Um dia nas vindimas do Douro na Quinta do Filoco em Tabuaço

Marta Macedo, proprietária da Quinta do Filoco

Marta Macedo, proprietária da Quinta do Filoco

O VivaDouro acompanhou um dia na vindima em Tabuaço, na Quinta do Filoco. A colheita arranca nos primeiros raios de sol e segue pelo dia fora entre a vinha e a adega. A enóloga Marta Macedo, proprietária da herdade, foi a nossa guia ao longo deste dia de vindimas no Douro.

A colheita deste ano arrancou a cinco de setembro, uma semana mais cedo relativamente ao ano passado, pelo facto de “ter sido um ano mais quente, as uvas brancas aumentaram o grau e optámos por começar mais cedo”, explicou Marta Macedo.

A uva é apanhada quando se sente uma mistura de fatores “desde a doçura, a grainha, que tem que estar crocante e madura para consequentemente não dar aromas mais herbáceos, a própria película não pode ficar demasiado desfeita e, a nível analítico, os vários parâmetros têm que estar mais ao menos corretos a nível de acidez e doçura”, contou a produtora.

“O projeto da Quinta do Filoco nasceu com o meu avô que adquiriu uma grande área de vinha do Douro e construiu uma adega”, contou a enóloga na viagem entre a adega e a vinha.

Desde 2007 que Marta Macedo pegou negócio de família, “agarrar num projeto de raiz não é fácil, mas penso que foi muito proveitoso”, confessou. Depois de o negócio já ter passado de geração em geração, a empresária dedicou-se ao projeto aproveitando a mais-valia da quinta já se encontrar plantada e a adega edificada e equipada, tendo nesta altura centrado atenções na marca e na imagem da empresa para o mercado.

Depois de cerca de dez minutos de viagem entre a adega e a vinha, o relógio marcava as oito horas quando a equipa de reportagem chegou ao local da colheita. O dia dos trabalhadores começa cedo, geralmente iniciam o trabalho por volta das sete horas da manhã. “O ambiente é sempre de festa, é uma alegria”, conta Marta Macedo, “é um trabalho muito cansativo, muito físico, não é fácil mas toda a gente gosta disto”, colmatou.

Marta Macedo com os trabalhadores da Quinta do Filoco

Marta Macedo com os trabalhadores da Quinta do Filoco

Por volta das nove horas e trinta minutos os trabalhadores põem de lado as tesouras da poda, os cestos e desligam os motores dos tratores, está na hora da pausa. Após meia hora de intervalo retoma-se o trabalho na vinha da Quinta do Filoco. “A parte da tarde faz-se sem intervalos e o turno termina às 17 horas”, explicou Marta Macedo.

Este ano existem cerca de 50 trabalhadores que desempenham funções nas vindimas da quinta, de acordo com a enóloga nesta altura existe sempre a necessidade de contratar mais mão-de-obra. No resto do ano existe uma equipa permanente com cerca de 17 pessoas nas vinhas e quatro pessoas na adega.

“É necessário cuidar da pós-vindima, passadas poucas semanas prepara-se a poda e começa um novo ciclo”, ressalta Marta Macedo.

Cerca de metade do total dos trabalhadores destinam-se à tarefa de cortar as uvas e os restantes são distribuídos pelas outras atividades, nomeadamente quem acarta os cestos e os motoristas dos tratores.

O pagamento é feito ao dia e conforme a função que desempenharam, visto que o trabalho do corte é mais leve, quem o realiza recebe menos do que alguém que transporta os cestos, “temos que valorizar as pessoas pelo esforço que fazem”, realçou a enóloga, acrescentando ainda que antigamente as mulheres costumavam cortar as uvas e os homens, como têm mais força, acartavam os cestos. Atualmente essa diferença já não é tão evidente, “agora também existem homens apenas a cortar, não existe qualquer estereótipo ou diferenças entre homens e mulheres”, afirmou Marta Macedo.

A enóloga confessa que não é “assim tão fácil arranjar pessoas para trabalhar nesta atividade” no entanto “os empreiteiros agrícolas que reúnem uma grande equipa de pessoas facilitam-nos o trabalho”, salientando que tentam sempre encontrar pessoas da zona, principalmente de Tabuaço, “porque devemos valorizar as pessoas da terra”, declarou.

Maria Júlia, 57 anos, é um exemplo disso mesmo, vive em Tabuaço há 35 anos e as vindimas já não são uma novidade para ela. “É mais difícil quando chove ou quando está muito calor, de resto é uma vida alegre”, afirmou a trabalhadora. Visto que é doméstica, Maria Júlia, aproveita esta época para conviver e “ganhar algum dinheiro”, garantindo que “é um trabalho onde há muita alegria”.

Manuel Oliveira, 58 anos, desempregado na área da carpintaria, admite gostar desta época do ano, “já estive emigrado noutros países a realizar a minha profissão, mas sempre adorei a agricultura”, realçou, acrescentando que “há sempre pessoas que não se dão bem mas todos se respeitam”.

Ana Filipa, 21 anos, e Leonel Barros, 18 anos, ambos desempregados, são os mais jovens entre os trabalhadores. Com uma filha com cerca de um ano, o casal decidiu recorrer às vindimas para “ganhar algum dinheiro”. Para Leonel, este é o segundo ano em que participa na atividade, “no primeiro ano custou, mas agora já estou habituado”, confessou o jovem, acrescentando que “o mais complicado é quando temos que andar para cima e para baixo a transportar os cestos de uvas, quando é plano é mais fácil”. Para a jovem este foi o dia de estreia nas vindimas, “é o meu primeiro ano, estou um pouco cansada, agora é mais fácil, mas ainda é cansativo”, concluiu.

Na quinta o tempo para o corte da uva é cerca de um mês. As uvas têm que se cortar pelo cimo do cacho, para que venha inteiro, de resto “não é necessária grande técnica no corte da uva”, explicou Marta Macedo.

Atualmente, muitos dos processos utilizados nas vindimas já são realizados através de máquinas ou tratores, contudo o corte é feito à mão. Depois de acartadas e levadas, as uvas são pesadas, colocadas em caixas e vão para a adega onde são descarregadas. Na adega o processo passa por esmagar as uvas e seguem diretamente para a cuba de fermentação ou para a prensa, conforme o tipo de vinho que se está a fabricar.

Com uma área de cerca de 130 hectares e uma produção de um milhão de litros por ano, os vinhos da quinta do Filoco são exportados para diversos países: China, Filipinas, Estados Unidos, Polónia, Bélgica, Holanda.

O objetivo inicial era introduzir a marca no mercado nacional contudo, devido à crise que assolou o país, a entrada neste mercado tornou-se “bastante difícil e, como não podia baixar os braços, parei de procurar no mercado nacional e decidi procurar lá fora”, frisou a produtora.

Desta forma, no âmbito nacional só há cerca de dois anos é que o mercado abriu portas para a entrada do vinho e, atualmente, a quinta do Filoco tem distribuidores no Algarve, Lisboa, Aveiro, Vila Nova de Gaia e Porto.

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