Alto Douro Vinhateiro, um Património Mundial em construção

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De todos os textos, discursos, entrevistas radiofónicas e televisivas que li e ouvi, ao longo destes últimos dias de comemoração e balanço, e foram muitos, retive algumas linhas de convergência, a saber:

O saldo destes vinte anos de reconhecimento pela UNESCO do Valor Universal Excecional do Alto Douro Vinhateiro e, num sentido mais lato, da Região Demarcada do Douro, é globalmente positivo, sob vários prismas.

Desde logo na melhoria verificada na qualidade das intervenções na paisagem e no mosaico visual, nomeadamente na vinha, onde proprietários e técnicos mais bem formados e alinhados com o princípio da valorização dos atributos que conduziram a este reconhecimento em 2001, fizeram, em termos gerais, um trabalho notável, diria heroico, de manutenção e de reconversão das vinhas da região.

Por outro lado, existe hoje um mecanismo eficiente de publicidade e de escrutínio das intenções de investimento na região, quer público quer privado, que tem impedido a concretização de projetos que, a serem realizados, teriam constituído dissonâncias insanáveis na paisagem e que, no limite, poderiam ter posto em causa o próprio estatuto de Património Mundial. Exemplos disso foram a tentativa de construção de um gasoduto atravessando terrenos do Alto Douro Vinhateiro, os pedidos de prospeção de lítio em áreas classificadas ou, mais recentemente, o de construção de unidades hoteleiras de grande dimensão, incompatíveis com uma integração harmoniosa na paisagem.

Também o papel absolutamente óbvio que o Turismo tem vindo a ter no desenvolvimento da região terá de ser levado, pelo menos em parte, à conta da classificação de Património Mundial. É inegável também a importância do Turismo na retenção de talento e na regeneração do património edificado na região.

A sociedade civil Duriense, fruto de uma maior consciencialização da importância de ser um dos únicos e exclusivos 1.154 sítios, a nível mundial, que obtiveram este reconhecimento, está hoje mais ativa e atuante do que estava à vinte anos atrás, como a adesão e suporte à Petição para a Requalificação e Reabertura da Linha do Douro até Barca d’Alva claramente demonstrou.

Este é um caminho aliás, que tem de ser prosseguido. Os muros, as vinhas, os edifícios a paisagem, estão, em larga medida, construídos. Temos agora de trabalhar no sentido de continuar a construção de uma identidade duriense que, assente no orgulho cívico e na promoção da autoestima, consiga capitalizar este património e, sobretudo, seja capaz de reivindicar um lugar mais justo e equitativo na distribuição de rendimento em Portugal.

Do lado negativo, os indicadores sociais, particularmente os demográficos, em termos de redução e envelhecimento acelerado das populações e os indicadores económicos, nomeadamente o PIB per capital e o índice Sintético de Desenvolvimento Regional (que agrega 65 indicadores estatísticos que   conjugam, nomeadamente, fatores como a competitividade, coesão e qualidade ambiental) colocam a região nos dois últimos lugares da tabela nacional, que, por sua vez sabemos estar muito mal posicionado em termos da União Europeia.

Neste ponto convêm deixar claro que este atraso relativo no desenvolvimento que a região tem vindo a sofrer, relativamente a outras regiões de Portugal e da União Europeia não pode, de modo algum, como alguns querem fazer crer, ser atribuído ao estatuto de Património Mundial. Sendo certo que são conhecidas as limitações e constrangimentos burocráticos que penalizam simultaneamente quem pretende investir e que tem de gerir a região, não tenho qualquer dúvida em afirmar que a região estaria hoje pior, mais subdesenvolvida, menos coesa e integrada, não fosse sermos Património Mundial UNESCO.

Ainda no plano negativo, a impossibilidade e impotência que, em muitos momentos desta curta história, a região sentiu em se opor a uma deriva construtiva, consubstanciada em vários projetos urbanísticos de elevado impacto e agressividade visual, o mais relevante dos quais o da Barragem de Foz Tua, e que pouco ou nada trouxeram para a região, em termos de geração de rendimento.

Tendo o balanço sido feito é hora de olhar para o futuro. E nesse sentido, entendo que a região do Douro tendo muitos desafios pela frente, tem razões para acreditar no seu sucesso. Para isso, na minha opinião teremos de:

Fazer evoluir o atual Plano de Gestão do Bem, sob a responsabilidade da CCDRn, para um verdadeiro instrumento de planeamento estratégico da Região a, pelo menos, 10 anos de distância, com objetivos, indicadores, autoridade, equipa e orçamento, que leve em conta os desígnios, projetos e planos estratégicos dos atores privados, principalmente no domínio da economia da Vinha e do Vinho e do Turismo, sem por de parte, naturalmente, os interesses públicos.

Valorizar o que de bom tem vindo a ser feito. Recompensar quem melhor fez a sua intervenção no território. Quem cuida da paisagem, das vinhas, dos vinhos, das matas, do mosaico, do património edificado.

Promover a Educação para o Património Mundial, nas escolas primárias, nas secundárias e na Universidade, criando condições para que, nas Faculdades de Arquitetura se ensine não só a Construção, mas também a Reconstrução e a Regeneração do património, nomeadamente o vernacular.

Por fim estruturar a oferta de valor do Douro para que este seja “vendido” como uma da pérolas no nosso planeta minúsculo planeta, enquanto, genuíno, autêntico, único, irrepetível e escasso.