Natal longe da família para garantir bem estar dos outros

Para alguns profissionais o Natal e a Passagem de Ano não são sinónimo de momentos em família mas sim de trabalho. É o caso dos militares da GNR, enfermeiros e hoteleiros, profissionais com quem o Viva Douro foi falar para tentar perceber como se vivem estes dias em ambiente profissional.

Alexandra Rodrigues é enfermeira no Hospital de Lamego, João Pereira é militar da GNR no posto de Peso da Régua e David Almeida trabalha numa unidade hoteleira na cidade de Lamego, os três têm em comum o facto de estarem de serviço nas noites festivas, algo que lhes trás um misto de sentimentos que vai desde a obrigação profissional à falta do calor familiar que se vive nestes dias.

“É extremamente difícil a nível familiar e extremamente gratificante a nível profissional”, é assim que Alexandra define o que sente quando tem que se ausentar para trabalhar na noite de Natal. “Do ponto de vista familiar, quando fechamos a porta de casa para ir trabalhar ficamos com o coração apertado sabendo que deixamos ali as pessoas que amamos. Do ponto de vista profissional sabemos que vamos dar um pouquinho de calor e afeto a pessoas que por motivos de saúde estão numa situação complicada e nos, o pouco tempo que vamos estar com elas no nosso local de trabalho vamos ser um pouco a família delas”, conclui a enfermeira.

Já João Pereira, militar da GNR, fala da fórmula que ajuda a colmatar esta ausência, “não é fácil, passa-se esquecendo que do outro lado está a família e estando focado a 100% ao trabalho”.

Para David Almeida, o facto de trabalhar num hotel muito frequentado por famílias nesta época acaba por ser um escape para o facto de estar fora do seio familiar. “Acaba por ser uma experiência engraçada. As famílias que nos visitam nestas datas fazem do hotel a sua casa e vive-se um ambiente muito familiar que acaba por fazer com que nos sintamos mais enquadrados”.

“Na noite de Natal, por hábito, a equipa reúne-se para fazer um jantar antes de começarmos o serviço aos clientes e aí nota-se que o ambiente é de festa mas também existe aquele sentimento de que nos falta a família. Funciona como um escape que temos, convivemos o ano inteiro juntos, portanto acaba por ser uma segunda família e quem trabalha em hotelaria sabe que nestes dias é sempre assim, são momentos que temos de saber viver com eles”.

A época festiva é uma época de sentimentos fortes onde as conversas andam sempre à volta da família e da ajuda ao próximo. “É uma altura em que toda a gente fala da família, da ajuda ao outro, diversas ações de caridade que são feitas nesta época. A nível profissional percebemos que não somos só nós que estamos longe dos nossos, em especial num ambiente hospitalar em que as pessoas por estarem doentes já estão mais fragilizadas, acabamos por ser a família dessas pessoas, muito mais do que nos restantes dias do ano”, afirma Alexandra.

“Em profissões como a enfermagem os colegas de trabalho são quase uma segunda família, temos que trabalhar em equipa e passamos muito tempo juntos, por isso existe um respeito muito grande entre todos e acabamos por ser o suporte uns dos outros. São laços que vamos criando e que nestas alturas se tornam mais evidentes”.

João Pereira diz-nos que nos posto o sentimento fica atenuado “ fazendo a nossa própria ceia de natal e tentando criar um ambiente familiar. São pessoas com quem trabalhamos todo o ano e os nossos colegas acabam por ser a nossa segunda família, não estamos juntos dos nossos entes queridos mas acabamos por nos apoiar uns aos outros e o sentimento de falta fica atenuado”.

Depois existem “as ocorrências que têm de ser resolvidas e que acabam também por ajudar o tempo a passar o que é uma vantagem”.

Os colegas de profissão são também uma ajuda no caso de Alexandra, que encontra ali uma segunda família. “O nosso ambiente profissional é a nossa segunda casa, onde passamos muito tempo e nestas alturas acabamos por ter uma abordagem um pouco diferente, estamos mais disponíveis até para estar mais alguns minutos junto das pessoas dando-lhes um pouco mais de atenção”.

Do outro lado fica a família, em casa, e apesar de estarem muitos elementos reunidos o cenário nunca fica completo.

“Obviamente que sentem um vazio por faltar um membro da família mas compreendem que é a nossa profissão e que temos de estar ausentes nesses momentos”, afirma David.

João e Alexandra acabam por ter um pouco mais de sorte neste caso, a proximidade entre o local de trabalho e a residência é mote para a família fazer uma breve visita e colmatar horas de ausência.

“Existe essa vantagem da família poder vir aqui ao posto fazer uma visita e ajudar a colmatar a falha, a proximidade ajuda a isso, para quem é de longe isso é mais difícil”, diz João.

“Obviamente que lhes custa mas acabam por entender. Eu tenho uma filha e ela num dos trabalhos que teve de fazer na escola escreveu num texto que o pai tem que trabalhar no Natal para que as pessoas estejam em segurança, acaba por ser um aconchego saber que existe essa noção do outro lado, que não fica apenas o vazio da ausência daquele elemento.

“Felizmente tenho ao meu lado alguém que entende a minha profissão e o meu marido sabe que é importante ver os meus filhos nessa noite e acabam por me visitar nem que seja só para lhes dar um abraço e um beijo. Aproveito também esse momento para lhes dizer que o Natal é isto mesmo, é um sentimento de entrega e nesta profissão é também isso que fazemos. Tento mostrar aos meus filhos que ao contrário de nós que temos uma família e estamos bem de saúde, há pessoas que não podem dizer o mesmo. Mostro-lhes que o ideal não existe”, afirma Alexandra concluindo que “era mais difícil quando eles eram mais pequenos, agora que já são um pouco mais crescidos já entendem que temos que trabalhar nestas noites porque há alguém que está a precisar. Tento sempre dizer-lhes que se eu vou é porque alguém precisa de mim e eu tenho que estar lá, para aliviar a dor de quem precisa”.

Trabalhar nestas noites acaba sempre por acarretar um sentimento diferente, de maior entrega. “Quem está nesta profissão tem esse pensamento sempre presente, estamos aqui para servir o outro. Obviamente que nestas noites por todos os sentimentos que estão envolvidos isso acaba por ser mais evidente, a nossa intenção é que a nossa existência transmita um sentimento de segurança à população, por isso é que trabalhamos também nestas noites. Se o posto estivesse fechado certamente que a população teria um maior sentimento de insegurança”, conta João Pereira.

Para a enfermeira Alexandra esta é também uma noite diferente com os pacientes, “acabamos por ter mais atenção com os utentes, somos capazes de passar mais algum tempo junto deles a conversar um pouco ajudando-os também a passar a noite da melhor forma, já estão fragilizados por estarem naquela situação, por isso temos de tentar fazê-los sentir um pouco melhor, mais acarinhados”.

Em zonas mais isoladas como é o caso do Douro, existem muitas pessoas que vivem em isolamento e acabam por recorrer a estes profissionais para se sentirem um pouco mais acompanhada, no entanto Alexandra afirma que sentiu mais este fator quando trabalhou num grande centro.

“Ao contrário do que se possa pensar, isso é algo que se nota mais nas grandes cidades. Já trabalhei em grandes centros e senti mais isso, as pessoas procuram o hospital em busca de um pouco de atenção, de alguém que converse um pouco com eles.

Nestas zonas a família acaba por ter outro tipo de atenção, nota-se que isso tem vindo a mudar mas ainda existe um sentimento familiar muito forte e mesmo quando não há a família, há sempre um vizinho ou um amigo que está presente para que a pessoa não esteja só”.

“Nas forças na autoridade isso não acontece muito. Vemos que os idosos, por exemplo, vão ao centro de saúde ou chamam a ambulância para terem um pouco de companhia, alguém com quem falar, no nosso caso é diferente, nós somos chamados quando há problemas. Temos algumas pessoas que ligam para o posto e percebemos que querem apenas conversar um pouco, mandar cumprimentos, etc mas não acontece com tanta frequência como em outras profissões”, conta-nos João Pereira.

Já David destaca o sentimento de proximidade que se consegue com os clientes nesta época. “Temos muitos visitantes que ano após ano voltam ao hotel e isso, além de denotar que confiam no nosso serviço, também é bom pois existe uma maior proximidade. Quando a pessoa chega ao check-in e diz: “então David, tudo bem? Como vão as coisas?” quebra-se logo o gelo e para nós ver ali uma cara que nos é familiar também ajuda”.

Depois existe também uma maior tolerância por parte do cliente o que acaba por eliminar alguns fatores de stress habituais em hotelaria.

“Apesar de estarem a gastar dinheiro que não gastariam em casa são também mais compreensíveis com qualquer falha que possa surgir. Obviamente que do nosso lado existe a preocupação que nada falhe mas todos somos humanos e por vezes acontece escapar um ou outro pormenor e notamos que as pessoas acabam por ter uma atitude diferente relativamente a outros momentos do ano”.

“Nestas noites estamos mais próximos do cliente. O próprio cliente acaba por passar mais tempo no hotel não anda tanto tempo a passear pela cidade ou arredores e isso permite que estejamos mais tempo com eles, fala-se um pouco de tudo, desde trabalho até às coisas mais banais. Temos também mais tempo para conviver com a família do cliente e isso torna-nos mais próximos”, conclui David.

Entre o Natal e a Passagem de Ano o sentimento pode ser o mesmo mas o trabalho que aparece é diferente.

“Nós somos católicos e a noite de Natal tem um significado muito forte para nós. A noite de passagem de ano também acaba por ser diferente até porque a minha filha faz anos precisamente no dia 31, por isso acaba também por ser uma noite difícil quando tenho que ir trabalhar, normalmente jantamos e depois tenho que sair para ir para o serviço. A vantagem é que ela, com a idade que tem já percebe que tem que ser assim”, dia Alexandra.

“Eu trabalho nas urgências por isso a diferença está logo no tipo de pessoas que recorrem ao serviço. Tentamos sempre pensar positivo e acreditar que vamos passar aquela noite da melhor maneira.

Normalmente quando comemos as passas pedimos como desejos saúde, amor e trabalho, pelo menos este último está garantido, isso é uma certeza”, conta a enfermeira entre alguns sorrisos.

No caso da GNR, as ocorrências são também bastante diferentes de uma data para a outra, “na noite de Natal as maiores ocorrências são as divergências familiares, quando as famílias se juntam acaba sempre por haver uma ou outra discussão que, por se ter bebido um ou outro copo a mais acaba por gerar numa discussão mais acesa e nós somos chamados a intervir. Depois temos os acidentes rodoviários e problemas com lareiras, basicamente são estes os casos a que temos de responder na noite de dia 24.

Na passagem de ano é diferente, as ocorrências prendem-se mais com alguns excessos em especial no consumo de álcool e drogas. Jogamos muito na prevenção marcando presença nas ruas evitando que as pessoas se exaltem. Ao contrário do natal, a passagem de ano é uma noite de maior trabalho. Existem mais problemas na rua com acidentes, condução sob efeito de álcool, altercações na via pública, etc”.

Apesar desta diferença nas ocorrências o militar afirma que a resposta é sempre dada de forma semelhante, “quando chegamos observamos o ambiente, tentamos falar com as partes e perceber qual é o problema para o resolver. Mas logo à partida, quando as pessoas nos vêm chegar acabam por ficar desde logo mais calmas”.

No ramo hoteleiro a diferença passa muito pela forma diferenciada como se vivem as duas noites, num contraste entre o recato familiar e a explosão de alegria típica da noite marcada pelas doze badaladas.

“É diferente porque no Natal o ambiente é mais familiar, na passagem de ano nem tanto. A noite de natal tende a ser uma festa mais recatada, com a família e o momento alto acaba por ser o jantar. Na passagem de ano é diferente, o ambiente é mais de festa e a animação acontece desde que o cliente chega até ao dia seguinte quando normalmente regressam à sua casa. Acaba por ser melhor para nós porque conseguimos abstrair-nos mais do que se passa lá fora, da família que ficou em casa”.

Para que todos possamos ter umas festas em segurança e junto daqueles que nos são mais importantes são muitos os profissionais que têm de estar ao serviço, sacrificando assim a sua própria vida familiar, um sentimento que apesar da falta encaram com grande responsabilidade.