Comité de Combate ao Granizo criado no Douro

As tempestades de granizo são um dos fenómenos que mais preocupa os viticultores da região originando, quase todos os anos, elevadas perdas de produção sem que haja qualquer forma de os prever ou mitigar.

O Comité é formado pela ProDouro, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), a Associação para o Desenvolvimento da Viticultura Duriense (ADVID) e as adegas cooperativas de Favaios e Sabrosa, pretendendo, nesta primeira fase centrar-se numa área-piloto que abrange as zonas de Sabrosa, Pinhão e Alijó, especialmente afetada pelo granizo nos últimos anos.

“O objetivo é implementar um sistema de luta preventiva contra o granizo na Região Demarcada do Douro, juntando esforços entre empresas privadas, associações e setor científico. Queremos tão cedo quanto possível, de preferência já em 2020, implementar esta solução na área piloto”, afirma Rui Soares, presidente da ProDouro – Associação de Viticultores Profissionais do Douro, à nossa reportagem.

A ideia de arrancar com o projeto numa área-piloto acontece por duas razões: pelo facto de ter sido a área mais fustigada nos últimos anos com avultadas perdas para os viticultores, mas também porque, para que a solução apresentada resulte ela tem que ser implementada numa área alargada e não apenas numa ou outra propriedade de forma avulsa.

“Esta área tem um histórico mais acentuado e pareceu-nos que seria uma boa zona para arrancar, para começarmos o nosso projeto, cujo objetivo é também a validação de uma técnica que não existe na região. Depois é algo que não podemos fazer numa quinta, por exemplo, até porque falamos de um fenómeno que tem movimento, a queda do granizo pode começar a sentir-se numa quinta mas com a deslocação vai certamente sentir-se noutra propriedade vizinha, daí pretendermos fazer o teste nesta área mais alargada”, afirma Rui Soares.

Numa primeira fase foram instalados na região 30 granizómetros, um equipamento construído por uma estaca em ferro, colocada no meio da vinha com uma placa de esferovite no topo que regista a intensidade, o tamanho e a quantidade de granizo que caiu.

“Essas medições são feitas pelas marcas que as pedras de granizo deixam na placa ao baterem nela. Dependendo do tamanho do buraco deixado conseguimos perceber o tamanho das pedras e a perfuração que fazem dão uma ideia da força com que as mesmas embateram”.

Rui Soares alerta que este não é um método preventivo quanto aos possíveis danos. “Esta granizómetro não protege a vinha, simplesmente serve para que nós possamos estudar a evolução destes fenómenos”.

Efetivamente existem já dois métodos, muito utilizados em França, por exemplo, que permitem mitigar os efeitos da queda de granizo, sendo que ambas as soluções foram já pensadas para a região, em conjunto com as empresas que as desenvolveram e que enviaram alguns especialistas ao Douro para perceberem as características únicas deste território.

“Nós temos duas opções, ambas são operações de modificação do tempo, ou seja, são operações que consistem em perturbar artificialmente a formação das nuvens de granizo que se formam na atmosfera”, refere.

Com a aplicação destas técnicas, “em vez de caírem pedras de granizo, ou cai chuva, no caso da solução da empresa Selerys, ou caem pequenas bolas de granizo, que já não fazem mal à cultura, que é o princípio proposto pela associação francesa ANELFA. No fundo, são duas metodologias diferentes, embora o objetivo final seja o mesmo”, frisou.

No caso do Douro a solução escolhida pelo comité é da empresa Selerys que transforma as pedras de granizo em chuva, reduzindo assim drasticamente o potencial risco para as vinhas.

A ideia é testar a técnica na área-piloto, um projeto a três anos, e depois expandir a metodologia a toda a Região Demarcada do Douro, beneficiando não só a vinha, mas também a produção frutícola que representa uma outra importante atividade económica do território.

” Na região há diversas zonas onde a vinha não é o principal produto agrícola, temos também a maçã, a azeitona, a cereja, etc, tudo culturas que podem beneficiar com este tipo de solução.

Estamos na fase crítica, temos a informação, já estudámos, já temos todos os dados ao nosso dispor, já sabemos tudo, as vantagens e desvantagens de todos os métodos, já sabemos os custos associados, que não são assim tão elevados, falamos de cerca de 40€ no primeiro ano e 17 euros nos seguintes.

Neste momento, a única coisa que precisamos é, efetivamente, de encontrar um modelo de financiamento para que o projeto avance tão cedo quanto possível, é nesse sentido que estamos a reunir com diversos parceiros como por exemplo a CIM Douro, que terá aqui um papel importante porque é que melhor conhece o território e a ADVID que tem o contacto privilegiado com os viticultores”, salientou Rui Soares.

Um custo não associado é a mão-de-obra até porque este é um trabalho em prol de todos e dada a extensão da região é impossível ter equipas de ativação dos equipamentos.

“Em todos os casos que visitamos não há a questão dos custos de mão-de-obra porque sendo este um trabalho em prol da região, ele é feito em regime de voluntariado, assumido pelos próprios proprietários. Estes equipamentos têm um radar que emite avisos quando a probabilidade de queda de granizo é alta e esse aviso é enviado para quem tenha os aparelhos de forma a que possa ir ao terreno e ativá-los”.