António Lencastre: “Era uma instituição que em si era um problema e não trazia soluções”

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António Lencastre, presidente da Federação Renovação do Douro, entidade que se encontra a gerir a nova Casa do Douro/ Foto: Salomé Ferreira

Em dezembro de 2014 o Go­verno extinguiu a Casa do Douro como instituição pú­blica para passar a ser uma instituição privada. Passado um ano o VivaDouro esteve à conversa com António Lencas­tre, presidente da Federação Renovação do Douro, entida­de que venceu, em maio deste ano, , o concurso para a gestão da Casa do Douro.

Criada nos anos 30 e com uma dívida ao Estado a rondar os 160 milhões de euros, quais foram, na sua opinião, os principais problemas que levaram à extinção da Casa do Douro como entidade pública?

Eu tinha um professor de economia que me dizia que as instituições, as empresas e as pessoas, nascem, vivem e morrem. Fundamentalmente as instituições morrem quando o motivo para que foram criadas deixa de ser o seu objetivo principal. Se uma instituição é criada para desenvolver uma região ela acaba quando em vez de fazer isso se preocupa em sobreviver. No fundo foi o que aconteceu à Casa do Douro, evoluiu num sentido em que a dada altura os seus problemas internos eram maiores do que os problemas para os quais ela foi criada.

Pretende dizer então que a Casa do Douro não se preocupava com as relações com os agricultores e as instituições?

Ela chegou a um ponto em que não tinha dinheiro para pagar a funcionários, não tinha dinheiro para viver e começou a endividar-se. Nessa altura em vez de a preocupação ser virada para os lavradores, para os viticultores da região, a preocupação estava em sobreviver. Quando a preocupação está em sobreviver claro que toda a região percebeu que tinha menos apoio. Era uma instituição que em si era um problema e que não trazia soluções.

A Casa do Douro foi criada em 1932 com o principal objetivo de defender os interesses dos viticultores da Região Demarcada do Douro/ Foto: Salomé Ferreira

A Casa do Douro foi criada em 1932 com o principal objetivo de defender os interesses dos viticultores da Região Demarcada do Douro/ Foto: Salomé Ferreira

Quais são as principais vantagens que vê nesta privatização?

Eu não sou defensor acérrimo deste modelo. No meu ponto de vista esta solução tem uma vantagem, apesar de não ser a solução que eu patrocinava, acho que a solução que estava era sustentável e foi aberta uma janela de oportunidade que há muito tempo todos estávamos à espera. Essa oportunidade surgiu, nós aproveitámos e achamos que podemos ter uma solução completamente nova e diferente. O facto de ser uma Federação, em que dá a oportunidade de que cada associado passe a ser quase automaticamente uma extensão da Casa do Douro. Tínhamos uma Casa do Douro que estava completamente centralizada no Peso da Régua e hoje pode estar em todos os lugares em que os associados da Federação estão. Essa forma pode ser em si uma vantagem. A segunda vantagem nesta solução é que se separou claramente o que é a dívida do que é a representação. Claramente não herdamos nem o património nem a dívida, o que herdamos foi o direito, a obrigação de representar e defender a região. Nesse sentido nós não perdemos tempo a discutir a dívida, não perdemos tempo a discutir o património, vamos perder tempo a discutir a região e os seus interesses. O que é um modelo completamente diferente.

O facto de ser uma instituição com um grande historial de problemas financeiros não vos fez “pensar duas vezes” até decidirem propor-se a assumir este desafio?

Não porque claramente no projeto de candidatura que fizemos era separado o problema da dívida. No fundo o decreto legislativo que veio suportar a transformação da Casa do Douro veio dizer que aconteceu aquilo que era tradição do governo anterior, que da mesma maneira que criou o BES “mau” e o BES “bom”, criou também a Casa do Douro “boa” e a “má”. Nós fomos candidatos à Casa do Douro “boa”, a “má” não é da nossa alçada. Herdaremos no futuro o que sobrar da liquidação do património para pagar a divida. Isso despreocupa-nos completamente na divida mas preocupa-nos completamente no outro lado, que é a obrigação de defender os interesses e da representação. Não tivemos nenhum interesse patrimonial e o interesse patrimonial que venha agregado é uma obrigação muito pesada. Nós herdamos um nome, que neste momento é um nome pesado de carregar e herdamos uma casa em péssimo estado com custos de manutenção horríveis. O modelo de vida que nós podemos conceber para a Casa do Douro é que seja um exemplo de conhecimento, um exemplo de tecnologia, de representação, um exemplo da defesa dos interesses da região. O embrião que nós estamos a pensar hoje para a Casa do Douro é um corpo técnico de cerca de oito pessoas, diferentemente das 40, 60 ou 70 que lá estiveram. Não quer dizer que nós não queiramos a Casa, claro que se a Casa fosse destinada a um museu nós não tínhamos feito oposição nenhuma. O que nós não podíamos compreender é que a Casa estivesse na mão de uns que não tinham direito, por isso nós assumimos o controlo da Casa.

Quais são as principais mudanças nesta nova Casa do Douro enquanto associação de direito privado?

A grande diferença entre uma entidade pública e uma privada é que na pública as pessoas eram “obrigadas” a pagar quotas, enquanto na privada as pessoas têm de ser convencidas a pagar as quotas. Essa é a principal diferença. Portanto vamos ter que fazer pela vida para que as pessoas percebam que é bom estarem associadas à Casa do Douro. Não vai ser porque são obrigadas, o que era a condição anterior.

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Em dezembro de 2014 o Governo extinguiu a Casa do Douro enquanto instituição pública/ Foto: Salomé Ferreira

Sente que falta isso nas pessoas, acreditarem na Casa do Douro?

As pessoas já há muito tempo que não acreditam, não é de agora.

Considera que essa mudança vai ser fácil?

Acho que vai ser difícil. A Casa do Douro está de tal forma desmoralizada e mal vista que vai ser um trabalho muito grande conseguir recuperar o nome, a imagem e fundamentalmente a credibilidade.

Essa é a principal dificuldade agora? Fazer com que os durienses voltem a acreditar na Casa do Douro?

Sim, eu acho que é o principal desafio. Não é só os durienses, é que as instituições públicas e privadas passem a ver na Casa do Douro um parceiro credível porque até agora era só uma fonte de problemas. Quando a instituição se volta para a resolução dos próprios problemas esquece os problemas para aquilo que foi criada.

Desde a sua génese que o principal objetivo da Casa do Douro é a defesa dos interesses dos viticultores da Região Demarcada do Douro. Para além deste, que outros objetivos tem a Federação Renovação do Douro?

Se conseguirmos cumprir esse objetivo já é muito importante porque foi para isso que ela foi criada. Agora há um papel que a Casa do Douro dever ter, deve ser uma entidade inultrapassável, qualquer coisa que seja do interesse da região deve passar pela Casa do Douro, ou seja, no futuro a Casa do Douro não se deve limitar ao problema de cada um dos viticultores, deve-se preocupar também com a envolvente e com o estado socioeconómico da região. A Casa do Douro no fundo deve ser uma pedra de calque na região.

Sente que isso foi uma falha até ao momento?

É uma ausência completa. A Casa do Douro há muito tempo que não é precisa para nada.

O que é que a federação tem para oferecer às instituições/associações que trabalham com ela?

A primeira coisa que a Casa do Douro deve ter com os seus interlocutores é a lealdade de tratar as coisas com franqueza, sem mentiras e com uma capacidade técnica grande, ou seja, os problemas devem ser discutidos tecnicamente e não por influência biológica ou partidária. Os interesses essenciais desta instituição devem ser a defesa dos interesses, para isso devemos saber em primeiro lugar quais são os interesses e depois como defendê-los.

Quais são os desafios que se impõem nesta nova Casa do Douro?

É conseguir todos os objetivos que mencionei até agora. Para mim, a partir do momento que consiga defender com critério os interesses dos durienses já é uma alteração tão profunda que fico logo satisfeito. A maior concretização, em primeiro plano, seria formar um corpo técnico forte e dinâmico, esse é o primeiro objetivo, enquanto este é formado nós já estamos a trabalhar em assuntos importantes, como é o caso das novas licenças.

Na altura da tomada de posse, como caracteriza o estado em que encontrou a Casa do Douro?

Abandonada. Completamente abandonada. Eu fiz uma visita há pouco tempo, uma visita ao edifício da Casa do Douro, com o antigo presidente Mesquita Montes, que irá trabalhar connosco e que me contou um pouco de como era a Casa do Douro no seu tempo. Devo dizer que essa viagem começou com um homem alegre e vi um homem completamente abatido no final, tal é a desordem e desarrumação que se instalou. Vê-se que a Casa já não tem trabalho há muitos anos.

Esperavam que fosse tão difícil tomar posse do edifício?
Tomar posse passava pela compreensão da anterior direção que o tempo deles tinha acabado e deviam entregar o edifício. Eu não tenho o dever de fazer confrontos com ninguém. Estamos com uma constituição nova, fomos para concurso e ganhámos. Chegou um momento em que tivemos que entrar mesmo e eu disse ao Sr. Manuel António: “não podemos ficar o tempo todo a conversar”, um dia tinha que sair, não saiu da forma que eu queria, saiu da forma que foi possível.

E esperava essa “hostilidade”?
Eu digo com sinceridade que não foi bom para o Douro, não foi bom para quem saiu nem foi bom para quem entrou, foi a única opção que tivemos porque a opção melhor era sair com dignidade, e entrar com dignidade.

Mesmo assim, entrou com dignidade?
Sim, acho que entrámos com a dignidade possível, entramos com a dignidade de quem tem direito e fez uso do seu direito. É constitucional, é legítimo e não é crime.

Para já qual é o próximo passo para reabrir a Casa do Douro?
Criar um corpo técnico válido.

Quando fala de corpo técnico está a falar de profissionais ligados à agricultura?

Haverá vários ramos que influenciam diretamente na agricultura, um deles é a Agronomia, devemos ter alguém muito bom em Agronomia, que já temos, a Dra. Anabela. Haverá alguém que também deverá ter um bom currículo na área da Enologia, precisaremos de alguém na área da Administração e na área da Economia, para  termos uma leitura completa da região. Somos do Douro e queremos defender o Douro, mas temos que saber como é que vamos fazer e o que é que é melhor para a região e isso só sabemos estudando e ouvindo as pessoas.

Para quando têm programada a reabertura da Casa do Douro?

Primeiro temos que estabilizar a posse, é o que estamos a fazer e providências cautelares são mais que muitas. Ninguém se conforma com as derrotas sucessivas que têm vindo a ter e ainda por cima quando falam em alguma vitória provavelmente é a má leitura de uma derrota, que é o que tem acontecido ultimamente. Primeiro temos que estabilizar a posse, logo que tenhamos a posse estabilizada e condições mínimas, eu e a Dra. Anabela estaremos lá.

Que garantias é que podem fazer aos viticultores durienses?

A primeira garantia é dada pelas próprias pessoas, todos nós somos viticultores. Eu sou viticultor a 100%, estou envolvido numa cooperativa. Na direção temos o Sr. Camilo que é viticultor e está envolvido na direção de uma cooperativa, temos o Dr. Mário Lopes que é diretor de uma cooperativa, ou seja, são pessoas que lidam com viticultores, somos gente que está envolvida com a região, por isso, a primeira promessa é cumprir o nosso desígnio, é cumprir as nossas expectativas. Se nós defendermos a Casa do Douro estamos a defender-nos a nós próprios, e essa é que é a nossa grande diferença. Essa leitura, esse envolvimento é o que todos podem contar.

Para terminar, quem é António Lencastre?

Sou formado em Engenharia Civil, as minhas raízes no Douro são desde o séc. XVI, somos uma família enraizada aqui desde sempre. Tenho um percurso engraçado, porque nasci em Lisboa, vivi no Brasil durante 17 anos e formei-me no Brasil. Voltei a Portugal e liguei-me de imediato à exploração direta do Douro, desde 1997, já tenho algum pedal no Douro. Considero-me, em primeiro lugar, alguém que gosta das raízes que tem e em segundo, sou completamente desligado de um passado difícil, porque esse já passou e por isso, só o facto de vir de fora, trago novas ideias, acho que tenho um bom currículo para estar no lugar que estou, com modéstia (risos).

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