“Gosto muito de ouvir as opiniões, mas a decisão final tem que ser sempre do presidente”

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“Gosto muito de ouvir as opiniões, mas a decisão final tem que ser sempre do presidente”

A cumprir o segundo mandato à frente da autarquia de Carrazeda de Ansiães, João Gonçalves considera que 2022 foi um ano em que o seu concelho poderá servir para um laboratório das alterações climáticas. A resiliência transmontana é sublinhada pelos projetos que a autarquia tem em curso e que ficarão completos ao longo de 2023.

Ser autarca implica uma dedicação ao cargo que vai muito além das habituais 8 horas de trabalho. Quem fica a perder com esta dedicação?

Já tinha o conhecimento que a vida de autarca é muito absorvente mas somente quando assumimos o cargo é que nos apercebemos da real envolvência necessária.

A questão não se levanta tanto pelo horário que não temos mas pelas preocupações e disponibilidade permanentes que temos, que tem de ser total.

Há uma grande imprevisibilidade, temos áreas que não nos permitem programar a vida sem que possam acontecer imprevistos, a proteção civil é uma delas.

Mais do que isso é a preocupação que todos temos nestas funções, na tentativa de dar resposta a todos os assuntos com que somos confrontados e que têm uma abrangência muito grande.

Quem sofre com tudo isto é desde logo a família.

Há compreensão do lado deles?

Há essa compreensão, mas é natural que algumas questões fiquem para trás.

Como é que os compensa?

Tentando ser mais intenso quando estamos presentes e tirar bom proveito desses momentos.

Leva muitas vezes assuntos da autarquia para casa?

Muitas vezes, isso é permanente. Não consigo despir a camisola de Presidente de Câmara, mesmo que esses assuntos não estejam na conversa à mesa estão nos pensamentos e nas preocupações.

É realmente um grande desgaste que os autarcas têm.

Nem todas as decisões que toma são do agrado da totalidade das pessoas, seria muito difícil agradar a todos. Como lida com estas opções?

Essa é realmente um dos aspetos com que temos que contar neste cargo, há decisões que não agradam a toda a gente.

Mal do autarca que não se adapta, à medida que o seu mandato vai decorrendo, a isso mesmo. No início temos a pretensão de chegar a todo o lado e tomar todas as decisões úteis, com o passar do tempo percebemos que temos de priorizar decisões. Elegemos critérios para essas decisões.

Hoje já não me incomoda o feedback negativo de algumas pessoas, mas sim não conseguir resolver os problemas.

O desenvolvimento do concelho é sempre fator determinante na tomada de decisões?

Sem dúvida. Isso já faz parte do feitio, do ADN. Sempre tive essa forma de estar e faço questão de a manter. Nas decisões difíceis, sobre as quais preciso refletir mais profundamente, esse é o meu princípio, o serviço público, o que é melhor para o concelho.

Para executar políticas é preciso ganhar eleições, são ciclos que precisam ser equilibrados e penso que conseguimos fazer isso.

Como exemplo, no ano de 2021, que foi um ano eleitoral, a Câmara Municipal transitou com um saldo de gerência superior ao ano anterior. Não houve uma preocupação nesse exercício.

“Gosto muito de ouvir as opiniões, mas a decisão final tem que ser sempre do presidente”

As decisões difíceis que falou, toma-as aqui no gabinete ou partilha com um núcleo duro?

A decisão final é sempre tomada por mim, mas antes de decidir discuto-a com os mais próximos, com a minha equipa. Gosto muito de ouvir as opiniões, mas a decisão final tem que ser sempre do presidente.

Estão neste momento a decorrer no município algumas obras de relevo que estarão terminadas no decorrer deste ano de 2023. Que obras são essas e que impacto podem ter em Carrazeda de Ansiães?

Há três projetos que consideramos estruturantes para o desenvolvimento do concelho e os quais abracei desde o primeiro momento em que assumi funções.

Um deles é a ampliação do nosso parque empresarial. Neste momento a primeira fase está em andamento e ficará concluída este ano. Já estamos na fase final do processo de atribuição de lotes.

Este é um projeto muito importante para o concelho porque nos vais permitir, nesta primeira fase, duplicar o número de lotes, são mais 39, dos quais temos já a garantia que vamos entregar mais de 50%.

Houve muita procura?

A procura excedeu a oferta, contudo nem todas as candidaturas cumpriam os requisitos necessários para a atribuição de um lote, de acordo com o regulamento.

No entanto, ter uma ocupação de mais de 50% no primeiro aviso, parece-nos bastante importante. Vai permitir a instalação de novas empresas, criando mais postos de trabalho para que mais pessoas se possam fixar aqui e gerar um maior desenvolvimento económico.

Este é um projeto que não fica terminado porque podemos ainda pensar numa segunda fase de ampliação. Esta primeira fase é um sinal importante que Carrazeda de Ansiães é atrativo para a instalação de novas empresas, como é o caso.

Isto é importante também para fixar população?

Claro que sim. O nosso principal problema, à semelhança de muitos outros concelhos do interior, é o despovoamento.

Tudo o que seja atrair novas empresas e permitir a fixação de pessoas é importante.

Outro projeto que estamos a desenvolver, e este ainda em fase de estudos, tem a ver com a construção de uma barragem para regadio, de uma área de cerca de 700 hectares.

Este projeto é tão importante para o setor agrícola, como também em anos de crise para reforço da albufeira de abastecimento público.

Desenvolvemos durante o ano de 2022 o Estudo Prévio e o Estudo de Impacto Ambiental (EIA), do qual tivemos a declaração positiva em dezembro e agora vamos continuar com o projeto de execução, sensibilizando também o Governo para as questões financeiras que serão necessárias para a construção desta infraestrutura.

Pela importância que tem e pelo impacto financeiro que estes estudos têm no orçamento municipal, em 2023 pensamos que é importante dar esse passo.

Durante este ano poderemos também lançar a nossa Estratégia Local de Habitação. Na área social é um objetivo muito importante.

Temos já aprovada a Estratégia e temos também um acordo financeiro com o IHRU (Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana), para nos permitir financiar esta operação no âmbito do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência).

Já elaboramos os projetos e temos trabalhado na preparação da sua implementação. Acredito que durante este ano podemos começar a concretizar, o que é muito importante.

Há um quarto aspeto que considero muito importante nos nossos territórios, e que tem a ver com o turismo. O desenvolvimento turístico é um pilar importante para o nosso desenvolvimento económico.

Nesse sentido estamos a projetar a instalação de um balneário termal definitivo, em São Lourenço, na freguesia de Pombal de Ansiães, que seja licenciável. Pensamos que seja possível implementar este projeto ainda em 2023, ou pelo menos dar início às obras ainda este ano.

Será um passo importante para obtermos os objetivos que pretendemos.

Falamos já da desertificação e das carências que provoca. Quais são as carências em Carrazeda de Ansiães?

Temos sempre que pensar naquilo que falamos, na fixação de pessoas. Permitir que os nossos jovens possam ter oportunidades neste concelho e procurar também que outros venham e que encontrem aqui essas oportunidades.

A atividade económica sem dúvida que é a principal via para possibilitar esse objetivo. Nesse sentido falta-nos investimento público que possa dar um sinal importante aos privados que há todo um mundo de investimento nestes territórios, isso é muito importante.

Quando fala em investimento público, fala em serviços?

Sim, mas também algum tipo de investimento que nestes concelhos, por força de critérios que são escolhidos pelos governos, nos costumam penalizar, mesmo a nível de infraestruturas.

Pode dar algum exemplo?

Os municípios estão muito penalizados neste momento por dois tipos de investimento.

Um tem a ver com o ciclo da água. Investimentos em infraestruturas para abastecimento público de água, saneamento, ou estações de tratamento de águas residuais, são feitos de acordo com uma bitola nacional, esquecendo que investir nestes concelhos, se formos repercutir o investimento no número de utilizadores, é diferente da realidade no litoral. Isto penaliza-nos muito. Só para infraestruturas essências para a qualidade de vida de quem aqui reside e que aqui quer investir.

O mesmo acontece com as infraestruturas rodoviárias. Hoje há uma rede muito grande de Estradas Municipais e, já no Quadro anterior, no 2020 e no 2030, não há espaço para ajudas na União Europeia para financiar este tipo de requalificações.

Estradas Municipais com duas décadas, sem apoios comunitários, são intervenções que causam um impacto muito grande nos orçamentos municipais, faltando depois para investir em outras áreas importantes.

Há também as questões sociais que são cada vez mais prementes.

“Gosto muito de ouvir as opiniões, mas a decisão final tem que ser sempre do presidente”Há gente em Carrazeda de Ansiães com dificuldade em alimentar-se ou esses casos estão identificados e acompanhados pelo município?

São casos pontuais, devidamente acompanhados. Contudo, quando falamos em qualidade de vida pretendemos bem mais do que ter uma sopa em cima da mesa. As situações emergentes têm sempre resposta.

Falou também da importância da barragem para regadio. Depois de um ano difícil, com um longo período de seca que afetou especialmente o setor agrícola, de grande importância no concelho, é ainda mais importante a execução deste projeto?

É muito importante olhar para este projeto também como uma oportunidade de fixar pessoas.

No nosso concelho uma das principais culturas é a maçã, que precisa de muita água, mas queremos também promover a instalação de novas culturas, que se distingam pela qualidade, dando oportunidade aos produtores de terem maiores valias do seu trabalho.

Este ano foi um ano dramático em termos de disponibilidade de água. Já não é novidade para ninguém que o nordeste transmontano teve o seu pior ano, desde que há registos, em termos de disponibilidade de água.

No território da CIM Douro terá sido o concelho com maiores dificuldades?

Tivemos um problema não só na agricultura como também em termos de abastecimento público. Não tivemos rotura, nem sequer foi necessário gerir a disponibilidade de água na torneira, muito fruto de uma preparação antecipada e  do alerta que demos às entidades que gerem este setor, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a Entidade Reguladora, que nos permitiram implementar um Plano de Contingência que possibilitou que não houvesse essa rotura.

A nossa albufeira não é muito grande, está instalada num dos pontos mais altos do concelho e, fruto de muito tempo de seca, chegou a ter 10% de disponibilidade de água, e tinha essa quantidade porque entretanto iniciamos um processo de transporte de água desde o rio Tua.

Além disso tivemos uma espécie de balão de ensaio das alterações climáticas, porque no mesmo ano tivemos também granizo, geadas e um grande incêndio, com uma área ardida superior a 10% do concelho, que teve um grande impacto.

Como autarca, tendo a noção que não pode controlar estes fatores, que sentimento fica no final?

O sentimento é sempre o da procura de caminhos para que a curto e médio prazo consigamos arranjar soluções, ou mitigar, para que as pessoas sofram o menos possível com essas circunstâncias.

De certa maneira os autarcas que estão neste momento em funções, já têm uma grande tarimba destas questões porque basta falar deste ano, com uma série de ocorrências climáticas, mas antes tivemos dois anos de pandemia. Estamos realmente a ter que lidar constantemente com estas realidades, temos que nos adaptar e procurar sempre servir da melhor forma as nossas populações.

O papel do autarca é agora diferente?

Sim. Mudou e está em mudança. Se juntarmos aqui também a Transferência de Competências, mas competências mesmo, não tarefas como tem sido até agora, se o caminho for esse cada vez mais o autarca tem que fazer uma verdadeira governação local nas suas diversas valências.

É totalmente diferente do que era há uma ou duas décadas atrás.

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