Casa do Douro: Entrevista ao candidato Romeu Sequeira

Olhando aos apoios dados pelo Estado à região para colmatar os efeitos da Covid-19, que análise faz desses apoios?

Antes de responder diretamente a essa questão quero destacar a resiliência dos viticultores durienses, a sua força é o maior apoio que a Região Demarcada do Douro possui. Perante as adversidades e a incerteza, os viticultores continuaram o seu trabalho nas vinhas sem interrupções. Este sentido de responsabilidade e dedicação é o maior ativo do setor, não tenhamos dúvidas disso.

Em relação à questão que coloca, acho importante desde já destacar a pró-atividade que o Movimento Causa do Douro desempenhou na antecipação dos impactos da COVID-19 no setor, apesar de não ter formalmente a responsabilidade de intervir na região.  O Movimento que integro conseguiu gerar sinergias e apontar soluções que se revelaram úteis, sendo considerados no desenho final dos apoios já conhecidos. As propostas que fomos avançando desde a primeira hora, no final de Março, tiveram um aprofundamento técnico trabalhado numa lógica multidisciplinar, mas acima de tudo com um enorme sentido cívico na defesa dos viticultores. Por exemplo, enviamos um conjunto de propostas à Ministra da Agricultura, bem como ao Conselho Interprofissional do IVDP, que foram tidas em consideração. Mais recentemente, entendemos que a complexidade das questões e o descentramento discursivo que estava a ser disseminado na RDD carecia de uma explicação mais detalhada sobre as especificidades do momento. Assim aconteceu, antes do Comunicado de Vindima ser decidido, reunimos com o gabinete do Ministério da Agricultura em Lisboa, onde expressamos as preocupações sentidas pelos viticultores e, demos nota dos pontos que consideramos fundamentais para que não houvesse quebra de rendimentos irreparáveis do lado da produção. Respondendo agora à sua questão mais concretamente, acho que ficou claro que algumas matérias que expusemos foram incluídas e aplicadas na solução apresentada pelo Ministério, como por exemplo o reforço da verba de apoio à destilação diferenciado das restantes regiões vitivinícolas do país. Era injusto se não houvesse uma majoração positiva, a nossa viticultura é de montanha o que acarreta custos superiores para os viticultores. Fico naturalmente satisfeito por ver efeitos práticos da nossa ação cívica.

Sobre a importância da aplicação do valor cativo na Direção Geral do Tesouro, provenientes de taxas aplicadas pelo IVDP, do qual sou inteiramente defensor do seu retorno territorial, acho que os agentes atuais do Interprofissional agiram tarde e de forma reativa, esta questão deveria ser abordada de forma planeada no tempo. Acredito que com uma proposta mais fundamentada por parte do comércio e produção a verba que foi disponibilizada poderia ter sido superior. No entanto considero que o valor que a Ministra da Agricultura apresentou é aceitável e julgo que gerou condições suficientes para se ter conseguido manter o mesmo quantitativo de benefício do ano transato, as 108 000 pipas. No entanto, a ação conjunta anunciada pelos representantes da produção e do comércio foi incapaz de assegurar as melhores condições para os nossos viticultores. Os viticultores ficaram expostos a uma enorme vulnerabilidade com que se definiu no Comunicado de Vindima relativamente à quebra expressiva no benefício, à qual se juntam também outras dificuldades que não devem ser descuradas, tais como os elevados custos de produção verificados este ano e a baixa produtividade que se prevê para esta vindima.

Neste processo da definição do Comunicado de Vindima, os viticultores foram ditados ao esquecimento por quem tinha a responsabilidade de os defender.  Não posso deixar passar em claro a inércia dos ainda atuais representantes da produção no Interprofissional, que revelaram uma enorme incapacidade de desenvolver uma linha de ação própria na defesa dos viticultores, limitaram-se a passar uma “procuração” ao comércio para liderar as negociações deste comunicado com o Governo, o que se revelou num desequilíbrio enorme para os viticultores no resultado final.  Lamento muito que a produção se tenha colocado de forma subalterna perante o comércio, no entanto aproveito o momento para reforçar um apelo que o Movimento Causa do Douro já efetuou publicamente, como forma de atenuar uma possível catástrofe social e económica no seio dos viticultores durienses, o Conselho Interprofissional deverá ter a sensibilidade para gerar uma tendência de mercado por forma a assegurar os preços por pipa de vinho do Porto e DOC iguais aos praticados no ano transato.

Em comparação com outras regiões vitícolas do nosso país, o Douro fica a perder ou a ganhar?

Desde cedo que através do Movimento Causa do Douro alertamos o Ministério da Agricultura para a urgência de se agir eficazmente contra este problema atípico da pandemia, que devido às condições únicas da Região Demarcada do Douro (RDD) trariam consequências graves, não só para os viticultores, como para todo o setor vitivinícola.

A nossa região tem caraterísticas muito próprias no panorama nacional, não acho que deva ser comparada com as outras regiões vitícolas, não querendo obviamente desvalorizar os outros territórios. Acho que devemos ter sempre presente, que para além de todas as particularidades que caraterizam a nossa região, há um fator que considero ser o principal, a relevância e o contributo efetivo para economia nacional, que é francamente superior às outras regiões vitícolas do país. Como tal a nossa região deve ser encarada pelos agentes decisores do país com um sentido diferenciado. Não devemos ter medo de dizer ao país que, a sustentabilidade da viticultura na RDD é uma causa nacional.

Considero que a viticultura é o centro nevrálgico da economia regional do Douro, devemos ter a ambição regional de nos organizarmos no sentido de termos a influência necessária para obtermos mais apoios por parte do Estado. Chegou a hora, por exemplo, de olharmos para o valor anual que fica retido na Direção Geral do Tesouro e conseguirmos encontrar um modelo para que essa verba seja um instrumento real para aplicar na RDD, em diversas questões estruturais no setor, que permitam estabilizar os rendimentos do setor vitivinícola. Esta é uma das causas principais do movimento e que assumo desde já na minha candidatura à Casa do Douro, devemos aproveitar a abertura iniciada por parte do Estado para todos unidos conseguirmos apresentar um modelo exequível que permita o retorno para a RDD. Não podemos continuar a lamuriar essa verba apenas em títulos de jornal, é necessário reivindicar sustentadamente e de forma estruturada, necessitamos ser mais eficazes na intervenção junto do poder político em Lisboa.

Falando agora da Casa do Douro, o que motivou a sua candidatura?

A Candidatura surge de forma natural e espontânea, fruto da massa crítica das pessoas que constituem o Movimento. Quero desde já quebrar um estigma, que considero já não fazer sentido nos dias de hoje, a abordagem padrão de que uma candidatura à Casa do Douro é unicamente a pessoa que a encabeça. Não contem comigo para alimentar a exaltação e centralização de todo o processo no candidato A ou B, essa abordagem personificada, é coisa do passado. Acredito em trabalho de equipa, em projetos, em construção coletiva, desengane-se quem achar que o candidato A ou B sozinhos resolvem o enorme desafio que a RDD tem pela frente.  Portanto, quando me questiona o que me motivou, acho mais sensato reformular a questão para o que move a Causa do Douro; – de forma muito direta acho que a nossa candidatura, que encabeço, tem como principal motivação dar robustez e representação aos viticultores, é preciso percorrer o caminho da sustentabilidade e valorização da viticultura. Há ainda outro mote que pesou imenso na decisão de avançarmos, é a oportunidade de refrescar geracionalmente os agentes interventivos do lado da produção, à semelhança do que vem acontecendo na viticultura duriense, hoje existe na RDD uma nova geração a desenvolver projetos de enorme valor que de certa forma nem querem ouvir falar da bolha associativa desgastada que tem impedido de ver o futuro com clareza. Nas fileiras da nossa candidatura existe uma fusão geracional interessantíssima, onde os mais experientes confiam nos mais jovens e os deixam caminhar e os mais jovens escutam com atenção os mais experientes para caminhar firmemente, posso revelar que este é um dos segredos da nossa candidatura, um equilíbrio geracional que permite uma construção holística de uma nova Casa do Douro.

A nossa candidatura é um ponto de confluência construtivo, que pretende unir verdadeiramente os viticultores, sem lógicas federativas ou associativas. Aqui todos são importantes.  Na realidade o viticultor não quer saber da existência de algumas associações que se consideram “donos” dos viticultores, achando que o viticultor é incapaz de entender que não passam de bolhas vazias, com o único intuito de se manterem no jogo de poder, nada mais.   Rejeitamos por completo essa cultura de fação e divisionismo entre a classe. Cada viticultor é um voto.

Sabe, o facto de eu ser um pequeno viticultor, que assistiu durante uma vida na própria família as dificuldades da lavoura, permite-me ter uma noção exata sobre o desamparo dos viticultores mais vulneráveis. Há uns tempos atrás, resolvi dar continuidade aos passos da minha família, e passei a sentir eu próprio as adversidades e confesso que é revoltante. É urgente fazer um caminho que dê melhores condições de vida aos viticultores durienses e um futuro promissor para todo o setor vitivinícola. A sustentabilidade e valorização da viticultura é uma causa social da região que nos faz mover…

Digamos que a paixão que temos pela região é um catalisador para lutar por um equilíbrio de forças do lado da produção. Temos essa responsabilidade geracional aos ombros. Não ficaríamos de consciência tranquila ao ver que não agimos no tempo certo e deixando o passado contaminar o futuro. O futuro da nova Casa do Douro vai passar pela nossa candidatura, é isso que se sente em toda a RDD. Viemos para liderar.

Só conseguimos iniciar um caminho novo com pessoas novas, que consigam valorizar efetivamente a história e o património da lavoura.  Os desafios são imensos e irão necessitar de bravura para nos adaptarmos a um futuro mais agregador e assertivo, mas também mais reivindicativo e justo, em toda cadeia de valor do setor do vinho.

Estamos de braços abertos, de viticultores para viticultores, com o propósito de enorme grandeza. Erguer a força dos viticultores…

Qual deverá ser o papel da CD no futuro da região?

A Casa do Douro, para além do seu peso histórico e função de defesa da produção é também uma marca fortíssima e neste momento está muito desacreditada devido à constante guerrilha associativa que a enredaram. Deve a RDD virar essa página e dar uma oportunidade à reconstrução de uma nova Casa do Douro, mais forte, afastada das guerras do passado que tenha o foco nas verdadeiras causas. Queremos uma Casa do Douro grandiosa novamente, que não se resuma apenas à intervenção anual, que se expressa unicamente num Comunicado de Vindima. Há tanto por fazer, e nós estamos dispostos arregaçar as mangas e fazer o que tem de ser feito! Este enorme desafio vai exigir a todos muito empenho, muito rigor e um enorme espírito de missão e, quando digo todos, refiro-me a todos os agentes do setor, sejam eles singulares ou coletivos, todos temos de lutar por esta causa tão nobre, que consiste em salvaguardar os interesses de milhares de viticultores e de garantir um futuro promissor e estável para todo a cadeia do setor vitivinícola.

É certo que na Lei n.º 73/2019, de 2 de setembro, que para mim assinalou um importante marco na história da RDD, reinstitucionalizando a Casa do Douro enquanto associação pública, e que acima de tudo permitiu devolver a Casa do Douro aos viticultores, os estatutos preveem já um conjunto de atribuições que serão essenciais para o início da construção de uma nova Casa do Douro, embora concorde com todas elas, será necessário um trabalho minucioso de planeamento e de aplicabilidade efetiva em todas elas, sendo importante assegurar com o Estado a sua operacionalidade, seja na vertente de atribuição de funções públicas bem como o seu financiamento. Sobre este tópico do financiamento estrutural, rejeitamos que tenha de haver uma nova taxa aos viticultores. É necessário dotar a Casa do Douro de funções públicas reais que lhe permitam desenvolver um novo ciclo de desenvolvimento de forma transversal no setor.

É fulcral redesenhar e implementar o “lobby” da Produção, no sentido de representar de forma eficaz os viticultores.

No tempo exato revelaremos com mais detalhe o nosso manifesto eleitoral, no entanto posso adiantar alguns vetores centrais que estão a ser aprofundamos tecnicamente e economicamente:

Por exemplo:

  • Valorizar e proteger a viticultura, por forma a melhorar a competitividade e eficiência de meios.
  • Afirmar a nova Casa do Douro como um agente de influência positiva junto dos órgãos de decisão.
  • Organizar a profissão do viticultor adaptada às novas tendências e caraterísticas específicas da RDD.
  • Julgo que a Casa do Douro deverá acompanhar a evolução natural do setor do vinho numa dimensão mundial, recolhendo boas práticas e se fizerem sentido adaptá-las aqui.
  • Desenvolver um quadro formativo que permita evolução técnica do setor.
  • Constituir-se como agente promotor dos Vinhos do Douro. Sei que este ponto pode causar alguma estranheza, mas vejamos: Se reivindicamos ao comércio que mantenha os padrões de compra anual, acho que pode ser sensato ao longo do ano ajudar a região a promover-se, auxiliando no escoamento. Assim, estamos a permitir fluxo em toda a cadeia do setor, se houver mais vendas haverá mais compra nas vindimas subsequentes.
  • Alavancar um sistema mutualista que permita gerar estabilidade de rendimentos para os viticultores.
  • Desenhar mecanismos que permitam esbater a falta de mão de obra que o setor tem sentido.
  • Desenvolver um plano estratégico da produção que envolva todos os agentes do setor numa vertente económica e política.
  • Estudar a viabilidade e possibilidade de posicionar a Casa do Douro como catalisador formativo e histórico do enoturismo da região.
  • Estruturar uma resposta técnica que preste auxílio ao viticultor.
  • Articular estratégia institucional com os diversos agentes do território, como por exemplo a UTAD e CIM Douro.
  • Dar condições e escala a um novo perfil que existe no setor, o pequeno e médio produtor engarrafador que muitas das vezes não tem capacidade nem meios para internacionalização.
  • Desenvolver escala para implementar seguros de colheita justos para o viticultor.

Estas são apenas alguns vetores base do manifesto, estamos a pensar a Casa do Douro a uma década, como tal requer ainda um processo de envolvimento construtivo com a RDD, aliás acho que o grande motor da ação da nova CD poderá vir a ser o Conselho Geral plasmado nos estatutos. Será o órgão onde todas as medidas e ações serão debatidas e decididas, neste momento podemos considerar que temos um conjunto de intenções válidas, que terão sempre de ser aprofundadas nesse órgão.

Sabe, adaptar o papel de uma nova Casa do Douro à realidade de hoje torna-se impossível de o traduzir numa resposta tão curta. Temos percorrido a região toda num processo de auscultação às diversas sensibilidades e problemáticas dos viticultores, bem como os vários agentes do setor vitivinícola duriense, por forma a fortalecer não só a base de apoio, mas também para alicerçar o manifesto que apresentaremos.

Uma das caraterísticas da nossa candidatura é a vontade de envolver a região na construção, não acho que devemos surgir de forma impositiva e com uma visão encerrada em si mesmo.  A delicadeza deste enorme desafio deve sempre, na nossa ótica, deixar uma margem de adaptação aos problemas que vão surgindo.

Nesse sentido, já em Março o Movimento Causa do Douro desenvolveu uma plataforma colaborativa que se encontra disponibilizada no seu site: www.causadodouro.pt, precisamente para ouvir as pessoas, o nosso manifesto não será unicamente nosso, é construído por quem quer participar. Aproveito desde já para convidar quem ainda não teve oportunidade a contribuir com as suas visões e ideias sobre a região. Temos tido até ao momento inúmeras perspetivas, reivindicações e sugestões muito pertinentes e demostrativas de um sentimento geral de que a produção deve ser mais valorizada.

Acredito convictamente num virar de página e no rejuvenescimento da Instituição, encarando os novos e velhos desafios, mas acima de tudo encarando o futuro com otimismo, embora consciente das enormes dificuldades que irão surgir.

Como presidente da CD, como será a relação com o IVDP?

O IVDP é um organismo do Estado, e como tal a Casa do Douro terá de criar uma relação institucional que se pretende profícua e, que certamente será vista de forma recíproca.

Será essencial aproveitar a dinâmica de trabalho existente nos mais diversos âmbitos do IVDP e estabelecer acordos de parceria que promovam um trabalho conjunto com a Casa do Douro, nas mais distintas atividades direcionadas para a viticultura, com vista a garantir uma maior proximidade junto dos viticultores.

O plano estratégico que pretendemos efetivar para a Região Demarcada do Douro (RDD) terá de contar com uma presença assídua e participativa do IVDP, pois muitas das funções que atualmente este organismo exerce fundem-se com a ação que a Casa do Douro terá no futuro.

O mais importante, será manter uma relação estreita e constante com vista a promover uma RDD que se pretende mais forte e próxima dos viticultores.

E com o comércio?

Acredito num Douro onde a partilha, a reflexão e o diálogo nos podem levar mais longe, e como tal, a relação com o comércio, terá de ser sempre assente num diálogo constante. Aliás, não existe produção sem comércio, mas também é bom dizer que não existe comércio sem produção. Ambos são fundamentais para a Região Demarcada do Douro (RDD), considero que é preciso equilibrar a balança.

Embora, essa relação tenha de ser concretizada em moldes diferentes da que atualmente se vive, e passo a explicar, o comércio tem um organismo próprio, organizado, e que naturalmente defende os interesses dos seus associados, e como tal, a partir do momento em que a direção Casa do Douro tome posse, o mesmo se irá concretizar do lado da produção.

Será um novo ciclo, que irá engrandecer ainda mais a região e o setor do vinho. Olhando para o atual modelo do Conselho Interprofissional do IVDP, não tenho dúvidas que com uma produção forte e capaz, o comércio também poderá crescer, saibamos encontrar o ponto de sustentabilidade da RDD. Da nossa parte terão o nosso respeito institucional e assim também o esperamos do lado do comércio.

Termos ambos a responsabilidade, de conseguir alcançar modelos justos entre produção e comércio e de os apresentar aos nossos governantes, não nos podemos limitar como até aqui, indo ao poder de Lisboa de forma diminuída.

Pretendemos estabelecer um processo de diálogo afirmativo entre as partes no sentido de reposicionar a viticultura como alicerce central e transversal da RDD.

Num comparativo entre os três candidatos já apresentados, que atributos o destacam dos restantes?

Numa análise muito direta, os dois candidatos que se perfilam pela ALD e FRD representam o passado, ambos fazem parte de projetos esgotados. Repare, o Movimento Causa do Douro tem vindo gradualmente a afirmar a sua voz nas questões estruturantes da viticultura e da RDD, e como é sabido tem sido o único que se tem apresentado numa lógica positiva e construtiva, estamos a alicerçar um projeto de futuro, sem estar agrilhoados a conflitos. A recetividade natural ao nosso movimento em toda a região e o apoio explicito dos viticultores à nossa candidatura, são a confirmação de que existe um enorme vazio na sua defesa, não se encontra qualquer relação ou reconhecimento de representação tanto à ALD como à FRD.

Em relação às outras duas candidaturas, nascem dentro de duas associações assombradas com guerrilha constante. Os viticultores e a região em geral estão cansados das inúmeras quezílias entre si, que têm impedido de vislumbrar o futuro. É esta a realidade.

Não me parece sensato fazer comparações pessoais, até porque apenas conheço pessoalmente o candidato da FRD o último a surgir na corrida. Segundo se sabe não foi pacífica a decisão e recaiu na terceira solução interna, isto porque o atual Presidente por força da lei não pode candidatar-se, caso contrário seria ele próprio. A candidatura da FRD simboliza um projeto derrotado e esgotado, que demonstrou ser incapaz de erguer a Lavoura e a uma Casa do Douro digna, no entanto, tiveram de apresentar um candidato por uma questão de orgulho em não querer reconhecer o fracasso e para não transmitir à RDD uma desistência abrupta. Respeito isso, e até compreendo. Quanto ao candidato da ALD, que não conheço pessoalmente, o que vou sabendo do seu perfil é o que me vão transmitindo os viticultores mais séniores, dizem-me que é o ex-contabilista da Casa do Douro antiga e responsável pelo período de maior opacidade financeiramente da instituição.

É curioso o seguinte, ambos os projetos, tanto da ALD como a FRD partem de pressupostos de incongruência tremenda, que permitem a leitura de que encaram a defesa dos viticultores como um jogo de poder e lógica associativa na sua vertente mais fraca. Vejamos, as duas estruturas mediram forças em atos que contradizem as suas posições em relação ao estatuto da Casa do Douro, e passo a explicar. Por um lado, temos a Federação Renovação Douro (FRD) que representa atualmente a Casa do Douro como instituição de direito privado, e que foi contra o processo de reversão da Casa do Douro como instituição pública, posição publicamente defendida igualmente pelo candidato que a representa. Por outro lado, temos a Associação da Lavoura Duriense, que apesar de ter sido favorável ao modelo público da Casa do Douro, também mediu forças com a FRD em 2015 no sentido de se candidatar à Casa do Douro privada. Fica claro que o que move estas duas estruturas não é a valorização da viticultura, nem tão pouco a defesa da produção, são outros interesses que nos são alheios. Nós no Movimento recusamos alimentar essa disputa associativa, estamos focados em como gerar uma Nova Casa do Douro forte. Somos defensores do modelo público da Casa do Douro desde a primeira hora, eu próprio enquanto elemento da Assembleia da CIM Douro lutei ao lado da força e união dos autarcas, que foram os grandes obreiros da reversão da casa do Douro como Associação pública.

Com isto, não quero tecer mais comentários sobre os meus adversários, até porque esse é um julgamento que deve ser sufragado pelos viticultores, de forma livre e informada.

Estamos na corrida à Casa do Douro para imprimir uma visão rejuvenescida e catalisadora de uma ação onde cada viticultor se sinta representado e valorizado.

É apontado como o candidato novo que vem de fora das lógicas associativas habituais o que causa apreensão aos habituais intervenientes. Sente-se capaz para ocupar o cargo. Como responde a estas acusações?

Estou a ouvir pela primeira vez tais insinuações. Fico surpreendido com essa abordagem, sinceramente. Só posso aceitar essa tentativa de ataque se for proveniente de algum sistema instalado, que eu desconheço e que não saiba conviver bem com a lógica disruptiva com que apareceu o Movimento Causa do Douro. O facto de não pertencer a nenhuma lógica federativa ou associativa é uma enorme vantagem, como já referi, nós temos margem para agregar todas as tendências e perspetivas, não estamos acantonados.

É tão falsa essa acusação que aproveito para relembrar que por diversas vezes, inclusivamente até neste jornal e muito antes de ser candidato à direção da Casa do Douro, fui convidado a dar o meu contributo sobre o setor agrícola duriense e a região, fazendo-o sempre com um enorme gosto e sentido de missão.

Tenho felizmente provas dadas na minha vida profissional e cívica, sou professor do ensino superior, sou gestor em diversas empresas, sou dirigente associativo no setor social, desempenhei as funções de gestão autárquica numa junta de freguesia, sou viticultor desde muito jovem, fruto da ligação familiar a este setor. Aliás, desde a minha adolescência até aos dias de hoje que a minha ligação à vinha existe, tive a possibilidade de seguir os estudos e de ter um futuro melhor, fruto do trabalho dos meus pais na lavoura, por isso, existe para mim uma dívida para com a viticultura e para com a região.  Mas ainda assim, gostava de referir que além de viticultor ativo, possuo carteira profissional de viticultura e enologia, desde cedo estudei na via profissional agrícola, digo com orgulho que sou de uma “casta” que nasceu na Escola Profissional Agrícola do Rodo e embora no ensino superior tenha seguido uma área distinta, considero-a complementar e bastante vantajosa para as funções a que me candidato.

Apenas quem não me conhece, ou está de má fé, pode expressar essa opinião. Como já referi anteriormente, este desígnio não é apenas meu, caminho num movimento com pessoas excecionalmente bem preparadas e com uma enorme capacidade multidisciplinar, que se complementam uns aos outros. Basta analisar as nossas intervenções para perceber a profundidade e capacidade de antecipação que refletem. Confio nas pessoas que caminham comigo, estou certo que nunca me deixarão tomar más decisões, tenho a certeza disso, pode a Região confiar em absoluto.

Repare, quero relembrar ainda que ao longo dos anos fui participando em ações de debate sobre a nossa região, como é o exemplo da Assembleia Intermunicipal da CIM Douro, da qual sou membro, onde por diversas vezes dei o meu contributo sobre o setor vitivinícola, defendendo inclusive de forma ativa a reversão da Casa do Douro como instituição pública. Aliás, ainda recentemente, a convite da Assembleia da República, participei numa audiência da Comissão Parlamentar de Agricultura, na qual pude dar o meu contributo com vista à criação de um projeto de lei que permita disponibilizar soluções para precaver ou reduzir os prejuízos provocados pelas sucessivas intempéries nas vinhas.

Desconfio que essas supostas críticas pretendem chegar à tentativa básica de me colar a minha pessoa unicamente à minha atividade política.  Pois bem, não pretendo esconder ou ocultar essa minha atividade até porque sempre fiz o meu percurso com enorme lisura, de forma humilde e séria. Considero que a ação política é ainda uma atividade nobre se aplicada ao bem comum, algo que me esforço todos os dias para que assim seja. Há para mim um partido que está acima de tudo, é Douro, disso podem ter a certeza. Convido os mais céticos ou até mesmo os mais simplistas da crítica a revisitar a história da Casa do Douro e da RDD, basta recuar até 1932 e entender o Movimento dos Paladinos do Douro e aí perceberão que a própria Casa do Douro foi uma obra erguida por homens livres e de bons costumes, políticos ativos, como é o exemplo de Antão de Carvalho, Luís Torcato de Magalhães, entre outros. Recordo que o movimento dos Paladinos do Douro foram os responsáveis pelo período de maior influência política em prol dos viticultores e, como tal, devem servir de inspiração para todos nós. Acredito vivamente que também hoje poderá ser uma via fundamental para se alcançarem acordos benéficos para os viticultores, bem como para toda a Região Demarcada do Douro (RDD).

Da minha parte e do movimento, posso apenas prometer empenho e trabalho, há tanto por fazer…. Estamos verdadeiramente dedicados a esta causa nobre, e para os mais inquietos, sim temos apoios reais em toda a RDD, estamos cá para vencer.