Luís Pedro Martins: “Venho com uma grande motivação e com um grande espírito de ‘pôr as mãos na terra’”

Licenciado em Marketing, Luís Pedro Martins é ex-diretor executivo da Torre dos Clérigos do Porto, lugar que dividia com as aulas que continuará a lecionar na Porto Business School. Pretende manter a função de professor enquanto se mostra pronto para o desafio que será gerir o Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP). Horas depois da tomada de posse, o novo presidente da entidade regional de turismo falou em exclusivo ao grupo Vivacidade/VivaDouro.

Começamos por lhe perguntar: quem é Luís Pedro Martins?

Sou natural de Aveiro mas desde muito cedo, antes mesmo da idade de começar a primária, que nos mudamos para Rio Tinto portanto, toda a minha vida foi aí. Andei na Escola Primária de Rio Tinto.

Foi nessa altura, era ainda um míudo, que tive as minhas primeiras aprendizagens sobre o que é isto da vida pública, do bem comum e do tentar fazer algo pela comunidade. Acompanhava o meu pai, e um grupo de cidadãos de Rio Tinto, quando criou aquela que hoje é uma das maiores IPSS’s de Gondomar, que é o Centro Social Soutelo (CSS), e do qual foi Presidente, se não estou em erro, durante os primeiros 10 anos da instituição. Recordo-me que na altura era “uma seca” estar ali mas hoje reconheço que recebi aprendizagens muito importantes.

Mais tarde juntei-me à Juventude Socialista em Gondomar onde conheci alguns amigos que são para a vida e que hoje desempenham cargos executivos como o Marco Martins, o Carlos Brás, o Nuno Coelho que foi Presidente da Junta de Baguim até há pouco tempo e o Nuno Fonseca, atual presidente da Junta de Freguesia de Rio Tinto. Foi aí que me despertou a vontade de querer dar o meu contributo à sociedade.

Licenciei-me em design no Porto e logo a seguir fui eleito para a Assembleia da República onde estive durante os dois mandatos de António Guterres. Quando estava em Lisboa despertou o interesse pelo Marketing Político, área a que acabei por dedicar a minha formação. Fui para os Estados Unidos, onde fiz o primeiro curso mesmo de Marketing Político, e depois São Paulo onde fiz uma segunda graduação na área.

De regresso ao Porto ainda fiz uma Pós-Graduação em Marketing na Porto Business School, para onde fui convidado, um ano mais tarde, como Professor e onde me mantenho desde então, há cerca de nove anos. Durante este tempo fiz mais de 150 campanhas de marketing, não só político mas também empresarial e institucional.

Antes de chegar aos Clérigos ainda regresso novamente a Lisboa, como assessor do Alberto Martins. O convite do Padre Américo Aguiar surge quando eu estava no departamento de Marketing e Comunicação da Santa Casa, para estar desde a primeira hora no projeto de devolução da igreja da Torre dos Clérigos à cidade, depois das obras profundas em 2013. A partir daí a minha vida passou a dividir-se entre a Torre dos Clérigos e a Porto Business School.

É aqui, na Torre dos Clérigos, que tenho o meu primeiro contacto com o setor do Turismo, estando envolvido na “explosão” turística que se registou neste monumento, que passou de uma média de 100 mil visitantes ano para 1,3 milhões, bem como o conjunto de eventos que aqui se realizam e as parcerias que se establecem. A minha dedicação obrigou-me a “meter as mãos” mais a fundo no setor para o conhecer melhor e acredito que hoje, na minha candidatura esse conhecimento é fundamental.

E a candidatura, surge como?

A candidatura surge pelo interesse comum de um conjunto de autarcas – do PS, do PSD, do CDS e independentes, um espectro transversal – que me colocam o desafio de me candidatar ao TPNP porque, segundo eles cumpria os três requisitos que procuravam: Um, não ter qualquer relação com o passado da entidade, o que é verdade; Dois, alguém familiarizado com os corredores do poder ao nível político, onde podemos garantir apoios e para manter um bom relacionamento com o Governo e os autarcas, o que também é verdade; e finalmente a terceira, uma pessoa que estivesse bastante envolvido com o turismo, alguém atualizado e conhecedor daquelas que são as melhores práticas do setor, outra verdade.

Aceitei o desafio e, como em diversos momentos da minha vida, até ao aparecimento da minha candidatura há uma lista única e eu tenho sempre que “ir a combate” e assim aconteceu, culminando depois por ser mesmo lista única após um acordo obtido com o meu adversário.

Passado que está o ato eleitoral, como olha para o momento de elaboração das listas e o entendimento com o seu adversário para a apresentação de uma lista única?

O facto de inicialmente existirem duas listas eu acredito que foi bastante positivo, a falta de adversários pode-nos tornar mais facilitadores, está ganho à partida, assim não, assim obriga-nos a ir para o terreno, falar com as pessoas, discutir ideias e isso é sempre positivo.

Acredito que no final o entendimento surgiu com alguma naturalidade e esse entendimento permitiu uma união em torno da Entidade. Isto é muito importante por uma razão, a instituição estava a atravessar um caminho menos simpático com tudo o que aconteceu, foi uma ajuda porque é uma demonstração de coesão da região.

Desta forma, foi com bons olhos que vi este entendimento e a partir daqui, vamos ao trabalho.

Foi um entendimento pacífico?

Sim, foi um entendimento pacífico. O que eu fiz foi integrar nos órgãos sociais uma entidade que estava noutra lista, a AHRESP – uma associação muito importante neste setor – na Comissão Executiva.

Acredita então que esta foi a melhor opção para o organismo e para a região?

Como disse no meu discurso de tomada de posse e repito aqui, gosto de combates, nunca fugi a nenhum mas, tendo em conta a atual circunstância, o facto de ter havido este entendimento foi o melhor para a Entidade.

Não ignorando o passado, mesmo o mais recente, mas olhando para o futuro, como vê o TPNP nesse tempo?

Eu nunca ignorei essas questões mas também não me canso de dizer que, passado é passado e a mim interessa-me o futuro.

Há coisas que foram feitas no passado e que foram bem feitas, esses projetos certamente que continuarão a ser uma aposta para o TPNP. Os fins de semana gastronómicos são um bom exemplo disso, foram criados na direção do Francisco Sampaio e hoje, com as devidas atualizações, continuam a ser eventos de sucesso.

Com o Melchior tivemos uma viragem da Entidade para o interior, é também algo que pretendo continuar, porque vejo esse esforço com bons olhos.

Teremos uma colaboração total quando nos for solicitada pela investigação, como não podia deixar de ser mas, a minha forma de atuar não se altera, independentemente de haver, ou não, investigação. Eu atuo sempre com transparência e em total acordo com a lei em todos os procedimentos, portanto não estou preocupado.

Aproveito a oportunidade para deixar uma palavra aos colaboradores da Entidade que passaram por uma fase muito difícil e que gerou eventualmente alguma desmotivação. Eu conto com eles. Até provas em contrário todos são inocentes, mesmo quem foi mencionado no caso. Resta aguardar os resultados da investigação com tranquilidade e depois agir em conformidade. O que queremos é criar normalidade dentro da Entidade para podermos trabalhar.

O turismo tem registado números crescentes ano após ano e a previsão é que esse crescimento se mantenha. Acredita que este setor possa ser um dos maiores contribuintes da economia nacional a curto prazo?

Este setor já está a ser. Há muitos anos atrás assisti a uma conferência de marketing e um orador, do qual agora não me recordo o nome, dizia que o futuro de Portugal estava em setores como o turismo e também na atenção prestada às pessoas mais velhas, que vão viver cada vez mais e que vão encontrar em Portugal um local fantástico para residir.

Os números que são conhecidos dão-nos alguma tranquilidade até 2030, pelo menos, essa certeza nós temos. O que temos que fazer é receber bem quem nos visita, como dizia a senhora Secretária de Estado na cerimónia de tomada de posse, “só custa é que eles venham cá uma vez”, porque depois de certeza que vêm mais.

Temos da melhor gastronomia do mundo, das mais belas paisagens do mundo, temos património… Ainda há dias fui fazer a Rota do Românico, é impressionante o que nós temos aqui no norte para oferecer. O turismo religioso também encontra aqui muitos pontos de interesse como a Semana Santa em Braga, o maravilhoso Douro, Trás-os-Montes e o Minho, temos verde e o azul do mar, temos rios e cascatas, uma diversidade imensa que tem tudo para dar certo.

Nesse sentido, o que falta ainda fazer pelo setor a nível legislativo?

Penso que na tomada de posse ficou evidente que o setor está satisfeito com aquilo que o Governo tem estado a criar, nomeadamente com esta Secretária de Estado que é muito pragmática e próxima das pessoas.

O trabalho que está a ser feito está a ser bem feito, este apoio que tem estado a ser dado aos municípios, mesmo no que diz respeito à transferência de competências que algumas abrangem este setor, eu julgo que é o caminho certo. A entidade regional procura aqui ser um elo agregador da região e trazer para o terreno aquelas que são as diretrizes do Governo.

Defendemos, e não me canso de o dizer, que só juntos é que somos mais Norte, daí eu privilegiar os projetos que sejam agregadores, que sejam transversais.

Em seguida, irei lançar alguns temas sobre os quais gostaria de ter a sua visão como Presidente do TPNP:

Projeto EN2

Começo por afirmar que cheguei agora ao cargo, ainda não tive tempo para me debruçar a sério sobre os projetos todos do TPNP.

Contudo, digo desde já que este projeto da EN2 é para apoiar, é um projeto que atravessa 35 municípios, de todo o país, que já é conhecido internacionalmente sendo referenciado nos Estados Unidos como uma das estradas a percorrer obrigatoriamente. É este tipo de projetos que nós queremos apoiar, como é que o vamos fazer? Isso ainda vamos trabalhar em conjunto com os municípios que estão a trabalhar nele.

Taxas turísticas

As taxas turísticas não são responsabilidade da entidade de turismo, são das autarquias. Cabe a cada autarquia estabelecer as suas regras e eu não me vou manifestar nem a favor nem contra, vou só manifestar uma preocupação, que é a forma como essas taxas são depois aplicadas.

Do meu ponto de vista elas deviam ser aplicadas de duas formas: uma na promoção do destino turístico; a outra, na preservação do território, aplicando em áreas como a limpeza, a segurança e a reabilitação urbana, para que aqueles que aqui residem não sintam a pegada turística. Aproveitamos essa taxa para colocar em ordem algo que esta pegada turística possa deixar de menos bom.

Rio Douro

O Rio Douro é estratégico para a região. Já há projetos muito interessantes a explorar a nossa pérola e outros estão a caminho, quer pela aposta de privados, quer por parte dos municípios ribeirinhos.

Acredito que o melhor ainda está para vir para este rio. A partir do momento que o mundo começar a descobrir o Rio Douro vamos ter muita coisa para fazer naquela região, é uma região que tem muito mais do que simplesmente as questões ligadas ao vinho e à vinha. Há muitos projetos que eu também vou pegar agora na fase inicial como é o caso da Rota Magalhânica.

Gastronomia

Em termos de entidade nós vamos manter os nossos fins de semana gastronómicos que têm um sucesso total.

Tenho também já diversas reuniões agendadas com grandes empresários daqui do Norte, com projetos muito interessantes para levar, para fora, a gastronomia regional

Vinhos do Porto e Douro

A questão do vinho, não só dos vinhos do Porto e Douro mas também os verdes, por exemplo, são os produtos principais da nossa região, estão sempre presentes em tudo que é ação de promoção e divulgação do turismo.

Não irei falar de nenhum projeto até conhecer os que existem e dentro desses aqueles que queremos continuar a apoiar.

Caminhos de Santiago

Com os Caminhos de Santiago, dá-se aqui a coincidência que é o bom relacionamento que eu tenho com parceiros estratégicos, nomeadamente na Galiza.

Nota-se que a procura turística para este produto tem aumentado e nós temos diversos caminhos no nosso território. Vou ter uma reunião muito em breve, em Espanha, com o responsável pelos Caminhos de Santiago daquele lado da fronteira.

Há algumas questões que estão já a ser trabalhadas como é o caso da sinalética, por exemplo.

Curiosamente, começam a surgir várias start-ups cujo core é exclusivamente tratar o turista que está a fazer o Caminho, das mais variadas formas, quer seja através do reconhecimento do percurso, apoio logístico, etc. Ou seja, em torno dos Caminhos de Santiago podem aqui despertar uma quantidade relevante de iniciativas empresariais interessantes.

Na cerimónia que o empossou afirmou que “só juntos seremos verdadeiramente Norte”, sublinhando que repetirá esta expressão tantas vezes quantas necessárias. Com uma região tão vasta e com tantas diferenças acredita que essa união é possível?

Eu tenho a certeza absoluta que essa união é possível e só com ela seremos efetivamente mais norte.

Conforme os números espelham, é óbvio que é através do Porto que chega o grande bolo do turismo até porque é onde se localiza o Aeroporto e o Porto de Leixões. O que nós queremos fazer, e acho que os autarcas dos concelhos circundantes ao Porto têm o mesmo entendimento, é que este seja um ponto de distribuição do turismo para toda a região norte.

Nós não queremos que os turistas venham para 2 ou 3 dias, queremos que eles prolonguem a sua estadia e para isso temos que lhes dar conteúdos que também se esgotam por aqui, portanto é importante dizer-lhe que há mais para conhecer do que Porto, Matosinhos e Gaia, e aqui bem próximo, a uma hora daqui estão em qualquer ponto da região.

Para um brasileiro, por exemplo, que no seu país se desloca 2 ou 3 horas para chegar a uma praia, fazer uma hora de viagem para ir até ao Douro não é um problema. O que temos de fazer é trabalhar articulados e comigo não há fantasmas ou guerras que impeçam esse trabalho.

No Douro encontramos dois Patrimónios da Humanidade (a paisagem vinhateira e as gravuras rupestres de Foz Côa), qual o seu papel na dinâmica turística da região?

Esses dois patrimónios são mais dois conteúdos fantásticos que temos para mostrar ao turista. O que temos de fazer é promove-los da melhor forma possível e é isso que quero fazer.

Uma promoção a ser feita fora da região, porque promover cá dentro não nos ajuda na atração de turistas. Temos uma grande vantagem, é que temos a certeza absoluta que estamos a promover coisas únicas.

E Foz Côa, sendo o único concelho onde coexistem esses dois patrimónios, terá nessa dinâmica um papel de relevo?

Pode ter e vai ter.

Pela primeira vez, neste ano de 2019, uma cidade duriense, Peso da Régua, foi nomeada Cidade do Vinho. Que efeitos pode esta distinção ter no turismo duriense?

Conforme temos percebido todos no norte de Portugal, estas distinções que recebemos funcionam muito bem. Foi assim com o Porto com o ‘Best Destination’, o que tem acontecido com Braga, por exemplo, e certamente que será assim com a Régua.

Quer queiramos quer não, estas distinções são bastante importantes porque, para o turista que está aqui próximo isso não tem um grande significado mas, para o turista que não conhece e que se cruza com a informação de uma cidade que obteve uma distinção como esta, claro que lhe vai despertar a curiosidade.

É importante que sempre que haja oportunidade de candidatar o nosso património a qualquer distinção, o façamos.

Uma mensagem aos munícipes, aos municípios e a todos que estão na região norte.

Contem com o TPNP, queremos ser os primeiros a dar o exemplo. Contem com os nossos colaboradores que conhecem bastante bem o terreno, e contem acima de tudo com a minha vontade de fazer.

Como disse no discurso de tomada de posse, “fazer”. Eu sou bastante jovem para estar ainda acomodado a um lugar, não é com essa intenção que chego aqui, venho com uma grande motivação e com um grande espírito de “pôr as mãos na terra”, balizado por princípios como a transparência e ser agregador, ajudar a juntar e não a dividir.

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