Caretos de Lazarim em casa no caminho para a UNESCO

Entrudo de Lazarim é uma festa que já ultrapassou as barreiras da vila transfor­mando-se num símbolo do concelho de Lamego na pro­moção turística nacional e in­ternacional. Este ano, devido à pandemia da Covid-19, os caretos não saem à rua e os milhares de turistas não tra­rão alegria à vila que aguarda a conclusão do processo de elevação desta tradição a Pa­trimónio Cultural e Imaterial da UNESCO.

Apesar do anunciado tom saudosista da conversa que se avizinha, é recorrendo ao humor que Adão Almeida, um dos mais an­tigos artesãos das máscaras de Lazarim, dá o aperitivo.

“Se eu tivesse 20 anos uma coisa lhe garan­to, um careto ia à rua (risos…) Eu tinha que ir à rua com ela, viesse de lá a fiscalização ou quem fosse… Até é uma máscara por isso protege contra o Covid (risos…)”.

Já num tom mais sério conclui a sua ideia, “não com o povo todo, obviamente, mas era bonito que dois ou três caretos saíssem à rua, a passear no povo para que as pes­soas os pudessem ver da sua janela. Pelo menos o nosso povo marcava o dia. Passar este ano sem ver um careto na rua vai ser muito triste”.

Este ano a celebração foi feita de forma diferente, os caretos apareceram, mas em vez do tradicional desfile as máscaras esti­veram penduradas nas portas das casas dos moradores da vila.

“Na minha infância as coisas eram diferen­tes, quando era ainda um miúdo os caretos saíam à rua mais para beber um copo, iam batendo às portas e animavam o povo. De­pois, mais tarde, tinha eu os meus 16, 17, 18 anos, por aí, queimávamos a comadre e líamos o testamento, que habitualmen­te falava mal das raparigas da aldeia, e isso causava alguns problemas com alguns pais a quererem bater-nos (risos…).

Com o passar dos anos foram percebendo que era uma brincadeira e com a chegada dos turistas para verem as nossas tradições tudo passou a ser levado com mais leveza e agora até acham piada ao que o testamento diz”, conta-nos Adão Almeida.

O turismo é efetivamente uma mais valia para a vila que se enche de gente para assis­tir às celebrações do entrudo que as gentes de Lazarim se orgulham de mostrar.

“O turismo trouxe outro valor a esta tradi­ção, mesmo nós valorizamos mais tudo isto. Antigamente havia caretos que saiam à rua só para bater, algum ajuste de contas, se alguém perguntasse tinha sido um careto, não se sabia quem era. Agora não, agora vive-se mais o entusiasmo de mostrar às pessoas a nossa tradição”.

Um dos problemas das tradições é o seu desaparecimento com a chegada das novas gerações, contudo, em Lazarim isso não é um problema, reconhece Adão Almeida.

“Felizmente ainda há vários artesãos nesta área, só eu, aqui no meu espaço, já formei 5 artesãos que agora fazem as suas próprias máscaras”.

Autarquia fala em tristeza e esperança

A tristeza pela ausência dos Caretos nas ruas da vila é também “uma grande triste­za” para o autarca lamecense, Ângelo Mou­ra que desafiou os artesãos das máscaras a colocarem um careto à porta de sua casa “simbolizando esta passagem”.

O autarca afirma que apesar do “acentuado decréscimo dos casos diários, à imagem do que acontece a nível nacional, esta ainda não é a altura para aligeirar os cuidados, em especial no que diz respeito às regras sani­tárias impostas pelas autoridades, como o distanciamento físico”.

Apesar do dia ser vivido com menos alegria, Ângelo Moura refere que este é também um dia de esperança para os lamecenses.

“Hoje, no nosso município, iniciamos uma nova fase da vacinação com esta a chegar à população mais idosa, mais vulnerável. É uma mensagem de serenidade, tranquili­dade e esperança de que as máscaras e o Entrudo de Lazarim voltarão em 2022”.

Candidatura a Património da Humanidade

Em 2018 a autarquia lamecense decidiu candidatar a máscara e o Entrudo de La­zarim a Património Cultural e Imaterial da UNESCO. “Foi um propósito que colocamos desde a primeira hora”, afirma o autarca.

“Quando manifestamos esta ideia, em 2018, tínhamos a noção que este seria um caminho longo, durante o qual teríamos que dar passos sustentados e certos. É isso que estamos a fazer.

Ao longo desta primeira fase temos feito várias ações, nomeadamente a inventaria­ção e catalogação das máscaras existentes. Neste momento estão inventariadas e cata­logadas mais de meio milhar de máscaras, muitas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, desde o Canadá, aos EUA, Brasil, Ja­pão… constituindo coleções particulares de instituições de grande afirmação mundial. Fizemos também diversas ações para envol­ver a comunidade, de sensibilização e pre­servação. Uma aposta essencialmente em ações de salvaguarda deste património”.

Os “passos firmes” que o autarca refere têm sido condicionados por acontecimen­tos alheios ao município, que têm condicio­nado o andamento da candidatura.

“De facto ao longo destes 3 anos outras fac­tualidades surgiram, uma saudação para a elevação dos Caretos de Podence a Patrimó­nio Imaterial em dezembro de 2019 que to­dos aplaudimos e que nos dá também alento no nosso sucesso. Depois veio março e a pan­demia que nos arrastou para um confinamen­to mundial com as consequências que todos conhecem. Foram dois acontecimentos, um positivo, outro negativo, que também têm condicionado todo este processo”.

Apesar de tudo isso, na hora do balanço deste processo, Ângelo Moura destaca ain­da outro momento crucial para esta tradi­ção carnavalesca, anunciando que até ao final deste ano a máscara e o Entrudo de Lazarim farrão parte do Inventário Nacional Cultural e Imaterial.

O autarca afirma finalmente que o município vai “iniciar um trabalho na construção de um Plano de Salvaguarda”, com vista a alcançar o objetivo de ter “as máscaras e do Entrudo de Lazarim na lista de Património Cultural e Imaterial da UNESCO, num futuro que todos desejamos o mais breve possível”.

Para o artesão Adão Almeida a distinção da UNESCO seria a “distinção máxima” para um trabalho que ajuda a perpetuar e que “faz parte do povo de Lazarim”.

Com dificuldade em escolher as palavras que representem o que esta distinção po­deria significar, Adão Almeida afirma que “seria uma orgulho muito grande”.