Adega Cooperativa de Sabrosa pretende apostar no mercado internacional

Nuno Gouveia, Presidente da Adega cooperativa de Sabrosa

Nuno Gouveia, Presidente da Adega cooperativa de Sabrosa

O VivaDouro esteve à conversa com Nuno Gouveia, presidente da Adega Cooperativa de Sabrosa. Na presidência da Cooperativa há 12 anos, o dirigente revela que a exportação é uma das apostas de futuro da organização.

Quais são os principais objetivos da Adega Cooperativa de Sabrosa?

No fundo o objetivo fundamental de qualquer cooperativa é apoiar os pequenos e médios associados que tenham dificuldades em comercializar os seus vinhos porque na altura de formação da cooperativa era cada um por si e como os terrenos são de pequena dimensão concentrando a produção, aumenta a quantidade e podem fazer melhores preços e facilidade em vender.

Na sua opinião, quais são as principais vantagens que os produtores encontram ao trabalharem com cooperativas?

A grande vantagem é saber que têm a sua colheita sempre vendida, sabe que pode contar com a Adega para entregar as uvas e assim não tem que se preocupar com a parte comercial. O lavrador tem como função principal produzir, a parte comercial já é para outras pessoas. As Adegas têm essa função social, também têm a parte técnica que colabora com eles e no fundo estão a entregar uvas numa casa que é deles. Os donos da Cooperativa são os sócios.

Que distinções ou prémios é que a cooperativa conquistou?

Temos ganho vários prémios, sobretudo este ano. A última colheita foi realmente uma colheita excecional que nos permitiu ganhar bastantes prémios. Ganhamos a Grande Medalha de Ouro com o vinho branco Fernão Magalhães, que é o nosso melhor vinho branco, o DOC 2015, o mesmo vinho ganhou também em Espanha a medalha de ouro. Ganhámos também no Brasil com o mesmo vinho Medalha de Prata, com o Porto 10 anos Fernão Magalhães medalha de ouro, com o Moscatel também Medalha de Ouro e com o Reserva Medalha de Prata. O Rose também ganhou medalha de bronze. Quase todos os concursos em que temos participado temos conseguido algum prémio.

No que diz respeito à produção dos últimos três anos, qual foi a quantidade de produtos produzida? E o valor?

Têm sido anos bons. Nós somos uma adega pequena, produzimos em média dois milhões de litros e é o que temos produzido nos últimos anos.

Como é que foram as vendas em 2014/2015, tanto no mercado nacional como a nível de exportações?

Sentimos que 2014 foi um ano que para nós não foi muito bom uma vez que a qualidade dos vinhos caiu muito porque houve muita chuva, os vinhos entraram com muito podre, muito baixo álcool e a qualidade dos vinhos baixou e sentiu-se também aí nas vendas. Agora 2015 já foi um ano bom, excelente, foi o oposto. Este ano as vendas têm vindo novamente a recuperar. Isto sem por em causa a Adega e o pagamento dos sócios.

Apostam mais no mercado nacional ou internacional?

O forte é o mercado nacional, no entanto de há três anos para cá tem vindo a ser feita uma aposta desta direção em internacionalizar.

Que mercados pretendem atingir?

Neste momento o Brasil, por isso tem sido uma política ir aos concursos dos países em que queremos pôr os vinhos, o objetivo é tentar ganhar prémios nesses países, que é o caso do Brasil. Este mês (junho) já vamos começar a exportar. Temos também em Espanha, a marca “Fernão Magalhães” irá sair agora em Espanha como “Hernâni”, temos já a marca registada. Depois temos os vinhos do Porto em França, Luxemburgo, Alemanha. Também temos parceiros, uma empresa com quem estabelecemos um protocolo que nos faz a parte de exportação lá fora. Estamos a começar, neste momento a exportação andará nos 5%, nós queremos ver se conseguíamos atingir pelo menos os 10%, para já. É um processo que demora, o vinho ainda não é conhecido mas com os prémios e a qualidade que os vinhos têm esperemos que corra bem.

Qual é a perspetiva para a colheita deste ano?

Estamos bastante receosos, os viticultores também não estão muito contentes porque há muitas doenças, muita quebra de produção e agora vamos lá ver. Este ano estamos com medo, já há sítios que sabemos que há uma quebra de 40%, aqui vamos ver, sabemos que vai haver quebra mas ainda é cedo para ver ser vai ser grande ou não.

A nível nacional, na sua opinião, qual é a principal dificuldade que as cooperativas enfrentam neste momento?

A grande quantidade de produto, o mercado nacional está encharcado de vinhos. Depois temos outro grande problema no Douro, os custos de produção são altíssimos e nós andamos a vender vinhos de mesa, que são vinhos muito competitivos. Para se vender o preço tem de ser aquele e o retorno é pouco e ao pagar ao lavrador é complicado. Temos de valorizar mais os vinhos DOC, os vinhos de mesa, os vinhos do Porto, esse é o nosso objetivo, vender os vinhos de gama superior para tentar compensar os outros vinhos de mesa que aparecem na prateleira do supermercado com preços muito esmagados, mas temos que os vender.

Considera que Portugal se distingue dos outros países da Europa neste setor? Em que medida?

Sim, penso que Portugal cada vez mais se vai distinguindo. Os vinhos portugueses eram completamente desconhecidos há uns anos atrás, eram conhecidos só pelo vinho do Porto e por duas ou três marcas. Agora a qualidade aumentou e também através dos concursos em que vimos os vinhos portugueses e sobretudo os do Douro estão a ter uma notoriedade e uma procura muito grande porque realmente estão ao nível de qualquer outra região. Penso que cada vez vai haver mais procura. Mas temos que ter uma grande preocupação, temos de ter qualidade, os vinhos têm de ter uma qualidade constante que é isso que penso que nos faltava.

Quais as principais dificuldades/constrangimentos que enfrentam neste momento na Cooperativa?

No fundo acho que é a grande competição entre vinhos.

Considera que o território é pequeno para a quantidade de oferta no setor?

Sim, a procura é muito menor que a oferta. Nas exportações também havia mercados bons, como o mercado Angolano, Moçambique, que agora quebraram um bocado. Quem exportava muito perdeu esses mercados e teve que se virar para o mercado nacional, o que resulta em mais concorrência para nós. Depois a nível comercial temos um problema que eu penso que é inerente a toda a gente, que são os pagamentos, sabemos que há dificuldades em as pessoas pagarem, tem que ser com prazos dilatados e temos de estar sempre atentos a isso. É complicado.

Que perspetiva de futuro tem para a organização que representa?

O objetivo é sempre tentar que os sócios da cooperativa recebem o máximo possível das uvas que entregam, valorizar ao máximo a produção dos associados. Depois é manter a qualidade dos vinhos, sempre uma qualidade média/alta, é o que tentamos fazer. Para isso também estamos a investir maquinaria e tecnologia para acompanhar a qualidade dos vinhos. Tentar sempre aumentar as vendas a nível da exportação e também no mercado nacional.

O que entende necessário para ultrapassar as dificuldades no setor do Cooperativismo?

Cada vez tem que funcionar com mais proporcionalidade, temos que entender que o modelo da cooperativa já não é o mesmo de há vinte anos, já não pode ser gerido por boa vontade dos sócios, tem que ter bons profissionais à frente, sobretudo na parte da enologia, no armazém, no Marketing. Tem que ter gente com competência e formação para os diversos setores. Acho que a direção deve ser sempre constituída por associados, devem ser eles a escolher os seus diretores para manter sempre a filosofia da cooperativa. Isso não impede que tenha quadros profissionais.