Francisco Moita Flores: “O populismo está instalado no discurso político em geral, como o álcool está no vinho”

Entende que o facto de ser alente­jano seja uma mais-valia relativa­mente a outras regiões mais aglo­meradas, mais urbanizadas, mais agitadas e/ou mais ruidosas paisa­gisticamente?

Sou alentejano por nascimento. A longa vida já percorrida, tornou­-me cidadão do Mundo. Do Alentejo habita em mim, como uma heran­ça definitiva, a minha memória de criança, o amor pela gastronomia, as pedras, as ruas e as praças de Mou­ra, o cantar alentejano e os meus amigos de infância. Creio que, nes­te momento, viver no Alentejo, em Trás-os-Montes, nas Beiras, é um ato de resistência ao abandono, à desertificação, ao envelhecimento a que sucessivos governos votaram o interior do País. Porém, entre viver numa das duas grandes metrópoles ou numa região mais pacata, optaria claramente pela segunda solução.

E se fosse natural do Douro, gosta­ria? Se sim, onde não se importaria de viver nessa região e porquê?

O Douro é uma das minhas grandes paixões. Gostaria de viver no Vesú­vio para todos os dias me refastelar naquela monumental paisagem que abarca as montanhas e o rio.

Qual o motivo do seu primeiro romance policial, “A Fúria das Vi­nhas”, ter como cenário nos socal­cos durienses? Também conhece a região pelo seu escrito televisivo / série “A Ferreirinha”. Passada mais de uma década o que está, para si, melhor e pior no Douro?

A “Fúria das Vinhas” tem umas pin­celadas de romance policial, no en­tanto, a história essencial é sobre o terrível combate que D. Antónia Fer­reira travou contra a filoxera. Uma epopeia notável. Não consigo dizer se alguma coisa está pior nessa re­gião. Quando ali entro, julgo-me sempre no Paraíso. Sem mácula.

A ver pelos anos em que esteve na Polícia Judiciária (tanto como ins­petor bem como assessor da Dire­ção) era um trabalho de que gos­tava, daí ter regressado após dois anos de interrupção. Que razão fez com que deixasse realmente a PJ, mantendo a paixão policial nos seus livros e produções televisivas?

Novos desafios. Dediquei-me à in­vestigação científica e à ficção. Fica­ram gratas recordações. Porém, fui sempre um espírito inquieto, procu­rando saber mais, conhecer mais. E caminhei por outras estradas, dando aulas, fazendo conferências, escre­vendo ensaios e… ficção.

Ainda detém a produtora multimé­dia e de filmes que fundou, mas não temos presenciado tantas séries ou produções suas como outrora. Tem em vista alguma grande produção para breve e sobre quê? Ou, não tendo, que conteúdos / história ve­rídica gostaria de produzir para o grande público?

O ritmo de trabalho abrandou. A idade já é outra. Escrevi 16 séries para televisão. Seis filmes. Sete peças de teatro. Está para sair o meu déci­mo segundo romance e está em pro­dução uma série que escrevi para a RTP. É muito trabalho construído e que fica como contributo para a cul­tura do nosso País.

E em termos de livros, qual o ro­mance que ainda não escreveu e com que sonha dar vida artístico­-literária?

É sempre o próximo. Não sei qual. Mas tenho a certeza de que é o próxi­mo. É este estranho sentimento que nos motiva para escrever. Acreditar que o próximo trabalho é o mais feliz da nossa vida. Mas também sei que ao terminar uma obra, essa certeza se renova quando agarrar um novo projeto.

Mas sei que tem já previsto para breve mais uma publicação sua. Pode adiantar-nos um pouco sobre essa obra?

Aproveito, então, para informar que em maio sairá o meu novo romance, com o título “Os Cães de Salazar”. É uma história sobre o atentado contra Salazar, no verão de 1937. Uma his­tória bem engraçada por sinal.

Se voltasse a ter um convite suges­tivo para se candidatar / presidir a uma câmara municipal, como no passado, aceitaria? Em que moldes, por que partido e mesmo se her­dasse uma dívida pesada? Como combateria isso e outros problemas administrativo-legais que enfren­tam as câmaras a par das juntas de freguesias?

Esse tempo acabou. Já tive convites mas acabou. Foi uma experiência datada no mundo da política. Não regressará.

Como vê determinadas políticas populistas com que nos deparamos e que vai crescendo em certos agen­tes da sociedade, que não somente conetados com alas extremistas e/ou esquerdistas?

Hoje falar de populismo como se fosse uma arma de partidos extre­mistas é uma ilusão. Todo o discur­so normalizado está impregnado de populismo. As exigências impostas pela revolução cibernética, devora­dora de notícias, de casos, de gran­des factos, de pequenas coisinhas, impuseram ritmos de imediatismo à política que vivemos com um discur­so dominante que se centra na vir­tualidade e afasta os grandes proble­mas que exigem respostas de longa duração. O populismo está instalado no discurso político em geral, como o álcool está no vinho.

Contra ou a favor da eutanásia, pelo menos considera haver muitos mais contras do que prós. Como perspetiva o futuro com as recentes aprovações dos projetos de lei no Parlamento?

Não sou contra a eutanásia. Nem sou a favor. Isto é, julgo que cada um tem o direito inviolável à Vida, à liberda­de absoluta dentro das normas cons­titucionais e a esse encontro pessoal e definitivo com a sua própria morte. Não quero decidir sobre a morte de outros. Se assim o entender, quero ter o direito de decidir sobre a minha morte. Mais nada do que isto.

Em termos de saúde pública – e seus sistemas de informação / comuni­cação – Portugal também não tem estado bem em especular demais e anunciar suspeitos com o corona­vírus, não passando disso. Para si, o que leva a esta precipitação e de­sestabilização geral na propagação de notícias dúbias e falsas, também provenientes dos próprios hospi­tais e ministério da Saúde?

Há uma histeria mais ou menos ma­nifesta em torno do coronavírus e da chegada do bicharoco a Portugal. É uma outra forma de populismo, in­cendiando os medos, os alertas, e as ameaças. Julgo que os discursos dos responsáveis da Saúde vão no senti­do oposto. Apelando à serenidade e à confiança. Porém, o que fica é o ala­rido em torno dos mortos, dos con­taminados. Gráficos de morbilidade e mortalidade. Enfim, uma panóplia de informação como se estivéssemos em véspera do Apocalipse. Não esta­mos. Veja-se como nos países euro­peus onde já contabilizam infetados, o sistema de controlo é tal, que não se notam sinais de alastramento.

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