“Recebi uma universidade de contas direitas e organizadas”

Eleito em março deste ano, Emídio Gomes será o Reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro nos próximos quatro anos. Numa conversa com o VivaDouro o novo reitor fala dos desafios da instituição nos próximos anos.

Natural do Porto, é licenciado em Engenharia Zootécnica pela UTAD, mestre em Ciências Biomédicas pela Universidade do Porto e doutorado em Ciências Biomédicas, especialidade de Nutrição, pela Universidade do Porto.

No último mandato de António Fontainhas Fernandes, Emídio Gomes exerceu o cargo de vice-reitor da UTAD para a Área de Investigação e Inovação.

Para começar a nossa conversa, pedimos-lhe que faça um “raio x” da UTAD que recebeu das mãos do seu antecessor, António Fontainhas Fernandes.

A UTAD é uma universidade com uma grande normalidade institucional. Foi uma passagem de testemunho muito tranquila, diria até muito amiga e aberta, sem nenhum percalço.

Herdei o resultado do esforço do António Fontainhas Fernandes durante dois mandatos. Um primeiro, claramente dedicado a normalizar a situação interna, porque ele herdou uma situação muito difícil. Foi um mandato virado para a reorganização, reestruturação e resolução de problemas internos da Universidade, com vista à sua credibilização.

No segundo mandato, do qual eu também já fiz parte, foi feito um trabalho de afirmação para o exterior. A própria liderança do CRUP que desempenhou, durante três anos, fez parte desse trabalho. Os reflexos disto tudo são agora evidentes.

Foram dois mandatos distintos que resultaram numa “herança” absolutamente normal e tranquila. Com bastantes problemas ainda por resolver mas que não são falha da gestão de Fontainhas Fernandes, até porque herdou muitos deles e que foi resolvendo.

Pode então afirmar que recebe uma UTAD estável do ponto de vista financeiro?

Do ponto de vista estrutural, a UTAD é uma instituição credível e organizada. Em termos financeiros a situação sempre foi delicada, mas que não tem a gravidade idêntica àquela que ele herdou.

É justo dizer que ele transfere uma Universidade mais equilibrada, do que aquela que herdou em 2013. Bastante mais. Não há folgas, não há desvarios, mas há uma reestruturação visível em curso, que se vai aprofundando, com a melhoria da qualidade do investimento. Aí nota-se que houve a capacidade, da parte do anterior reitor, de alguma contenção, que permite chegar a este momento com uma Universidade estável financeiramente. Contas direitas e organizadas.

Olhando agora para o seu mandato. Quais são as linhas mestras que irão pautar o seu trabalho?

No fundo são as que estão expressas no Plano Estratégico, que foi aprovado por unanimidade pelo Conselho Geral.

Reforço e afirmação da Universidade enquanto entidade formadora, ou seja, mais e melhores alunos, com algum cuidado. É visível hoje que nas áreas das ciências, da engenharia, temos graves dificuldades no número de pessoas que terminam o secundário com matemática como disciplina específica, de opção.

O aumento exponencial de vagas nas universidades do litoral, em resultado do fim dos mestrados integrados, colocam também uma dificuldade muito acrescida à UTAD.

Apesar de tudo, o número global de alunos cresceu quase 4%. Admitimos, no total de 1.º e 2.º ciclos e doutoramentos, quase 2900 novos alunos. É histórico, nunca tal tinha sido alcançado. Temos, no total, um valor próximo de 7700 alunos, que também é um número bastante positivo.

Houve um crescimento, mas realço novamente o cuidado que temos que ter com algumas áreas específicas, às quais estamos a dar maior atenção, nomeadamente na área das engenharias que impliquem, como específica, a disciplina de matemática e/ou física. É um problema estrutural do país, e da região, não é um problema específico da UTAD.

Afirmar alunos, identificar novas áreas de crescimento, potenciar as linhas de força da UTAD – que é onde somos capazes de captar mais alunos e pensar naturalmente em melhorar –, diversificar a oferta e ir promovendo a reforma curricular necessária, que torne a oferta formativa mais atrativa.

Tudo isto liga também com a necessidade de renovação do corpo docente nesta área de formação.

Faremos também uma aposta no crescimento das ciências veterinárias e da nutrição, e no avanço na área das ciências da saúde, com formação no domínio do sector médico. Temos já a proposta pronta para o Centro Académico Clínico e, a breve prazo, será apresentada uma proposta muito séria de formação: contida, mas de grande qualidade na área médica.

Esta é uma das visões do Plano Estratégico. A componente da formação.

Outra visão é a componente “investigação”. Só seremos uma Universidade se afirmarmos os nosso Centros de Investigação.

Temos seis Centros sediados na UTAD, classificados na FCT com «Muito Bom» e «Bom», em dois casos. Temos também alguns polos de centros que, estando fora da UTAD, têm grande expressão interna. O maior exemplo de todos resulta da parceria com a Universidade do Porto, com o impacto que tem o INESC-Tec dentro da UTAD. O maior polo do INESC-Tec, fora do Porto, é na UTAD, que por sua vez é maior que alguns dos nossos centros…

A afirmação da área da investigação vai-nos permitir ganhar credibilidade, sobretudo na componente externa com as empresas e com o território.

Esta é outra dimensão, mais do que uma Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, é sermos uma Universidade em Trás-os-Montes e no Alto Douro. Isto implica uma melhoria, muito significativa, do nosso envolvimento institucional com a realidade empresarial e institucional da região. Sobretudo com as CIM do Douro, uma parte de Trás-os-Montes, uma recuperação forte no Alto Tâmega e uma nova realidade que resulta do efeito da abertura do Túnel do Marão.

Hoje estamos a menos de 30 minutos de três cidades maiores que Vila Real: Amarante, Penafiel e Marco de Canaveses. São cidades que passam a estar dentro do raio de atratividade da UTAD, com elevado potencial. Neste sentido vamos já utilizar mesmo alguns fundos do PRR para os envolver diretamente, com algumas ações que vamos promover.

São as três grandes dimensões que irão guiar este mandato: a formação, a afirmação da investigação e a implantação e influência no território.

Referiu já o Centro Académico Clínico. Já ouvimos aqui, inclusivamente o Ministro do Ensino Superior, afirmar que um curso de medicina pode ser uma realidade na UTAD, é algo porque vai lutar?

Não gosto muito de falar muito sobre este assunto porque há muita frustração passada. Se revisitarmos a imprensa com 10 anos, tem títulos nos jornais a dar a medicina como certa na UTAD.

Por três vezes o processo borregou. Sou muito cauteloso nessa matéria, a realidade é o que é e por vezes as decisões não têm aspetos que sejam entendíveis para todos nós.

O que lhes posso dizer é que, neste momento, a realidade da Universidade e a realidade da sua envolvente hospitalar, com o CHTMAD com hospitais em Vila Real, Chaves a Lamego e os três ACES, dá garantias, muito sólidas, de podermos fazer formação médica de grande qualidade, em especial se formos cuidadosos no número de alunos que vamos admitir. Esta é a realidade.

O nosso Centro Hospitalar dá-nos todas as garantias de fazer formação médica de grande qualidade, aliás, já a faz, e este é um dos equívocos. Muitas das pessoas, que são hoje formadas na Universidade do Porto e do Minho, concluem a sua formação no CHTMAD, em condições mais vantajosas e de melhor qualidade do que têm hoje no Porto. Digo isto com cuidado, mas com serenidade.

Pela razão simples do rácio de acompanhamento: não é que os supervisores no Porto sejam piores, de longe. O que digo é que se formos cautelosos, a qualidade formativa pode ser muito elevada. É uma condição necessária do meu ponto de vista, a par com um corpo docente de grande qualidade.

Neste sentido, estamos convencidos que – no diálogo que temos de ter com a Ordem dos Médicos – seremos bem-sucedidos, porque o que vamos apresentar é sensato, credível e contido.

Por outro lado, mais do que o ícone da formação médica em si, é sabermos que a formação nesta área da saúde pode ajudar a alavancar a nossa Escola Superior de Saúde.

Nós não podemos pensar uma Universidade a um mandato de três ou quatro anos: temos que pensar a 8, 12, 16 anos. Quanto pensamos numa UTAD a essa distância, temos que a pensar com esta oferta formativa e na sua afirmação com quatro ou cinco vetores que a credibilizem.

Um vetor é o de uma só saúde. Passaremos a fazer parte de um grupo restrito de universidades com formação médica animal e humana. Como percebemos com esta pandemia, a saúde pública animal está diretamente relacionada com a humana. Passaremos a ser um parceiro privilegiado, daí ser um setor para crescer na UTAD.

Outro vetor é toda a área das ciências alimentar e nutrição, e a interligação que fazem com este setor.

É obvio que vamos fazer crescer a nossa ligação com a agricultura de precisão, com os desafios que as alterações climáticas trazem à agricultura de futuro, tendo aqui um palco privilegiado a nossa formação em viticultura e enologia.

A nossa parceria com o Instituto Fraunhofer, que está em fase de implementação acelerada no Regia Park, é o exemplo de outro dos vetores que serão nossa aposta.

Finalmente, o sector das Ciências do Desporto e a sua ligação à saúde e bem-estar, numa região como a nossa, em que a população tem características muito especiais.

Estes são os quatro grandes vetores. Depois, nas vertentes da Cultura e da História, a nossa relação com a região é inequívoca.

Ainda recentemente, aproveitamos um facto estranho: de não haver nenhuma Cátedra de José Saramago em Portugal, para criar uma aqui. Passámos a ter um espaço de estudo sobre toda a influência de Saramago, no âmbito da língua e da literatura portuguesa.

São linhas de força simples e objetivas, porque se não forem assim, serão difíceis de concretizar. Se lhe disser que vou criar uma Universidade maior que o MIT, é mais que uma utopia, é uma ficção, e a realidade é bem mais dura do que isso.

Temos que ser muito ambiciosos, mas numa ambição que seja possível de concretizar.

Uma das questões problemáticas na UTAD é a questão do alojamento. Como pretende enfrentar esta situação?

A questão do alojamento é crítica. Com a dissolução da Assembleia da República não sabemos se o Governo vai avançar com a publicação do diploma no âmbito do PRR que permite às universidade aumentar a sua oferta. No nosso caso, por exemplo, poderíamos passar das atuais 600 camas para 1000.

Depois, o mercado privado de habitação, que esteve parado uns anos mas está a voltar a mexer, irá ajudar a equilibrar uma balança que tem estado desequilibrada, potenciando alguns momentos de tensão.

A Universidade cresceu mais depressa em número de alunos externos, do que a oferta de alojamento. Também temos de olhar para isto numa dimensão que vá para além do concelho de Vila Real. Concelhos de proximidade – como Peso da Régua ou Sabrosa, por exemplo – podem fazer parte de uma resposta articulada, com transporte público, permitindo que muitos alunos possam viver nesses locais.

De qualquer forma, temos que dar o exemplo e aumentar a nossa oferta de residências, mais camas e melhores residências.

A articulação com o município é importante para solucionar este problema?

É decisiva. Não há outra forma de resolver a questão, mas com os municípios. O pior que podia acontecer à UTAD era ser vista como a universidade de Vila Real. A médio/longo prazo estaria em risco.

A UTAD tem que ser uma Universidade em Trás-os-Montes e Alto Douro. Sem esquecer os municípios que já falei, que situam logo depois do túnel do Marão. Esta tem que ser a nossa visão.

As eleições autárquicas terminaram e, nos próximos quatro anos, os melhores presidentes de câmara são os que foram eleitos. É preciso respeitar a democracia, não há cor política nisso. O interesse deles é o nosso interesse.

Tem defendido, em algumas intervenções, marcar uma maior presença da UTAD no território, em especial na CIM Douro. Como pretende concretizar esta ligação?

Será um trabalho em diferentes dimensões. Numa primeira, e que nos próximos meses irá ser testada, é ter formações em parceria no território. No âmbito do PRR, por exemplo, estamos a preparar algo na área da formação – que não pretendo dar agora dar muitos pormenores –, mas que envolverá os diversos municípios nas suas várias dimensões.

Depois, pretendemos também ter essa presença mais regular com a realização de alguns eventos. Para dar um exemplo: a apresentação, que este ano aconteceu aqui, dos vinhos Alumni UTAD, no próximo ano irá ter lugar num dos municípios do Douro.

Para lá de tudo isto, a UTAD pode ainda ser usada como fator de captação de investimento e da criação de emprego nesses territórios. Para os municípios isso é fundamental, basta ver as notícias que vão saindo e que nos dizem que perdemos cerca de 30 mil pessoas na área do Alto Douro Vinhateiro. É algo que nos preocupa muito e é muito por aí que vamos trabalhar.

Ao longo desta entrevista já referiu algumas vezes o PRR. No âmbito do Programa Impulso, do PRR, a UTAD tem 4,8 milhões de euros disponíveis. Como é que os pretende aplicar?

Com os municípios e as empresas, é o meu compromisso.

Temos a CIM do Douro, do Alto Tâmega e do Tâmega e Sousa, todas envolvidas no processo. Obviamente que nas CIM do Alto Tâmega e do Tâmega e Sousa não haverá um envolvimento da totalidade dos municípios.

Com a CIM do Douro estamos a estudar como é que nos podemos organizar, bem como com a do Alto Tâmega, indo até aos concelhos de Baião e Resende.

Não queremos com isto dizer que excluímos parcerias com alguém. Agora, se em Felgueiras há um polo do Instituto Politécnico do Porto (IPP), é óbvio que o município terá com o IPP uma relação de proximidade, é mesmo assim.

Quanto melhor estiverem as outras instituições, melhor estará a UTAD, sempre pensei assim. Sempre apoiei o Politécnico de Bragança, por exemplo, e continuarei a fazê-lo sempre que houver oportunidade.

Ainda no PRR, a UTAD pretende concorrer a mais fundos?

Já concorremos, estamos à espera dos resultados da famosa chamada no âmbito das agendas temáticas de investigação e desenvolvimento. Apresentámos um projeto enorme no domínio da agricultura, sobretudo nas questões relacionadas com a sustentabilidade ambiental e alterações climáticas, envolvendo as maiores empresas nacionais.

O líder deste consórcio é a Herdade do Esporão. Temos também a Sogrape e a Gran Cruz… Todas as empresas do sector da agricultura estão connosco nesse projeto.

Temos uma enorme confiança que será financiado. Não pelo montante que solicitamos, até porque a dotação da chamada ficou muito aquém da procura.

Isso já está feito, falta agora a parte das residências.

Para finalizar tem espaço para uma mensagem para o corpo docente e não docente, e estudantes da UTAD.

A mensagem que já transmiti à academia e que tenho vindo a tentar reforçar é de que todos temos uma enorme responsabilidade.

Dirigentes da universidade, comigo ao leme como é natural, corpo docente, alunos e corpo não docente e não investigador. Nós temos uma enorme responsabilidade para com a sociedade e o país, no presente e no futuro desta universidade.

É uma responsabilidade coletiva e que tentarei transmitir a todos, em especial aos nossos professores, que são o corpo da elite formativa. Ao serem exigentes consigo próprios dão um sinal à sociedade que sabem assumir a responsabilidade que o contribuinte nos transmite.

Para Trás-os-Montes e Alto Douro, ter uma universidade é importante, mas ela não é apenas importante por aqui estar e criar alguns empregos. Temos que perceber que temos que dar um retorno forte formando, a prazo, alunos que em termos médios sejam melhor que aqueles que os ensinam nesta fase.

A mensagem é sobretudo de apelo à união de esforços em torno deste grande desígnio que é afirmar uma Universidade neste território.

Como gostaria de ser recordado no dia em que deixar o cargo de Reitor da UTAD?

Nunca tive esse estigma. Nunca penso no passado.

O legado que quero é que, na minha avaliação de consciência, deixe uma universidade melhor do que aquela que me foi entregue. Isso é que realmente é importante, que na minha consciência esteja claro que fiz tudo o que estava ao meu alcance.

De resto, no dia em que sair, é algo que fica ali resolvido. Se há algo que nunca gostei de ser na vida é “ex” de algo. Faço o meu trabalho, termino e vou à minha vida, no dia seguinte.

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