Zigurfest celebra 10 anos com edição especial

O sol de fim de tarde, o relvado onde, sentados, embarcamos numa conversa com Afonso Lima, um dos organizadores do Zigur­fest, David Bruno e Pedro Pestana, dois dos artistas presentes nesta edição de décimo aniversário, são o cenário ideal para um diálogo que, tal como o próprio evento, caminha por diferentes percursos, alimentado pelas visões indivi­duais de cada participante.

A pandemia da Covid-19 trouxe ao mundo ar­tístico mudanças profundas, se nos cinemas e teatros, por exemplo, as lotações das salas foram limitadas a metade, os concertos pra­ticamente desapareceram das agendas de ar­tistas e promotores, contudo, como uma gota no oceano, o Zigurfest vai acontecer, mudan­do o seu formato mas mantendo a essência: levar a música a locais icónicos da cidade de Lamego.

“Essencialmente é um ano de sentimentos um pouco dolorosos para nós. Este é o déci­mo ano do Zigurfest portanto pretendíamos festejar de forma diferente, tínhamos pla­neado trazer bandas e artistas que já tinham passado pelo festival para mostrar o traba­lho que tinha sido feito ao longo dos últimos anos. Fazer isto com essa comunidade que se foi criando ao longo dos últimos anos seria especial.

Podíamos ter adiado mas essa era uma deci­são fácil, como o Zigur é um festival que não precisa da bilheteira, está montado de forma a não precisar disso, então podemos correr riscos que outros promotores não podem correr daí ter sido possível avançar e também garantir a quem vive disto que continua a ter palcos.

Não vai poder acontecer exatamente nos moldes em que habitualmente acontece, em vez de 4 dias será em diferentes datas até ao final do ano, e diversos espaços porque não podemos criar grandes aglomerações.

Obviamente que um dos palcos principais, até porque é a casa principal do festival, é o Tea­tro Ribeiro Conceição, outro espaço impor­tante, porque é um dos nossos parceiros, é o Museu de Lamego, onde será o concerto dos 10000 Russos”, afirma Afonso Lima.

Para Pedro Pestana, elemento dos 10000 Rus­sos esta é a oportunidade de regressar aos palcos, situação que, apesar de difícil é abor­dada com algum humor pelo músico.

“Nós tínhamos cerca de 100 concertos por ano e passamos a 0, ou melhor, na verdade passamos para 1 (risos).

O grande statement em teres um festival, e quereres continuar a fazer coisas, é que isto não pode parar. Não podemos ir apenas jan­tar fora, tomar um café e beber cerveja, tem que haver mais qualquer coisa.

Os concertos só por si não são nocivos à saú­de, há forma de os fazer sem serem nocivos quer para os músicos quer para o público, isso é o mais importante”.

Também para David Bruno esta é uma opor­tunidade de voltar aos palcos e a um palco, o do Teatro Ribeiro da Conceição, que conhece bem, foi ali que gravou o seu primeiro álbum “ao vivo”. Para o músico que tem a portugali­dade como inspiração no seu trabalho, atuar no interior, tocar no Zigurfest é ainda mais especial.

“É um regresso que sabe bem. Tenho agora uma série de concertos que marquei e que nunca serão rentabilizados como poderiam ser. Eu não vivo só da música, por isso se ga­nhar só metade do dinheiro continuo a ter que comer e onde morar. Por isso o que estou a tentar fazer é tocar onde posso, nem que seja em salas mais pequenas, não tenho ne­nhum problema com isso.

Vai ser bom tocar de novo. Se eu não tives­se lançado o álbum antes da quarentena não tinha feito nada, a minha música vive muito de observar a nossa vida do dia a dia e estar em casa para mim foi zero em termos de ins­piração.

Eu sendo um defensor da portugalidade, vol­tar a tocar neste festival, que para mim é o mais português de Portugal, é muito bom. É de valorizar a iniciativa de quem simplesmen­te não adiou ou parou, que faz um esforço maior por realizar um evento com menos pes­soas. Com menos gente os concertos podem ser ainda mais incríveis, até porque as pes­soas estão muito sedentas de voltar a ver mú­sica ao vivo por isso acho que vai ser especial”.

O mote dado por David Bruno despoleta um diálogo entre os três entrevistados que va­gueia entre a seriedade do assunto e o humor.

“Isso depende do contexto, do que estás a fa­zer, do que tocas e das pessoas que estão, não há uma regra”, afirma Pedro Pestana

O que é transversal e que me parece ser mais problemático é o pessoal ter que estar sentado. Com música há uma necessidade inerente em dançar quando a música assim o pede e isso não se pode propriamente fazer na cadeira. Há algumas soluções que vemos serem testadas e que podem ser mais agra­dáveis, ou não, mas ainda não encontramos a solução porque também ainda não fizemos o suficiente.

Quanto ao grau de imersão das pessoas, se estiveres a fazer música para o corpo as pes­soas sentadas vão estar naquela, se é para a cabeça então tudo bem. Se fizeres para os dois também está tudo bem porque tanto dá para um lado como para o outro.

Com tudo isto surgiu-me uma dúvida, daque­las de casa de banho (risos). Se isto perdura, até que ponto é que vai haver uma mudança fundamental na música em que se note que passa a ser feita para gente sentada, ou nou­tro contexto, não tanto para abanar o corpo”, completa o elemento dos 10000 Russos.

“Por acaso também já tive essa dúvida, in­clusivamente na programação desta edição. Tínhamos pensado em alguns artistas que são fundamentalmente para música de cor­po que não fazia sentido ter”, afirma Afonso Lima.

“Eles não iam ficar contentes no final do concerto”, remata David Bruno. “Eu tenho repertório suficiente para fazer um concerto numa danceteria para velhotes sentados sem problema nenhum (risos), e isso é um cenário daqueles “vá que não vá”… Agora, o que não é mesmo solução para nada nesta vida, são os concertos em live nas redes sociais, chegas ao final das músicas e fica um vazio… fiz dois e nunca mais quero fazer, é um vazio gigantes­co, ao menos as pessoas sentadas estão ali e o distanciamento é lateral, não é para cima, as pessoas podem levantar-se”.

Concordando com o artista gaiense, Pedro Pestana completa afirmando que “isso é algo muito específico, quando as coisas começam a abrir um pouco o streaming deixa de fazer sentido, em março e abril acabou por ser uma necessidade. Naquele contexto era mesmo necessário fazer alguma coisa, eu também fiz e também não gostei, até certo ponto estás demasiado confortável”.

“Eu vi dos dois e nota-se que havia muita gente a interagir mas aquela coisa de pôr co­rações e likes, e a pedir “toca aquela”… É giro mas para ti que és artista não faz grande sen­tido”, comenta Afonso Lima.

“Surgiu de uma necessidade que era o não poder sair de casa e a única forma de fazer algo para fora era essa”, sublinha Pedro Pes­tana, interrompido por David Bruno que re­mata o diálogo “ou na varanda como o José Malhoa… (risos)”.

Antes do gravador se desligar houve ainda tempo para questionar tanto artistas como promotor da importância da realização de um evento desta dimensão numa cidade do interior, algo que para David Bruno “é mais especial do que tocar no Porto ou em Lis­boa”.

Pedro Pestana, que já colaborou com Afonso Lima em outros projetos no interior consi­dera “fundamental que o país seja tratado como um todo. “Já trabalhei com o Afonso num outro projeto, o “Um ao molhe” a ideia já era descentralizar este tipo de eventos do eixo Lisboa – Porto, corremos todos os dis­tritos”.

Para Afonso Lima, organizador do festival, este tipo de eventos tem um papel essencial até porque permitem a quem está no interior ter contacto com outras realidades, sublinhando ainda o papel das autarquias no apoio a pro­jetos como o Zigurfest.

“Faz muito sentido que isto exista. Começa a deixar de haver tanta necessidade porque já começam a aparecer outros projetos. O Zigurfest começa em 2011, em pleno tempo da Troika, quando nós começamos deu muito jeito e para nós foi a oportunidade ideal para trazer para o interior coisas que nós, quando éramos mais novos, nem sequer sabíamos que existiam. Eu enquanto jovem que cresceu em Lamego estava alienado de muita cultura, por isso para nós era fundamental trazer estas coisas que são mais diferentes, aquilo que ha­bitualmente não passa nestes locais.

Há um papel importante das autarquias no sentido de procurarem e apoiarem estas co­munidades que querem fazer algo de diferen­te, nós tivemos a sorte que alguém nos ouviu e confiou no nosso trabalho”.

Os bilhetes para os concertos de David Bru­no e 10000 Russos já estão disponíveis para reserva até ao dia 18 de setembro através do email bilheteira.trc@cm-lamego.pt ou dos te­lefones 254 600 070 ou 962 116 119.

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