Preocupações ambientais são realidade na região

A sustentabilidade ambiental é, cada vez mais, um tema presente na nossa vida diária. Da economia à saúde, passando pela educação ou pela forma que nos alimentamos, todas as vertentes são olhadas cada vez mais pela vertente ambiental. No Douro, uma região dependente da natureza, pelos recursos que dela extraímos e pelas paisagens que atraem milhões de turistas, este é um tema que não pode ser ignorado. Por esta razão o VivaDouro foi conhecer alguns projetos que, na região, desenvolvem o seu trabalho nesta área.

Quando a questão ambiental se coloca, uma das primeiras ideias que nos vem à cabeça é a emissão de CO2 provocada pelo Homem, não só pelo uso de veículos motorizados como, por exemplo, pelo uso de queimas e queimadas de materiais sobrantes da produção agrícola e florestal.

Das vides se faz… um pouco de tudo

Foi precisamente ao ver esse material sobrante ser queimado que Pedro Teixeira teve a ideia de criar o projeto Da_Vide que, como o próprio nome indica, baseia o seu trabalho na reutilização das vides que são cortadas durante o período da poda nas vinhas do Douro.

“Desde miúdo que o meu sonho era inventar algo que melhorasse a vida das pessoas, em especial algo que estivesse relacionado com o ambiente e a vida diária das pessoas. A certa altura eu e minha mulher decidimos deixar o Porto e vir para o Douro, ao chegar aqui vi que as pessoas, depois da poda, queimavam as sobras desse trabalho, o que me levou a pensar o que fazer para mudar esse ciclo, uma outra utilização para esses resíduos.

Pedro Teixeira | Da_Vide

Foi assim que este projeto começou, com um estudo ambiental sobre o impacto global da queima das videiras. Uma das conclusões a que chegamos com esse estudo é que, só no Douro, essa queima produz cerca de 200 mil toneladas de CO2, o equivalente, grosso modo, a cerca de 100 mil automóveis em circulação durante um ano, este é um cálculo feito por baixo. Extrapolando isto para a produção mundial chegamos à conclusão que, se valorizássemos tecnologicamente todos os resíduos agrícolas, o uso dos combustíveis fósseis deixaria de ser um problema, chamamos a isto Modelo de Produção Agrícola em Ciclo Aberto de Carbono.

A juntar a isto temos ainda uma parte muito maior que são os resíduos florestais, que também podem ser aproveitados, com uma vantagem acrescida que é a possibilidade de um melhor ordenamento de território com vantagens nomeadamente quanto à questão dos fogos florestais”.

Para Pedro Teixeira o trabalho está longe de estar terminado e, entre os muitos objetivos que tem com este projeto, quer também ajudar a mudar a tendência de desertificação das zonas rurais, tornando a agricultura num negócio com maior rentabilidade para quem nele trabalha e para atrair mais gente ao setor.

“A nossa ideia passa por criar um mercado de biomassa em que nós vamos comprar aos agricultores os seus resíduos. Eles fazem a poda e no final nós vamos lá adquirir o material sobrante, evitando que o queimem o que também pode evitar incêndios por queimas que se descontrolam, o que acaba também por evitar maior emissão de CO2.

Esta medida acaba por também aumentar, e muito, a rentabilidade da agricultura, estamos a falar em valores que podem chegar aos 40%. Isto significa que, sendo a agricultura mais rentável, pode também ser mais atrativa para mais gente, levando assim ao combate de um dos maiores flagelos destas regiões que é o êxodo populacional. Aquilo que tentamos demonstrar é que este modelo pode resolver grande parte dos problemas que afetam a sustentabilidade ambiental”.

Mas não é só aqui que o projeto Da_Vide quer fazer a diferença, juntando esta preocupação ambiental com os mais recentes desenvolvimentos tecnológicos, há o objetivo de criar uma “Eco House”, “no fundo é uma casa que não necessita de energia elétrica externa para funcionar, ela produzirá a sua própria energia através de um sistema que estamos a desenvolver e do qual já vamos conseguindo obter alguns resultados, por exemplo, temos uma lâmpada em funcionamento à cerca de um ano e meio sem estar ligada à eletricidade convencional, digamos assim”.

Tendo começado o projeto por fazer canetas a partir de vides, hoje Pedro Teixeira produz um pouco de tudo, desde matérias de construção e decoração como buchas, candeeiros, molduras, etc, até postais e bijuteria, passando por diversos utensílios do nosso dia a dia, como por exemplo papel.

Todos estes produtos têm ainda uma vantagem, diz-nos Pedro Teixeira, “ao serem naturais podemos juntá-los a outros excedentes, fazer a sua compostagem e devolve-los à terra em formato de adubo, fechando assim o ciclo que não tem impacto negativo nenhum, segue a ordem natural das coisas. Desta forma conseguimos minimizar o uso de plástico, por exemplo, e mesmo os aterros deixam de ser um problema passando a ser uma solução conseguindo mesmo chegar a zonas de carbono negativo e o Douro pode ser uma dessas zonas. Ou seja, as vinhas absorvem o CO2 para o seu crescimento, como há um número reduzido de emissões, porque fazemos esse aproveitamento dos materiais, temos um saldo negativo.

Apelidamos este sistema de Biofilia Social, Biofilia significa amor à natureza e social porque achamos que a economia social tem uma palavra a dizer neste modelo, que pode ser aplicado por todo o mundo”.

De projeto universitário a empresa

Na UTAD, em 2014, nasceu a cooperativa Rupestris mas, antes de ser uma empresa este projeto começou por ser um trabalho académico que juntou um grupo de alunos que tinham por função ser guias do Jardim Botânico daquela instituição de ensino superior.

“Este projeto nasceu quando nós éramos alunos da UTAD como desafio lançado por um professor. Na altura o projeto era sermos guias do jardim botânico mas criamos uma equipa e as ideias foram crescendo, fizemos uma parceria com a universidade e neste momento produzimos plantas aromáticas e medicinais, flora autóctone em especial a que está em maior risco devido aos incêndios e outras causas, fazemos serviços de jardinagem, projetos de arquitetura paisagista, consultoria agrícola, um pouco de tudo que esteja relacionado com plantas, agricultura, natureza e floresta”, conta-nos Luís Oliveira, um dos três atuais sócios da cooperativa que começou com 13 elementos.

Para o agora empresário, as questões ambientais são cada vez mais importantes e estão cada vez mais presentes na nossa consciência porque também as mentalidades estão a mudar, em especial com a chegada dos mais novos a lugares de decisão, quer na política quer nas empresas ou nas diversas instituições.

“Hoje em dia as coisas começam a mudar porque as sociedades estão cada vez menos rurais e mais urbanas, há mais jovens a virem para esta região porque encontram aqui empregos e são pessoas que vêm com uma mentalidade mais aberta para estas questões, não têm o estigma de ser comida para os porcos ou para as pessoas pobres.

Luís Oliveira & Álvaro Silva | Rupestris

O debate destas questões é cada vez mais importante para nós, não para nós Rupestris mas para a sociedade em geral. Temos que pensar cada vez mais no futuro, na sustentabilidade da vida futura, não podemos continuar a olhar apenas para o lado económico porque assim estamos a hipotecar o futuro das próximas gerações. A sustentabilidade não pode ser apenas económica, também tem que ser ambiental”.

A mudança de mentalidade é, para Luís Oliveira, um dos grandes trabalhos a ser feito e é aí que muitas vezes a Rupestris intervém, educando as pessoas para uma nova forma de estar perante o que a natureza nos dá e que até agora tanto desvalorizávamos.

“Esta é uma região muito rural mas muita gente já não conhece estas ervas espontâneas que crescem no terreno, para muitos são ervas daninhas que são arrancadas e deitadas fora, contudo há muitas que têm potencial alimentar, medicinal ou mesmo comercial. Às vezes vamos ao terreno de uma pessoa, apontamos para uma planta e perguntamos o que é que essa pessoa faz com ela, ao que nos respondem que arrancam e deitam fora, nós acabamos por lhe dizer para experimentar usar numa salada, o que deixa as pessoas um pouco perplexas, há mesmo quem diga que os seus pais ou avós davam essas plantas aos porcos e nós contrapomos logo a dizer que se os porcos eram saudáveis era porque comiam estas plantas muito nutritivas”.

O papel da sociedade civil nesta problemática

Considerar que apenas os governos e as empresas têm um papel fundamental nesta questão é um erro que muitas vezes cometemos, cada um de nós tem mudanças a fazer, das mais simples às mais complexas. Foi nesta premissa que nasceu, na rede social Facebook, um grupo intitulado “Plastic Free Vila Real (be part of the solution)”, pelas mãos da empresária Cristina Coelho.

“Este não é um movimento propriamente dito, é um grupo de partilha, foi com essa ideia que o criei.

Surgiu com a minha necessidade de mudar para uma vida mais sustentável, sem plástico. Sempre tive uma consciência ambiental e ultimamente começamos a perceber que as coisas estão mesmo mal, que as alterações climáticas não são um devaneio e que as ilhas de plástico estão lá, apesar de distantes de nós elas existem, apesar disso é visível, por exemplo, nas praias do algarve, um crescendo de lixo que ali aparece. Quando me apercebi da real dimensão deste problema fiquei assoberbada. Basta olharmos para o nosso frigorífico ou para a casa de banho e perceber a quantidade de plástico que usamos. Se fizerem a experiência de ver o lixo que produzimos em cassa durante uma semana vão perceber que uma grande maioria é plástico e, grande parte dele não faz falta.

Esta cultura de utilizarmos plástico para tudo, em especial o de utilização única, é um desvario que não tem só a ver com a nossa vida, tem a ver com o planeta, os nossos filhos, os nossos vizinhos, com os nossos netos e, aquilo que estamos a fazer é mau.

Esta consciência requer uma mudança e foi assim que este grupo começou no início deste ano. Estava em casa, a recuperar de uma cirurgia e com tempo para refletir mais e investigar mais. Apercebi-me que o que se está a passar não é nada agradável, muito pelo contrário, é tão grave como sabermos que estamos a ingerir microplásticos em tudo aquilo que comemos. Por semana nós ingerimos o equivalente a um cartão de crédito em plástico. Os estudos ainda são recentes mas as indicações que nos dão são preocupantes.

O grupo foi criado para mostrar que toda a gente pode fazer uma mudança dos seus hábitos. Esta mudança nunca é fácil mas existem alternativas para tudo”, conta-nos a empresária.

Cristina Coelho | Plastic free Vila Real (be part of the solution)

Para Cristina Coelho a questão é mais alargada que a simples separação dos resíduos, até porque, como nos conta, apenas o fazemos numa escala muito pequena. A mudança passa por mudar hábitos e reutilizar, sendo por vezes criativo.

“Todos podemos dizer que separamos o lixo mas a verdade é que apenas separamos 25% do lixo que produzimos o que significa que muito desse lixo vai para aterros e daí acaba por chegar sempre aos rios e aos oceanos. Nos aterros começa a haver a degradação do plástico e esse é que é o perigo porque se começam a libertar químicos, como o BPA, que é muito tóxico para o Ser Humano. Há estudos em animais que nos mostram que a presença deste BPA nos trás mutações genéticas graves.

Não é por acaso que há uma explosão de casos de cancro, nomeadamente da mama, eu já fui operada 3 vezes a este problema e sem qualquer antecedente que o justifique. Neste momento o cancro é ambiental, a parte genética é já uma pequena parte deste problema.

No meu caso comecei por mudar coisas pequenas como as palhinhas de plástico que os meus filhos usavam, também as escovas de dentes, que passamos a usar as de bambu. Uma das coisas que mais me custou mudar foi a pasta dos dentes, que é altamente prejudicial não só pela embalagem mas porque na sua composição também são usados microplásticos, já o champô, mudar para o sólido foi muito fácil e percebe-se pelo meu cabelo que é tão bom ou melhor que os que estamos habituados. Neste momento há alternativa para quase tudo. Depois é uma questão de também sermos um pouco imaginativos, quando ainda estava de baixa peguei numa toalha de mesa que já não usava e transformei-a em guardanapos, por exemplo, ou umas t-shirts que transformei em sacos de pano. Também peguei numas toalhas de turco, 100% algodão, e transformei em toalhitas, uma coisa que uso imenso até porque me maquilho todos os dias e usava imensas toalhitas, que poluem imenso.

Toda esta mudança é uma mudança que se faz por querer, é como o deixar de fumar, e para mim tem sido uma experiência engraçada.

Mesmo na compra de produtos uso cada vez menos plástico, vamos a uma mercearia ou diretamente ao produtor comprar fruta e legumes, que são muito melhores até porque são da época e usamos os sacos reutilizáveis, até porque aqui também entra a filosofia do quilómetro 0, ou seja, os produtos têm deslocações mais curtas diminuindo assim a pegada no seu transporte.

Como consumidores somos nós quem regula o mercado. Se vamos a um supermercado e, por exemplo, não compramos cebola porque não há nenhuma portuguesa, a empresa vai perceber isso. Obviamente que se for apenas uma pessoa não tem resultados práticos mas se toda a gente fizer o mesmo então certamente que terá consequências. Este é o grande poder que o consumidor tem nas mãos”.

Mulheres dominam na consciência ambiental

Uma das curiosidades com que Cristina Coelho se deparou é que, na sua maioria, as pessoas com maior envolvimento nesta questão são mulheres, não encontrando uma razão especial para este facto.

“O grupo existe no Facebook mas também temos uma página no Instagram, ambos com uma dinâmica muito distinta, se no Instagram temos mais contactos de marcas até para perceber como foi a experiência com este ou aquele produto, no Facebook o grupo é mais dinâmico, com uma maior participação dos membros, que já são mais de 700. Há uma interação e uma troca de experiências muito grande que também acabam por nos ensinar bastante. O engraçado é notar que a maior parte dos elementos do grupo, em especial os mais participativos, são mulheres, não sei qual a razão mas é uma evidência clara”.

Mobilidade elétrica é parte da solução

Uma das soluções apontadas para a redução de emissões de CO2 para a atmosfera é a utilização de veículos elétricos, contudo, na região do Douro são ainda poucos os postos de carregamento existentes.

Por essa razão e pelo crescente número de clientes detentores de carros elétricos, o Nosso Shopping, em Vila Real, tem a partir de agora dois postos de carregamento num dos pisos do parque de estacionamento.

“Quisemos corresponder ao desejo dos nossos clientes, cada vez são mais aqueles que usam veículos elétricos e este é um benefício que lhes podemos dar, um serviço extra que o Nosso Shopping dá aos seus clientes, deixar o carro a carregar enquanto disfrutam do nosso espaço.

Aquilo que sentimos é que os utilizadores destes veículos fazem os seus trajetos em função dos postos de carregamento que existem, sabendo dessa lacuna na nossa região também nos preparamos para isso”, diz-nos João Guedes, diretor de marketing do shopping.

Para o responsável do centro comercial, as preocupações ambientais deste espaço não são de agora e fazem mesmo parte da filosofia da empresa.

“O Nosso Shopping tem sempre na sua filosofia práticas ambientais conscientes e esta é somente mais uma iniciativa nesse sentido. Sabemos que os veículos elétricos fazem parte do futuro, não são poluentes, por isso esta medida insere-se nesta ótica de preservação do ambiente. Esta medida pode também ser uma mais valia no impulso à aquisição de veículos elétricos na nossa região. Se estas infraestruturas não existirem este setor também não crescerá. O país está a fazer essa aposta e nós aqui fazemos a nossa parte”.

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