Obra de Miguel Torga inspira ópera criada no Douro

Nascida da vontade de Eduarda Freitas em escrever algo, o libreto ficou pronto em 2015, passando depois por um longo caminho até se estrear em palco, no próximo mês de dezembro.

Foto: Lino Silva

“Desde sempre andei envolvida em projetos e ia escrevendo algumas coisas para alguém cantar ou para teatro, por exemplo. Um dia simplesmente lembrei-me de pegar em todo esse conhecimento de desenvolver um libreto para uma ópera, porque é um género que agrega a maior parte das coisas que eu gosto.

Não foi algo muito pensado para ir a palco, foi mais pelo desafio da escrita que é algo que gosto muito. Como toda a gente escreve livros eu decidi escrever um libreto (risos), é um nicho de mercado (risos)”, conta Eduarda.

A autora conta ainda que, desde que pensou escrever o libreto, Miguel Torga foi o nome inspirador que lhe veio à mente. Contudo inspirar este trabalho em Miguel Torga e na sua obra era um risco, daí a decisão de utilizar os próprios escritos do autor duriense.

“Basicamente o libreto não tem nenhuma palavra da minha autoria, fui aos Contos e aos Novos Contos da Montanha e retirei as personagens que melhor se adaptavam ao que tinha pensado e coloquei-as a contracenar num outro espaço diferente, usando os mesmos discursos.

Ou seja, criei um conto novo a partir de partes dos diferentes contos e das personagens. A poesia, também de Torga, surge pela necessidade que tinha que algumas vezes as personagens refletissem sobre algo, que ganhassem mais corpo”.

Foto: Lino Silva

Ao terminar a obra, Eduarda Freita foi partilhando o resultado com alguns amigos que a incentivaram a avançar para uma apresentação em palco o que requeria um passo difícil, a autorização da filha de Miguel Torga para o uso dos textos do seu pai.

Concedida a autorização, o passo seguinte foi o registo na SPA, ao qual se seguiu a apresentação a uma série de instituições com o objetivo de conseguir financiamento.

“Apresentei o projeto a diversas entidades e acabou por ser a UTAD a querer ficar com ela para a levar a palco. Entretanto o Emídio Gomes saiu da CCDR-N e diversos projetos ficaram suspensos, um deles foi a Mátria.

O desejo de ver a ópera em palco acabou por nunca esmorecer e fui apresentando o projeto a diversas entidades. Nunca duvidei que a subida a palco fosse acontecer, mas foi um processo longo e um pouco desgastante.

Entretanto decidi criar uma empresa, e acabei por candidatar o projeto à DG Artes. Não era o financiamento total mas já era uma grande ajuda, que veio juntar-se ao apoio que tivemos dos Teatros de Vila Real e Bragança. Posteriormente a CCDR-N acabou também por se juntar e o espetáculo de estreia estará inserido nas comemorações dos 20 anos do Alto Douro Vinhateiro Património Mundial”.

Eduarda Freiras – Foto: Lino Silva

Uma das características particulares desta ópera é a não utilização de cenografia. Todo o enquadramento das cenas será feito por um dos coros, constituído por pessoas da região.

“A ideia foi em especial do encenador e tem por base dois princípios, o primeiro é que a cenografia para uma ópera desta dimensão, com muitas mudanças de cenário, ficaria muito dispendioso, o segundo prende-se com a própria participação das pessoas, acreditamos que a comunidade deve estar realmente envolvida num projeto destes, não apenas aparecer em palco por uns segundos e nada mais.

 Foi um desafio gigante que lhes fizemos mas tem corrido muito bem e nota-se uma grande aplicação de todos os participantes.

Inicialmente este coro estava pensado para cerca de 200 pessoas, contudo com o Covid acabamos por ter que fazer algumas alterações e, em palco, só terá nove elementos”.

Em palco estarão ainda sete solistas, que darão voz às criações de Fernando Lapa. A encenação fica a cargo de Ángel Fragua e a condução da orquestra nas mãos de Jan Wierzba. Para além do coro comunitário em cena estarão também os Moços de Coro.

Para Eduarda Freitas as “expectativas para a estreia não são demasiado elevadas”, confessa.

“Adorava que as pessoas fossem ver até porque é um projeto que nos está a dar muito trabalho por isso espero que a sala não esteja vazia

É um projeto em que estamos diretamente envolvidos em todas as fases, o que lhe confere vantagens e desvantagens. Uma desvantagem é o cansaço que vamos acumulando e outra é o receio de ter uma visão demasiado “de dentro”. Por outro lado é um privilégio poder estar em todos os momentos, desde a criação até ao baixar final do pano em palco”.

A estreia de Mátria em palco está marcada para o próximo dia 17 de dezembro, no Teatro Municipal de Vila Real, com mais dois espetáculos a 18 e 19. Cerca de um mês depois, a 20 de fevereiro, será a vez do palco do Teatro Municipal de Bragança.