Vindima com produção reduzida devido à seca

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Vindima com produção reduzida devido à seca

O longo período de seca que se vive em todo o país, e no Douro em particular, fez com que as previsões para esta campanha fossem revistas em baixa em cerca de 20%, de acordo com o IVV.

Segundo o mesmo Instituto, as uvas apresentam um “bom estado fitossanitário, sem doenças ou pragas”, o que seriam boas notícias, contudo, a expectativa é muita para perceber a quantidade de sumo nos frutos, havendo já produtores a estimarem necessitar de cerca de uma tonelada de uva para produzir uma pipa de vinho, quando habitualmente eram necessários cerca de 800 quilos.

Rosa Amador, Diretora-Geral da Associação para o Desenvolvimento da Viticultura Duriense (ADVID), explicou à nossa reportagem que na fase da polonização as previsões eram mais animadoras, contudo a falta de chuva terão feito essa previsão cair “entre 20 a 30%”.

“A nossa previsão deste ano do pólen andava entre as 262 mil e as 287 mil pipas, no ano passado a colheita final foi de 264 mil pipas, tudo indicava que iríamos ter um ano semelhante mas vai ser menor.

Esta situação é preocupante não só para este ano mas porque se irá refletir também na produção do próximo ano. A videira vai-se adaptar a esta falta de água e isso irá refletir-se na vindima do próximo ano”.

A mesma ideia é defendida por Miguel Braga, da Quinta do Mourão que afirma que “esta é uma nova realidade à qual a vinha se irá adaptar, e nós teremos que fazer o mesmo.

Lembro-me em criança que as vindimas começavam em setembro e entravam por outubro, por vezes era mesmo necessário acender fogueiras para aquecer os lagares de forma a que a fermentação arrancasse, agora estamos a começar vindimas em agosto”.

Para este produtor a vindima deste ano é ainda uma incógnita, “só quando as uvas entrarem no lagar é que vamos ver o que têm para nos dar”.

Miguel Braga - Qta do Mourão
Miguel Braga – Qta do Mourão

“Está a ser um ano muito seco, não tenho memória de outro ano igual, talvez 2015, 2018 mas mesmo assim foram anos em que choveu alguma coisa, este ano, desde janeiro que aqui não cai uma gota de chuva, mesmo as noites que costumam ser frescas este ano estão quentes. Resta-nos esperar e ver o que a vinha nos vai dar.

É rara a videira que não tem cachos, o problema é que alguns ficaram secos e queimados com o calor e outros estão maduros num dos lados e verde no outro”.

De acordo com Miguel Braga o problema pode não se colocar apenas este ano “vai depender do inverno e da chuva que ele trouxer”.

“Em 2018, também tivemos um ano seco mas depois os invernos de 2019 e 2020 foram chuvosos o que permitiu repor os lençóis freáticos”.

Saindo das margens do rio para as vinhas mais altas da região encontramos o produtor Rufino Pereira, dos vinhos Quilate.

Ajudado pela altitude, espera quebras inferiores “cerca de 10%”, comparativamente com a vindima do ano anterior, fixando a produção em números próximos dos de 2020.

“A nível de qualidade acho que chegaremos aos níveis de 2017 que foi um ano de excelência. Todos os vinhos que mandei aprovar vieram todos classificados com nível 3, como Grande Reserva, até porque o encepamento aqui na Quinta do Muro, a nível de tintos, 60 a 70% é Touriga Franca, que é uma casta que este ano está a maturar muito bem. Quando isto acontece com a Touriga Franca temos sempre vinhos de excelência. Essa é a minha expectativa para este ano.

Rufino Pereira - Vinhos Quilate
Rufino Pereira – Vinhos Quilate

A falta de água e o calor em excesso terá afetado a nossa produção em cerca de 10 a 15% mas mesmo estes valores podem ser revertidos se ainda vierem uns dias de chuva até à vindima.

Há videiras que não há volta a dar, vão mesmo morrer mas isso, numa vinha com cerca de 20 hectares acaba por ser normal. Anualmente fazemos a replantação de cerca de 3 mil pés, este ano os valores devem ser semelhantes.

A Touriga Franca aguentou-se muito bem mas, em contrapartida, cerca de 40% da produção da Tinta Barroca ficou queimada, é uma casta mais sensível ao calor. A Touriga Nacional está um pouco atrasada na maturação ainda.

Relativamente aos brancos, nós aqui estamos a cerca de 600 metros de altitude, estão “na praia” deles. Temos produções muito boas. Temos cerca de três hectares de Rabigato que estão no terceiro ano e já apresentam uma produção considerável”.

Expectativa é também a palavra de ordem para a Associação de Empresas de Vinho do Porto (AEVP). De acordo com António Marquez Filipe, presidente da associação que representa as empresas do setor, a falta de água irá afetar a produção, sendo ainda difícil perceber a dimensão do problema.

“Costuma dizer-se que não há duas vindimas iguais. A de 2022, tudo indica, confirmará esta regra. O que sabemos, neste momento, aponta para circunstâncias historicamente únicas e, infelizmente, muito preocupantes.

A causa mais próxima encontra-se nos baixíssimos níveis de precipitação que se registaram durante o ano agrícola. No último período Novembro-Julho registou-se, no Pinhão, um valor de 163 mm por m2, cerca de 70% abaixo da média de 546 mm por m2 relativamente aos últimos 30 anos! Um ano particularmente mau na sequência de 3 anos abaixo desta mesma média! 2019 (-22%), 2020 (-30%), 2021 (-29%).

Poucas dúvidas poderão existir quanto a estarmos a viver condições verdadeiramente excecionais.

As temperaturas muito elevadas que temos também vindo a registar tornam a situação particularmente mais grave. Muitas são as vinhas que apresentam, junto ao solo, folhas queimadas. O tamanho dos bagos e a sua desigual maturação parecem indicar que iremos ter uma vindima muito abaixo do normal, em termos quantitativos (a dimensão da redução sendo, neste momento, imprevisível e dependente de virmos a ter alguma chuva ou não), no limite, poderemos estar perante um ano de produção excecionalmente baixa.

Quanto à qualidade, produções baixas estão normalmente associadas a qualidade elevada. Gostaria de pensar que pelo menos esta regra é confirmada, este ano”.

Também o IVDP fala de um cenário de “incerteza” quanto à produção deste ano, apontando mesmo um valor que não deverá ser atingido este ano na região, as 230 mil pipas.

“Estamos moderadamente confiantes. Lidamos com um cenário de grande incerteza, por força do contexto internacional, das vagas de calor e da seca que atravessa grande parte do território.

São muitos fatores a afetar o normal ciclo vegetativo, com consequências que ainda não conseguimos avaliar com precisão. Todavia, parece certo que não vamos atingir o intervalo mínimo, entre vinho do Porto e vinho Douro DOC, de 230 mil pipas. As vinhas têm vindo a ressentir-se do stresse hídrico e, se continuar a não chover até à vindima e as temperaturas permanecerem altas, os valores poderão descer ainda mais”.

Benefício sobre para as 116 mil pipas

 Se nas previsões de produção há uma sintonia entre os diferentes atores da região, o aumento da quantidade de mosto a transformar (benefício) gera mais controvérsia.

Gilberto Igrejas - Presidente do IVDP
Gilberto Igrejas – Presidente do IVDP

“Vivemos uma circunstância e um tempo e, portanto, urge decidir. Quisemos dar um sinal de confiança à região, de que vale a pena continuar a apostar na viticultura. Foi uma decisão que mereceu o apoio unânime das quatro associações com assento no Conselho Interprofissional, a Federação Renovação Douro, a Associação da Lavoura Duriense, que defendem a produção e a Associação de Empresas de Vinho do Porto e a Associação de Vinhos e Espirituosas de Portugal, do lado do comércio.

Apesar de, naturalmente, terem existido pontos de partida diferentes, o que interessa é o ponto de chegada e foi com regozijo que verifiquei a vontade de estabilidade e de todos estarem unidos no sentido de assegurar a sustentabilidade económica, ambiental e social da região. O benefício até poderia ser maior, mas seria imprudente. O comércio garantiu capacidade para comprar 116 mil pipas, um valor que estava no intervalo proposto pela produção e o acordo foi relativamente fácil”.

Apesar do consenso relatado por Gilberto Igrejas, presidente do IVDP, entre os produtores há quem considere este aumento negativo, afirmando mesmo que o necessário para a região era a diminuição deste valor.

É o caso de Miguel Braga, produtor da Quinta do Mourão que admite que se tivesse poder de decisão “restringia a quantidade de mosto a transformar”. De acordo com este produtor e engarrafador, “o volume está a dar cabo do setor. Uma região como o Douro não pode pensar em vender volume, se queremos, e devemos, aumentar o preço dos nossos vinhos, então não podemos produzir mais mas sim menos”.

Já para Rufino Pereira, o aumento é justificável com o aumento das vendas que o comércio tem registado.

“Era impensável um aumento de 11% como aconteceu este ano. É um aumento que se justifica desde logo porque, se todos os anos temos aumentado as vendas, então as empresas precisam de mais produto, logo faz sentido aumentar o quantitativo.

Se a Lei do Terço obriga as empresas a ter determinados stocks e se se vende cada vez mais, não entendo que outra solução poderia haver que não esta.

O que me parece é que os lóbis que existiam na região têm vindo a perder força junto do IVDP. Como digo, não sigo muito toda esta política da região mas, pelas medidas que vão sendo tomadas, é a leitura que faço”.

A mesma visão é partilhada por António Marquez Filipe, presidente da AEVP que aproveita para pedir mais fiscalização nesta campanha.

António Marquez Filipe - Presidente AEVP
António Marquez Filipe – Presidente AEVP

“O aumento de autorização de produção de mosto generoso, aprovado por unanimidade pelas quatro Associações representadas no Conselho Interprofissional, facto assinalável e muito relevante, tem de ser visto não só no contexto presente, mas sobretudo como uma resposta, baseada na confiança no futuro, há a perspetiva de que o setor do vinho do Porto venderá, no futuro, maiores quantidades de categorias especiais, particularmente, no segmento dos vinhos com indicação de idade. Neste momento é ainda possível contemplar a possibilidade de que esta vindima seja bastante para  suportar as vendas das várias DO’s da região e que a redução da produção somente eliminará os excedentes que tradicionalmente se tem vindo a verificar na região.

O reforço da fiscalização, em presença física e na análise das informações prestadas pelos operadores, torna-se, este ano, particularmente relevante”.

Seca e mão-de-obra são os grandes desafios da região

A quebra de produção, provocada pela falta de chuva, veio fazer disparar os alarmes na região quanto às alterações climáticas, para muitos um dos maiores desafios que a região irá enfrentar nos próximos anos.

De acordo com o presidente do IVDP, Gilberto Igrejas, são várias as variáveis para este problema, se por um lado a orografia da região pode ajudar, por outro, o tipo de solo predominante pode ser um fator menos positivo.

“A Região Demarcada do Douro tem vindo a apresentar um cenário de seca moderada/severa, se bem que a região apresente algumas características, em termos geomorfológicos e até mesmo de orografia, que podem ajudar a mitigar os efeitos das alterações climáticas, sendo que essa realidade difere de sub-região para sub-região. Por outro lado, também é verdade que os solos xistosos onde estão plantadas as vinhas têm pouca capacidade de retenção de água.

O Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, I.P. (IVDP, IP) tem vindo a antecipar com várias atividades em diferentes projetos a resposta a um problema que se pode colocar a médio prazo, uma vez que secas severas representam um perigo para os ciclos vegetativos posteriores. Ainda há pouco tempo, avançámos com um projeto de implementação de sensores para a medição dos valores de humidade e temperatura do ar, com o objetivo de monitorizar o clima e tornar a rega, quando imprescindível para a sobrevivência das plantas, mais eficiente. Outra medida já tomada pelo IVDP, IP foi a implementação de um método que veio permitir explorar as correlações entre os potenciais hídricos e diversos tipos de dados edafoclimáticos, que permitam uma estimativa do potencial hídrico em determinada exploração.

O caminho a seguir na vitivinicultura do Douro face às alterações climáticas passa, também, por colocar a ciência ao serviço da agricultura, racionalizando-se procedimentos e provocando uma mudança de práticas. Adicionalmente estamos convictos que temos pela frente um trabalho exigente na discussão da política vitivinícola da RDD no seio do Conselho Interprofissional que aporte reformas e alterações e, por essa via, caminhemos rapidamente para um Douro mais sustentável”.

Contudo, há também quem veja no Douro outro desafio, a falta de gente na região que tem provocado graves problemas de mão-de-obra, levando mesmo o presidente da AEVP a comparar este período com o vivido durante a filoxera.

“A questão do impacto das alterações climáticas na Região Demarcada do Douro e a tentativa de acomodação das suas consequências tem de passar para a primeira linha da discussão na nossa região, juntamente com a questão demográfica e, particularmente, a da falta de mão-de-obra. Como já ouvi dizer a alguém, e eu concordo, poderemos estar perante o maior desafio que a região enfrenta depois da crise da filoxera”.

Rosa Amador - Diretora-Geral da ADVID
Rosa Amador – Diretora-Geral da ADVID

Para Rosa Amador a falta de mão-de-obra é mesmo o maior desafio da região, tendo mesmo já originado outros problemas como a proliferação de algumas doenças por atrasos nos tratamentos necessários

“Os maiores desafios da viticultura duriense são a falta de mão-de-obra e as alterações climáticas, sendo que a falta de mão-de-obra será mesmo o mais preocupante. O Douro sendo uma região com um nível de mecanização baixo (por um lado porque não é possível e por outro porque há ainda pouco investimento nesta área), e com mão-de-obra insuficiente, é afetado por vários problemas.

Em 2018, por exemplo, foi o ano do míldio, algumas vinhas poderiam ter sido protegidas se houvesse mão-de-obra para fazer os tratamentos necessários mas a falta dela levou a sucessivos atrasos que resultaram numa maior dispersão da doença pelas vinhas da região.

O aumento da mecanização, da robotização e da digitalização do setor na região, irá com certeza colmatar alguns destes problemas. Não só solucionamos a falta de mão-de-obra como iremos diminuir a nossa pegada carbónica tornando a nossa agricultura mais eficiente”.