Teatro online para combater isolamento

Um dos setores mais afetados pela pandemia é a cultura, com o cancelamento ou adiamento de espetáculos a oferta é neste momento nula mas há novas soluções a serem exploradas como é o caso da exibição de uma peça de teatro online pela Associação Vale d’Ouro.

Luís Almeida é o presidente da associação que tem sede no concelho de Alijó. As experiências online da associação não são novidade, semanalmente transmite, em vídeo, na rede, o programa de rádio “Para Cá dos Montes”.

Numa conversa com o VivaDouro após a exibição da peça “Falar Verdade a Mentir”, Luís Almeida fez um balanço da iniciativa e do papel da cultura nesta situação sem precedentes.

Como correu a transmissão da peça?

Foi uma experiência nova. Tínhamos feito a recolha destas imagens em outubro numa pequena antestreia técnica que organizamos para alguns convidados, sobretudo da área do teatro, com o objetivo de analisar o desempenho dos atores e eles próprios corrigirem detalhes técnicos, marcações, expressões. Não foi, por isso, um suporte criado para este efeito, mas sim para trabalhar e melhorar a peça. Como verificamos que estava em condições mínimas de ser exibido, aproveitamos o momento atual, para partilhar na internet, até porque estávamos com espetáculos agendados que foram, entretanto, adiados. O próprio município de Alijó integrou na sua agenda municipal esta exibição. Houve um contacto com o vídeo de cerca de 1300 pessoas e assistiram ao espetáculo cerca de duas centenas de espectadores no Facebook e Youtube. Se pensarmos que temos muitas salas na região que não tem esta capacidade, eu diria que são excelentes resultados. E é interessante que diariamente continua a haver contactos com a peça.

A associação tem já algum histórico em transmissões online, em espacial com o programa “Pra cá dos montes” que é transmitido também numa rádio local. Esta experiência foi útil na transmissão da peça?

Sim, claro! Até antes do “Para Cá dos Montes”, que foi um desafio que colocamos logo de inicio à UFM e que o Luís Mendonça desde logo abraçou, incentivou e disponibilizou os meios da rádio. Nós, Associação, há já algum tempo que fazemos suporte de vídeo de alguns dos nossos espetáculos, sobretudo para trabalharmos algumas questões técnicas e analisar posteriormente. Fazemos das Galas da nossa Academia de Ballet, de outras peças de teatro, embora não estejam em condições de ser exibidas e claro do Para Cá dos Montes. Ganhou-se experiência, vão-se adquirindo alguns meios e rotinas fundamentais para que a recolha e posterior edição possa apresentar mais qualidade e mesmo antes de toda esta interrupção do nosso quotidiano ter começado, estávamos inclusivamente a gravar programas do “Para Cá dos Montes” no exterior: em Podence, Tabuaço, Santa Marta de Penaguião, Lamego e temos em mente ainda uma grande surpresa para breve que terá no vídeo e nas redes sociais uma grande presença.

Tendo em conta o prolongar da situação de Emergência Nacional com os portugueses a continuarem em casa, está prevista mais alguma iniciativa do género?

Nós dispomos de um vasto arquivo que nos foi entregue por um dos sócios mas que está sobretudo em VHS. É também um arquivo referente sobretudo à vila do Pinhão. Estamos a procurar equipamentos que nos permitam a conversão e recuperação da totalidade desses suportes. Nessa linha, este Domingo de Páscoa exibimos durante a tarde uma Gala Comemorativa do 10.º Aniversário da Elevação do Pinhão a Vila. Entendemos que o conteúdo, sobretudo trata-se de um espetáculo de música ao vivo, poderia interessar não só os habitantes do Pinhão como também a região e resolvemos exibi-lo na nossa página e no Youtube. De eventos mais recentes, a Associação dispõe de alguns suportes que poderá vir a lançar mas que iremos avaliar a cada momento. Até lá, continuamos a produzir semanalmente o Para Cá dos Montes que tem também exigido um pouco mais ao nível da edição e onde temos experimentado novas abordagens e estamos também com um novo formato e até cenários, apesar do tema ser a pandemia e a forma como a região tem reagido.

A cultura tem sido uma das áreas mais afetadas pela crise que vivemos. Como presidente de uma associação que tem na cultura um dos seus grandes pilares, como pensa que irá este setor recuperar após a pandemia?

Neste momento a prioridade é a saúde pública e encontrar soluções para debelar este problema. E essa deve ser a principal preocupação.

As associações como a Associação Vale d’Ouro produzem cultura com um modelo que já resistiu a diversos problemas, crises e dificuldades. Temos sobrevivido porque nos temos reinventado e encontrado novas formas de fazer aquilo que gostamos. Optamos pelo layoff dos nossos colaboradores e por soluções que nos parecem poder mitigar, dentro das nossas possibilidades, outras situações que tínhamos na nossa equipa. Mas, como sabes, a nossa atividade é sobretudo voluntária. Temo que muitas empresas do setor cultural possam passar maus bocados mas estou confiante, que à semelhança de soluções encontradas para outros setores, o governo também aqui dará opções.

No caso de associações como a nossa, e que esta região terá à volta de 100 a 150, talvez mais, penso que o nosso desejo é regressar o mais rapidamente possível a fazer o que gostamos: seja o folclore, os grupos de cantares, o teatro, o desporto. Estamos habituados a ter o “calor humano”, trabalhar para as pessoas e com as pessoas. Acho que o mundo vai mudar, mas tenho uma esperança que mude para melhor e que vamos dar mais valor uns aos outros, àquilo que somos e àquilo que fazemos. Acredito, por isso, que vamos conseguir continuar a fazer o que sempre fizemos, talvez com mais paixão e mais amor. Mas também acredito que isso não será já este verão ou até se encontrar um tratamento adequado. Temos que ter consciência que as medidas da DGS vão-nos acompanhar durante meses e que encher um auditório com 100/200/300 pessoas não vai ser opção durante muito tempo. Teremos que nos adaptar, mas vamos estar cá para ajudar a nossa sociedade e todos aqueles que agora, ou mais tarde, precisem de nós.

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