Ricardo Vasconcelos é o novo selecionador de andebol britânico

Ganhou gosto pelo andebol enquanto acompanhava o pai, um dos fundadores do Núcleo de Andebol de Penedono (NAP). Hoje, aos 34 anos, Ricardo Vasconcelos é selecionador da Grã-Bretanha.

Numa visita à sua vila natal, para participar com a sua equipa num torneio da modalidade, Ricardo esteve à conversa com o VivaDouro, dando-nos a conhecer um pouco mais do seu percurso e das ambições para o futuro.

Onde nasce a paixão pelo andebol?

A paixão nasce por influência do meu pai. O meu pai esteve envolvido no andebol desde jovem e obviamente eu acompanhava-o para todo o lado, ele treinava equipas da Associação de Andebol da Guarda e foi assim que tive o primeiro contacto com a modalidade.

Foi nessa altura que o Núcleo de Andebol de Penedono (NAP) teve as suas primeiras experiências ao nível desportivo, foi assim que entrei no andebol. O meu pai formou um clube e eu e os meus amigos juntamo-nos e fomos a primeira equipa do NAP a competir.

O NAP é um dos clubes que o município apoia, esse apoio é importante?

Sem dúvida. O politicamente correto obrigar-me-ia a dizer que é suficiente mas não é, nunca é, nós queremos sempre mais e o desporto precisa sempre de mais mas é obvio que o apoio que o município tem dado ao clube tem sido fundamental e continuará a ser importante na evolução que o clube pode ter e para o sucesso que tem apresentado e que continuará a apresentar no futuro.

Numa vila como Penedono, e outras da nossa região, faz mais sentido a promoção de desportos chamados de segunda linha ou, no futebol, por exemplo?

Isto é uma opinião pessoal, obviamente, mas para mim faz todo o sentido apostar neste tipo de desportos, precisamente porque o futebol é um desporto muito mais “mainstream” o que facilita a angariação de patrocínios, ou atenção mediática, por exemplo.

Um desporto como o andebol tem mais dificuldade nesses campos, daí eu achar que este apoio faz mais sentido nos desportos com menos impacto mediático.

Este torneio que se realiza em Penedono é um estímulo para os jovens que praticam a modalidade, em especial com a presença de equipas com maior desenvolvimento?

Obvio que sim, para além de que é também uma boa forma de “vendermos” o concelho de Penedono e todas suas valências.

O torneio vai já na nona edição e é um torneio que tem tido uma enorme importância no desenvolvimento da modalidade e na dinamização do concelho pela quantidade de gente que por aqui anda durante esse fim de semana. E não são apenas portugueses, isto porque temos também diversas equipas estrangeiras vindas de Espanha, por exemplo, e agora a seleção britânica.

Como foi sair de Penedono e fazer carreira no estrangeiro?

Foi interessante. Foi um desafio, mas um desafio que se coaduna com a minha personalidade. Sempre tive a ambição de me dedicar exclusivamente ao andebol, tanto como jogador como na posição de treinador.

Estava à procura de uma oportunidade que me permitisse seguir esse sonho enquanto dava aulas de educação física, que é a minha formação, e treinava o NAP. Finalmente essa oportunidade surgiu, vi um anúncio online e concorri. Depois fui sendo chamado para as entrevistas e, o grupo inicial que era de 50 foi sendo reduzido à medida que o processo ia avançando.

Também um desafio a nível logístico porque eu soube com quatro dias de antecedência que teria de estar em Inglaterra para uma entrevista.

E à chegada, qual era o cenário no andebol na Grã-Bretanha?

Este oportunidade surgiu com o “boom” da modalidade que se sentiu no pós Jogos Olímpicos.

Londres organizou os jogos em 2012 e como nação organizadora tem direito a ter acesso a todas as modalidades sem qualificação, o andebol não foi exceção e a federação desenvolveu duas equipas, uma masculina e uma feminina, para participar.

Essas equipas foram feitas com base em jogadores que já jogavam, muitos deles no estrangeiro e nem todos eram realmente britânicos, mas tinham um avô com passaporte britânico, por exemplo.

Este trabalho gerou a necessidade de se fazer um trabalho mais específico, mais profissional.

E já na Grã-Bretanha, qual é o percurso que fazes?

O anúncio a que eu respondi procurava um “Handball development officer”, basicamente eu fui contratado, e transpondo isto para a nossa realidade, para desenvolver a modalidade num distrito, que no caso tinha aproximadamente 2 milhões de habitantes. Aí o meu objetivo era promover a modalidade, ia a escolas falar com alunos e professores, apoiava alguns clubes que já existiam e treinava a seleção distrital.

Na sequência desse trabalho participamos num torneio distrital onde estavam algumas pessoas da federação a detetar talentos. A nossa equipa teve um bom desempenho e no final essas pessoas vieram falar comigo para saber se eu estaria interessado em treinar os sub-16.

A partir daí as oportunidades foram surgindo, passei depois para os sub-19, sub-21 e depois os seniores onde estou agora.

Eu entrei no momento certo, na onda certa e consegui aproveitar, com muito esforço e trabalho, a oportunidade que me foi dada.

E agora, qual é o desafio, quais são os patamares que pretendes atingir com a seleção da Grã-Bretanha?

Analisando do exterior, o desenvolvimento de uma modalidade passa por dois aspetos fundamentais: quantidade e qualidade. Primeiro os números, depois a qualidade.

Os meus primeiros três anos e meio foram de arranjar números, praticantes, ir a escolas falar com os miúdos, etc. Agora, na performance o objetivo já é filtrar essa quantidade, para melhorar a qualidade podendo a médio, longo termo almejar uma qualificação para um grande torneio internacional, por agora só participamos nos Jogos Olímpicos, como país organizador.

O próximo grande torneio é o Mundial em 2019 mas nós nem sequer entramos na qualificação, isto porque não achamos que fosse o palco ideal para desenvolver o nosso nível até onde queremos. Por exemplo, em Janeiro vai haver qualificação para o Europeu, e aí já vamos estar presentes.

Dizes que a qualificação para o Mundial não é o palco ideal. O desequilíbrio que existe para outras equipas podia perspetivar resultados muito dilatados, podendo pôr em causa o equilíbrio moral da equipa?

Isso depende sempre do que se faz antes. Os objetivos têm que ser delineados e claros para toda a gente. A desilusão só existe se nós nos focarmos no objetivo em vez do processo.

O objetivo seria a qualificação, o que é impossível, por isso o objetivo agora é o processo para que daqui a 5, 6 anos possamos ter objetivos mais ambiciosos.

No fundo o que quero dizer é que sim, pode realmente funcionar contra nós mas isso se os objetivos não forem realistas e conhecidos por todos, e todos inclui os atletas, os treinadores, a direção, e claro os clubes de onde os atletas vêm.

Amanhã tocava o telefone e era da Federação Portuguesa de Andebol com um convite para ser selecionador, qual seria o sentimento?

Acima de tudo orgulho…

Mas esse é um objetivo?

Sem dúvida. Nós queremos sempre mais e melhor e, se pudermos contribuir para quem nos deu tanto, melhor ainda.

Considero que a Federação está bem servida a nível de treinadores neste momento mas é algo que, sendo ambicioso como sou, não fecho a porta e trabalho para que um dia essa oportunidade, ou outra, possa surgir.

E um jogo Grã-Bretanha vs Portugal contigo no banco da seleção britânica?

(risos) Vamos adiar essa resposta para um dia que o jogo aconteça. Poderá acontecer mas talvez à porta fechada nesta fase (risos).

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