Produzir Amêndoa Coberta de Torre de Moncorvo exige técnica que tem passado de geração em geração

A produção da Amêndoa Coberta de Moncorvo é feita pelas "cobrideiras", que se dedicam diariamente à confeção deste produto/ Foto Salomé Ferreira

A produção da Amêndoa Coberta de Moncorvo é feita pelas “cobrideiras”, que se dedicam diariamente à confeção deste produto/ Foto Salomé Ferreira

Com a agricultura como uma das principais atividades do concelho, a amêndoa assume um papel de destaque na economia local de Torre de Moncorvo. O fruto “rei” da vila é transformado há mais de 100 anos pelas “cobrideiras”, nome dado às mulheres que se dedicam diariamente à produção artesanal da Amêndoa Coberta de Moncorvo.

Foi há 16 anos que Dina Morais, como gosta de ser tratada, se começou a dedicar à produção da Amêndoa Coberta. Na altura tinha acabado de abrir a loja de produtos regionais ao lado da Igreja Matriz da vila e começou a aprender a arte, uma vez que para esta “cobrideira” a amêndoa é “rainha em Moncorvo”. “Uma loja como a minha sem amêndoa não valia a pena estar aberta”, afirmou ao VivaDouro.

Sentada em frente à bacia de cobre, Dina Morais repete o mesmo gesto inúmeras vezes, “é preciso muita atenção e carinho”, revela, ao mesmo tempo que as mãos assumem o controlo em todo o processo de produção daquela que é a “guloseima” típica do concelho.

Dina Morais já se dedica à atividade há 16 anos/Foto: Salomé Ferreira

Dina Morais já se dedica à atividade há 16 anos/Foto: Salomé Ferreira

À primeira vista a receita é aparentemente simples, mas Dina Morais explica que “fazer a amêndoa não é só sentar-nos na bacia, há muita coisa que temos que ter na mão e no olhar”, afirmou, revelando que só a prática é que faz a perfeição.

Mas antes de começar a ser coberta a amêndoa passa por vários processos. Depois de apanhada tem que ser descascada, fase que necessita de muitas horas de trabalho. “Temos que ferver uma panela de água, colocamos as amêndoas na água quente, depois está todo o dia uma mulher sentada a descascar amêndoa”, explica Dina Morais.

Depois de “pelada”, a amêndoa é torrada, só depois desta fase é que se encontra preparada para ser coberta. Na “cobrição”, é necessário um “caco”, um grande vaso de barro alaranjado, onde se coloca uma braseira que dá calor enquanto se trabalha a amêndoa.

Maria Palmira Dinis a fazer a "cobrição" da amêndoa com a calda de açucar/ Foto: Salomé Ferreira

Maria Palmira Dinis a fazer a “cobrição” da amêndoa com a calda de açucar/ Foto: Salomé Ferreira

Maria Palmira Dinis, também “cobrideira”, recorda-se dos tempos em que via a mãe a fazer a amêndoa coberta, “a minha mãe fazia com lume e eu quando comecei também, agora utilizamos uma braseira”, explicou.

As amêndoas são então colocadas na bacia e trabalhadas durante dias a fio pelas “cobrideiras”, que passam horas a rolar as amêndoas em calda de açúcar, até terem a textura característica deste doce moncorvense e estarem prontas a empacotar para venda.

Para além de demorado o processo também exige algumas cautelas, “temos que usar os dedais porque por baixo está quente e pode queimar”, alerta Maria Palmira Dinis, enquanto vai envolvendo, gesto após gesto, as amêndoas na calda de açúcar.

Mas os oito dedais utilizados pelas “cobrideiras” não têm só a função de proteger os dedos enquanto trabalham, uma vez que também são eles que formam os “biquinhos” característicos destas amêndoas.

São precisos cerca de oito dias para que as amêndoas ganhem a espessura desejada, desta forma, contabilizando também o tempo que antecede a cobrição, a amêndoa necessita de cerca de 15 a 20 dias para estar pronta.

Deste processo resultam amêndoas para todos os gostos, umas com mais, outras com menos açúcar, é ao gosto de cada cliente, sendo que quanto mais tempo a amêndoa for trabalhada na bacia mais açúcar terá.

“A mão-de-obra é muito trabalhosa mas é um trabalho que nos dá muito prazer”, afirma Dina Morais.

Com mais de 100 anos, esta atividade é transmitida de geração em geração, mas hoje em dia já são poucas as “cobrideiras” que se encontram em atividade.

Por essa razão, Maria Palmira Dinis insiste em ensinar esta arte à filha e também à neta, de forma a evitar que a atividade acabe por se extinguir.

A Amêndoa Coberta é um dos produtos artesanais mais procurados na vila

Segundo Dina Morais, quem prova o produto acaba por levar, “quem conhece vem aqui e vai direto à prateleira, quem não conhece prova e leva, vir a Moncorvo e não levar amêndoa é como ir a Roma e não ver o Papa”, afirmou.

“Apesar de se vender todo o ano há mais procura na Páscoa e no verão, para os emigrantes”, revela Lurdes Caetano, “cobrideira” há 13 anos e também proprietária de uma loja de produtos artesanais no centro histórico da vila.

No entanto, Dina Morais revela que há cerca de 20 anos “vendia-se muita mais amêndoa na Páscoa do que se vende hoje”, mesmo assim a “cobrideira” considera que as amêndoas cobertas são os “diamantes de Torre de Moncorvo”.

Para além de ser transformado em Amêndoa Coberta, este fruto endógeno do concelho é também utilizado para produção de outras iguarias, nomeadamente a amêndoa torrada, a amêndoa de canela, os bolos de amêndoa e a compota de amêndoa.

 

 

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