da qualidade.

Por outro lado, o Douro Património da Humanidade é, ainda, um espaço desfavorecido que apresenta indicadores económicos e sociais que o colocam ainda aquém de outras regiões, nomeadamente a constante desertificação dos territórios. O que fazer para contrariar esta tendência?
A questão populacional é uma das mais sérias que o Douro enfrenta. O que fazer? Quem me dera ter uma resposta única e capaz. Na realidade haverá um leque de respostas. Por exemplo, prosseguir na mencionada via da “qualidade”, imprescindível no Douro. Tentar atrair jovens e levar por diante a ideia do fórum “ideias novas de gente nova” que esbocei na conferência dos 15 anos do Património Mundial. Investir na educação cada vez mais, a todos os níveis. Financiar o dito grande programa promocional do turismo de terra, este será o melhor multiplicador do emprego jovem.   

Qual o balanço que faz destes 15 anos do ADV enquanto Património Mundial?
Faço um balanço em que os ativos são bastante superiores aos passivos. Portanto, temos uma “situação líquida” claramente positiva, isto para usar linguagem de análise de balanços das empresas. E este balanço está numa tendência ascendente que se me afigura bastante robusta e duradoura.

O que espera para o Douro nos próximos anos?
Espero que haja vistas largas e que estas tragam mudanças, mas tragam igualmente salvaguardas contra excessos – eis um outro tipo de “tradeoff”. Espero que os autarcas continuem a cuidar, mais e melhor, dos impactos visuais das obras públicas e privadas. Espero que, finalmente, a EDP cumpra o velho dever de reclassificar os espaços das barragens na zona do Património Mundial. Espero que se invista nos comboios do Douro e se regenerem as linhas abandonadas. Espero, sempre, que haja a sobredita “qualidade”, em crescendo, porque qualidade atrai qualidade, assim como mediocridade atrai mediocridade, ora esta é absolutamente incompatível com o Douro do século XXI. Espero e antevejo que haja alguns nichos de excelência da investigação e do ensino, em domínios do vinho e da vinha, das florestas, das ciências veterinárias, do turismo, do património, etc, e da tecnologia e da gestão relacionadas com esses domínios. De igual modo, antevejo que haja uma especial procura de sítios do Douro para viver, em bem-estar, sem poluições, sem o stress das grandes metrópoles, sítios dotados de boas escolas, bons serviços de saúde, bons transportes, sem “custos de contexto” administrativos e com as burocracias reduzidas aos mínimos. Antevejo que haja uma gradual, lenta mas consistente, recuperação populacional. etc. Tudo com realismo misturado de alguma utopia, que esta, se bem doseada e temperada, não faz mal a ninguém, pelo contrário, acalenta o animus.

 

 

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