“As cooperativas são por contraposição à empresa capitalista a solução do futuro”

São João da Pesqueira voltou a receber, pelo 10.º ano consecutivo, mais uma edição das Jornadas Cooperativas/ Foto: Salomé Ferreira

São João da Pesqueira voltou a receber, pelo 10.º ano consecutivo, mais uma edição das Jornadas Cooperativas/ Foto: Salomé Ferreira

São João da Pesqueira voltou a receber, pelo 10.º ano consecutivo, mais uma edição das Jornadas Cooperativas, numa organização conjunta das Cooperativas Agrícolas de S. João da Pesqueira, Penela da Beira e Castanheiro do Sul, a Associação Portuguesa de Management e a Associação dos Amigos de Pereiros. O VivaDouro esteve à conversa com Alberto Júlio Silva Fernandes, presidente da Associação dos Amigos de Pereiros e impulsionador desta iniciativa.

As Jornadas Cooperativas já se realizam há 10 anos, como é que surgiu este evento? Como é que decidiram começar estas jornadas?

Há cerca de doze anos, algumas pessoas responsáveis pela gestão de Cooperativas na região do Douro, mais concretamente do concelho de S. João da Pesqueira e de Penedono,  tinham a convicção de que não seria possível continuar e sobreviver com um conjunto de problemas para os quais não se vislumbrava solução a curto/médio prazo.A falta de interesse pelo associativismo em Portugal, com particular destaque na região do Douro, não contribuía, de forma alguma, para que o cooperativismo se tornasse num sector da economia de grande dimensão e de vital importância para os agricultores. As próprias Cooperativas não tinham uma atitude dinâmica junto dos seus membros, nem do mercado. Com uma gestão pouco profissional e em muitos casos sem rigor, as Cooperativas foram perdendo espaço de intervenção, assistindo muitas vezes cómoda e  ingenuamente ao aparecimento de empresas e estruturas paralelas de maior dimensão que  respondiam melhor e mais rapidamente às necessidades do mercado. É igualmente verdade, que sendo o sector cooperativo, reconhecido pela própria Constituição da Republica Portuguesa, nunca o Estado e as autarquias, lhe reconheceram,  até hoje, o Estatuto que lhes é devido, nem a importância que as mesmas têm no domínio da  economia familiar, da coesão social, criação e estabilidade de emprego, em zonas onde as  grandes empresas não marcam presença. Daí que um grupo de cinco a seis pessoas de três Cooperativas, começaram a encontrar-se mensalmente para refletir sobre a realidade cooperativa e quais os caminhos que deveriam ser tomados para ultrapassar muitas das dificuldades sentidas por todos e descortinar se poderiam encontrar soluções em conjunto ou que servissem a todos e a cada um.

Qual é o principal objetivo deste evento?

Formar e informar os agricultores, o público em geral e os autarcas do que existe de mais recente e inovador nas diversas etapas da produção à mesa do cliente final. Há por detrás destes objetivos concretos um outro mais ambicioso o de realizar no interior do país um evento de grande qualidade organizativa, mas sobretudo na divulgação e transmissão de conhecimentos científicos, de gestão e de experiências de vida.

Quais são os principais benefícios que os agricultores podem retirar desta iniciativa?

Para além do  conhecimento e enriquecimento pessoal, as próprias estruturas das suas organizações, têm  assumido melhorias significativas que revertem, obviamente, em benefício dos agricultores. Acrescentaria ainda que, não só mas também, uma das eventuais consequências destes eventos e das sensibilizações que provocam foi a instituição, pelo município de S. João da Pesqueira de um Regulamento de Apoio ao Cooperativismo. São muito poucos, senão raros, os municípios que dispõem desse instrumento, do qual resultam benefícios para todos.

Quais são os principais desafios das cooperativas neste momento? Principalmente daquelas que se localizam em zonas do interior do país.

Considero que os principais desafios se colocam em três patamares. O primeiro será a implementação de uma gestão empresarial e conquistar uma atitude  competitiva no mercado concorrencial e cada vez mais global. O segundo é ganhar dimensão, através de fusões ou a diversificação e complementaridade de produtos. O terceiro consciencializar-se da importância que têm, sobretudo no interior do País, sob o ponto de vista do desenvolvimento económico, criação de emprego e coesão social e  fixação das populações. As cooperativas, ao contrário das empresas, não estão sujeitas ao fenómeno da deslocalização. Por último, fazer ouvir a sua voz junto dos autarcas e da Administração Central, para que lhe seja reconhecida e ocupem na economia o papel que a Constituição lhe reconhece.
A agricultura é fulcral para ajudar no desenvolvimento das zonas do interior?

Sem dúvida alguma. A agricultura é um recurso endógeno, com grande potencial de crescimento. Não somos autossuficientes na quase totalidade dos produtos agrícolas.

Qual é o papel que as cooperativas constituem na criação de sustentabilidade nestes territórios?

As cooperativas são por contraposição à empresa capitalista a solução do futuro. Alguns ainda têm dificuldade em entender e aceitar que numa cooperativa a dicotomia patrão/empregado não existe. A realidade tem muita força e acabará por se impor.

Acredita que este tipo de iniciativas dá força ao empreendedorismo local e ao cooperativismo?

Não tenho dúvidas. Temos sentido isso ao longo dos anos

Que balanço faz desta 10.ª Edição das Jornadas Cooperativas?

O balanço é muito positivo. Os comentários/sugestões que nos têm sido transmitidas, pelos participantes e também dos oradores, são bastante lisonjeiros, encorajando-nos a prosseguir e incentivando -nos a publicar um livro com as mais significativas e ainda atuais  intervenções, das diversas Jornadas realizadas.

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