“Não há nada mais gratificante do que perceber que aquilo que se faz melhora a qualidade de vida de alguém”

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Carlos Carvalho cumpre o último mandato à frente da autarquia de Tabuaço. Na conversa com o VivaDouro abordamos os desafios que a guerra na Ucrânia trouxe para a realidade do município. Perspetivamos ainda o tempo que falta até ao final do mandato.

Ser autarca implica uma dedicação ao cargo que vai muito além das habituais 8h de trabalho, quem é que fica a perder por se dedicar tanto à causa pública?

Eu digo meio a brincar mas também a sério que é incomparavelmente mais difícil ser Presidente da Câmara de Tabuaço, Armamar ou Penedono, por exemplo, do que do Porto, Braga ou Lisboa. Sem qualquer sentido de injustiça para com os meus colegas destas realidades maiores.

São autarquias com estruturas orgânicas mais profissionalizadas, não que as nossas não sejam, onde a lógica da proximidade tem um conceito completamente distinto.

A proximidade tem um lado fantástico que permite, para além de saber o nome das pessoas, tomar o pulso às situações. Mas isto também nos absorve de uma forma que, a certo ponto, o aspeto pessoal, o familiar e o autarca, já se confundem de certa forma. O risco é poder perder por vezes a visão mais global das coisas.

Tudo isto torna-se mais esgotante, do que ter qualquer outra profissão. Em qualquer outra realidade as coisas são estanques, há uma separação clara entre o lado pessoal e o profissional, no caso do autarca isso não acontece, tudo se mistura.

Se por um lado isso é muito positivo porque nos permite ver mais rapidamente o que está bem ou mal e agir de acordo com a situação, percebendo o impacto direto que temos na vida das pessoas, por outro, acaba por ser mais cansativo, porque a exigência é maior e constante. Não é um trabalho de oito horas, é um trabalho de 24×7.

Todas as nossas associações, e felizmente que assim é, gostam de ter os elementos do executivo nas suas atividades, e nós fazemos questão disso. Sendo um executivo pequeno, esta representatividade exige mais de cada um de nós. É perfeitamente normal, se como autarquia incentivamos as nossas associações a tomar a iniciativa, temos de estar presentes quando o fazem.

Apesar de tudo, e tendo já um horizonte de saída temporalmente definido, sei já que irei ter saudades. Dificilmente alguém consegue desempenhar uma outra função que o faça sentir, no dia a dia, o impacto direto que o seu trabalho tem na vida das pessoas. Também há o lado pior que é quando as coisas correm menos bem (risos)… Não há nada mais gratificante do que perceber que aquilo que se faz melhora a qualidade de vida de alguém. Numa visão completamente desprendida de presunção, olhando apenas na perspetiva do sentido público.

Basta pensar que, estando eu na Câmara, não há razão para não atender alguém que lá se desloque, a menos que esteja numa reunião ou outra situação que o impossibilite.

No meio de tudo isto aqueles que nos são mais próximos são os que também mais acabam por sofrer consequências. A solução é aproveitar da melhor forma cada momento que se tem.

As decisões que toma no seu dia a dia nem sempre são do agrado unânime da população, como autarca que peso tem a opinião dos munícipes nas suas decisões?

Normalmente temos tendência para desfrutar pouco daquilo que melhor fazemos. Melhoramos a qualidade de vida das pessoas mas podíamos aproveitar mais enquanto o fazemos, temos tendência para complicar o que por vezes é simples.

Em primeiro lugar deveríamos sempre decidir na perspetiva do impacto que pode ter na outra pessoa. Tendo a noção que nunca o faremos fielmente, só o exercício de o fazermos e colocarmos diferentes cenários, e que impacto teriam em A, B, C ou D, já nos prepara melhor.

Vezes há em que nos enganamos, e aí devemos ter a capacidade de o perceber e emendar.

É fácil assumir isso?

Sim. Uma coisa é a convicção que temos em algo, mas a linha entre esse sentimento, a persistência e a teimosia, é muito ténue. Muitas vezes baralhamos a convicção e a persistência tornando-nos teimosos.

Numa realidade como a nossa, com todas as questões da proximidade que já falamos, e com algum endeusamento, que existe sim, há o risco de nos convencermos que fazemos tudo bem. Pessoalmente tento sempre combater este pensamento, assim como perceber o que está errado.

Se decidirmos de consciência tranquila, da forma que gostávamos que alguém decidisse de acordo com as nossas vidas, então no final o resultado será positivo. Certo que haverá indecisões e erros mas o balanço final será positivo.

Deitar à noite de consciência tranquila é o melhor sintoma que o nosso trabalho não está a ser mau, já nem digo que está a ser bom. Então estou tranquilo.

Está neste momento a cumprir o terceiro e último mandato. Depois de uma pandemia nos dois últimos anos do anterior mandato, este arranca praticamente com uma guerra. Como vive o momento atual?

Tínhamos a ideia que as coisas iam normalizar e que à partida iriamos conseguir retomar a atividade normal.

Conseguimos fazê-lo de alguma forma no que diz respeito a muitos dos constrangimentos provocados pela pandemia Covid-19. Acredito que este ano os municípios já possam retomar as suas atividades.

A diferença para o atual momento que se vive com a situação na Ucrânia, é que este acaba por não ter um impacto direto nas nossas vidas, como teve a pandemia, em que nos tivemos que reinventar para conseguir estar próximo de todos como é nossa característica.

Nesta situação o impacto maior é a nível financeiro para a autarquia, basta perceber que neste momento temos já um pouco mais de 30 pessoas no nosso concelho, que estão completamente à nossa responsabilidade. Os nossos serviços sociais têm ajudado com todo o apoio necessário, quer para tratar de todas as burocracias necessárias, quer para integrar estas pessoas na sociedade, as crianças na escola, etc. É uma questão humanitária para a qual todos devem dar o seu contributo.

A escalada dos preços dos combustíveis, por exemplo, que esta situação tem provocado, tem um impacto direto em praticamente toda a nossa atividade diária. Existe mesmo um receio muito grande que vários concursos públicos que temos em aberto não consigam ser concluídos dentro do prazo (junho 2023). As empresas têm receio de se apresentar a concurso com valores que passado uma ou duas semanas, estão abaixo do preço final.

Há empresas que já vêm ter connosco para tentar perceber que formas podem ser encontradas para minimizar as suas perdas, fruto dos valores que estavam adjudicados em comparação com os que neste momento são praticados. Logicamente que aí não podemos fazer nada, o que nos leva a vislumbrar um cenário não muito agradável em que alguns destes concursos possam ficar desertos.

O que nos preocupa é que são obras financiadas por fundos europeus, não são apenas da responsabilidade da autarquia, temos prazos que somos obrigados a cumprir, neste caso junho de 2023. Este não é de todo um problema exclusivo de Tabuaço mas de toda a região, corremos de facto esse risco.

Tudo isto nos preocupa bastante porque nos provoca uma indefinição que, se mesmo para municípios que têm uma realidade financeira estável é difícil, para nós é ainda pior. Deixa-nos pouca margem para termos uma estratégia sequer a médio prazo. Vamos continuar, na maioria das vezes, a reagir, como temos vindo a fazer nos últimos dois anos e meio.

Como poderia ser alterado o rumo da situação?

Acredito que seja necessária uma clarificação da situação, e mesmo ela existindo, face à natureza do conflito, nunca será suficiente para uma redução dos preços e estabilização da situação económica. Até porque, ao contrário daquilo que muitos desejam, que é regressar rapidamente às suas casas, infelizmente não poderá acontecer porque o que vão encontrar é um país destruído.

O único aspeto positivo da sua permanência aqui é a inversão da tendência de decréscimo da população mas, de longe, queríamos que fosse este o motivo.

O lado económico é o maior impacto que esta guerra, a tantos quilómetros de distância, pode provocar num concelho como Tabuaço?

O facto desta guerra acontecer na Europa acaba por mexer mais connosco. A proximidade àqueles que são afetados por este conflito é muito grande, quer em características físicas, quer no modo de vida. Revemo-nos mais.

Aquilo que percebemos, logo ao fim da primeira semana de guerra, é que começou a surgir algum aproveitamento, uma especulação à volta de uma série de setores que leva a que se crie uma instabilidade ainda maior. Não me parece que seja intelectualmente honesto que permitamos que isto aconteça desta forma, até porque nós ainda não tivemos falta de nenhuma daquelas matérias que fazem realmente disparar os preços, em toda a cadeia.

Comparativamente com o Covid, esse impacto desta vez foi muito mais rápido, e será tanto maior quanto mais longo for este período. A pandemia teve impacto, mas não tão grande como esta guerra está a ter. Basta o aumento do custo dos combustíveis para encarecer tudo o resto, tudo é transportável. Só não aumenta o rendimento disponível das pessoas.

A questão económica, neste momento preocupa mais porque pode, pelo menos neste horizonte temporal de seis meses, inviabilizar uma série de situações que, espero, seja entendida na União Europeia (não só em relação a Portugal mas todos os países que estão com Quadros Comunitários abertos), e que haja um prolongamento dos prazos de execução.

Olhando agora um pouco mais para Tabuaço, e para este último mandato, que projetos faltam finalizar até ao final da legislatura autárquica?

Queremos levar algumas obras estruturantes para a frente, como a recuperação do nosso Teatro, que é fundamental que seja requalificado, é um projeto que está pendurado há dezenas de anos. Estamos a tentar que seja uma obra prioritária para a Direção Regional de Cultura do Norte.

O trabalho autárquico é continuo. Obviamente que a questão das infraestruturas é sempre importante e nós, enquanto comunidade, damos mais valor áquilo que é a visibilidade da obra, comparativamente com tudo o resto. Grande parte desse trabalho foi sendo feito ao longo das últimas décadas.

Hoje em dia, não me parece que seja por falta dessas infraestruturas que tenhamos a perda de serviços e população, são outros os fatores.

Continuamos a defender que o principal é a questão da atratividade. Mais do que qualquer obra que possamos fazer neste momento, a verdadeira preocupação deve ser a atratividade.

Na nossa região, o Douro, sabemos que há o pilar fundamental da agricultura, que vamos apoiando estando ao lado dos nossos produtores. Contudo, a grande alavanca do território é o turismo. Uma das nossas grandes apostas, já de há alguns anos a esta parte, é a atratividade turística do nosso concelho, e eu quero muito acreditar que ao longo deste último mandato vamos conseguir requalificar o rio Távora e consequentemente trazer um universo enorme de turistas, que anda pelo Douro, a Tabuaço.

Temos algumas freguesias, as mais próximas do rio, que estão inundadas de turistas, mas depois temos uma outra realidade, que são as freguesias mais altas do concelho onde ainda não conseguimos fazer chegar este valor acrescentado.

Para isso basta criar infraestruturas?

Isto infelizmente não depende só de nós, só de criar as infraestruturas, que em muitos casos já existem.

O mesmo acontece com quem não fica cá hoje em dia. Não é por falta de emprego, é por não existir um universo de atratividade, que nós enquanto região ainda não conseguimos construir. Este não é um problema exclusivo de Tabuaço.

Isto não implica única e exclusivamente a situação do emprego mas uma perceção coletiva do ideal do que é qualidade de vida hoje em dia.

A pandemia criou uma nova lógica com o teletrabalho, que não será abandonado nunca mais por diversas empresas, mesmo com tudo normalizado. Isto pode criar um novo conceito nómada em que as pessoas possam estar aqui em Tabuaço a trabalhar para uma empresa no porto, em Lisboa ou em qualquer ponto do Mundo. Para isso é fundamental que criemos as condições tecnológicas para que isso aconteça. A vida é mais barata, o ar é mais puro e o tempo parece que anda mais devagar, a segurança é outra, mas se não conseguirmos ter o 5G para trabalhar, então não vale a pena. É impensável como no Douro, um destino turístico de excelência, uma das vias mais movimentadas (EN222) em cerca de 80% do seu percurso não tenha acesso a dados móveis, e em muitos pontos, nem mesmo rede para uma chamada. É algo absurdo.

Por vezes parece, no discurso de alguns políticos, que é fácil andar a criar Silicon Valleys por aí, depois alguém vem residir para Adorigo e passa o dia às voltas com o sinal da internet.

Esta é outra das preocupações que devemos ter ao longo deste mandato, uma maior conectividade no nosso território.